Desafio do Pentecostalismo

D.Odilo Pedro Scherer

Bispo Auxiliar de S.Paulo

Secretário-Geral da CNBB

(www.zenit.org)

 

 O Seminário sobre o Pentecostalismo realizado em São Paulo, de 20 a 22 de setembro de 2005, foi motivado pelo desafio de encarar seriamente as novas fronteiras do ecumenismo. De fato, o caminho ecumênico parece estar bem traçado quando se trata das relações com as Igrejas Orientais, a Igreja Ortodoxa, a Igreja Anglicana e as Igrejas e Comunidades eclesiais históricas provenientes da Reforma. Aqui se trata de perseverar e de aprofundar a boa obra, à espera paciente de colher os frutos.

 

Mas quando se trata da relação com as comunidades pentecostais e neopentecostais, o caminho ainda nem foi iniciado, ou apenas timidamente. Na verdade, devemos reconhecer que, até recentemente, esse fenômeno religioso nem era levado muito a sério, seja porque não era expressivo numericamente, seja porque suas manifestações eram consideradas um tanto exóticas e sem chance de terem grande incidência no quadro religioso do Brasil. Geralmente esses grupos eram chamados de "seitas", um conceito que denota uma avaliação  insuficiente e mesmo preconceituosa do fenômeno.

 

 Atualmente o Pentecostalismo está em franca expansão numérica e se propõe, sem timidez, como uma alternativa às expressões religiosas tradicionais, quer católicas, quer protestantes. Recentes estudos feitos pelo CERIS e apresentados na 43a Assembléia Geral da CNBB demonstram que são justamente os grupos pentecostais que atraem a maior parte dos fiéis que se desligam da Igreja católica. Podemos dizer que se trata de uma nova fronteira do ecumenismo, que não pode ser desconhecida nem menosprezada.

 

O crescimento dos grupos e movimentos pentecostais, além disso, levanta questionamentos sobre os motivos pelos quais as pessoas deixam a comunidade cristã tradicional e  aderem a esses grupos. As causas são complexas e podem ser de fundo cultural e religioso; podem ser causas  inerentes à própria ação desses grupos; mas também podem depender da comunidade católica, que deixam, e da nossa postura  e metodologia pastoral. .

 

O crescente pluralismo religioso é um fenômeno de fragmentação do cristianismo tradicional,  dando origem a novos grupos e movimentos religiosos, sobretudo de tipo pentecostal. Os questionamentos que esse fenômeno levanta  são muitos: por que os católicos deixam a Igreja? A mudança de filiação religiosa é fruto de missão ou de proselitismo? O que pode ser feito? Quais são as nossas responsabilidades? Como superar a tentação da agressividade e da competição? Como podemos instaurar contatos para o diálogo ecumênico?

 

O crescimento do pentecostalismo no Brasil deve levar-nos a um exame crítico de nossa atuação pastoral. A atitude condenatória de nada adiantaria e poderia surtir o efeito contrário Devemos perguntar-nos seriamente por que existem católicos que deixam nossa Igreja e se sentem atraídos por esses grupos, ou os escolhem como alternativa à Igreja católica? O que as pessoas procuram e crêem encontrar nos grupos pentecostais, e não encontram nas nossas comunidades, paróquias e estruturas pastorais? Em que falhamos e onde estão as nossas carências? Qual é a metodologia pastoral mais eficaz e o que podemos aprender de outros grupos religiosos? O que devemos evitar no trato pastoral com as pessoas?

 

 É preciso compreender bem e levar a sério as buscas religiosas das pessoas, que nunca, ou apenas raramente, aparecem de maneira pura e bem definida. Elas aparecem misturadas com problemas familiares, profissionais, ou de relacionamento; as pessoas recorrem à Igreja por questões saúde ou por dramas da vida. Geralmente existe uma abertura à fé e à ação de Deus pois, recorrendo à religião, ou à Igreja, a pessoa está declarando implicitamente o reconhecimento de sua contingência e a necessidade de se colocar sob a proteção de Deus. E, neste caso, é preciso ter sensibilidade humana e senso pastoral. A acolhida é a primeira e indispensável atitude pastoral. E nisso falhamos com freqüência.

 

A difusão do pentecostalismo questiona nossa catequese, muitas vezes insuficiente e inadequada;  mas também deixa clara nossa ausência na vida do povo; estamos distantes nas situações de doença, de luto e de dor, quando as pessoas estão especialmente necessitadas de apoio, do consolo da fé e dos gestos de solidariedade cristã. Nestes casos, porém, alguém estará ocupando o nosso lugar.

 

 Nossas paróquias nas imensas periferias urbanas são, com freqüência, muito grandes e têm apenas um centro de referência, que é a igreja matriz; no mesmo espaço, porém, há dezenas de outras igrejas de diversas denominações cristas. Como será possível atender adequadamente tantas pessoas numa única igreja e num único expediente paroquial? Quando as ovelhas não sentem a proximidade do pastor, elas se dispersam e começam a ouvir a voz de outros pastores... Seria preciso aumentar os centros de referência e organizar em cada paróquia uma rede de comunidades menores, onde os católicos pudessem cultivar a vida eclesial, receber o atendimento religioso ao qual têm direito e onde o relacionamento humano direto se torna possível. Tais comunidades próximas têm a função simbólica importante de manter  identificação com a Igreja católica e de adesão à sua missão.

 

O crescimento do pentecostalismo põe à aprova nossas metodologias e estruturas de atendimento pastoral e requer de nós respostas adequadas. Não ignoramos que muitas pessoas deixam a Igreja católica, sem nunca terem se aproximado dela, de fato. No entanto, resta verdadeiro que aqueles, que nós batizamos, também têm o direito de serem por nós evangelizados e ajudados a se reconhecerem na nossa comunhão eclesial. Com toda certeza, muitas pessoas nunca deixariam nossa Igreja se fossem ajudadas a encontrar nela aquilo que encontram ou pensam encontrar nos grupos pentecostais