Desafio do Pentecostalismo
D.Odilo Pedro Scherer
Bispo Auxiliar de S.Paulo
Secretário-Geral da CNBB
(www.zenit.org)
O Seminário sobre o Pentecostalismo
realizado
Mas quando se trata da relação
com as comunidades pentecostais e neopentecostais, o
caminho ainda nem foi iniciado, ou apenas timidamente. Na verdade, devemos
reconhecer que, até recentemente, esse fenômeno religioso nem era levado muito
a sério, seja porque não era expressivo numericamente, seja porque suas
manifestações eram consideradas um tanto exóticas e sem chance de terem grande
incidência no quadro religioso do Brasil. Geralmente esses grupos eram chamados
de "seitas", um conceito que denota uma avaliação insuficiente e mesmo preconceituosa do
fenômeno.
Atualmente o Pentecostalismo
está em franca expansão numérica e se propõe, sem timidez, como uma alternativa
às expressões religiosas tradicionais, quer católicas,
quer protestantes. Recentes estudos feitos pelo CERIS e apresentados na 43a
Assembléia Geral da CNBB demonstram que são justamente os grupos pentecostais
que atraem a maior parte dos fiéis que se desligam da Igreja católica. Podemos
dizer que se trata de uma nova fronteira do ecumenismo, que não pode ser
desconhecida nem menosprezada.
O crescimento dos grupos e
movimentos pentecostais, além disso, levanta questionamentos sobre os motivos
pelos quais as pessoas deixam a comunidade cristã
tradicional e aderem a esses grupos. As
causas são complexas e podem ser de fundo cultural e religioso; podem ser
causas inerentes
à própria ação desses grupos; mas também podem depender da comunidade católica,
que deixam, e da nossa postura e
metodologia pastoral. .
O crescente pluralismo religioso
é um fenômeno de fragmentação do cristianismo tradicional, dando origem a novos grupos e
movimentos religiosos, sobretudo de tipo pentecostal. Os questionamentos que
esse fenômeno levanta são
muitos: por que os católicos deixam a Igreja? A mudança de filiação religiosa é
fruto de missão ou de proselitismo? O que pode ser feito? Quais são as nossas
responsabilidades? Como superar a tentação da agressividade e da competição?
Como podemos instaurar contatos para o diálogo ecumênico?
O crescimento do pentecostalismo no Brasil deve levar-nos a um exame crítico
de nossa atuação pastoral. A atitude condenatória de nada adiantaria e poderia
surtir o efeito contrário Devemos perguntar-nos seriamente por que existem
católicos que deixam nossa Igreja e se sentem atraídos por esses grupos, ou os
escolhem como alternativa à Igreja católica? O que as pessoas procuram e crêem
encontrar nos grupos pentecostais, e não encontram nas nossas comunidades,
paróquias e estruturas pastorais? Em que falhamos e onde estão as nossas
carências? Qual é a metodologia pastoral mais eficaz e o que podemos aprender
de outros grupos religiosos? O que devemos evitar no trato pastoral com as
pessoas?
É preciso compreender bem e levar a sério as
buscas religiosas das pessoas, que nunca, ou apenas raramente, aparecem de
maneira pura e bem definida. Elas aparecem misturadas com problemas familiares,
profissionais, ou de relacionamento; as pessoas recorrem à Igreja por questões
saúde ou por dramas da vida. Geralmente existe uma abertura à fé e à ação de
Deus pois, recorrendo à religião, ou à Igreja, a
pessoa está declarando implicitamente o reconhecimento de sua contingência e a
necessidade de se colocar sob a proteção de Deus. E, neste caso, é preciso ter
sensibilidade humana e senso pastoral. A acolhida é a primeira e indispensável
atitude pastoral. E nisso falhamos com freqüência.
A difusão do pentecostalismo
questiona nossa catequese, muitas vezes insuficiente e inadequada; mas também deixa
clara nossa ausência na vida do povo; estamos distantes nas situações de
doença, de luto e de dor, quando as pessoas estão especialmente necessitadas de
apoio, do consolo da fé e dos gestos de solidariedade cristã. Nestes casos,
porém, alguém estará ocupando o nosso lugar.
Nossas paróquias nas imensas periferias
urbanas são, com freqüência, muito grandes e têm apenas um centro de
referência, que é a igreja matriz; no mesmo espaço, porém, há dezenas de outras
igrejas de diversas denominações cristas. Como será possível atender
adequadamente tantas pessoas numa única igreja e num único expediente paroquial?
Quando as ovelhas não sentem a proximidade do pastor, elas se dispersam e
começam a ouvir a voz de outros pastores... Seria preciso aumentar os centros
de referência e organizar em cada paróquia uma rede de comunidades menores,
onde os católicos pudessem cultivar a vida eclesial, receber o atendimento
religioso ao qual têm direito e onde o relacionamento humano direto se torna
possível. Tais comunidades próximas têm a função simbólica importante de manter identificação com a
Igreja católica e de adesão à sua missão.
O crescimento do pentecostalismo põe à aprova nossas metodologias e estruturas de atendimento pastoral e requer de nós respostas adequadas. Não ignoramos que muitas pessoas deixam a Igreja católica, sem nunca terem se aproximado dela, de fato. No entanto, resta verdadeiro que aqueles, que nós batizamos, também têm o direito de serem por nós evangelizados e ajudados a se reconhecerem na nossa comunhão eclesial. Com toda certeza, muitas pessoas nunca deixariam nossa Igreja se fossem ajudadas a encontrar nela aquilo que encontram ou pensam encontrar nos grupos pentecostais