Protestantismo:
visão panorâmica
Dom Estevão
Tavares Bettencourt, OSB
(Revista Pergunte e responderemos, PR 190 1975)
Em síntese: O artigo tenta apresentar sumariamente cada
Igreja ou seita protestante dentre as mais importantes no mundo ou as mais
atuantes no Brasil.
É básica, no caso, a distinção entre
"Igreja" e "seita". "Igreja" designa as
denominações protestantes que conservaram ao menos algumas das grandes linhas
do patrimônio tradicional cristão. "Seita", ao contrário, significa
uma reforma da Reforma, que se distancia cada vez mais da linha central do
Cristianismo; tal grupo tem geralmente índole pessimista, julgando estar o mundo
inteiro corrupto - o que redunda em agressividade e polêmica contra a Igreja e,
às vezes, contra as próprias denominações protestantes.
Na prática, não é fácil distinguir, em certos
casos, Igreja e seita. A título de esquema de trabalho, recenseamos entre as
Igrejas: o Luteranismo (séc. XVI), o Calvinismo-zvinglianismo
(séc. XVI) e o Anglicanismo (séc. XVI); após estas Igrejas clássicas dentro do
Protestantismo, vêm a Igreja Presbiteriana (séc. XVI/XVII), a Congregacional (séc. XVII), a Batista (séc. XVII), a
Metodista (séc. XVIII). Dentre as seitas, enumeramos os Quakers
(séc. XVII), os Mórmons (séc. XIX), a Ciência Cristã (séc. XIX), o Exército da
Salvação (séc. XIX), os Adventistas (séc. XIX), as Testemunhas de Jeová (séc.
XX), os Amigos do Homem (séc. XX) e os Pentecostais (séc. XX).
Nesse conjunto distinguem-se correntes: a da
estruturação da Igreja (episcopalismo,
presbiterianismo, congregacionalismo); a do Pietismo (Metodismo, Pentecostalismo, Exército da
Salvação); a do Adventismo (Adventistas, Testemunhas
de Jeová, Amigos do Homem), que, é também corrente de volta ao Antigo
Testamento; a dos "entusiastas" mais liberais no tocante à doutrina
dissidente (Mórmons, Ciência Cristã, Quakers).
Em suma, o panorama deste artigo foi concebido como instrumento de
trabalho, que poderá ser completado e aperfeiçoado.
***
Comentário: Não é raro na vida contemporânea ouvir falar de
denominações evangélicas como a batista, a metodista, a episcopal, a
adventista, a pentecostal... Não é fácil situar de imediato tal ou tal
designação no conjunto dos grupos religiosos cristãos. Eis porque, de maneira
serena e objetiva, nos propomos atender a uma solicitação feita a PR, no
sentido de elaborarmos um «catálogo» das denominações evangélicas hoje mais
esparsas no mundo ou mais freqüentes no Brasil. A tarefa, por certo, é árdua,
mas pode tornar-se útil ao menos como ponto de partida para ulterior e melhor
elaboração do catálogo.
1. Duas observações preliminares
1. Os termos «protestante» e «evangélico» costumam ser utilizados como
sinônimos. A palavra «protestantismo» tem sua origem no fato seguinte: em 1529,
durante a campanha de reforma luterana, a Dieta de Espira (Alemanha) resolveu
que não se façam mudanças religiosas na Alemanha até a reunião de um Concílio
ecumênico; por conseguinte, católicos e luteranos ficariam nas posições até
então assumidas. Este decreto provocou o protesto de seis príncipes e quatorze
cidades imperiais aos 19 de abril de 1527. Daí o nome de «protestantes» que
lhes foi dado. O substantivo «protestantismo» só entrou em uso no séc. XVIII,
passando a designar todos os cristãos reformados que se opõem a Roma. Todavia
tal nome geralmente não é aceito por aqueles cristãos reformados que não
desejam acentuar suas divergências em relação a Roma, como, por exemplo, os
anglicanos. Os Estados protestatários da Dieta de Ausgburgo designaram-se a si mesmos como «Estados
evangélicos» ou «Estados cristãos».
Em suma, hoje a palavra «Protestantismo» designa o conjunto das
confissões cristãs que de algum modo se prendem à Reforma empreendida no
continente europeu por Lutero, Calvino, Zvínglio..,
no séc. XVI.
2. A fim de esboçar o panorama dessas confissões, faz-se mister, antes
do mais, distinguir entre Igrejas (ou, melhor, comunidades eclesiais) [1] e seitas.
Por «Igrejas protestantes» entendem-se os blocos dissidentes do
Catolicismo que conservaram várias das grandes linhas do autêntico
Cristianismo; são o Luteranismo, o Calvinismo-zvinglianismo, o Anglicanismo e
denominações próximas.
Por «seitas protestantes» entendem-se «dissidências de dissidências»
que se afastaram de tal modo da linha central do Cristianismo que às vezes já
não podem ser ditas «cristãs». Nutrem espírito pessimista, às vezes polêmico e
fortemente proselitista.
Na realidade concreta, não é fácil dizer se tal ou tal denominação é
propriamente Igreja ou seita. O espirito das seitas
se encontra também em certas «Igrejas protestantes», como elementos
tradicionais se acham em certas seitas (a estima dos carismas do Espírito no
pentecostalismo seria autêntica se não estivesse associada a divagações da
fantasia e ao cultivo de fenômenos que muitas vezes são meramente psicológicos;
cf. PR 172/1974, pp. 155-165).
Eis o quadro que servirá de esquema de trabalho a este panorama:
Igrejas protestantes:
Luteranismo
Reforma calvinista-zvingliana
Anglicanismo (Igreja ponte?)
Presbiteranismo
Congregacionalismo
Metodismo
Igreja Batista
Seitas:
Quakers ou Sociedade dos Amigos
Mórmons
Exército da Salvação
«Christian Science»
(Ciência Cristã)
Adventistas
Testemunhas de Jeová
Amigos do Homem
Pentecostais
Diante deste quadro pode-se dizer que somente as três denominações
iniciais são «reformas» da Igreja Católica: a Luterana, a Calvinista-zvingliana,
a Anglicana. As demais já são «reformas da reforma» em primeira, segunda ou
terceira instância, como se verá abaixo.
Examinemos esquematicamente a origem e as características de cada uma
dessas denominações.
2. Visão panorâmica: Igrejas
Começaremos pelas Igrejas para abordar, a seguir, as seitas protestantes.
2.1. Luteranismo
Origem: Em 1517, Martinho Lutero (1483-1546) em Wittenberg proclamou 95 teses referentes às indulgências e
a justificação.
Doutrina: Baseia-se em alguns artigos decisivos:
- a Bíblia, única fonte da doutrina da fé. Rejeita-se a Tradição.
- Somente a fé justifica, sem as obras. Fé entende-se principalmente em
sentido de confiança, em oposição, de certo modo, à razão (o antiintelectualismo luterano se
explica como reação à Escolástica medieval, que se tornara decadente no séc.
XV).
- Somente a graça torna o homem aceito a Deus. A graça encobre o pecado,
que continua residindo dentro do homem.
- Só existe o sacerdócio comum dos fiéis; não se reconhece, pois, o
sacerdócio ministerial ou hierárquico.
- O homem não é dotado de livre arbítrio, mas de servo
arbítrio, segundo interpretação dada a Rm 7,15.
- A Igreja do Credo é a comunhão espiritual e invisível, de todos os
fiéis que vivem realmente o Evangelho. A Igreja visível, organizada, tem sua
razão de ser, mas não é de origem divina. Por conseguinte, a Igreja visível não
é sacramento, nem é distribuidora da graça, mas é unicamente uma comunhão de
homens que se reúnem em torno da Palavra.
Livros básicos: Os três símbolos de fé da antiga Igreja (Símbolo
apostólico, Símbolo niceno-constantinopolitano, Símbolo
atanasiano), Pequeno e Grande Catecismo de Lutero
(1529), Confissão de Augsburgo (1530) e Apologia da
Confissão de Augsburgo, Artigos de Schmalkalde (1536), Fórmula de Concórdia (1577), que
reconciliou a escola teológica
luterana de Weimar e Jena
com a de Wittenberg.
Organização: Os luteranos, em grande parte, acham-se hoje em
dia reunidos em comunidades ou Igrejas que constituem a Federação Luterana
Mundial, com sede em Genebra. Além disto, existem Igrejas Luteranas livres, que
não participam da Ceia do Senhor celebrada pela Federação Luterana Mundial,
pois julgam que esta não é suficientemente ortodoxa; existem Igrejas Luteranas
livres na Alemanha, no Missouri (U.S.A.) e na
Austrália.
O Luteranismo conserva a hierarquia episcopal.
2.2. Igreja Calvinista-zvingliana
Reformada
Origem: João Calvino (1509-1564), tendo nascido de família
católica, na juventude sofreu influências luteranas, em conseqüência das quais
«se converteu» em 1533-1534. - Em 1541 estabeleceu-se definitivamente em
Genebra e passou a organizar a «Igreja Reformada» com meticulosidade severa.
Uurico Zvínglio
(1481-1531) empreendeu a reforma religiosa em Zurique, seguindo as idéias de
Lutero e Calvino. Morreu na batalha de Kappel, em que
os cantões de tendência reformada lutavam contra os católicos. Sucedeu-lhe Bullinger como chefe religioso.
Em 1549 Bullinger e Calvino se uniram numa só
«Igreja», tendo por base o «Consentimento Tigurino»,
que fazia concessões ao Calvinismo no tocante à doutrina sobre a Ceia do
Senhor.
Doutrina: Calvino é mais racional do que Lutero. Adota os
princípios fundamentais do reformador alemão, acrescentando-lhes o «Soli Deo gloria» (Glória tão
somente a Deus). Este princípio exprimia a consciência que Calvino tinha do
Absoluto de Deus,... consciência que o levava a afirmar que Deus predestina os
homens ao inferno (doutrina, aliás, que os calvinistas hoje não mais
professam).
Livros fundamentais: «Instituição da Religião
Cristã» de Calvino (1536-1541); contém oitenta capítulos em quatro livros,
constituindo verdadeira «Suma», em que se propõe o contraste entre a Reforma e
a Igreja Católica.
Catecismo de Heidelberg (1541), Confissão de
Fé de la Rochelle (1559),
Confissão Helvética de Bullinger (1564).
Organização: A Igreja Calvinista não tem bispos, mas é
governada por presbíteros, que constituem Conselhos locais, distritais, sinodais...
O Calvinismo hoje é representado na França e na Holanda pela Igreja
Reformada; na Grã-Bretanha assumiu a forma do presbiterianismo (ver adiante).
Encontra-se também na Holanda, na Hungria e na América (muitas vezes, como
presbiterianismo).
A organização eclesiástica zvingliana,
consolidada por Bullinger, continuou na Suíça alemã
(sem bispos).
2.3. Anglicanüuno ou Episcopalismo
As opiniões sobre o Anglicanismo divergem tanto fora como dentro da
própria Comunhão Anglicana.
Os mais conservadores dos anglicanos (ditos «anglo-católicos») declaram
que a Igreja da Inglaterra nunca apostatou da fé na Igreja indivisa de Cristo
apresentada na S. Escritura e conservada pela Tradição dos Padres e dos
Concílios Ecumênicos («Declaration of Faith», 1922).
Todavia os anglicanos protestantizantes
afirmam que o Anglicanismo constitui uma Igreja Reformada.
Oficialmente, a Igreja Anglicana pretende ser intermediária entre o
Catolicismo e o Protestantismo. Na realidade, porém, o Anglicanismo pode ser
tido como forma de
Protestantismo, que tem suas modalidades próprias.
Origem: Em 1531, Henrique VIII (1491-1547) fez-se reconhecer
pelo Parlamento como «Chefe da Igreja Inglesa». Pleiteava o divórcio de
Catarina de Aragão, que Roma não lhe concedeu.
Em 1534, o Parlamento votou a «Lei da Supremacia», pela qual o rei era
«o único e supremo chefe da Igreja da Inglaterra».
Em 1549, sob Eduardo VI deu-se a publicação do «Prayer
Books».
Em 1562, foram promulgados os «Trinta e nove Artigos» de fé da Igreja da
Inglaterra.
Doutrina: O Anglicanismo adota princípios básicos do
Protestantismo, entre os quais a Escritura como única norma de fé. A «High Churchs (anglo-católicos)
conserva ainda grande estima pela Tradição (inclusive pela Liturgia), ao passo
que a «Low Church» (a Baixa
Igreja) sofreu forte influência protestante. A Conferencia de Lambeth em 1920, como órgão central do Anglicanismo,
promulgou o quadrilátero de Lambeth, que equivale a
uma declaração de princípios: Somente a Escritura como norma de fé, fidelidade
ao Símbolo dos Apóstolos e ao de Nicéia, aceitação do Batismo e da Eucaristia
apenas, valor do episcopado e da sucessão apostólica.
De modo especial, a influência calvinista fez-se sentir cada vez mais
sobre o Anglicanismo. As relações entre a Igreja Católica e os anglicanos se
tornaram também cada vez mais alvissareiras nos últimos tempos.
Organização: Em vez de Igreja Anglicana, há quem fale de
«Comunhão Anglicana». Esta significa o vinculo que existe entre comunidades
autônomas esparsas pelos cinco continentes, tendo sua origem na Inglaterra; o
grau de jurisdição que essas comunidades exercem umas sobre as outras, é, por
vezes, meramente nominal.
A Comunhão Anglicana tem seus bispos (daí chamar-se também «episcopaliana»). Todavia a Igreja Católica não reconhece a
validade das ordenações anglicanas, pois estas dependem todas de Mateus Parker
(1559), que reiniciou a hierarquia extinta na Inglaterra em condições
discutíveis e dúbias; cf. PR 187/1975, pp. 294-301.
Foi dos grupos reformados da Inglaterra que procedeu a maioria das
divisões e subdivisões (não conformistas, «dissenters»)
do Protestantismo, como se verá abaixo.
2.4. Presbiterianismo
Origem: A Escócia teve como reformador John Knox (1505-1572), que estudara em Genebra e, imbuído de
princípios calvinistas, introduziu em sua pátria as doutrinas e a organização
do Calvinismo (1539). Aboliu, portanto, a função dos bispos que ainda estava
vigente, e estabeleceu uma constituição presbiteriana (com pastores,
presbíteros, diáconos).
Na Inglaterra mesma, o Ato de Uniformidade em 1559 impôs uma Liturgia
anglicana unitária. Contra esta medida, insurgiram-se grupos de anglicanos, que
preferiam a simplicidade do culto calvinista. Passaram a fazer oposição à
religião oficial, propugnando uma Igreja «pura de fermento papista» e «conforme
a Escritura». Duramente perseguidos, desde 1567 começaram a organizar igrejas
próprias de tipo calvinista, presbiteriano. Donde os nomes de «puritanos» («dissenters») e «presbiterianos» que lhes foram dados.
Os presbiterianos puritanos começaram em 1617 a emigrar para os EE.UU.,
onde se foram espalhando mais e mais.
Organização: Os princípios da teologia presbiteriana são os do
Calvinismo. O que caracteriza tal denominação, é a sua organização
eclesiástica. Os presbiterianos foram-se dividindo em alas independentes umas
das outras, estando várias delas, desde 1877, congregadas na Aliança Reformada
Mundial (antiga «Aliança Mundial das Igrejas Presbiterianas»), com sede em
Genebra. As divisões se devem a pontos de vista fundamentalistas (a Bíblia
interpretada ao pé da letra) ou liberais.
2.5. Congregacionalismo
Origem: Os puritanos ingleses mais radicais vieram a
rejeitar a constituição presbiterial e sinodal da
Igreja, afirmando a plena autonomia de cada comunidade (ou congregação) de
crentes.
Já em 1580 o clérigo anglicano Robert Browne pregava a segregação de um
grupo de cristãos fervorosos, que ficariam independentes de qualquer imposição
doutrinária ou disciplinar. Seriam todos iguais entre si e livres na
interpretação da Bíblia. O sistema de Browne era fortemente individualista.
Browne foi preso, e voltou finalmente a seu lugar na Igreja Anglicana. Mas as
suas idéias foram reassumidas por John Greenwood,
Henry Barrow e Francis Johnson, que em 1592 fundaram
uma comunidade de independentes congregacionalistas.
Estes foram perseguidos; obrigados a deixar o país, estabeleceram-se na Holanda
em 1608; aí ficaram doze anos, ao fim dos quais um grupo de cem congregacionalistas embarcou para os EE.UU., na qualidade
de «pilgrim fathers»; o
navio «Mayflower» em 1620 os deixou no porto de
Plymouth. Ulteriormente perseguidos na Inglaterra, os presbiterianos e congregacionalistas emigraram entre 1620 e 1640 para a América
do Norte.
Em 1833 deu-se o cisma entre congregacionalistas
unitários e trinitários ortodoxos.
Com o tempo, a tendência a se unirem em Federação fez-se notar entre os congregacionalistas, apesar da sua índole fortemente
individual. Em 1891, fundou-se o «International Congregational
Council». Em 1957 as «Congregational Christian
Churches» e a «Evangelical and Reformed Church» se uniram
na «United Church of Christ».
Doutrina: Os congregacionalistas
professam os grandes princípios do Calvinismo, do qual se diferenciam
unicamente por sua organização eclesiástica. Esta supõe a autonomia de cada
congregação local para se governar mediante seus representantes eleitos.
2.6. Metodismo
Origem: Prende-se ao movimento pietista
protestante, que percorreu a Europa no séc. XVII, sob a inspiração do luterano
Jacob Spener (1635-1705), alsaciano. Tendia a piedade
afetada, nutrida por rigorismo moral; incutia a leitura diária da Bíblia, a
oração pelos inimigos em lugar de discussões; procurava promover a salvação do
próximo, inclusive a dos pagãos nas terras do Novo Mundo. Dos pietistas é que procederam os missionários protestantes de
povos longínquos.
No séc. XVIII, o Anglicanismo passava por uma fase de apatia e
indiferença; o relaxamento moral e a filosofia deísta
o minavam. Conscientes disto, os irmãos anglicanos John (1703-1791) e Charles
(1707-1788) Wesley fundaram em 1729 uma associação de estudantes, chamada «Clube
Santo» na cidade de Oxford, com o intuito de cultivar a virtude e a devoção:
seguiram sério programa de orações, jejuns, boas obras, comunhões freqüentes,
vida regrada...; por isto receberam dos seus condiscípulos a alcunha irônica
de «metodistas».
Aos irmãos Wesley, desejosos de pregar, as autoridades anglicanas
recusaram o púlpito e a comunhão. Em conseqüência, os irmãos fundaram capelas
para a sua «Sociedade dos Renovados». Aos poucos, os metodistas se separaram
oficialmente da Igreja oficial da Inglaterra.
Em 1735, João Wesley partiu para os EE.UU. a fim de pregar o Evangelho
aos peles-vermelhas da Geórgia; mas só conseguiu tornar-se pastor de um grupo
de colonos, que o acharam muito rigoroso. Wesley então voltou para a
Inglaterra, onde em quarenta anos percorreu a cavalo 400.000 km, chamando à
conversão milhares de ouvintes. O metodismo se propagou rapidamente para fora
da Europa em missões diversas.
Doutrina: Segue os 39 Artigos do Anglicanismo, reduzidos a
25 por John Wesley. Acentua a ação imediata do Espírito Santo na conversão, o
contraste do cristão fervoroso com o mundano. Conserva a função dos bispos.
O Metodismo conheceu várias cisões, que hoje em dia vão sendo superadas.
Assim, pouco após a morte -de João Wesley, separaram-se os «metodistas novos».
Em 1810, os «metodistas primitivos». Em 1830, os «metodistas protestantes». Em
1836, originaram-se as «United Methodist
Free Churches». Nos decênios
seguintes registraram-se novas divisões, perfazendo um total de vinte
denominações metodistas.
Finalmente em 1932 a grande maioria dos metodistas ingleses uniu-se na «Methodist Church».
Os metodistas exercem intensa atividade no campo social caritativo e nas
missões.
2.7. Anabatistas e
Batistas
Origem: Os batistas dizem-se oriundos de São João Batista
e, por isto, não aceitam ser enumerados entre os protestantes. Na verdade,
porém, deve-se notar que, embora tenha havido na história da Igreja alguns
surtos de cristãos que só queriam batizar adultos e por imersão, os batistas
não estão historicamente e doutrinariamente filiados a tais grupos, mas, sim,
ao movimento anabatista do séc. XVI.
a) Os anabatistas, chefiados por Tomás Münzer, julgavam que Lutero não era suficientemente
radical. Por isto apregoavam sua reforma própria, cujo sinal seria o batismo
exclusivo de adultos; rebatizavam, pois, os fiéis que lhes aderiam, merecendo
assim o nome de «anabatistas» (aná
= de novo, em grego). Tal movimento foi violentamente combatido por Lutero e Zvínglio, de modo que seus membros se dispersaram pela
Europa, a partir de 1525.
Todavia o movimento anabatista ramificou-se em
diversas denominações: Menonitas (de Meno Simons, +1559), Irmãos Hutterianos (de Tiago Hutter),
Igreja dos Irmãos, Igreja dos Irmãos Evangélicos Unidos e Igreja Batista.
b) O clérigo anglicano John Sngyth (+ 1617)
não se conformava com a branda reforma anglicana... Por isto em 1604 fundou
uma comunidade dissidente em Gainsborough (Inglaterra).
Todavia foi obrigado a exilar-se com os seus companheiros na Holanda, viveu em
casa de um padeiro menonita, que o convenceu de que
era inválido o batismo ministrado às crianças. Smyth
então conferiu a si mesmo um segundo batismo, de cujo valor, porém, começou a
duvidar em breve. Em conseqüência, seus companheiros, por eles anteriormente
convencidos da tese anabatista, o expulsaram da
comunidade! Em 1612, um grupo de seus discípulos voltou à Inglaterra e lá fundou
a primeira igreja dita batista (não mais anabatista).
Essa comunidade se foi estendendo, enquanto seus membros recebiam da Holanda
teses de teologia calvinista.
Emigraram também para os Estados Unidos a fim de escapar à perseguição.
Hoje existem cerca de vinte seitas batistas, que estão unidas na «Aliança
Batista Mundial»; entre outros, contam-se os batistas calvinistas, os batistas congregacionalistas, os batistas primitivos...
Doutrina: Os batistas professam a teologia calvinista, com
a diferença, porém, de que só batizam adultos, e apenas por imersão.
Cada comunidade batista é independente. O poder reside na assembléia dos
fiéis, que elege os seus pastores e diáconos.
Ulteriores esclarecimentos sobre os batistas se encontram em PR 7/1957,
pp. 38-41; 3/1958, pp. 106-112; 6/1958, pp. 229-235.
Passemos agora ao exame de ramificações protestantes ainda mais recentes
e características.
3. Visão panorâmica: seitas
Distinguiremos oito principais seitas derivadas das Igrejas
protestantes.
3.1. Os «Quakers» (ou
Sociedade dos Amigos)
Origem: O anglicano John Fox (1624-1691) aderiu por certo tempo aos
batistas. Depois, convenceu-se de que recebera uma iluminação especial e, a
partir de 1649, começou a percorrer a Inglaterra vestido como profeta e
reunindo seus seguidores numa «Sociedade de Amigos» ou de Filhos da Luz». O
povo lhes deu o nome de «quakers», visto que falavam
e oravam em estado convulsivo (to quake =
tremer, sacudir-se).
Fox foi aprisionado oito vezes. Conseguiu, porém, ir aos Estados Unidos
em viagem missionária (1670-1673). William Penn (+ 1718) lá fundou em 1682 o
Estado «quaker» que dele tem o nome (Pensilvânia).
Doutrina: A princípio, os «quakers»
não tinham dogmas nem sacramentos; o elemento decisivo seria a «luz interior»
dada diretamente por Cristo a cada crente. Não admitiam igrejas constituídas,
nem ministros ou pastores, já que julgavam estar no fim dos tempos. Até hoje
pregam moral severa; rejeitam toda espécie de divertimentos, a pena de morte,
o serviço militar, os juramentos, os dízimos... O culto é realizado sem
estrutura definida, de acordo com a inspiração dos participantes.
Robert Barclay em 1676 procurou dar à seita
idéias doutrinárias sistemáticas. Esta tendência aos poucos foi provocando
divisões entre os «quakers», de modo que hoje existem
os «quakers molhados», os «combatentes», os «livres»,
etc.
Influência: Foi ampla. Empenharam-se pela abolição da
escravatura, pela reforma das prisões, pela reorganização das instituições
caritativas, pela igualdade política de homens e mulheres, etc. Desde 1780
libertavam seus escravos e ajudavam os outros a fugir.
Tornaram-se enérgicos homens de negócios, que no comércio impunham o
preço fixo. Propugnaram a separação da Igreja e do Estado e exerceram notável
influência na elaboração da Constituição dos Estados Unidos.
3.2. Os Mórmons ou Igreja de Jesus Cristo dos
Santos do Último Dia
Origem: O fundador da seita é Joseph Smith, nascido nos
EE.UU., de família presbiteriana, em 1805. Morreu em 1844, linchado pela
multidão.
Declarou ter recebido revelações entre 1820 e 1829, mediante as quais
pôde descobrir e traduzir o «livro de Mórmon», que se tornou para Joseph Smith
um apêndice à Bíblia. O livro continha a história de duas tribos «de Israel»:
os jareditas (cf. Gn 5,18)
e os lamanitas (cf. Gn
4,19-24). Desapareceram da Bíblia, porque, conforme tal «revelação», cedo
demais (após a dispersão da Torre de Babel) emigraram para a América. Os lamanitas (maus, de pele bronzeada) deram origem à raça
índia; os jareditas (bons e de pele branca) foram
exterminados pelos outros. Felizmente, antes de morrer, o seu rei Mórmon pôde
escrever algumas crônicas em placas de ouro, que ele enterrou e que Joseph
Smith em 1827 encontrou no topo de uma colina por indicação do anjo Moroni. O
texto estava escrito em língua estranha, que Smith chamou «egípcio reformado».
O próprio Smith não sabia decifrá-lo, mas Moroni lhe deu duas pedras mágicas
com as quais Smith fez a tradução, que estava terminada em 1829. A ninguém era
lícito ver o livro, sob pena de morrer. Para traduzi-lo, J. Smith se colocava
atrás de uma cortina com a cabeça dentro do seu chapéu, e ditava a versão ao
secretário, que era o rude camponês Martin Harris. Um belo dia, o anjo Moroni
retirou definitivamente o livro.
Os mórmons sofreram o ódio popular; peregrinaram por dois anos no
deserto, e finalmente estabeleceram-se na região de Utah,
às margens do Lago Salgado. Aí seu novo chefe, o carpinteiro Brigham Young (+ 1877), fundou uma teocracia. O Congresso
norte-americano criou para a seita o território de Utah,
do qual foi nomeado governador B. Young (1850).
Em 1812 declararam obrigatória a poligamia. Esta, porém, foi condenada
pelo governo da União, que desde 1882 a combateu energicamente. Hoje em dia os
mórmons já não a praticam.
Doutrina: Como se vê, os mórmons já não podem ser considerados
uma seita cristã propriamente dita, pois têm sua «revelação própria». Propõem
teses assaz imaginosas, das quais se segue até mesmo o racismo. Distinguem-se
pelo seu espírito proselitista, que lhes garantiu
extraordinária expansão entre os «gentios» (cristãos e não cristãos).
Ulteriores indicações sobre os mórmons encontram-se em PR 67/1963, pp.
297-304.
3.3. Exército da Salvação
Origem: Deve-se a William Booth
(1829-1912) e à sua consorte Catarina (+ 1890).
Booth foi pastor metodista. Mas em
1861 rompeu com a sua Igreja. Em 1865 fundou a «Missão Cristã», a qual se
transformou em Exército pacífico, que visava ao atendimento das populações mais
desamparadas. Os «soldados» e «oficiais» de Booth
foram, a princípio, multados e encarcerados por causa das suas manifestações
ruidosas, mas em breve se sentiram reconhecidos como cristãos cheios de fé e
caridade.
O Exército da Salvação (de início, chamado «Exército Aleluia) » sabe que
«é difícil salvar um homem que tenha os pés molhados» (Booth).
Por isto apregoa a trilogia: «Sopa, sabão, salvação», e organiza obras de
assistência material.
Doutrina e organização: O Exército da Salvação não pretende
ter doutrina original no selo do Protestantismo nem se apresenta como Igreja.
Professa a justificação pela fé nas Escrituras, a necessidade de
conversão experimentada pessoalmente, o dever do testemunho missionário.
Liga-se à corrente pietista; proclama a alegria que
provém da abnegação e da certeza de poder colaborar na transformação de todo
homem. Insiste fortemente no testemunho pessoal a ser dado ao operário, ao
vendedor de loja, ao vadio da rua, ao freqüentador de teatro e do «music-hall» (Catarina Booth).
Os discípulos de Booth organizam-se segundo o
modelo do exército inglês, de modo que todos têm um título militar: general,
coronel, comandante, capitão, auxiliar... Esses oficiais são, em grande parte,
mulheres. Apresentam-se severamente disciplinados, inclusive pelo uso de
uniforme.
Trazem bandeira azul (santidade), vermelha (salvação pelo sangue de
Cristo), com estrela de ouro (o Espírito Santo). A sua divisa é «Sangue e Fogo»
(o sangue de Cristo e o fogo do Espírito Santo).
O culto varia de região a região. Fazem reuniões ao ar livre com cantos,
bandas de música, exortações; movem a sensibilidade e o afeto dos ouvintes,
proferindo testemunhos de conversão e confissões públicas.
O Exército da Salvação difundiu-se largamente, máxime nos ambientes
populares, atingindo até os leprosos da índia e os condenados a trabalhos
forçados na Guiânia.
3.4. Ciência Cristã (« Chistian
Sience»)
Origem: A fundadora da seita é a Sra. Mary Baker (1821-1910),
nascida nos EE.UU. de família congregacionalista. Casou-se
com o Coronel Glover em 1843; tendo enviuvado, esposou o Dr. Daniel Patterson
em 1853, de quem se divorciou para casar-se com Mr. Eddy.
Em 1866, a Sra. Mary foi «milagrosamente» curada: caíra sobre o gelo em
Lynn (Massasuchetts), e foi isenta de seus ferimentos
depois que o médico a declarara incurável! Em conseqüência, começou a tecer
considerações filosófico-religiosas, que se encontram no volume «Science and Health»
(Ciência e Saúde), datado de 1875: somente o espírito, não a matéria, tem
realidade; toda doença, portanto, pode ser curada por um remédio espiritual, ou
seja, a oração. O pecado é resultado de um erro de pensamento; deve ser
superado mediante o reto conhecimento ou a reforma do entendimento. Esta se
obtém pelo tratamento ou pela «oração em Ciência Cristã», realizada pelos(as)
«praticantes» da Ciência Cristã. Cristo foi um grande terapeuta espiritual;
trouxe uma mensagem, que se tornou desconhecida, mas que a Sra. Mary Baker
redescobriu.
A fundadora da seita transmitia seus ensinamentos concernentes aos
métodos da Ciência Cristã, cobrando trezentos dólares por sete lições.
Doutrina: A Ciência Cristã também pão merece o título de
cristã, pois reduz o Cristianismo a uma filosofia voltada para as curas de
doenças. Chega mesmo a professar o panteísmo, como se Deus fosse tudo em tudo.
O cientismo tem sua sede central em Boston (U.
S. A.), onde reside o Conselho dos Dirigentes da Igreja; este se encarrega de
aprovar os «praticantes», professores e enfermeiros que trabalham em nome da
Ciência Cristã.
3.5. Adventistas
Origem: William Miller (1782-1849), de confissão batista,
calculou, na base de textos bíblicos (cf. Dn 8,5-11),
que a segunda vinda de Cristo se daria entre 21 de março de 1843 e 21 de março
de 1844; o Senhor iniciaria então um reinado de mil anos sobre a terra, com a
exaltação dos bons e a condenação dos maus.
Todavia, tendo falhado o cálculo, S.S. Snow o
refez, predizendo a volta de Cristo para 22 de outubro de 1844. Já que também
esta previsão não se cumpriu, o entusiasmo de muitos discípulos arrefeceu.
Contudo aos 25/IV/1845 Miller resolveu fundar, com os seguidores fiéis, uma
Igreja própria, que professaria (sem indicar data) a iminência da segunda
vinda de Cristo.
A Sra. Ellen White, que em 1846 se casou com o pregador adventista James
White, resolveu reforçar a obra de Miller. Em conseqüência de «revelações»,
afirmava que aos 22/X/1844 Cristo começara a examinar o valor dos homens
defuntos, aprovando ou reprovando cada um deles. Quando essa obra gigantesca
acabasse, os vivos passariam por semelhante julgamento e o fim do mundo
estaria próximo. A Sra. White também incutiu vivamente a observância do
sábado.
Assim se firmou a denominação adventista do Sétimo Dia.
Doutrina: Os adventistas professam as crenças fundamentais
das igrejas batistas, acrescentando-lhes elementos próprios, como são:
A morte física introduz as almas num estado de sono, do qual despertarão
no dia da ressurreição; então os bons ressuscitarão e reinarão mil anos com
Cristo; os maus só ressuscitarão após o reinado de mil anos para ser
aniquilados juntamente com Satanás.
Os adventistas se interessam muito pela saúde, pois Ellen White recebeu
«revelações» a respeito do corpo como templo do Espírito Santo. A abstinência
de carne e de fumo é geralmente praticada pelos adventistas. Ao difundirem
suas receitas de higiene, estes costumam apregoar o anúncio de que o fim do
mundo está próximo.
Em suma, o adventismo assinala, dentro da
história do Cristianismo, um estranho retorno a proposições do Antigo
Testamento, proposições que o Novo Testamento elucidou e reformulou (sono das
almas após a morte, reinado milenar de Cristo, restauração do paraíso terrestre
materialmente entendido, observância do sábado, proibição de certos alimentos
...)
Esta tendência ao Antigo Testamento se prolongaria na seita que abaixo
consideraremos.
- Sobre os Adventistas vejam-se ulteriores dados em PR 182/1975, pp.
70-80.
3.6. Testemunhas de Jeová
Origem: O fundador é Charles-Taze
Russel (1852-1916), nascido em Pittsburg (U. S. A.)
de família presbiteriana. Em 1870 tornou-se adventista. Como tal, refez os
cálculos referentes à segunda vinda de Cristo, que ele assinalou para 1874
(ano em que Russel se separou do Adventismo oficial);
depois, indicou-a para 1914 e, finalmente, para 1918. Infelizmente, porém,
Russel faleceu em 1916.
O seu sucessor foi o juiz Rutherford, que, tendo ido à Europa em 1920,
aí anunciou o início da idade de ouro para 1925. Esse novo líder da seita, até
então dita «dos Estudiosos da Bíblia», fez que tomasse o nome de «Testemunhas
de Jeová». Rutherford morreu em 1942.
Atualmente as Testemunhas têm seu centro principal em Brooklyn (Nova Iorque), onde são editados dois jornais, também
traduzidos para o português: «Torre de Vigia» e «Despertai-vos!»
Doutrina: As Testemunhas acentuaram o retorno ao Antigo
Testamento, a ponto de negarem a SS. Trindade; chamam Deus pelo apelativo Jeovah, forma tardia e errônea do nome Jahweh.
Cf. PR 31/1960, pp. 291-293.
Jesus Cristo seria apenas criatura. Esta afirmação faz cair por terra
todo o edifício do Cristianismo.
A mor parte dos homens está sob o jugo de Satã desde a queda de Adão e
Eva. Em 1914, Jeová se tornou rei; deu-se então tremenda batalha no céu, em
conseqüência da qual o diabo e seus anjos foram precipitados sobre a terra.
Satã, furioso, tentou destruir a humanidade mediante a primeira guerra mundial,
a gripe espanhola e numerosos terremotos. Os homens que doravante «tomarem
partido pela teocracia» (Testemunhas de Jeová), nada terão a temer.
Até mesmo as diversas religiões da humanidade são obras de Satã, segundo
as Testemunhas. Estas se opõem outrossim ao serviço militar e à transfusão de
sangue (pois, conforme a Bíblia entendida pelos semitas, no sangue está a vida
e a vida é propriedade de Deus só).
As Testemunhas batizam por imersão em rios. Comemoram anualmente a
morte de Cristo a 14 de Nisã, ocasião em que comungam
apenas os «eleitos» (que correspondem aos 144.000 crentes salvos do
Apocalipse).
O poder de penetração da seita tem sido enorme, alimentado, em grande
parte, pelos recursos da moderna técnica.
3.7. Os Amigos do Homem
Origem: Em 1920 Alexandre Freytag
(1870-1947), nascido em Baden (Alemanha), separou-se
da seita dos «Estudiosos da Bíblia» (Testemunhas de Jeová); era diretor da
seita em Genebra. Publicou então o livro intitulado «A divina revelação», em
que manifestava a consciência de ser «o mensageiro do Eterno», predito pelo
profeta Malaquias (3,1). Em 1922, o mesmo autor
editou «A mensagem à humanidade»; em 1933, «A vida eterna». Deu assim início à
sociedade dos «Amigos do Homem».
Quando Freytag morreu em 1947, os seus
discípulos dividiram-se em dois ramos: o suíço e o francês, aquele sob a
direção de Ruffer (com sede no castelo de Cartigny), este sob Bernard Sayerce
(com sede em Paris).
Doutrina: É a mesma nos dois ramos. Encontra-se basicamente
nos três livros do fundador.
Rejeitam a SS. Trindade. Identificam o Espírito Santo com um fluido
vital material. A sua noção de Cristo Salvador (não Deus) se torna imprecisa e
sentimental.
Professam a ressurreição dos mortos, para viverem o milênio com Cristo
sobre a terra. Após o que, haverá o aniquilamento dos maus e o paraíso
terrestre para os bons; o céu ficará para os 144.000 eleitos («pequeno rebanho»
do Evangelho).
O único pecado é o egoísmo, causa de todas as doenças.
A seita não realiza culto propriamente dito, mas reuniões de meditações,
exortações e cantos (sem leitura da Bíblia nem orações comunitárias). Celebra a
S. Ceia uma vez por ano, na época da Páscoa.
A organização da seita é assaz frouxa; existem «anciãos» que dirigem as
comunidades locais.
Os «Amigos do Homem» constituem o último rebento dos Adventistas.
Situam-se, pois, extremamente longe da linha central do Evangelho e do
Cristianismo.
3.8. Pentecostais
Origem: Está ligada ao reavivamento
de Holiness (Santidade), oriundo entre os metodistas
do século XIX nos EE.UU. Em 1900 o pastor metodista Charles F. Parham, que aderia ao reavivamento,
suscitou entre os seus alunos de escola bíblica a idéia de que o sinal seguro
de autêntica conversão e vida no Espírito Santo seria o dom das línguas ou a
glossolalia. Esta idéia provocou a formação de grupos que, cultivando uma piedade
mais intensa e entregando-se assiduamente à oração, começaram a falar línguas e
experimentar o «batismo no Espírito»; o carisma era geralmente transmitido por
imposição das mãos de um pastor.
Os núcleos de tais crentes batizados no Espírito foram-se espalhando
pelo Texas, principalmente sob a direção de um pastor de cor chamado W. J. Seymour.
As comunidades metodistas e batistas tomaram distância do movimento. Os
iniciadores deste não tinham a intenção de fundar nova denominação cristã;
apenas queriam suscitar um revival ou reavivamento nas comunidades protestantes. Quando, porém,
se viram rejeitados por estas, passaram a constituir congregações próprias,
ditas «pentecostais».
Nenhuma denominação protestante está sujeita a se dividir e subdividir
tanto como a dos pentecostais - o que se entende, já que as raízes e forças
impulsoras do movimento são assaz subjetivas.
Já em 1906 o Pentecostalismo se propagava pela Europa, começando pelas
nações escandinavas, donde passou para a Grã-Bretanha e o resto do continente.
Atingiu também rapidamente a África e a América Latina. No Brasil, os pentecostais
constituem 75% da população protestante, ao passo que em 1930 não perfaziam
senão 9,5% do protestantismo brasileiro. Entre nós dispõem-se em três grupos:
a) Assembléia de Deus, que veio em 1911;
b) Congregado Cristã do Brasil, que teve inicio em 1909 na
colônia italiana do Brás (São Paulo), por obra de Luís Francescon,
emigrante italiano que veio dos EE.UU.;
c) Pentecostais independentes, grupos oriundos em 1950, entre os
quais está a Cruzada «Brasil para Cristo» chefiada pelo pastor Manoel de Mello,
que se desligou da Assembléia de Deus e iniciou o Movimento da «Tenda Divina».
Registram-se ainda: a Cruzada de Nova Vida, a Igreja da Renovação, a Igreja da Restauração, o