IDOLATRIA
VIP
Pe.
Inácio José do Vale
Pároco
da Paróquia São Paulo Apóstolo
Professor
de História da Igreja
Faculdade
de Teologia de Volta Redonda
No livro do Êxodo capítulo
20, o Senhor Deus revelou para Moisés o Decálogo, ou seja, Os Dez Mandamentos.
O Decálogo é o coração da Lei
mosaica e mantém o seu valor na nova Lei, ou seja, na Era da Graça da Nova
Aliança com Jesus Cristo, (Mt 5,17; Mc 10,7-21).
Deus proibiu rigorosamente a
fabricação de ídolos pagãos. Esta proibição coloca a nação de Israel à parte de
todos os povos que os cercavam.
O Senhor Deus exige de Israel um
culto exclusivo, é a condição da santa Aliança. Iahweh é o único Deus. Além
dele não existe outro (Dt 4,35). “São estes os mandamentos, os estatutos e as
normas que Iahweh vosso Deus ordenou ensinar-vos, para que os coloqueis em
prática na terra para a qual passais, a fim de tomardes posse dela” (Dt 6,1).
Israel estava cercado de povos
idólatras (Dt 7,1-6), e foi liberto do Egito idólatra (Dt 32,1-5;7.8).
A idolatria é condenada porque é uma ofensa
terrível contra Deus. Por detrás da adoração, existe o comércio dos ídolos, o
pecado de prostituição e crimes (Ex 32,21-28; Os 4,10-14; I Rs 15,11-13; II Rs
16,1-4; Jr 7,31).
Moloque, Astorete, Baal, Asera,
Dagom, Merodoque, Júpiter, Mercúrio e Artemis são alguns dos deuses e deusas
mencionados por nome nas Sagradas Escrituras. (Lv 18,21; Jz 2,13; I Rs 18,19;
Jr 50,2; Atos 14,12;19,24). Todavia, somente Iahweh é identificado nas
Escrituras como o verdadeiro e único Deus Todo Poderoso. Num cântico de
vitória, Moisés liderou o povo em cantar: “Quem entre os deuses é semelhante a
ti, ó Iahweh?” (Ex 15,11).
Deus não divide a sua glória com
ninguém (Is 42,8; 48,11). A proibição foi radical contra a fabricação de
imagens de deuses e deusas, devido à falsa adoração a esses ídolos pagãos.
FUGI DA IDOLATRIA
A evolução tecnológica e o progresso científico, têm trazido inumeráveis
benefícios para a humanidade. Todavia, a nossa sociedade, capitalista,
hedonista, narcisista e relativista, tem usado boa parte desses benefícios para
culto de si mesmo.
É incrível a escravidão, o louvor,
o fanatismo e adoração pelas novas máquinas.
As novas modalidades da tecnologia
de ponta têm exigido demais de seus fiéis: tempo para suas celebrações e
sacrifícios.
Esses discípulos renunciam a tudo
pelas imagens, som e voz de suas máquinas.
Esses novos objetos eletrônicos são
os ídolos da pós-modernidade. Muitos são guiados por eles. Também devemos fugir
dessa nova forma de idolatria (1 Cor 10,14).
Ninguém pode servir a Deus e a
Mamom, ou seja, ao dinheiro, as riquezas e a opulência (Mt 6,24).
Ninguém pode beber do cálice do
Senhor e do cálice dos demônios, ou seja, beber das ideologias dos novos
ídolos, que sejam máquinas ou pessoas (1 Cor 10,19.20), como cantores, cantoras,
atores, atrizes, atletas, líderes políticos e religiosos. Não se pode confundir
vocação artística, política e religiosa com ídolos, deuses e deusas.
Infelizmente, muitos usam seus
talentos para o culto de si mesmo e provocam idolatria aos outros. Perdem-se
pelo caminho da fama, do poder, do sexo e do conforto.
Ninguém pode participar da mesa do
Senhor e da mesa dos demônios (1 Cor 10,21), ou seja, estar no banquete
eucarístico, e depois nos banquetes das festas pagãs.
“Feliz o homem que não se assenta
na roda dos zombadores” (Sl 1,1).
É um pecado mortal comer da carne e
beber do sangue de Cristo e depois comer e beber das coisas oferecidas e
sacrificadas aos ídolos (1 Cor 10,27; 11,27-30; Ef 5,5-18).
“Ninguém pode acender uma vela para
Deus e outra para o diabo”.
“Quereis realizar o desejo do
diabo?” (Jo 8,44), “ou fazer a obra de Deus?” (Jo 6,28-32).
IDOLATRIA DO CAPITAL
“A relação entre fé e riqueza nunca despertou tanto interesse quanto nos
dias de hoje. Graças à predominância do capitalismo, as religiões são cada vez
mais atraídas por um apelo financeiro. O principal alvo dos críticos dessa
relação são os evangélicos que, em geral, não dispensam o discurso proselitista
em prol da expansão do Reino de Deus para justificar a arrecadação de fundos
que financiem os esforços evangelísticos, cada vez mais dispendiosos por conta
dos crescentes investimentos em patrimônio e mídia eletrônica”, descreve a
revista protestante Eclésia (1).
O estudioso das igrejas
neopentecostais, o sociólogo Ricardo Mariano, da PUC-RS, diz que “a teologia da
prosperidade, ao justificar o intenso pedido de dízimos e ofertas, agrada aos
pastores cujos projetos evangelísticos são ambiciosos e de alto custo, enquanto
que, ao prometer bênçãos materiais e uma
vida vitoriosa, mostra-se quase irresistível aos fiéis. A relação com dinheiro, na qual o dízimo assume
papel de destaque, adquiriu conotação e valor teológico positivo, tornando-se
até objeto de cultos especiais. Pastores, sem cerimônia, passaram a pedir dinheiro em grandes quantias, enquanto
os fiéis, sem culpa, assumiram seus desejos e consumo e ambições materiais”.
O sociólogo também afirma que “os
neopentecostais acabaram estimulando muitas igrejas de outras linhas
teológicas, como as renovadas e as protestantes históricas, a imitá-los” (2).
O líder da Universal do Reino de
Deus, “bispo” Edir Macedo disse: “quando alguém começa a obedecer a Deus nos
dízimos e nas ofertas, imediatamente se transfere para o lado de Deus” (3). Que
terrível heresia!!!
Macedo é um dos pregadores da
idolátrica teologia da prosperidade. Esta é a principal heresia atual do
protestantismo pentecostal. É uma das doutrinas demoníacas do nosso tempo (1 Tm
4,1).
O que faz a pessoa imediatamente se
transferir para o lado de Deus é obedecer:
1. Os mandamentos de Deus (Mt
19,17; Jo 15,10; I Jo 3,24).
2. À ordem de Jesus Cristo em tê-lo
como único caminho que leva ao Pai (Jo 2,5; 14,6; 15, 5 e 14).
O ínclito Doutor e Bispo da Igreja,
Santo Agostinho disse: “Queres ter Deus do teu lado? É muito simples: põe-te do
lado de Deus”.
Para continuar ao lado de Deus é
necessário ter:
1. Amor (Mt 22,37-39; Jo 21,17).
2. Fé (Mc 11,22; Hb 11,6).
3. Santidade (Mt 5,48; Hb 12,14).
Por tudo responde a
maravilhosa graça do bom Deus ao pecador (Ef 2,8; 1 Tm 1,14), e não o dinheiro
pregado por Macedo.
Escreve São Paulo Apóstolo: “Ora,
os que querem enriquecer caem em
tentações em ciladas e na perdição. Porque a raiz de todos os males é o amor ao
dinheiro” (1 Tm 6,9-11).
Dizia o estadista americano
Benjamin Franklin: “Daquele que acredita que o dinheiro pode fazer tudo,
pode-se suspeitar com fundamento que será capaz de fazer tudo por dinheiro”.
Esses pregadores da
teologia da prosperidade, são dominados por heresias. São discípulos de Mamom
(Mt 6,24). São mestres e doutores na hipocrisia, na mentira e nos falsos
ensinos bíblicos (cf. 1 Tm 4, 1 e 2; 2 Pd 2,1-3).
Por que muitas igrejas evangélicas
estão ensinando heresias? Quem responde é o escritor, professor e pastor
americano Larry Crabb: “Tudo começa com o reconhecimento da teologia
empobrecida que temos hoje”. E para seu colega Eugene Peterson “é a
superficialidade da teologia trinitária da igreja evangélica”.
“Até que esta teologia se
aprofunde, não conseguiremos progredir muito no que diz respeito à formação
espiritual. As pessoas precisam ser profundamente impactadas pela comunidade
trinitária”, diz Crabb (4).
A revista protestante Graça diz:
“Embora não adorem imagens, muitos evangélicos – às vezes, inconscientemente –
praticam a idolatria” (5).
“Ficou claro para mim que a carta do
pastor Ricardo Gondim (*) não era uma expressão
(*) Carta sobre o cansaço
das incompatibilidades doutrinária no meio evangélico. Publicado na edição de
Julho/Agosto de 2004, pp. 40 e 41 da Revista Ultimato.
isolada que existe hoje,
entre nós, um movimento de pessoas que estão cansadas. Cansadas de ver Baal na
igreja evangélica brasileira. Nas pregações que nos alisam o ego sem
confrontar-nos com nosso pecado pessoal e coletivo e sem denunciar a idolatria
e a injustiça que estão dentro e fora dos nossos templos” afirma o pastor
luterano Valdir Steuernagel.
O CULTO AO LUXO E A BELEZA
Vivemos uma era do mito de Narciso, o culto ao luxo, a beleza e a
vaidade extremada. Muita gente direciona a sua vida a um estilo de prazer, pelo
absoluto prazer carnal.
A idolatria ao corpo virou para
muitas pessoas uma obsessão, um culto sem limite.
A anorexia e a bulimia são doenças
contemporâneas, causadas pela ditadura do culto à beleza magérrima das modelos.
“Algumas mulheres chegam a gastar
entre 6000 e 15000 reais por mês para manter a boa forma. Há até quem lave os
cabelos com água mineral importada. Beleza a qualquer preço”, matéria de capa
da Veja- São Paulo, 03/07/2002.
Tomados pela vontade exacerbada de
ter uma beleza irresistível e um corpo perfeito, milhares de pessoas recorrem
às clínicas de cirurgia plásticas como quem vai às compras.
Por que o mito de Narciso é tão
atual? Há várias explicações. “As pessoas estão mais vaidosas como forma de
preencher um vazio. E um sentimento egoísta quando a pessoa toma a si mesma como
objeto de amor”, afirma o psicanalista Jorge Forbes, membro da escola Européia
de Psicanálise. A professora de psicologia Ceres Alves de Araújo, da PUC de São
Paulo, define a fase atual como ‘neonarcisista”, de um individualismo
extremo:”Nunca as pessoas estiveram tão preocupadas com elas mesmas e,
conseqüentemente, ficam mais atentas ao corpo, às roupas” (6).
Há um vazio no coração do
ser humano que só o bom Deus pode preencher amorosamente.
Com categoria dizia Santa Teresinha do Menino Jesus: “Deus é mais terno
do que uma mãe”. “Guardando a Deus, tudo é graça”. “Tudo, com exceção de Deus,
tudo é vaidade”.
Para se chegar ao 50º andar da
imponente torre comercial conhecida como Capital Mansion, prédio que pertence
ao conglomerado financeiro-industrial Citic, no bairro de Sanlitun, não se usam
os imensos elevadores do edifício. A entrada é por um pequeno elevador
exclusivo, num canto do saguão principal, com direito a um segurança de terno
preto (Que proíbe fotos), e o tapete vermelho de dois metros até o elevador. Na
placa ao lado se lê: “Bem-vindo ao Capital Club. É vedada a entrada no elevador
de pessoas de calça jeans e tênis. Lembre-se que o uso do celular é proibido
nos salões de jantar”
Se o segurança não conhece
a pessoa de rosto, o visitante é delicadamente solicitado a apresentar sua
carteira VIP, na verdade, um documento que prova ser ele membro de um dos mais
seletos clubes prives de Pequim: o Capital Club. Num país que cresce a um ritmo
de 11,5% ao ano (taxa do primeiro semestre), tem 236 mil milionários (segundo
estudo da Cap Gemini e da Merrill Lynch) e que, durante anos, foi oprimido pela
ditadura do coletivo, a emergência dos muito ricos da China tem criado nas
grandes cidades uma histeria por exclusividade, já batizado pela mídia estatal
de “cultura do VIP”.
De fato, não há um só
restaurante ou boate em Pequim que não tenham as famosas salas VIP, onde se
paga fortunas por cabeça para que ninguém seja obrigado a se misturar com os
outros visitantes. Hospitais privados têm carteiras VIP para quem quer pagar por
mais conforto, além do tratamento, e até casas de massagem lançam carteiras VIP
para os que procuram algo mais que uma simples massagem.
Os ricos chineses hoje
precisam de um espaço exclusivo, precisam brilhar, querem sofregamente
privacidade e a justa recompensa por seu trabalho. Ou seja, luxo (7).
Com razão escreveu o célebre
“Doutor da Graça”, Santo Agostinho: “Se, de fato, você invocasse a Deus, ele
viria e seria sua riqueza. Mas você, na realidade, prefere ter o cofre cheio e
a consciência vazia. Deus preenche os corações, não os cofres. De que lhe
servem as riquezas exteriores, se o que move internamente é a miséria?”.
O culto ao corpo, ao luxo e a
beleza, não só leva ao vazio, a depressão, a idolatria, a prostituição, ao adultério,
ao crime, com a morte física e espiritual.
Essa matéria é um aviso para pais,
educadores, lideranças religiosas, sociais e políticas e formadores de opinião.
Mas é acima de tudo um compromisso com o Deus da libertação que cada um de nós
precisa assumir uma voz profética contra tudo que gera a morte.
Devemos radicalizar o grito pela
vida!
CONCLUSÃO
Os israelitas entraram na terra prometida como povo de Deus sustentados
pela Aliança (Dt 29,11-12). No entanto, depois de estabelecidos, adquiriram
imagens de ídolos e os colocaram em seus novos lares. Josué foi notificado e os
desafiou a abandonar a idolatria, livrando-se desses deuses falsos (Js 24,23).
Alguns conservaram as imagens: por exemplo, Raquel, esposa de Jacó, trouxe
alguns, (Gn 31,19 e 30-36) e até Davi, homem segundo o coração de Deus, (1 Reis
15,3), iniciou sua vida de casado com Micol, tendo uma estátua dentro de casa
(1 Sm 19,13,16). Atualmente não temos estátuas de ídolos (na verdade, podem-se
encontrar em algumas casas de pessoas cristãs, imagens de Buda, elefantes
indus, etc...), mas em muitos lares, “o deus deste mundo” é adorado (2 Cor
4,4). Este deus é a vida de conforto, sexo, dinheiro, poder, os adeptos ao
humanismo, que são apresentados pela mídia como o máximo a atingir na vida.
Muitas vezes, os lares têm a TV ou
aparelhagens eletrônicas cada vez mais sofisticadas literalmente entronizadas.
Não se trata de ídolos de ouro ou de prata, mas outros deuses, com “adoradores”
à sua volta, fazendo refeições sacrifíciais (ou ao menos, um lanche),
oferecendo o tempo mais precioso do dia, se prostrando diante da “estatua” no
lar.
“As pesquisas revelam que, no
Brasil, há mais televisores do que geladeiras. Nos Estados Unidos, há mais
televisores do que água encanada. Os meios de comunicação de massa, em parte,
estimulam à idolatria”.
A idolatria tem sido feroz e
intensa no decorrer dos séculos e ainda continua sendo. Tudo que toma todo seu
tempo e o lugar de Deus no seu coração é idolatria. Vai desde a vil
concupiscência, avareza até a vontade de ser deus ou vice-Deus
“O sonho do ser humano é ser Deus e
seu pesadelo é ver-se obrigado a simular que alcançou esse propósito”, diz
Guilhermo Cabrera Infante, escritor cubano radicado em Londres.
O Senhor Deus exige adoração exclusiva.
“Eu sou o Senhor; este é o meu nome! Não cederei a outrem a minha glória, nem a
minha honra os ídolos” (Is 42,8). “Eu sou o Senhor, e não há nenhum outro, fora
de mim não há Deus” (Is 45,5).
Será que as pedras e as
paredes de sua casa dão testemunho do que vem em primeiro lugar em sua vida?
(Ler Is 24,26-27).
Será que na sua casa contém os
símbolos católicos da nossa fé ou imagens de artistas e de deuses pagãos?
Será que seu lar manifesta a glória
de Deus ou a revelação das coisas mundanas?
Será que em sua casa pode-se dizer
como disse Josué: “Eu e a minha casa serviremos ao Senhor, pois ele é o nosso
Deus” (Is 24,15).
Disse Nosso Senhor Jesus Cristo:
“Ninguém pode servir a dois senhores” (Mt 6,24).
REFERÊNCIAS
(1)Eclesia, Maio de 2004,
p.26.
(2)Idem, p. 27.
(3)Folha Universal,
29/07/2007, p.2.
(4)Impacto, Julho-Agosto
de 2004, p.28.
(5)Graça, Agosto, 2002,
p.44.
(6)Época, 01/04/2002,pp.57
e 58.
(7)O Globo, 29/07/2007,
41.