AS PRINCIPAIS LINHAS DOUTRINÁRIAS
DO PROTESTANTISMO
(Revista Pergunte e Responderemos, 397 1995)
Em síntese: O protestantismo se apresenta
hoje em dia sob centenas de modalidades, muitas vezes divergentes entre si.
Todavia repousa sobre linhas básicas, devidas aos respectivos fundadores
no século XVI: Lutero, Calvino, Melanchton, Knox... Essas linhas
são: 1) a justificação pela fé sem as obras; 2) a
Bíblia como única fonte de fé, sujeita ao ‘livre
exame’; 3) a negação de intermediários entre
Deus e o crente. Estes princípios serão, a seguir, expostos e
avaliados.
***
O protestantismo representa uma realidade assaz
complexa, ou seja, o bloco de aproximadamente 400.000.000 de cristãos
que não pertencem nem à Igreja Católica, cujo Pastor
visível reside em Roma como sucessor do Apóstolo Pedro, nem
às comunidades cristãs orientais (ortodoxa, nestoriana e
monofisita), comunidades que se separaram do tronco primordial em etapas
sucessivas desde o século V até o século XI.
O iniciador do movimento protestante é Martinho
Lutero, que, a partir de 1517, quis reformar o Credo e as
instituições cristãs, e por isto se afastou da Igreja
dando início ao Luteranismo. Ao lado deste, enumeram-se:
o Calvinismo (que absorveu o Zwinglianismo ou a
reforma de Ulrich Zwingli em Zürich, Suíça), movimento
afim ao de Lutero, empreendido por Calvino em Genebra, Suíça;
o Anglicanismo, reforma semelhante oriunda na
Inglaterra. Distinguem-se 1) a High Church, Alta Igreja, que conserva
muitos elementos do Catolicismo e pretende ser a ponte entre Catolicismo e
Protestantismo propriamente dito, e 2) a Low Church, Baixa Igreja, fortemente
impregnada de princípios doutrinários do Protestantismo. Os
anglicanos mais radicais emigraram para os Estados Unidos, onde têm dado
origem a novas e novas divisões.
Estas três denominações
(Luteranismo, Calvinismo e Anglicanismo) representam o que se pode chamar
"Igrejas protestantes tradicionais", todas iniciadas no
séc. XVI (os Anglicanos nem sempre aceitam a designação de
"protestantes", embora, por seus princípios
doutrinários, se filiem ao Protestantismo).
Destes três grandes troncos do Protestantismo
derivaram-se centenas de sociedades menores, que por vezes já não
recebem o nome de Igrejas, mas o de seitas, visto serem movidas por
espírito diverso do das Igrejas; são reformas da reforma,
dissidências da dissidência: metodistas, batistas,
congregacionais, quakers, Ciência Cristã, Mormons,
Adventistas, Testemunhas de Jeová...
Esses múltiplos grupos protestantes
autônomos professam credos diferentes, chegando alguns a negar a
própria Divindade de Cristo; o liberalismo doutrinário predomina
entre eles. Contudo podem-se enunciar três grandes teses como
características dos diversos tipos de Protestantismo: 1) a
justificação pela fé sem as obras; 2) a Bíblia
como única fonte de fé, interpretada segundo o "livre
exame"; 3) a negação de intermediários entre Deus e o
crente.
1. TRÊS PONTOS CAPITAIS
a) A justificação pela fé sem as
obras
Lutero considerava esta tese como central dentro da
sua Teologia: "artigo do qual nada se poderá subtrair, ainda que o
céu e a terra venham a desmoronar" (Artigos de Schmakalde,
1537).
Qual o significado de tal proposição e
donde lhe vem a sua importância no Protestantismo?
A resposta não é difícil;
deriva-se da situação psicológica em que o reformador
se achou em certa fase de sua vida. Lutero fez-se frade agostiniano, mais
movido pelo medo (tendo escapado à fulminação por um raio,
prometeu entrar no convento) do que por autêntica vocação.
No claustro, experimentou a concupiscência, à qual opôs
penitência e ascese. Sentindo, porém, continuamente as
más tendências em sua natureza, entrou em angustiosa crise: queria
libertar-se da concupiscência, mas não o conseguia... Um belo dia
julgou ter encontrado a solução: apelando para São Paulo
(principalmente para a epístola aos Romanos), começou a
ensinar que a concupiscência é realmente invencível;
por conseguinte é inútil procurar dominá-la mediante
penitência e boas obras. Nem Deus requer isto do homem; basta aceitar
Cristo como Salvador, isto é, crer com confiança que Deus Pai, em
vista dos méritos de Jesus, não leva em conta os pecados do
indivíduo; a fé confiante ("fiducial"),
independentemente de boas obras, faz que Deus nos recubra com o manto dos
méritos de Cristo, declarando-nos justos. Tal declaração
é meramente jurídica ou extrínseca, não afeta
o interior da natureza humana; esta, mesmo depois de
"justificada", nada pode fazer para obter a
salvação eterna, pois se acha como que aniquilada pelo pecado,
reduzida à categoria de instrumento inerte nas mãos de Deus ou de
serra nas mãos do carpinteiro (assim se formula a famosa tese do
"servo arbítrio" de Lutero).
Neste quadro de idéias, vê-se que
não se pode falar de cooperação do homem com a graça
de Deus, nem de méritos. Lutero e Calvino reconheciam que a caridade
nasce da fé, como a maçã provém da macieira, mas
(acrescentavam) não são a caridade e suas obras que importam
(ou ao menos... que importam em primeiro lugar); o crente pode estar certo da
salvação eterna em qualquer fase da sua vida, desde que mantenha
a sua fé confiante. Donde o famoso adágio de Lutero: "Pecco
fortiter, sed fortius credo. - Peco intensamente, mas ainda mais
intensamente creio" (carta a Melanchton, 1° de agosto de 1521); com
estas palavras, o reformador não recomendava o pecado, mas queria dizer
que a simples confiança no Salvador ainda tem mais peso no processo
de salvação do que a culpa do homem. Calvino, do qual muito se
inspiraram os presbiterianos e batistas, acentuou ao extremo estas
idéias, afirmando que Deus predestina infalivelmente para a
salvação eterna, de sorte que, se o homem não perde a sua
fé, pode ter certeza de que chegará à bem-aventurança
celeste (donde se deriva para o crente um grande reconforto).
b) A Bíblia, única fonte de fé,
sujeita ao "livre exame"
A inovadora tese da justificação pela
fé fiducial encontrou fundamento numa revisão nas fontes da
Revelação cristã. Estas são a Palavra de Deus, que
nos vem por dois canais: a Escritura Sagrada e a Tradição oral
apregoada pelo magistério da Igreja. Resolveram, pois, rejeitar a
Tradição ou o magistério, para só dar
crédito à Palavra escrita ou à Bíblia. Esta, para o
protestante, tudo contém; é, por si mesma, clara em tudo que
concerne a salvação eterna.
Calvino se exprime a respeito em termos muito fortes:
"Quanto à objeção que os
católicos nos fazem, perguntando-nos de quem, donde e como temos a
convicção de que a Escritura provém de Deus, é
semelhante à questão de quern quisesse saber como aprendemos
a distinguir a luz das trevas, o branco do negro, o doce do amargo. A
Escritura, com efeito, tem seu modo de se manifestar, modo tão
notório e seguro que se compara à maneira como as coisas
brancas e negras manifestam sua cor e as coisas doces e amargas manifestam o
seu sabor" (Institution Chrétienne 17§ 3).
Para ajudar a pessoa a ler e entender a Bíblia,
o Espírito Santo dá seu testemunho interior, iluminando a mente e
dirigindo o coração. Em conseqüência, cada crente
tem o direito de "deduzir" da Bíblia as verdades que ele, em
seu bom senso, julgue haverem sido a ele ensinadas pelo Espírito Santo.
Assim o Protestantismo atribui ao indivíduo uma
prerrogativa que ele nega à Igreja visível e hierárquica:
esta pode errar no seu ensinamento, corrompendo o depósito da
fé (apesar das promessas de Cristo, seu Fundador); toca, por
conseguinte, a cada cristão, guiado pelo Espírito Santo,
encontrar de novo a Palavra de Deus perdida pela Igreja...
A reação do crente protestante contra o
magistério eclesiástico é, aliás, típica
expressão da mentalidade da Renascença: no séc. XVI o
homem criou, sim, uma consciência nova dentro de si, tendente a pôr
em xeque qualquer tipo de autoridade, para mais exaltar o indivíduo.
" O que rejeito absolutamente, é a autoridade", escrevia
Alexandre Vinet (1797-1847), chefe do movimento dito "da Igreja
Livre" na Suíça ocidental calvinista. O Evangelho, para
Lutero, devia ser não somente uma escola de obrigações,
mas também uma via de
libertações (entre as quais, a
libertação frente à autoridade religiosa visível).
c) A negação de intermediários
entre Deus e o crente
0 Protestantismo dá valor decisivo à
atitude do indivíduo diante de Deus; segundo a teologia reformada,
é a fé subjetiva nos méritos de Cristo que garante a
salvação. Em conseqüência, pouca margem aí
resta para se conceberem dons de Deus que permaneçam extrínsecos
ao indivíduo e a este comuniquem os méritos do Salvador. Em
outros termos: não têm cabimento canais transmissores da
graça, como sejam ritos e práticas a serem administrados por uma
sociedade visível (a Igreja) e por uma hierarquia de ministros
oficialmente instituída. Para o protestante, entre o homem
justificado pela fé e Deus, não há Sacerdote senão
o Senhor Jesus invisível, que está nos céus (a
prolongação da Encarnação através da Igreja
e dos sacramentos é depreciada); também não há
outro Mestre senão o Espírito Santo, que fala nas Escrituras e no
íntimo de cada crente, sem se servir de algum magistério
visível e objetivo.
Note-se, em particular, a repercussão destas
idéias nos conceitos de sacramento e Igreja.
O número dos sacramentos foi notavelmente
diminuído pelos doutores do Protestantismo. Dentre os sete tradicionais,
Calvino chegou a admitir dois apenas: o Batismo e a Ceia. Quanto à função
dos sacramentos, os reformadores nos diriam que estes não
são portadores da graça, mas apenas sinais que, lembrando as
promessas da benevolência divina, excitam a fé (ou
confiança) nessas promessas; estimulada por tais sinais, é a
fé que produz a santificação do crente. Os sacramentos
portanto não exercem, como se diz em linguagem teológica,
causalidade nem física nem moral no processo de
santificação; a sua influência fica limitada ao setor psicológico
(recordam a palavra de Deus...).
No Calvinismo, torna-se mesmo impossível que a
graça esteja associada a algum sinal objetivo, pois ela só
é dada aos predestinados; a quem não pertença ao
número destes, não adianta recorrer a algum rito sensível.
Lutero, um pouco menos inovador neste ponto, afirmava que o Batismo confere a
santidade, mas só o faz mediante a fé: "Não o
sacramento, mas a fé no sacramento é que justifica. - Non
sacramentum, sed fides in sacramento iustificat", escrevia o reformador ao
Cardeal Caetano. 0 Zwinglianismo empalidecia ainda mais o papel dos
sacramentos, reduzindo-os a meros testemunhos da fé capazes de unir os
homens entre si: pelos sacramentos, ensinava Zwingli, o crente atesta e
comprova à Igreja a sua fé, sem que da Igreja receba sequer o
selo ou a comprovação da fé.
A prevalência do indivíduo sobre a
coletividade se exprime com não menor clareza no conceito
protestante de Igreja. Esta, conforme os reformadores, não é um
corpo visível, mas sociedade invisível; só uma coisa
impede que alguém a ela pertença: o pecado. Quem não se
deixa contaminar por este, torna-se membro da Igreja, independentemente dos
quadros externos nos quais os crentes professam a sua fé. Em geral,
dizem os protestantes que a Igreja visível se corrompeu e extinguiu no
séc. IV, sob o Imperador Constantino, dada a colaboração
do Estado e da Igreja, pois então se introduziram nos mais
íntimos redutos do Cristianismo doutrinas e costumes pagãos.
Subsiste, porém, a Igreja invisível, a qual continua a vida da
comunidade primitiva de Jerusalém. Ora seria essa Igreja
invisível que vai tomando corpo nas denominações
protestantes a partir do séc. XVI...
Se agora se pergunta como é governada a igreja
invisível, toca-se uma questão árdua para o
Protestantismo: este, de um lado, rejeita o Papado e, de outro lado, afirma que
todos os fiéis são sacerdotes. Em conseqüência,
não restam critérios muito seguros para se constituir o governo
da Igreja... Donde a multiplicidade de soluções: há
denominações protestantes dirigidas por seus "bispos"
(tais são o episcopalismo anglicano, o metodismo...), bispos,
porém, que são mais mentores dos crentes do que sacerdotes ou
ministros dos meios de santificação; há-as também
dirigidas por presbíteros (o presbiterianismo, por exemplo), e
há-as dirigidas por meros delegados da coletividade ou da
congregação (congregacionalísmo, que reproduz o sistema
democrático no setor religioso). Vários grupos protestantes
não concebem mesmo dificuldade em admitir a autoridade mais ou menos absoluta
dos governos civis, no que diz respeito à vida temporal da Igreja (o que
resulta em secularização da face visível do Cristianismo).
Expostas sumariamente as três
características da teologia protestante, incumbe-nos agora analisar o
seu significado.
2. UMA ESTIMAÇÃO DA DOUTRINA
a) A justificação pela fé sem as
obras
1. Não há dúvida, a Escritura
ensina que a remissão dos pecados é gratuitamente outorgada
aos homens pelos méritos de Jesus Cristo (cf. Rm 5,8s); o homem
não pode merecer o perdão, mas tem que o aceitar contritamente,
crendo no amor de Deus e entregando-se humilde a esse amor. Contudo a Escritura
ensina outrossim que o perdão concedido por Deus não é
mera fórmula jurídica em virtude da qual não nos
seria mais levado em conta o pecado, pecado que, apesar de tudo, ficaria inamovível
a contaminar a alma. Não;
justificação, segundo as
Escrituras, é regeneração (cf. Jo 3,3.5; Tt 3,5),
elevação à dignidade de filhos de Deus não nominais
apenas, mas reais (cf. 1 Jo 3,1), de modo a nos tornarmos consortes da natureza
divina (cf. 2Pd 1,4), capazes de produzir atos que imitem a santidade do Pai
Celeste (cf. Mt 5,48). Se, por conseguinte, Deus, ao nos perdoar as faltas, nos
concede uma nova natureza, está claro, conforme as Escrituras mesmas,
que as obras boas que estejam ao alcance desta nova natureza, devem pertencer
ao programa de santificação do cristão; elas se tornam
condição indispensável para que alguém consiga a
vida eterna. Deus não pode deixar de exigir tais obras depois de nos
haver concedido o princípio capaz de as produzir.
É óbvio que essas obras boas não
constituem o pagamento dado pelo homem em troca da graça de Deus, nem
são algo que a criatura efetue independentemente dos méritos
de Cristo Salvador, mas são os frutos necessários da
ação de Deus (ou da graça) no homem regenerado, são
concretizações dos méritos do Salvador; na verdade,
é Cristo quem vive no cristão e neste exerce seu influxo vital,
como a cabeça nos seus membros e como o tronco da videira nos seus ramos
(cf. GI 2,20; Jo 15,1s).
São Paulo, na epístola dos Romanos,
tanto inculca a justificação pela fé sem as obras, porque
tem em vista a primeira conversão ou a conversão do pecador a
Deus (claro está que esta não pode ser o resultado de obras
meritórias prévias). São Tiago, porém, que
visa propriamente ao desabrochar da vida cristã após a
conversão, inculca fortemente a necessidade das boas obras (por isto a
epístola de Tiago muito desagradava a Lutero, que quis negar a sua
canonicidade).
Quanto à concupiscência que permanece no
cristão por toda a vida, ela não constitui pecado enquanto o
indivíduo não lhe dá consentimento; por muito intensa que
seja, a graça do Redentor é certamente capaz de triunfar sobre
ela. O fato de que a Escritura a chama "pecado" (cf. Rm 7,20),
explica-se por estar a concupiscência intimamente ligada ao pecado como
conseqüência deste.
De resto, na vida cotidiana os protestantes valorizam
altamente as boas obras; falam então linguagem muito semelhante à
dos católicos.
b) A Bíblia e o livre exame
Visto que a S. Escritura teve origem após a
pregação oral e como eco da pregação oral dos
Profetas e dos Apóstolos, entende-se que a Tradição
(transmissão) oral seja necessário critério de
interpretação da Bíblia Sagrada. O valor da
Tradição se explica pelo fato de que a Revelação
oral antecedeu a redação das Escrituras nem foi, por
inteiro, consignada nos livros sagrados (os autores sagrados nunca tiveram a
intenção de confeccionar um manual completo dos ensinamentos
revelados; ver Jo 20,30s; 21,24s); donde se vê quão
alheio é ao espírito mesmo da
Bíblia interpretá-la independentemente da corrente de
doutrinas dentro da qual a Escritura se originou, se conservou e sempre se
transmitiu.
Ao que foi dito ainda se pode acrescentar a
menção de algumas conseqüências do
princípio do livre exame (é pelos frutos que se conhece a
árvore!).
Os próprios reformadores e seus
discípulos, desejando exaltar a autoridade das Escrituras,
tornaram-se deturpadores da Palavra de Deus. Foi, sim, em nome do Antigo
Testamento que Lutero permitiu a bigamia a Filipe de Hessen. É em nome
das Escrituras que os fundadores de seitas vão ensinando teses
fantasistas e contraditórias sobre a data do fim do mundo (tenham-se em
vista os Adventistas, as Testemunhas de Jeová, alguns grupos
pentecostais). Em nome do livre exame da Bíblia os críticos
protestantes têm rejeitado inteiras seções ou até
livros escriturísticos; chegam a negar a Divindade de Cristo (o primeiro
autor que negou a plena veracidade dos Evangelhos, foi o protestante H. S.
Reimarus + 1768).
De resto, verifica-se que as comunidades de crentes,
tendo abandonado a venerável Tradição transmitida desde os
inícios do Cristianismo, ainda, e apesar de tudo, seguem uma
tradição,... tradição evidentemente humana, a que
deu início tal ou tal fundador de seita. Criou-se em cada
denominação de "reformados" uma tradição
particular ou uma via própria de interpretação da
Bíblia.
É a rejeição de todo
magistério munido da autoridade do próprio Deus que gera
instabilidade nas comunidades protestantes, ocasionando a criação
de novas e novas denominações. A razão destas
múltipas reformas não será o fato de que nenhuma delas
é realmente guiada pelo Espírito Santo, mas todas são obra
meramente humana? Aliás o próprio Lutero já verificava em seus
tempos: "Há tantos credos quantas cabeças há".
Alexandre Vinet, já citado, afirmava, por sua
vez, no século passado:
`Para mim, o Protestantismo é apenas um ponto
de partida; a religião fica muito além dele... A reforma
será uma exigência permanente dentro da Igreja; ainda hoje a
reforma está por se fazer':
A experiência de 400 anos mostrou que se volta
contra os próprios irmãos separados o princípio com que
estes quiseram outrora impugnar os católicos: "Mais vale obedecer a
Deus do que aos homens" (At 5,29).
c) A negação de intermediários
entre Deus e o crente
Esta posição acarreta, como
dizíamos, a negação de várias
instituições que se tornaram clássicas no Cristianismo: os
sacramentos concebidos como canais da graça, a intercessão dos
Santos, o sacerdócio oficial e hierárquico, a visibilidade da
Igreja, etc.
Seguem-se três observações aptas a
mais evidenciar o erro radical contido no princípio protestante:
a) a rejeição dos sacramentos e do
sacerdócio hierárquico contradiz à lei geral que Deus
sempre quis observar nas suas relações com o homem: assim como na
plenitude dos tempos o Senhor atingiu a criatura mediante o mistério da
Encarnação, assim antes e depois desta Ele veio e vem sob sinais
sensíveis; principalmente no Novo Testamento a dispensação
das graças conserva a estrutura da Encarnação: os
sacramentos e sacramentais são matéria
consagrada que prolonga e desdobra a estrutura do
Verbo Encarnado. Como o corpo de Jesus recebeu outrora a vida divina e a
comunicou aos homens seus contemporâneos, assim os elementos
corpóreos (água, pão, vinho, óleo, palavras e
gestos do homem...) vêm a ser, nos sacramentos, os canais que
contêm e transmitem a graça de Deus; não os poderíamos
reduzir à categoria de meros estimulantes da memória, vazios
de conteúdo sobrenatural, sem quebrar a harmonia do plano da
salvação.
b) Nos desígnios de Deus, a
santificação do homem sempre foi concebida comunitariamente,
em oposição a qualquer individualismo. O Criador houve por bem,
no início da história, incluir todos os homens no primeiro
Adão; quis outrossim restaurar todos conjuntamente em Cristo;
conseqüentemente santifica-nos hoje por meio de uma comunidade, que
é a Igreja, caracterizada por sinais objetivos e por um
ministério visível, fora do qual ninguém pode
pretender encontrar o Cristo. - Exaltando o indivíduo a ponto de
relegar para plano secundário a comunidade, o Protestantismo vem a ser
autêntico produto da mentalidade subjetivista e antropocêntrica do
Renascimento.
c) A Reforma pretende corresponder à Igreja
primitiva, anterior à corrupção que
"paganizou" o Evangelho... Esta pretensão é tão
vã que os mestres protestantes se têm visto obrigados a fazer
recuar constantemente o período da "grande
corrupção": ao passo que os primeiros reformadores a
colocavam no séc. IV, outros foram retrocedendo até os tempos de
S. Cipriano (+ 258), S. Ireneu (+ cerca de 202), Clemente Romano (+ 102?) ou
até a geração
apostólica. O famoso crítico
Harnack (+ 1930) chegava a dizer que já os Apóstolos perverteram
o Evangelho de Cristo - o que é evidentemente absurdo, pois não
conhecemos o Evangelho de Cristo senão através da
pregação e dos escritos dos Apóstolos; Harnack, porém,
era obrigado a proferir tal contra-senso, porque reconhecia claramente que
a Igreja Católica atual corresponde fielmente à Igreja primitiva
ou, como dizia ele, que "Cristianismo, Catolicismo e Romanismo
constituem uma identidade histórica perfeita" (Theologische
Literaturzeitung, 16 jan. 1909).