MARTINHO LUTERO
ONTEM E HOJE
Pergunte e
Responderemos 439 (1998)
Em síntese: A personalidade de Martinho Lutero é, a
seguir, considerada pelo sábio historiador que é o Prof. Ricardo
Garcia-Villoslada, da Universidade Gregoriana (Roma). O autor procura ser tão
imparcial quanto possível; por isto põe em relevo diversos aspectos da figura
de Lutero, freqüentemente contrastantes entre si. É certo, porém, que Lutero
queria revestir-se de autoridade indiscutível, que não aceitava o diálogo e
injuriava com palavras de baixo calão não somente os católicos, mas também os
reformadores que não pensassem como ele. - Jamais Lutero aceitaria ser
canonizado pela Igreja Católica; ele preferiria "o maior dos ultrajes
diabólicos" , como ele mesmo diz. O brado revolucionário de Lutero dentro
da Igreja Católica encontrou ampla ressonância e reforço por parte da nação
alemã, que alimentava um complexo anti-romano e passou a ver em Lutero o
porta-bandeira da identidade germânica.
***
Ultimamente têm-se aproximado luteranos e católicos,
realizando colóquios a respeito de temas teológicos que motivaram a separação
de Lutero em relação à Igreja Católica. As conversações têm chegado a
resultados positivos e alvissareiros. Em conseqüência há quem diga que Lutero
foi reabilitado ou será reabilitado e até ... canonizado ...
Tais sentenças não partem de quem conhece
adequadamente a figura e o pensamento de Lutero; são extrapolações emotivas
mais do que racionais. Eis por que, nas páginas subseqüentes, proporemos as
considerações de abalizado estudioso de Lutero, que procura ser imparcial ao
ponderar a figura do reformador. Trata-se do Professor da Universidade
Gregoriana Ricardo Garcia-Villoslada, autor da obra Martín Lutero, em
dois volumes publicados na coleção "Biblioteca de Autores Cristianos"
em Madrid. Tal autor escreveu em seu volume 1 (1976) as reflexões que vão
abaixo traduzidas para o português.
1. Martinho Lutero: quem é?
"Sempre suscitará altercações esse alemão `puro
sangue', esse filho da Saxônia, intimamente apegado ao seu país e, doutro lado,
arauto de mensagem universal, superadora de fronteiras, pregador da angústia
desesperada e, ao mesmo tempo, núncio de interna consolação produzida pela fé,
advogado da absoluta liberdade evangélica e, simultaneamente, da incapacidade
do livre arbítrio e das obras humanas para levar o crente à salvação; doutor de
intuições religiosas tão profundas quanto unilaterais e tão vivamente sentidas
que, ao dar-lhes expressão, fazia perder a paciência a quem o ouvisse; teólogo
popular e sublime, prisioneiro da palavra de Deus, como ele mesmo disse em
Worms (capta conscientia In verbis Dei), mas, ao mesmo tempo, desligado
e solto por sua interpretação pessoal, muitas vezes subjetiva e arbitrária, da
Escritura Divina..., Escritura Divina que ele exaltou constantemente e que, ao
mesmo tempo, ele recortou e depauperou; homo religiosus, que, vivendo a
religião cristã mais tragicamente do que ninguém, não se deu conta de que
tendia a secularizá-la, porque, ao emancipar-se da hierarquia e do magistério
para depender somente de Deus, caia num individualismo humano demasiadamente
humano, exposto à anarquia doutrinal, às ilusões pseudomísticas e à idolatria
da razão por ele tão odiada; monstro sagrado - espécie de dragão mitológico,
mescla de serpente, de leão e de anjo -, que guardava zelosamente o templo
santo do Deus das misericórdias e soprava fogo abrasador, ódio e maldições
contra aqueles que se recusavam a aceitar a sua verdade.
A respeito de Lutero pode-se afirmar que era isto,
isso e aquilo, e também o contrário. Todos os qualificativos são verídicos e
falsos, se entendidos de maneira absoluta. As imagens desenhadas por seus
amigos e seus inimigos hão de ser sobrepostas umas às
outras, para que nos proporcionem uma terceira imagem, mais próxima da
realidade" (pp. 15s).
Pouco adiante o Prof. R. Garcia-Villoslada se refere à
historiografia de Lutero.
2. Como apresentar Lutero?
Eis o que responde o autor:
"O historiador fará o possível para que os feitos
narrados sejam autênticos; ao interpretá-los, será sempre possível o erro.
Certamente a eliminação de todo preconceito e a imparcialidade absoluta são
inalcançáveis tanto de uma parte como de outra; mas é evidente que a
historiografia crítica progride e, na medida em que se fazem novas
investigações sobre um problema ou sobre um personagem, mais e mais luz
aflora; assim dá-se um passo adiante no conhecimento da verdade objetiva...
Explico-me:
Se uma mulher foi caluniada, vilipendiada, ultrajada,
e amaldiçoada por um homem poderoso e influente, é natural que, quando tal
homem passa para a história, não será fácil a um filho daquela mulher
escrever a biografia serena, imparcial, objetiva, friamente crítica... do
ultrajador, esbofeteador e execrador de sua mãe, ainda que aplique a essa
tarefa a máxima boa vontade. Pois bem; é coisa manifesta - muitas vezes
ignorada pelo comum dos protestantes, que apenas lêem livros de edificação -
que Lutero passou os últimos vinte e sete anos de sua vida lançando, sem
cessar, em suas publicações, em suas cartas, em suas conversas de família,
maldições ferozes, ultrajes indizíveis, acusações morais e doutrinais, às vezes
absolutamente falsas, outras vezes desmedidamente exageradas, contra a Igreja
e o Pontífice de Roma, contra todos os Bispos, contra todos os monges e monjas
e sacerdotes, contra todos os que ele denominava 'papistas', asnos papais,
seguidores do anticristo e da prostituta babilônica. E tudo isto sem a mínima
intenção de compreender o adversário.
Não conheço em toda a história um transbordamento tão
atroz e persistente de ódio (refiro-me às expressões verbais, não ao fundo do
coração, que talvez se mantivesse inocente e sem fel) para com uma instituição
sagrada que o havia amamentado com seu leite e lhe tinha dado o melhor que lhe
podia dar: a Bíblia, os sacramentos, a Tradição apostólica, o símbolo da fé, as
orações da Liturgia. Nesses contínuos ímpetos de ódio, irracional à primeira
vista, era ele plenamente sincero? Fazia-o por imperativo de sua consciência
ou, antes, por instinto de
caudilho e tática de guerra, a fim de desacreditar o
inimigo, criando-lhe um ambiente desfavorável frente ao povo, de modo que
ninguém sonhasse em retornar à obediência a Roma, poço e arcabouço de todas as alucinações?
Se era esta a meta que ele tinha em vista, é certo que ele a alcançou. E, em
conseqüência, a Igreja Católica, aquela Igreja que havia civilizado e educado
cristãmente o grande povo alemão dos séculos anteriores, ficou marcada, para
todo crente luterano, até nossos dias, com o estigma de meretriz do Apocalipse
e de prostituta do diabo...
Lutero cai nas graças de muitos católicos
hodiernos...; é tornado simpático, de modo que não duvidam em elogiá-lo, mesmo
que não tenham lido uma página de seus escritos. Qualquer livro ou artigo de
revista que ponha nas nuvens a sua profunda religiosidade, proclame seus
protestos irados contra os abusos e desordens da Igreja e até canonize sua
'ortodoxia dogmática', é lido com entusiasmo e aplaudido em toda parte[1]. Ao
contrário, quem tenha a incrível ousadia de chamá-lo herege ou cismático ou
falsificador de algumas passagens da Escritura, censurando-o de algum modo,
será condenado ao ostracismo ou aos cárceres do silêncio como réu de
desobediência aos sinais dos tempos ou refratário à atualização pós-conciliar.
Estes fáceis louvadores do reformador não o conhecem
bem. Os que no frade de Wittenberg contemplam não a imagem do protestante, mas
a do moderno contestatário, enganam-se de ponta a ponta. Nada sabem de sua
intolerância total em questões de fé, nem dos seus preceitos de submissão
quase servil à autoridade do Estado, ainda que este seja opressor e tirânico,
nem do seu absoluto desinteresse pela política (praedicator non debet
politica agere, o pregador não deve fazer política).
Aos que alegremente lhe estendem a mão - sem, porém,
ter a intenção de passar para os seus acampamentos -, ele responderia com uma
bufada de touro ou com uma maldição de profeta. Creio que aquele frade
agostiniano (que muito de frade conservou sempre até a morte no seu modo de
pensar, na sua piedade e no seu estilo), aquele saxão de granito e ardente
dogmatismo levantaria a cabeça em nossos dias, flagelaria sem compaixão, com o
chicote ruidoso da sua palavra, certos irenistas amigos de conciliar o inconciliável,
como flagelou em seu tempo o humanista Erasmo (dignus odio magno, digno
de grande ódio), e os que não queriam entender luteranamente o Evangelho:
Zvinglio e Ecolampádio (nimium blasphemi, demasiado blasfemos); entre
outros, Lutero muito mais ainda rejeitaria os que apregoavam um profetismo
revolucionário, como Karlstadt (diabo encarnado) Münzer (assassino e
arquidemônio), e outros 'fanáticos', contra os quais lançou o vocábulo de
Schwärmer (fanáticos). Frei Martinho não tolerava oposição nem queria diálogo.
Dizia ele a Erasmo na disputa contra o livre arbítrio: "Não dialoguei
contigo, mas afirmei e continuo afirmando, e a ninguém permitirei que seja meu
juiz!"
Para falar bem ou mal de Lutero, é preciso
primeiramente estudá-lo com seriedade e devagar... As obras completas do
reformador, em sua última edição crítica, compreendem cerca de cem volumes in
folio, parte em latim e parte em alemão antigo" (pp. 20-22). Serão
citados pela sigla WA (= Weimarer Ausgabe).
A seguir, vai uma apreciação de uma das principais
obras de Lutero, que tem por título
3. De Captivitate Babilonica (A respeito do Cativeiro
Babilônico)
"Muitas coisas surpreendem neste tratado
demolidor da teologia tradicional...
Para Lutero, não existe a dúvida, nem a tolerância
para com a opinião contrária, mesmo que esta seja doutrina corrente e certa em
todas as Faculdades de Teologia da Europa. Não se pode entender a Sagrada
Escritura se não no sentido em que ele a entende. Não vacila em aceitar todas
as conseqüências teóricas e todos os resultados práticos, desprezando anátemas
e excomunhões de uma Igreja que até pouco antes ele amava. A resposta que ele
dá a todas as questões, é taxativa, clara e categórica, como se a tivesse
meditado durante anos e anos, embora na realidade seja algumas vezes quase
improvisada. Sente-se arrebatado por um furacão misterioso, que o empurra não
sabe para onde; impelido por uma força superior à razão e à prudência humana,
força à qual lhe é impossível resistir.
Outra coisa surpreendente para o leitor que raciocina,
é a superioridade majestática com que ele se ergue acima de todos, como um
oráculo inapelável. Ninguém tem direito a objetar-lhe a mínima dificuldade. O
papado romano é o anticristo desde o momento em que ele é o antiLutero. A
palavra deste se identifica com a palavra de Deus. Por isto ele estabelece e
afirma suas teses mais temerárias como evidentes e indubitáveis, derrubando com
bofetadas as teorias mais fundamentadas e tidas como certas por milhares de
doutores. Que os Santos Padres e os Concílios e os mais exímios teólogos tenham
dito o contrário durante longos séculos e após discutir atentamente os
argumentos, que a Igreja inteira com todo o povo cristão tenha sentido
diversamente do professor de Wittenberg, que todos os Códigos Civis estabeleçam
uma praxe pouco conforme com a mente luterana, e, por fim, para usar uma
expressão hiperbólica de Lutero, que venha um anjo do céu para ensinar doutrina
diferente, nada disso o demove nem lhe provoca a mais leve sombra de dúvida,
pois todos se equivocaram, mas Lutero não pode errar, já que a palavra de Deus
não admite outra interpretação senão a de Frei Martinho Lutero. Tal atitude
mental não toca as raias do patológico?" (p. 483s).
Eis o que o Prof. Garcia-Villoslada apresenta a
respeito da figura religiosa de Lutero após prolongados estudos, que procuraram
ser tão imparciais quanto possível. Em grande parte, o brado revolucionário de
Lutero dentro da Igreja foi bem sucedido porque encontrou a nação alemã
preparada para se voltar abertamente contra Roma em virtude de tendências
nacionalistas e políticas existentes desde a Idade Média. O mesmo Prof.
Garcia-Villoslada descreve os acordes nacionalistas das teses de Lutero nos
seguintes termos:
4. 0 Brado à Nação Alemã
"A obra An den christlichen Adel deutscher
Nation (À Nobreza Cristã da Nação Alemã) foi por Lutero escrita em junho e
publicada em meados de agosto de 1520, quando o reformador esperava de um
momento para outro a excomunhão que viria de Roma e podia atingir seu protetor,
o príncipe Frederico da Saxônia. É um escrito em que o político e o social
prevalecem sobre o teológico. Redigido em alemão numa época de grande
excitação e com linguagem dura e áspera, esse livro não é dirigido aos doutos e
eruditos de qualquer nacionalidade como os anteriores escritos latinos, mas
aos compatriotas leigos de Lutero, começando pelo Imperador Maximiliano e pelos
príncipes, principalmente os cavaleiros germânicos, que eram os mais dispostos
a uma revolução social e religiosa. A obra, que bem revela o estado
efervescente do ânimo de Lutero no ano mais crítico de sua vida, assim começa
seu discurso aos nobres:
"Antes do mais, a graça e a força de Deus!
Altezas Sereníssimas, benigníssimos e diletos Senhores,
Não é por mera impertinência ou temeridade que um
pobre homem como eu ousa falar a vossas Altas Excelências. Os agravos e as
angústias que oprimem toda a Cristandade, especialmente os países germânicos,
movem a mim e a qualquer homem a clamar, pedindo ajuda, e agora me obrigam a gritar
e vociferar para que Deus conceda a alguém o ânimo e a vontade de estender sua
mão a esta miserável nação. Já foi tentado algo neste sentido por meio de
Concílios, mas a astúcia de uns poucos homens o impediu habilmente, e a
situação se tornou pior. Agora, com o favor de Deus, tenciono pôr em relevo
esta astúcia maligna, a fim de que, revelada, não possa mais causar dano ou
estorvo" (WA 6, 409ss).
A obra continua, procurando demolir a autoridade da
Igreja Católica.
No mesmo ano de 1520, Frederico da Saxônia enviou a
Lutero duas cartas de Roma que pediam a este príncipe procurasse colaborar para
trazer de volta à casa paterna o filho pródigo desgarrado. Lutero respondeu ao
capelão da corte, Jorge Spitlitz, o seguinte, com a data de 9/7/1520:
"Espero que o ilustríssimo príncipe responda de
tal maneira que essas cabeças romanas entendam que a Alemanha, por oculto juízo
de Deus, foi até agora oprimida não por causa de sua própria rudez, mas por
causa da rudez dos italianos" (Briefe II 134-136).
O nacionalismo de Lutero se tornava ainda mais
transparente quando no dia seguinte (10/7/1520) escrevia:
"Desejaria que o príncipe, em sua carta ao
Cardeal de São Jorge, insinue que, se, com seus anátemas, me rechaçarem de
Wittenberg, não conseguirão senão agravar a situação, visto que não na
Boêmia[2], mas no meio da Alemanha, existem aqueles que me pedem e querem
defender, à revelia de Roma, contra os raios desta... Da minha parte, a sorte
está lançada; desprezo tanto o furor como o favor de Roma. Não quero reconciliar-me
nem estar em comunhão com eles por toda a eternidade. Condenem e queimem meus
livros; eu condenarei e queimarei publicamente, enquanto tiver fogo na mão,
todo o Direito Pontifício, esse lamaçal de heresias... Como seria bom se o
príncipe acrescentasse que a doutrina luterana está tão propagada e arraigada
dentro e fora da Alemanha, que, se os romanos não a vencerem com a razão e a
Escritura, entendam que, com as violências e as censuras, só conseguirão fazer
da Alemanha uma segunda Boêmia! Eles já sabem que os germanos são ferozes por
sua própria índole (germanorum ferocia ingenia); são tais que, se
ninguém os convence pela Escritura e a razão, será perigoso para os Papas
irritálos, principalmente agora, quando as letras e as línguas reinam na Alemanha,
e até os seculares (leigos) começam a instruir-se. Portanto, ele, como príncipe
cristão, os admoeste e lhes dê a saber que não confiem em suas forças e não
deixem de dar razão do que fazem, a fim de que não suscitem contra si mesmos um
tumulto irremediável" (Briefe II 137).
Os alemães que em seus castelos prometiam defesa e
proteção a Lutero, eram os nobres cavaleiros Francisco de Sickingen e Silvestre
de Schaumberg, além do príncipe Frederico da Saxônia. A sombra da tutela destes
maiorais, podia Lutero desafiar qualquer autoridade" (pp. 466s).
Vejamos agora a repercussão da figura de Lutero na
posteridade.
5. O Herói Nacional
No fim da vida dizia Lutero aos seus amigos em tom
confidencial:
"Há mil anos, Deus a nenhum Bispo concedeu tão
grandes dons quanto a mim (in mille annis Deus nulli episcopo tanta dona
dedit ut mihi. Gloriandum est enfim de donis Dei)" (Tischreden 5494 V
189).
O mesmo foi repetido pelos discípulos do reformador,
que, aliás, dizia: "Ego propheta Germaniae (Eu sou o profeta da
Alemanha)" (MIA 41, 706). Quando ele morreu em 17/2/1546, elevou-se um
coro sinfônico de elogios ao mestre, embora já houvesse dissensões e rupturas
entre os seus seguidores. Na própria Universidade de Wittenberg, onde Lutero
ensinara, ocorria a infiltração de doutrinas calvinistas, favorecidas pelo
príncipe Augusto da Saxônia, que governou de 1553 a 1586.
1) A ortodoxia luterana ou a fidelidade a
Lutero se estendeu por todo o século XVII. Na Alemanha e fora da Alemanha foi
acatada. Em 1617, primeiro aniversário das 95 teses, foram cunhadas medalhas
festivas com dizeres de panegírico. Lutero foi celebrado como mestre. Suas
relíquias eram veneradas como as dos Santos medievais mais populares. O século
XVII, aliás, foi a época do estilo barroco, de tal modo que a piedade do povo
luterano tinha suas expressões exuberantes, como refere o historiador Boehmer
em Luther im Lichte 7:
"O povo contava maravilhas a respeito de suas
profecias, de seus milagres, de suas imagens; na casa de Lutero em Wittenberg,
se cortavam com grande zelo pequenas lascas dos postes de madeira como sendo
algo de poderoso, como nos países católicos se veneravam as relíquias de Santa
Apolônia para eliminar a dor de dentes".
Foram publicados livros com títulos cheios de adjetivos:
Thaumasiander (Taumaturgo) et Triumphator Lutherus
(Leipzig 1610), da autoria de M. Hoe;
Memoria Thaumasiandri Lutheri renovata (Estrasburgo 1661), de J. C. Dannhauer e J. F. von
der Strass; e em tradução portuguesa:
Delicioso aroma de rosas da vida imaculada e do nome
duradouro do fiel homem de Deus Dr. Lutero, de boa memória (1695), de P. Kawerau, que atribui a Lutero os
epítetos de Santo, Admirável, Taumaturgo, Taumasiandro, Herói. Em alemão: Lieblicher
Rosengeruch des unbefleckten Wandls und immer wãh rendeu Namen des weiland
teuren Mannes Gottes Dr. Luther;
Der wunderbare, wunderthãtige und wundersame Luther, de J. Kraus (Praga 1716).
O poeta F. G. Klopstock venerava "o santo Lutero,
que fez da língua pátria uma língua de anjos", tendo em vista a tradução
alemã da Bíblia feita pelo reformador.
2) O século XVIII ofuscou essa glória, pois foi
marcado pelo pietismo, que muito enfatizou práticas de piedade e devoção, sem
se preocupar com dogmas teológicos; mais do que a fé fiducial, os pietistas
pregavam a pureza de coração e as boas obras, reagindo contra a imoralidade
que campeava na Alemanha por efeito da guerra dos Trinta Anos e de dogmas mal
entendidos como o de "somente a fé". Lutero era apreciado por suas
canções religiosas e não por seus escritos polêmicos e dogmatizantes.
Juntamente com o pietismo, o Iluminismo ou Aufklãrung
(nacionalismo) contribuiu para empalidecer a figura de Lutero no século XVIII.
O Iluminismo não admitia a revelação cristã; negava o milagre, a inspiração
divina da Bíblia e o sobrenatural - o que equivalia a negar radicalmente
Lutero. Este, portanto, foi tido como doente mental e seus dogmas como
extravagâncias medievais. Frederico, rei da Prussia, considerava Lutero e
Calvino como "pobres diabos". G. E. Lessing o censurava por sua
intolerância religiosa e seu autoritarismo.
Os burgueses racionalistas reconheciam em Lutero um
modelo de virtudes domésticas e bom pai de família, obediente aos príncipes,
conviva humorista e amigo dos prazeres da vida. A respeito escreveu o poeta J.
E. Voss em sua ode An Vater Luther (1775), pondo nos lábios de
Lutero os seguintes versos, que se inspiram em Tischreden (Conversas de
Mesa) 3476 111 344:
"Quem não ama o vinho, o canto e a mulher,
Louco por toda a vida haverá de ser".
3) No século XIX floresceu o romantismo, que
reconhece os gênios, os homens originais e dá largas à intuição e à fantasia.
A estes traços associou-se um sentimento nacionalista e patriótico, que
restaurou a imagem de Lutero como herói nacional.
O filósofo J. G. Fichte, grande patriota e lutador
contra a invasão napoleônica, em 1845 propôs Lutero "como o homem
alemão", "o protótipo dos alemães" (Reden an die deutsche
Nation, disc. 6). Em 1817, terceiro aniversário das 95 teses, os
protestantes de modo geral se uniram na proclamação de Lutero como "o
herói germânico da fé".
Era fervoroso luterano "o chanceler de
Ferro" Otto von Bismarck, que fez a unificação da Alemanha após a vitória
sobre a Áustria (1866) e a França (1870), potências católicas. Com ele cresceu
enormemente o nacionalismo germânico e, conseqüentemente, o culto de Lutero;
muitos governantes e escritores tendiam a identificar sempre mais Lutero com o
espírito, o caráter e a religiosidade do povo alemão.
4) Todavia o racionalismo no século XX
prevaleceu, ameaçando apagar por completo a figura de Lutero, pois negava a
inspiração bíblica, o pecado original e a Redenção efetuada por Cristo.
O reformador, porém, reviveu na mente germânica por
ocasião da primeira guerra mundial (1914-18): estes anos de tragédia nacional levaram
a apelar para "Lutero germânico", "Generalíssimo da
guerra", "o maior dos alemães". Ser antiluterano equivaleria a
ser antigermânico e viceversa. Em 1917 R. Seeberg escreveu que o luteranismo
era a interpretação germânica do Cristianismo. Durante a mesma guerra o
Imperador alemão Guilherme II via em Lutero o gênio unificador do seu povo e da
sua raça.
Hoje em dia Lutero continua sendo exaltado por sua genialidade alemã; no plano
teológico, porém, percebe-se que suas teses foram, em parte, inspiradas pelas
circunstâncias em que ele pessoalmente (angustiado por não saber se era
predestinado ou não) e a nação alemã se achavam no século XVI. O diálogo entre
luteranos e católicos tende a superar as divergências e favorecer a aproximação
dos irmãos separados. Queira Deus inspirar os dialogantes!
___
NOTAS:
[1] "Que
dizer dos que - com humor ou inconsciência - falam de canonizar Martinho
Lutero? Lutero mesmo se levantaria do túmulo para protestar furiosamente contra
tamanha ‘abominação e idolatria’. Que é que se canonizaria nele? Suas obras e
virtudes, como as dos outros Santos? Precisamente essa santidade das obras (Werkheiligkeit)
é que ele esteve continuamente amaldiçoando... Ao hipotético Papa que tentasse
inscrevê-lo no catálogo dos Santos, ele replicaria sem hesitar: 'Prefiro,
querido papa, o maior dos ultrajes diabólicos. - Mache nur micte zum heiligen,
lieber Papst, umb meiner Werk willen, der Teufel beschiesse mich" (WA
41, 165). Esta frase, ele a proferiu num sermão de 29 de maio de 1535. Nem
mesmo se pode pensar na hipótese de que um Papa venha a anular o decreto de
excomunhão pelo qual Leão X o declarou herege".
O redator desta revista observa que a retirada da
excomunhão significaria a volta de Lutero à comunhão com a Igreja peregrina na
terra. Ora Lutero já não ó peregrino; pertence a outra jurisdição;
Deus o tem sob o seu santo juizo.
[2] Na Boêmia, João Hus (1372-1415) havia levantado
a bandeira do nacionalismo anti-romano. (N.d.R.).