MANUAL DE APOLOGÉTICA  

CÔNEGO A. BOULENGER

 

INTRODUÇÃO

I - APOLOGÉTICA: DEFINIÇÃO - OBJETO

1. Definição

Etimologicamente, a palavra apologética (do grego apologèticos, apologia) significa justificação, defesa. Apologética é, pois, a justificação e defesa da fé católica.

2. Objeto

A apologética tem dois fins:

a.       Justificação da fé católica. Considerando a religião no seu fundamento (isto é, no fato da revelação cristã, de que a Igreja Católica se diz a única depositária fiel), a apologética expõe os motivos de credibilidade, que provam a sua existência. Deve, portanto, resolver esse problema: havendo neste mundo tantas religiões, qual será a verdadeira? Ora, o apologista católico sustenta que só a sua fé é a verdadeira, e que o é na realidade; deve, pois, provar essa asserção. Este primeiro trabalho constitui a apologética demonstrativa ou construtiva.

b.       Defesa da fé católica. A apologética não só apresenta os títulos que tornam a Igreja Católica credora da nossa adesão, mas também enfrenta os adversários, respondendo aos seus ataques. E como os ataques variam com as épocas segue-se que deve evolucionar e renovar-se incessantemente, pondo de parte as objeções antiquadas e apresentando-se no campo escolhido pelos adversários, para os combates da hora presente. Sob este segundo aspecto, a apologética tem um caráter negativo, e chama-se apologética defensiva.

3. Corolário: Apologética e apologia

Não são termos sinônimos. "Apologética significa propriamente ciência da apologia, do mesmo modo que dogmática significa ciência do dogma.. A apologética é a defesa científica do Cristianismo pela exposição das razões em que se apóia. Uma apologia é uma defesa oposta a um ataque” (Hettinger, Théol. Fond. t. I.).

O objeto da apologética é, portanto, mais geral. A apologia limita-se a defender um ponto da doutrina católica no campo do dogma, da moral ou da disciplina. Prova, por exemplo, que o mistério da SSma. Trindade não é absurdo; que acusar de interesseira a moral cristã é injusto; que o celibato cristão não é instituição digna de censura, mas rica em vantagens inestimáveis; e chega até a reabilitar a memória de um santo. A apologia remonta às primeiras eras do Cristianismo; a ciência apologética aparece mais tarde, e está sempre em via de formação ou, pelo menos, de aperfeiçoamento.

II - FIM E IMPORTÂNCIA DA APOLOGÉTICA

4. Fim

Do objeto da Apologética (n.0 2) deduz-se claramente o fim que se propõe.

a.       Enquanto demonstrativa, dirige-se não só ao crente, mas também ao indiferente e ao ateu:

1.       Ao crente para o arraigar nas suas convicções, mostrando-lhe os sólidos fundamentos de sua fé, iluminando-lhe a inteligência e fortificando-lhe a vontade;

2.       Ao indiferente ao ateu: ao primeiro, para o convencer da importância de questão religiosa e da sem-razão da indiferença acerca deste assunto; ao segundo, para o arrancar a incredulidade; a ambos, finalmente, para os levar à reflexão, ao estudo e à conversão. Quer se dirija aos crentes, quer se dirija aos incrédulos, a apologética tem sempre em vista levar as almas à certeza do fato da revelação. Ora, há muitas escolas filosóficas que negam ao homem a capacidade de atingir a verdade. Será, pois, conveniente, resolver o problema da certeza.

b.       Enquanto defensiva, a apologética visa só os anticrentes e tem por fim refutar os seus preceitos e objeções. Dizemos anticrentes e não incrédulos, porque ordinariamente os incrédulos limitam-se a não crer, ao passo que os anticrentes têm uma religião especial - a religião da ciência, da humanidade, da democracia, da solidariedade, etc. - que dirigem contra a religião católica.

5. Importância

A importância da apologética deduz-se destes dois motivos:

a.       É o preâmbulo da fé. Lembremo-nos, que a fé exige o concurso da inteligência, da vontade e da graça. Ora, a missão da Apologética é levar o homem até o limiar da fé, torna-la possível, provando que é racional. As provas, que o apologista nos fornece acerca do fato da revelação, devem levar-nos a formar dois juízos: a revelação manifesta-se-nos com evidência objetiva e portanto é digna de crédito (credibile est), juízo de credibilidade; se é digna de crédito, há obrigação de crer (credendum est), juízo de credendidade. O primeiro é de ] ordem especulativa, dirige-se só à inteligência; o segundo vai mais longe, atinge a vontade: é um juízo prático. Se considerarmos os fatos, a questão para nós não existe, está resolvida antes da discussão, porque, seja qual for a religião a que pertençamos, todos a recebemos do nosso meio e da nossa educação; veio-nos por intermédio dos nossos pais e dos nossos mestres. Muitos há que a aceitam sem discussão nenhuma, fundados somente na autoridade. Mas pode chegar um momento em que a dúvida assalte o espírito, e seja necessário armar a fé contra os ataques inimigos. Não recomendava já S. Pedro aos primeiros cristãos que andassem preparados para dar razão de sua crença quando lha pedissem? (I Ped. 3, 15). Hoje, ainda mais do que então, devem os católicos conhecer os motivos da sua fé e saber explicá-los aos outros. É bom advertir que não se pode duvidar da fé, embora seja permitido sujeitá-la a exame. Segundo o Concílio Vaticano I, “os que receberam a fé pelo magistério da Igreja nunca podem ter razão suficiente para a abandonar, ou pôr em dúvida”. (Const. Dei Filius, Can. III e Can. VI). Aos que dizem que é preciso fazer primeiro tábua rasa da fé para chegar à verdade, responde Leibniz: “Quando se trata de dar a razão das coisas, a dúvida para nada serve... Que se faça um exame para passar a dúvida..., passe. Mas que, para examinar. Seja necessário começar por duvidar, é isso o que eu nego”.

b.       A apologética é a condição necessária da Teologia. Com efeito, a exposição da doutrina da fé católica já supõe a fé, e só tem em vista os crentes. Donde se segue que apesar de terem pontos de contato e de se ocuparem igualmente da revelação, diferem contudo no ponto de partida e no desenvolvimento. De fato, o apologista, só com o instrumento da razão, eleva-se das criaturas ao Criador, a um Deus revelador, e chega ao fato da Igreja docente; ao passo que a Teologia segue a ordem inversa: partindo do ponto onde chega a apologética, isto é, do magistério infalível da Igreja, expõe os ensinamentos da fé.

III - DIVISÃO DA APOLOGÉTICA

6. Como as relações entre Deus e o homem são o fundamento da religião católica, a apologética deve tratar de Deus, do homem e das suas relações mútuas. Ora, a solução dos problemas, que dizem respeito a este tríplice objeto, pertence ao domínio da filosofia e da história. Daí as duas grandes divisões: a parte filosófica e a parte histórica.

7. 1º) Parte filosófica

Pertencem à filosofia os problemas relativos:

a.       A Deus. Esta primeira seção trata da existência de Deus, da sua natureza e da sua ação (Criação e Providência).

b.       Ao homem. A segunda seção deve provar a existência da alma humana, duma alma espiritual, livre e imortal.

c.       Às suas relações mútuas. A terceira seção é a conclusão das duas primeiras. Parte da natureza de Deus e do homem, e tem por fim provar, não só as suas relações mútuas e necessárias, mas ainda aquelas cuja existência é possível presumir-se. As três seções da primeira parte constituem o que se chama preâmbulos racionais da fé.

8. 2º) Parte histórica

Na segunda parte entramos na questão de fato. Ora, os fatos pertencem à história. É portanto com documentos históricos que o apologista deve provar a existência da revelação primitiva e mosaica, e finalmente da revelação cristã feita por Jesus Cristo, da qual a Igreja é depositária.

A parte histórica subdivide-se, pois, em duas seções: a demonstração cristã, e a demonstração católica.

a.       Demonstração cristã. Nesta primeira seção trata-se de provar a origem divina da religião cristã, por sinais ou critérios, que nos levem ai assentimento. São de duas espécies:

1.       Critérios externos ou extrínsecos, isto é, todos os fatos, milagres e profecias que, não podendo ter outro autor senão Deus, nos foram dados por Ele mesmo, para determinar e confirmar a nossa fé;

2.       Critérios internos ou intrínsecos, isto é os que são inerentes à doutrina revelada.

b.       Demonstração católica.Uma vez provada a origem divina da religião cristã, o apologista deve demonstrar que só a Igreja Católica possui as notas da verdadeira Igreja fundada por Jesus Cristo.

9. Outro modo de demonstração

Poderíamos fundir numa só as duas seções da parte histórica e fazer imediatamente a demonstração da parte católica, sem passar pela demonstração intermediária. O apologista que adota este método vai diretamente à Igreja Católica. Apresenta-a “ornada de tais caracteres que todos podem facilmente vê-la e reconhecê-la como a guarda e única possuidora do depósito da revelação”. E isso pelo fato de só ele conservar “o imenso e maravilhoso tesouro das obras divinas, que mostram até à evidência a credibilidade da fé cristã”, e por ser ela mesmo um fato divino, “um grande e perene motivo de credibilidade, pela sua admirável propagação, eminente santidade, fecundidade inesgotável em toda espécie de bens, unidade católica e invencível estabilidade” (Const. de Fide, c. III.).

Tal é, a largos traços, a apologética demonstrativa. Caminha sempre ao lado da apologética defensiva, que lhe prepara o terreno, refutando as objeções dos adversários na parte filosófica e histórica.

IV - OS MÉTODOS DA APOLOGÉTICA

10. 1º) Definição

Método apologético é o conjunto de processos que os apologistas empregam para demonstrar a verdade da religião cristã.

11. 2º) Espécies

Como o método da apologética deve variar necessariamente segundo a natureza do assunto, devemos distinguir:

1.       O método filosófico ou racional na parte filosófica, onde se trata de comprovar pela razão a existência e a natureza de Deus e da alma humana, e estabelecer as suas relações;

2.       O método histórico na segunda parte, onde é mister provar historicamente o fato da revelação. O método histórico tem ainda diversos nomes, segundo o processo que o apologista seguir.

         i.            Segundo o ponto de partida que se adotar, há o método ascendente e o descendente.

                               a.            No método descendente, segue-se o caminho que indicamos no n.o 8: vai da causa ao efeito, de Deus à sua obra. Remontando às origens do mundo, aduz sucessivamente as provas da tríplice revelação divina: primitiva, mosaica e cristã.

                               b.            No método ascendente, segue-se a ordem inversa exposta no n.o 9: vai de efeito à causa, da obra ao autor. Partindo do fato atual da Igreja, estabelece os títulos que lhe dão direito à nossa crença. Depois disso, falta apenas ouvir o seu testemunho acerca da revelação.

       ii.            Segundo a natureza dos argumentos e a importância que o apologista lhe atribui na demonstração, temos: o método extrínseco e o intrínseco.

                               a.            O método extrínseco toma este nome, porque o seu ponto de partida é extrínseco, isto é, tomado fora do homem, e porque se serve quase exclusivamente de critérios extrínsecos.

                               b.            O método intrínseco, pelo contrário, parte do homem para se elevar até Deus e liga mais importância aos critérios extrínsecos. Considerando o homem sob o ponto de vista individual e social, este método mostra que a religião sobrenatural satisfaz os desejos da alma.

12. Nota: O método da imanência

Com o método intrínseco está relacionado o método da imanência. Os seus defensores tomam como ponto de partida o pensamento e a ação do homem. O homem, dizem eles, sente um desejo insaciável de felicidade: tem fome e sede do ideal, do infinito, do divino. Em certas horas de melancolia e tristeza, sente, como diz Santo Agostinho, uma inquietação que não o deixa sossegar. Estes estados da alma, que são obra da graça, devem dispor o homem de boa vontade a aceitar a revelação cristã, pois só ela é capaz de saciar o coração. Desta forma, as aspirações internas e imanentes (do latim in manere, immanens, que reside dentro), isto é, - conforme a etimologia da palavra - que estão no fundo do nosso ser, provam que a natureza do homem precisa dum complemento, e que postula (postular = pedir, trazer como conseqüência, ter necessidade de.), por assim dizer, o sobrenatural, o transcendente, o divino, que a revelação cristã nos oferece.

13. Valor dos diferentes métodos

1.       Não vamos discutir aqui o valor dos métodos ascendente e descendente. Basta observar que o método ascendente apresenta a vantagem de ser menos extenso, mas que por isso mesmo tem o inconveniente de não ser tão completo.

2.       Que pensar a respeito dos métodos extrínseco, intrínseco e de imanência? É claro que a sua eficácia, e portanto o seu valor, varia com as épocas e com os estados de espírito daqueles a quem se dirigem. A apologética, sobretudo quanto ao seu método, pode considerar-se como uma arte. Como o seu objetivo é convencer o espírito e mover o coração, é natural que empregue os meios mais adaptáveis às condições de tempo e de pessoas. Portanto, a apologética, ainda que imutável quanto à substância, é contudo muito variável quanto à forma: os modos de apresentar os motivos de credibilidade, a escolha dos argumentos e a importância que convém dar a cada um, deixam-se ao talento do apologista. Nenhum desses métodos, porém, é isento de perigos, se não se conservar nos seus justos limites.

a.       O método extrínseco, levado ao extremo, cai no intelectualismo. Pois, pode facilmente exagerar o valor da razão, e então parece destruir a liberdade da fé e arrisca-se a não conseguir o seu fim. Porquanto, ainda que demonstre, a modo de teorema, a existência da revelação divina e que a Igreja Católica é a sua depositária, nunca acreditaremos nela se não corresponder às nossas aspirações.

b.       Do mesmo modo, se o método intrínseco diminui muito o valor da razão e dá largas à vontade e ao sentimento da gênese do ato de fé, cai no subjetivismo e fideísmo e também não consegue o seu fim. Com efeito, não basta mostrar que a revelação cristã se harmoniza com as aspirações do coração humano; porque, se se omitem as provas históricas que atestam a sua origem divina, sempre poderão os adversários que a religião católica vale tanto como as outras.

c.       O que dissemos do método intrínseco, aplica-se igualmente ao de imanência. Será talvez excelente preparação da alma, mas só deixará de ser digno de censura, quando não for exclusivo.

14. Apologética integral

Por conseguinte, a apologética integral deve reunir os três métodos: extrínseco, intrínseco e de imanência.

a.       Para chegar com mais segurança ao ato de fé, é conveniente preparar a alma pelo método intrínseco, ou pelo de imanência. “Só no coração livre", diz Blondel, "só nas almas de boa vontade e amigas do silêncio, se faz ouvir com utilidade a revelação exterior. O sentido das palavras e o brilho dos sinais da nada serviriam, se interiormente não houvesse o desejo de aceitar a luz divina”.

b.       Concluído este trabalho preliminar, ao método intrínseco e de imanência deve seguir-se o método extrínseco, para começar a inquirição histórica e provar o fato da revelação.

V - HISTÓRIA DA APOLOGÉTICA

É natural que os métodos da apologética tenham variado com os tempos e se tenham adaptado às necessidades do meio. Mas entre as diversas tendências, podem distinguir-se três tendências principais, e portanto, três espécies de apologética: a tradicional, a moderna e a modernista.

15. 1º) Apologética tradicional

É aquela que sempre esteve e ainda está em uso na Igreja e que forma deste modo como uma tradição continuada. É caracterizada pela importância que atribui aos critérios externos. Tem em vista sobretudo a inteligência, mas não se desinteressa das disposições morais.

Basta um rápido exame dos principais apologistas para nos convencermos que souberam harmoniosamente combinar o método intrínseco como método extrínseco.

1.       O próprio Jesus Cristo liga grande importância à preparação moral (Parábola do semeador, Marc. 4, 1-20; dos convidados às núpcias, Mat. 22, Luc. 14). Geralmente não concede sinais da sua missão divina senão aos que têm fé, confiança e humildade.

2.       Os Apóstolos seguem as pegadas de seu Mestre.

3.       Mais tarde, na época das perseguições, a apologética é sobretudo defensiva. Acusam os cristãos de acusarem contra a segurança do Estado, de ateísmo e de imoralidade. Para os defender dessas calúnias, fazem os apologistas um paralelo entre o paganismo e o Cristianismo. Salientam a transcendência deste (critérios internos), e invocam depois os milagres de ordem moral: a conversão do mundo, a santidade de vida dos cristãos, a sua constância heróica nos suplícios e o aumento constante (S. Justino, Tertuliano).

4.       S. Tomás de Aquino, o grande apologista da Idade Média, depois de expor os preâmbulos da fé e refutar as objeções dos adversários (Suma contra os gentios) mostra na Suma Teológica a harmonia e a coerência entre as verdades cristãs e as aspirações da alma (critérios intrínsecos).

5.       É verdade que no século XVII, Bussuet usa exclusivamente critérios externos, mas em compensação Pascal emprega sobretudo os critérios internos, a ponto de poder ser considerado como iniciador do método de imanência, da que já falamos (n.o 12). Começa pelos critérios internos de ordem subjetiva e considera a natureza humana na sua grandeza e na sua miséria. Quer assim levar o homem a admitir que precisa da religião para explicar a sua indigência e dar-lhe remédio. Com efeito, só ela nos faz compreender a nossa miséria, mostrando-nos que a causa é o pecado original; só ela nos indica o remédio, que é a Redenção de Jesus Cristo. Deste modo Pascal prepara o coração antes de provar a verdade do Cristianismo pelos critérios externos.

16. 2º) Apologética moderna

Distingue-se pela importância que dá aos critérios internos. Sob pretexto de que as provas históricas e os critérios externos - milagres e profecias - carecem de valor para convencer os espíritos imbuídos de idéias modernas no campo da filosofia e das ciências, os apologistas atendem sobretudo à preparação moral. Apresentam as maravilhas do Cristianismo, a perfeita harmonia que existe entre o culto católico e a estética (Chateaubriand), o seu valor e virtude intrínseca (Ollé Laprune, Yves Querdec), a transcendência (P. de Broglie), as belezas íntimas e os efeitos admiráveis, como é levar a consolação aos que sofrem (método íntimo de Mons. Bougaud). Ou então consideram a religião e a autoridade da Igreja, como o fundamento da ordem moral e social (Lacordaire, Balfour, Brunetière, etc.). Esse método, de si excelente, ficaria, como já dissemos, incompletos, se omitisse totalmente os critérios externos: milagres e profecias (n.o 13).

17. 3º) Apologética modernista

Foi condenada pelo decreto Lamentábili (3 de julho de 1907) de pela encíclica Pascendi (8 de setembro de 1907). Tem como representantes mais notáveis na França, Loisy (L´Évangile et l´Église, Autour d´un petit livre), Le Roy (Dogme et Critique); na Inglaterra, Tyrrel (De Sila a Caribdes); na Itália, Fogazzaro (Il Santo). As idéias principais são:

a.       Na parte filosófica. Pode considerar-se sob dois aspectos: positivo e negativo.

1.       Sob o aspecto negativo é agnóstica. O modernismo, baseado nos sistemas modernos, são como o subjetivismo de Kant, o positivismo de A. Comte e o intuicionismo de H. Bérgson, defende que a razão pura é impotente para sair do círculo de experiências e dos fenômenos, e, portanto, incapaz de demonstrar a existência de Deus, ainda que seja pelas criaturas.

2.       Sob o aspecto positivo, é constituída pela doutrina da imanência vital ou religiosa (imanentismo). Segundo essa doutrina. Nada se manifesta ao homem, que nele não esteja já previamente contido. “Deus não é um fenômeno que se possa observar fora de si, nem uma verdade demonstrável por um racionalismo lógico. Quem o não sente no coração, jamais o encontrará fora. O objeto do conhecimento religioso só se revela pelo próprio conhecimento religioso” (Sabatier). Deste modo não é a razão que demonstra a existência de Deus, mas a intuição (do latim intueri, contemplar, ver. É o conhecimento direto dos objetos, sem intermédio e sem raciocínio.) que o descobre no fundo da alma, ou, como eles dizem, nos abismos da subconsciência onde o encontramos vivo e ativo.

b.       Na parte histórica. O historiador modernista, por mais que o negue, deixa-se sempre influenciar pelos seus princípios filosóficos. Como agnóstico, prende-se que o único objeto da história são os fenômenos. Pelo fato de Deus estar acima dos fenômenos, não pode ser objeto da história, mas da fé. Daí provém a grande diferença que estabelecem entre o Cristo da história e o Cristo da fé; o primeiro é real, e o segundo, transformado e desfigurado pela fé. Outros dois princípios - o da imanência vital e o da lei da evolução - explicam o resto: a origem da religião nascida de sentimento religioso de Cristo e dos primeiros cristãos, e a sua transformação sucessiva, que se nota no desenvolvimento do dogma. Além disso, os Livros Sagrados e, especialmente os Evangelhos, não têm valor algum histórico.

Resumindo, o apologista modernista rejeita todas as provas tradicionais. Na parte filosófica, partindo da teoria kantista, segundo a qual a razão teórica não prova a existência de Deus, substitui as provas racionais pela do sentimento. Na parte histórica, negando que Deus possa ser objeto da história, suprime os critérios extrínsecos - milagres e profecias - os grandes sinais da Revelação Divina. Quanto ao demais, julga supérfluo pedir à história o que o testemunho da consciência lhe descobre. Para que havemos de procurar a Deus fora de nós, se o sentimos no coração? O dever do apologista limita-se, pois, a penetrar nos recônditos da alma, e provocar ali mesmo a experiência religiosa. O sentimento religioso, isto é, a consciência individual, que nos dá a conhecer que o Cristianismo vive em nós e satisfaz as profundas exigências da natureza, é a única razão da fé, a única revelação, a fonte de toda a religião.

Basta esta exposição sumária para nos persuadirmos que o modernismo destrói toda a idéia da verdadeira religião e opõe-se a apologética católica.

O PROBLEMA DA CERTEZA

Logo no começo da apologética, surge um grave problema. Poderá a inteligência humana conhecer a realidade das coisas e alcançar a certeza objetiva? E, sendo a razão o principal instrumento do apologista, qual é o seu valor para chegar à verdade? Podemos confiar nela? Poder-nos-á conduzir à certeza? Tal é o primeiro problema que se impõe ao apologista e a que vamos responder sumariamente, porque está fora do nosso plano demonstrar “ex professo” o valor da razão e a objetividade do conhecimento. Além de ser assunto muito complexo e de sair dos limites de nosso simples trabalho, pertence ao domínio da filosofia; se os leitores quiserem estudar mais a fundo esta questão, indicamos os livros citados na Bibliografia. O único fim que nos propomos é, pois, dar uma idéia geral do problema e dos sistemas, que em diversos sentidos o resolvem, pondo-nos deste modo em contato com os adversários, que brevemente encontraremos no caminho.

Este capítulo terá quatro artigos: 1º) Noção, espécies e critério da certeza; 2º) Falsas soluções do problema da certeza; 3º) Verdadeira solução; 4o) Que se deve entender por certeza religiosa.

ART. I - A CERTEZA. NOÇÃO. ESPÉCIES. CRITÉRIO

1. Noção

Certeza é o estado da mente em que está intimamente persuadida de possuir a verdade. Estar certo é, portanto, formular um juízo, que exclui totalmente a dúvida e o temor de errar.

2. Espécies

A certeza não admite graus; ou é, ou não é. Por mais pequeno que seja o temor de errar, se existe, desvanecesse a certeza e dá lugar á opinião, ou à dúvida. Contudo, conforme os aspectos sob que se considere, é possível distinguir diversas espécies de certeza.

a.       Segundo a natureza das verdades que atinge, temos:

1.       A certeza metafísica, que se funda na relação necessária entre os termos do juízo. Quando digo que “o todo é maior que a parte”, o atributo convém de tal modo ao sujeito que é impossível conceber o contrário. Ao formularmos um juízo desses, o nosso espírito não só não admite a possibilidade de dúvida, mas afirma que a contraditória é absurda e não se pode conceber;

2.       A certeza física, que se baseia na constância das leis do universo. Só a experiência nos pode dar esta certeza. Assim, quando dizemos que “os corpos tendem a cair para o centro da terra”, julgamos que a proposição contrária é falsa, por contradizer os fatos observados, mas não absurda, pois as leis poderiam ser de outro modo;

3.       A certeza moral, que se funda no testemunho dos homens, quando este se apresenta com todas as garantias de verdade. As verdades históricas e, portanto, as religiosas são objeto da certeza moral.

b.       Segundo o modo do conhecimento, a certeza é:

1.       Imediata, direta ou intuitiva, quando se apresenta à inteligência sem o intermédio de outra verdade; ex.: o todo é maior que a parte;

2.       Mediata, indireta ou discursiva, quando a conhecemos indiretamente por meio do raciocínio; ex.: a soma dos ângulos internos de um triângulo é igual a dois retos.

c.       Com relação à evidência, a certeza pode ser:

1.       Intrínseca, se a evidência é, direta ou indiretamente, apreendida do próprio objeto;

2.       Extrínseca, se provém da autoridade daquele que a afirma. No primeiro caso, há ciência propriamente dita: no segundo, crença ou fé moral, como acontece nas verdades históricas.

3. Critério

Em geral chama-se critério o sinal distintivo com que se reconhece uma coisa e que nos impede de a confundir com outra. O critério da verdade é, portanto, o sinal pelo qual podemos reconhecer que uma coisa é verdadeira e dela estar certos. Por conseguinte, o problema da verdade reduz-se a saber qual é sinal por onde podemos conhecer que estamos em posse da verdade.

Foram propostos vários critérios: a revelação divina (Huet, de Bonald), o consenso universal (Lamennais), o senso comum (Reid, Hamilton), o sentimento (Jacobi). Nenhum deles é admissível, porque todos são insuficientes e provém duma injustificada desconfiança da razão humana em geral, ou da razão individual em particular. O critério ou sinal infalível e universal da verdade é a evidência. Mas, que é a evidência? O termo evidente, como a etimologia o indica, significa que a verdade está revestida duma claridade que a faz brilhar aos nossos olhos. Desse modo a evidência exerce no espírito uma espécie de violência, coloca-o na impossibilidade de não ver. Estou certo porque vejo que a coisa é assim, e não pode ser de outro modo; e vejo que é assim, ou por intuição direta, ou por meio da demonstração, ou finalmente por um testemunho irrefragável que não me permite julgar o contrário.

ART. II - FALSAS SOLUÇÕES DO PROBLEMA DA CERTEZA

Várias são as escolas filosóficas que negam a possibilidade de conhecer a verdade e repousar na certeza. Só encaramos o problema sob o ponto de vista da missão que a inteligência deve desempenhar na descoberta da verdade.

Os céticos, criticistas, positivistas e intuicionistas negam ou deprimem o valor da razão. Examinemos rapidamente esses sistemas.

1.       Ceticismo. Defendem os céticos que o homem é incapaz de distinguir o verdadeiro do falso, e portanto que deve abster-se de julgar. Para prova desta tese, aduzem quatro motivos: a ignorância, o erro, a contradição e o dialelo.

a.       A ignorância. É manifesta a ignorância humana a respeito de diversos assuntos. Demais, como as coisas estão concatenadas entre si, a ignorância de um aspecto qualquer de um ser faz que não possamos conhecer a fundo e tal como é; não sabemos le tout de rien, como diz Pascal.

b.       O erro. O homem engana-se freqüentemente e, o que é pior, quando se engana, julga possuir a verdade. Como há-de saber então quando alcançou a verdade?

c.       A contradição. Os homens raramente estão de acordo.

A verdade varia:

d.       Com os países. “Curiosa justiça limitada por uma serra ou um rio. Verdade do lado de cá dos Pirineus, erro do lado de lá!" - disse também Pascal;

e.       Com os tempos. Ações, que hoje são lícitas, eram outrora proibidas, e reciprocamente;

f.        Com os indivíduos. O que um julga bem, outro julga-o mal; Mais ainda; o mesmo indivíduo muda a cada passo o seu modo de ver e de pensar;

g.       O dialelo (do grego di allêlôn, um pelo outro - é sinônimo de círculo vicioso). É o argumento mais especioso do ceticismo. Pode formular-se: Para provar o argumento da razão não há outro meio além da razão. Ora, isso é evidentemente um círculo vicioso; logo, tanto por esse motivo como pelos precedentes, o ceticismo defende com todo o direito que a dúvida é o estado legítimo da inteligência.

2.       O criticismo ou relativismo kantista. Segundo Kant, todos os juízos se acomodam às leis da mente. O conhecimento não é regulado pelos objetos; não provém do exterior por intermédio da experiência. Não podemos conhecer as coisas como são em si. Os objetos são unicamente o que o espírito quer que sejam: moldam-se, por assim dizer, nas formas da inteligência e nos pareceriam outro se nosso espírito fosse constituído de outro modo. Por isso nosso conhecimento é relativo, e só tem valor relativamente a nós, pois são as nossas faculdades que impõem as suas formas subjetivas aos objetos conhecidos; daí os nomes de subjetivismo e relativismo, que por vezes se dão à doutrina de Kant. Mas, se apenas atingimos as nossas idéias (Todas as teorias fundadas no princípio que só podemos conhecer os objetos como existem na nossa mente têm o nome genérico de idealismo. Entre as várias espécies de idealismo, somente faláramos de duas principais: o idealismo crítico, ou criticismo de Kant e o idealismo metafísico de Bergson, que é a forma mais moderna de idealismo, do qual nos ocuparemos depois com o nome de intuicionismo.), é conveniente fazer a crítica das nossas faculdades cognoscitivas (razão pura, razão prática e juízo), para conhecermos a influência subjetiva que exercem no objeto conhecido. Daqui provém o nome criticismo que de ordinário de aplica à teoria kantista.

Além disso, a nossa mente é forçada a conceber três idéias fundamentais: a alma, o mundo e Deus. Pensamos que a estas realidades correspondem três seres, objetos ou númenos (do grego noúmenon, percebido pelo noûs, razão pura - significa a essência dos seres, isto é, o que são em si, em oposição as suas aparências. Segundo Kant, o númeno pode ser objeto de crença, mas não de ciência.). Mas serão porventura três seres reais? Para além dos fenômenos haverá realmente númenos? Não o podemos afirmar, pois a razão é impotente para resolver o problema, não pode conhecer o ser em si mesmo, isto é, a alma, o mundo e Deus. Kant, porém, por meio de sua teoria engenhosa, distingue a razão teórica da razão prática (a razão prática é a consciência moral, isto é, a faculdade de julgar entre o bem e o mal por meio da lei moral), e constrói com a segunda o que tinha destruído com a primeira. A razão teórica ignora as coisas em si, mas a razão prática descobre a obrigação moral no mais íntimo da consciência e deduz e existência das coisas em si, quer dizer, da lei moral que postula a liberdade, a responsabilidade, a imortalidade da alma e a existência de Deus necessária para explicar a existência da lei moral e a possibilidade da sanção.

3.       O Positivismo. O positivismo (A. Comte e Littré, na França; Hamilton Spencer e Stuart-Mill, na Inglaterra) afirma que a razão humana pode atingir as verdades de ordem experimental ou positivas, mas que é incapaz de conhecer o que não é objeto de experimentação. Podemos, pois, compreender os fenômenos, o relativo, mas não a substância, nem o absoluto (os termos absoluto, coisa em si e númeno empregam-se aqui como sinônimos e opõe as palavras relativo, aparência e fenômeno). Por exemplo. A razão pode verificar os fatos, e formular-lhes as leis: é o cognoscível e o objeto de ciência. Mas para além dos fatos e das leis, estende-se o domínio inacessível das coisas em si e das causas: é incognoscível. Por isso, o positivismo chama-se também agnosticismo.

4.       O Intuicionismo. O intuicionismo, - nome que se dá às teorias de Bergson acerca do conhecimento, - provém do relativismo de Kant e do evolucionismo de Spencer.

Segundo Bergson, há duas maneiras de conhecimento: pala inteligência e pela intuição:

a.       Pela inteligência. Admite, à semelhança de Kant, que a razão não pode chegar ao conhecimento objetivo dos seres, e dá várias razões. Na teoria kantista o conhecimento é sempre subjetivo, pelo fato de impormos aos objetos as formas imutáveis do nosso espírito; na teoria bergsoniana, ao contrário, afirma-se que a primeira causa de erro provém da atividade de inteligência humana, que, longe de possuir formas invariáveis, opera nos objetos com que está em contato, modifica-os, assimila-os, exatamente como o organismo transforma os alimentos. A segunda causa de erro provém de os objetos estarem sujeitos e perpétuas mudanças, e só poderem se apreendidos num dado momento da sua irrequieta existência. A terceira causa tem por origem os laços insensíveis que unem entre si estas mudanças; pois trata-se mais de evolução do que de transformação. Ora, como a razão se vê obrigada a trabalhar com conceitos estáveis, segue-se que não pode exprimir o movimento das coisas, nem o que há de contínuo na sua evolução. Deve portanto isolar os estados sucessivos dos objetos, substituir a descontinuidade e a pulverização da reflexão pela continuidade e unidade do seu “devir” ou movimento evolutivo.

b.       Pela intuição. Mas, - e é nesta parte que Bergson julga ultrapassar Kant, - posto que a razão não consiga chegar a um conhecimento objetivo das coisas, existe contudo um meio de atingir a realidade. Este meio é a intuição, que conhece a realidade viva e móvel, por meio da visão direta e imediata do objeto. Portanto, só o conhecimento intuitivo é verdadeiramente objetivo.

Deste modo, julga o sistema bergsoniano evitar a crítica kantista acrescentando um novo elemento cognoscitivo. Donde se conclui que, se o conhecimento de Deus, por meio da razão não tem valor algum, pode conseguir-se pela intuição, pela consciência e pelo coração. Esta é a razão porque os modernistas, partidários da filosofia bergsoniana substituíram a apologética racional pela apologética de intuição ou de imanência (n.o 17).

ART. III. - VERDADEIRA SOLUÇÃO DO PROBLEMA. O DOGMATISMO. VALOR E LIMITES DA RAZÃO

1. O Dogmatismo

Chama-se dogmatismo (do grego dogmatizo, afirmo) o sistema filosófico, que afirma que a razão pode conseguir a certeza, e que esta corresponde à realidade das coisas, isto é, que as nossas idéias são realmente objetivas.

O dogmatismo invoca em seu favor as seguintes razões:

a.       A falsidade dos sistemas opostos;

b.       A intuição imediata da verdade objetiva dos primeiros princípios;

c.       As exigências do censo comum.

a.       Falsidade dos sistemas opostos.

1.       Às objeções dos céticos responde o dogmatismo que a ignorância e o erro, acerca de algumas verdades, não provam de modo algum que a certeza não possa existir acerca de outras. O fato de algumas vezes reconhecermos que erramos, não será, pelo contrário, uma prova de que a nossa razão pode conhecer a verdade? A contradição não é também um argumento em favor do ceticismo, porque não é universal; não se estende a todos os domínios do saber, nem a todas as proposições. Quanto à objeção do dialelo, pode-se retorquir contra os adversários; porque, demonstrar pela razão a ilegitimidade da razão também é um círculo vicioso.

2.       Aos criticistas e positivistas contesta que a distinção, por eles estabelecida entre o fenômeno e o númeno, não é absoluta, nem pode aplicar-se aos fatos de consciência, porque, numa única intuição, conhecemos o nosso ser e a representação que dele formamos. Outro erro funesto é pretender que a ciência se ocupa unicamente dos fenômenos; que só é certo o que experimentalmente podemos verificar; e que não é lícito concluir dos fenômenos para a realidade da substância. Pelo contrário, é incontestável que a razão, auxiliada pelos dados dos sentidos e da consciência, pode deduzir os princípios de causalidade e de substância, dos efeitos subir às causas, e das causas segundas e relativas, à causa primeira e absoluta.