HOROSCOPO COMPROVADAMENTE FALSO
REVISTA PERGUNTE E RESPONDEDEREMOS
DEZEMBRO 2003 Nº 498.
Em síntese: O jornal O GLOBO, de 19/08/03, publicou a notícia de que
cientistas de língua inglesa acompanharam duas mil pessoas que nasceram no
mesmo dia e na mesma hora, e verificaram que muito diferiam entre si no tocante
à personalidade e ao currículo de vida - o que contradiz frontalmente aos
ensinamentos da astrologia.
* * *
Em sua edição de 19/08/03 o jornal O GLOBO informa ter sido
cientificamente comprovada a falsidade do horóscopo ou da astrologia. Eis o
teor da notícia:
CIÊNCIA MOSTRA QUE
PREVISÃO ASTROLÓGICA NÃO FUNCIONA
Pesquisa acompanhou duas mil pessoas nascidas em
mesmo dia e hora e revelou que são muito diferentes.
LONDRES. Boas notícias para os racionais e equilibrados
virginianos: cientistas acabam de comprovar que a astrologia não tem
fundamento. Sua principal alegação - de que as características humanas são
moldadas pela influência dos astros no momento do nascimento - acaba de ser
desmentida, de uma vez por todas e além de qualquer dúvida, pelo maior estudo
científico já realizado sobre o tema.
Por quatro décadas, cientistas acompanharam mais de duas mil pessoas -
nascidas no mesmo dia e na mesma hora, com apenas alguns minutos de diferença.
De acordo com a astrologia, essas pessoas deveriam ter características bastante
similares.
O estudo teve início em Londres, em 1958. As pessoas tiveram seu
desenvolvimento monitorado em intervalos regulares. Os cientistas avaliaram
mais de cem diferentes características, como profissão escolhida, níveis de
ansiedade, estado civil, agressividade, sociabilidade, QI, além de habilidades
em artes, esportes e matemática - todas que, segundo astrólogos, poderiam ser
estimadas pela conformação dos astros no momento do nascimento.
Os cientistas, entretanto, não conseguiram encontrar nenhuma prova de
similaridade entre as pessoas que nasceram no mesmo horário. De acordo com
artigo publicado na "Journal of Consciousness Studies":
"As condições do teste não poderiam ser melhores (...) e os
resultados foram uniformemente negativos".
A análise dos dados foi feita pelo cientista Geoffrey Dean, um
ex-astrólogo baseado na Austrália, e pelo psicólogo Ivan Kelly, da Universidade
de Saskatchewan, no Canadá.
O resultado do estudo caiu como uma bomba entre os astrólogos que, há
séculos, asseguram ser capazes de revelar aspectos importantes da personalidade
e do destino das pessoas com base apenas nas informações referentes à hora e ao
local de nascimento.
Roy Gillett, presidente da Associação Astrológica da Grã-Bretanha,
afirmou que as conclusões deveriam ser tratadas "com extrema cautela"
e acusou Dean de tentar "desacreditar a astrologia".
- A astrologia não tem mecanismo aceitável e seus princípios são
inválidos - afirmou Dean, garantindo estar pronto para as críticas. – Sou
provavelmente a pessoa mais odiada na astrologia porque sou considerado um
vira-casaca.
COMENTANDO...
1. Em que consiste a astrologia
A astrologia e o horóscopo são cultivados desde remotas épocas antes de
Cristo, ou seja, desde a civilização dos caldeus da Mesopotâmia, por volta de
2500 a.C. Pode-se explicar o surto dessa "arte" se se leva em conta
que a vida humana é cheia de insegurança (nas épocas remotas ainda mais do que
em nossos tempos): um dia é feliz e próspero, outro é desgraçado ou sem êxito.
Ora essa versatilidade outrora era atribuída a forças superiores que
influenciariam a conduta do homem; tais forças eram os astros, que os homens
facilmente identificavam com divindades. Destas premissas originou-se o desejo
de conhecer de antemão as circunstâncias e ocasiões em que os astros seriam
favoráveis ou desfavoráveis ao homem. Conhecendo-as, o homem poderia superar a
sua insegurança ou o seu medo, pois se acautelaria contra as más influências
dos seres superiores.
Na época em que a astrologia começou a ser cultivada; os estudiosos
pouco sabiam a respeito do sistema solar e dos astros em geral; ignoravam as
distâncias dos planetas ao Sol ou à Terra; mal conheciam a natureza do Sol, da
Lua e dos outros astros. Imaginavam a existência do zodíaco, isto é, de uma
faixa ou de um anel que cercaria a Terra; nessa faixa mover-se-iam o Sol, a
Lua, os planetas maiores e grande parte dos menores; a circunferência desse anel
imaginário (360º) estaria dividida em doze segmentos (cada qual de 30°); em
cada um desses segmentos existiria um compartimento chamado “casa do
horóscopo”; tais compartimentos teriam o símbolo ou sinal próprio; os doze
símbolos assim concebidos seriam os sinais do zodíaco (do grego zódion,
figura de animal ou de vivente), que assim eram (e são) denominados: Carneiro,
Touro, Gêmeos (irmãos), Câncer (caranguejo), Leão, Virgem, Balança, Escorpião,
Arqueiro (Sagitário), Capricórnio (cabra ou cauda de peixe), Aquário, Peixes. Os
sinais do zodíaco, reunidos em grupos de três, correspondem às estações do ano
de tal modo que a primavera abrange Carneiro, Touro e Gêmeos...
2. Porque anticientífica?
Três são os principais pontos que, no caso, ocorrem à reflexão do
estudioso:
1)A astrologia supõe uma mentalidade mitológica e uma realidade cósmica
já superada. A sua origem está na época em que os homens se julgavam totalmente
dependentes das forças da natureza; personificavam essas forças e as concebiam
como deuses e demônios; adoravam o Sol e a Lua. Os predicados legendários dos
deuses do Panteon grego, eles os transferiam aos planetas. O planeta mais belo
foi identificado como Vênus e considerado benfazejo. A cor de sangue de Marte
levou os astrólogos a qualificá-lo como deus da guerra, da peste e da morte. O
planeta majestoso que leva doze anos para percorrer a abóbada celeste, é
Júpiter. O último dos planetas conhecidos na antiguidade tem aspecto pálido e
sinistro; leva trinta anos para percorrer as constelações do zodíaco; por isto
foi chamado Saturno; identificaram-no também com Chronos, o deus que devora
seus filhos; por isto aquele bloco de rochas e de gases foi tido como maléfico.
Ora todos estes elementos derivados de religiosidade primitiva ainda estão na
base da astrologia moderna, que diz ser científica!
2)Na verdade, a astrologia é anticientífica. Com efeito:
- Os pressupostos da astrologia e do horóscopo estão todos
ultrapassados. Sim; a astrologia baseia-se na cosmologia geocêntrica de Ptolomeu:
conhece "sete planetas" apenas, entre os quais é enumerado o Sol!
Hoje conhecemos mais planetas e nossa visão do grande cosmo se alterou
profundamente, pois passamos do geocentrismo para o heliocentrismo.
- A existência das casas do horóscopo ou dos compartimentos do zodíaco é algo de totalmente arbitrário e irreal.
- Os sinais do zodíaco não são unidades cosmológicas, mas são estrelas
separadas por vastos mundos ou sistemas.
De modo geral, as figuras, os sinais, as casas, os ângulos com que lida
a astrologia, só existem como tais na imaginação do homem. O retângulo da
"Grande Urso" só existe na retina do homem e não na realidade do
espaço; as estrelas que popularmente parecem próximas e relacionadas entre si,
muitas vezes não estão no mesmo plano nem à mesma distância de nós.
- Mais ainda: há cerca de dois mil anos a passagem do Sol pelo ponto
vernal (início da primavera) coincidia com a entrada do Sol no compartimento
correspondente à constelação do Carneiro (Áries). Mas verifica-se que o ponto
vernal retrocede sobre a eclíptica[1] segundo o
ritmo de 50",26 por ano, ou seja, de 30º (um sinal do zodíaco) em 2.150
anos. Nos tempos atuais, quando se inicia a
primavera, o Sol já ultrapassou a metade da constelação dos Peixes, mas
continua-se a dizer que ele então entra na casa do Carneiro. Existe, pois, uma
defasagem entre os nomes das pretensas casas do zodíaco e os nomes das
constelações correspondentes. Serão necessários 25.790 anos para se
restabelecer a coincidência entre essas pretensas casas e as constelações de
que tiram o nome.
Com outras palavras: o sinal do Carneiro
corresponde hoje não à constelação do Carneiro, mas à constelação dos Peixes.
Por conseguinte, a pessoa a quem os astrólogos dizem: "Você nasceu sob o
signo do Carneiro!", na verdade foi, ao nascer, irradiada pela constelação
dos Peixes. Não obstante, dar-se-Ihe-á o horóscopo do Carneiro! Esta verificação
por si só evidencia quão pouco científica ou quão anticientífica vem a ser a
horoscopia.
- Hoje se sabe que os astros existentes no cosmo são quase inumeráveis:
conhecem-se interferências dos mesmos no espaço e nos planetas que outrora se
ignoravam. É notório também o fato de que os astros modificam incessantemente a
sua posição no espaço. Por que então a astrologia leva em conta a influência de
uma constelação apenas?
- Por último, merece atenção a desigualdade de sortes de crianças
nascidas no mesmo lugar e no mesmo instante, até mesmo dos gêmeos. Se os astros
regem a vida dos homens, como não a regem uniformemente no caso citado?
É por ser anticientífica (dada à fantasia exuberante e primitiva) que a
astrologia não encontra aceitação por parte dos astrônomos ou dos homens de
ciência. Estes, ao descobrirem mais e mais a existência, a distância, a
composição, as transformações e atividades dos planetas e das estrelas,
verificam que as afirmações dos astrólogos são arbitrárias ou mesmo falsas.
[1] Eclíptica em astronomia é o círculo da
esfera celeste que corta o Equador, formando com ele um ângulo de 23º28’, e que
corresponde à órbita aparente do Sol em volta da Terra.
José Roldão
[1] Eclíptica em astronomia é
o círculo da esfera celeste que corta o Equador, formando com ele um ângulo de
23º28’, e que corresponde à órbita aparente do Sol em volta da Terra.