A Igreja se posiciona
Dom Geraldo M. Agnelo
Cardeal Arcebispo de Salvador
Com freqüência a CNBB tem se pronunciado sobre temas da atualidade social,
política, legislativa e judiciária com ampla discussão nos meios de comunicação
social.
Ninguém, hoje, fica indiferente
perante as tomadas de posição da Igreja, para as acatar ou criticar. Em muitas
nações é ela a entidade de maior credibilidade perante a opinião pública,
católica ou não.
O Papa, embora criticado por
alguns setores como intransigente e conservador, é o único homem público capaz
de atrair milhões de pessoas à sua passagem. É o homem público de maior força
moral, com coragem de enfrentar governos e parlamentos em defesa de valores que
eles querem desconhecer ou destruir.
Mas, afinal, o que faz a Igreja
Católica ser uma das mais vigorosas instituições do mundo, que, a despeito de
tão grandes transformações, se mantém há dois mil anos firme e atuante?
É que a Igreja possui, acima de
tudo, uma mensagem – o Evangelho – cujos princípios éticos continuam a ser o
grande desafio do ser humano. Foi esse conteúdo valorativo que tornou a Igreja
o que ela é e, se ainda hoje ela influi na vida de milhões de criaturas, é
porque a esperança de afirmar a dignidade da vida humana permanece viva na
mente e no coração de grande parte dos fiéis que procuram vivenciar a
solidariedade no seu dia a dia. Somente com o testemunho é que podemos afirmar
os valores éticos e cristãos, e a história da Igreja tem sido o valor desse
testemunho.
Não existe Igreja no ar, só no
campo das idéias. Ela é uma realidade divino-humana e, sob o aspecto humano,
ela se concretiza nas pessoas humanas. Assim, Igreja somos nós. São as famílias
cristãs e os grupos juvenis. É a hierarquia eclesiástica. São os religiosos e
religiosas de vida consagrada. São os movimentos de espiritualidade e de
voluntariado.São os missionários e missionárias que deixam sua família, sua
terra, a sua comodidade e passam viver a dura realidade dos povos
subdesenvolvidos, de populações marginalizadas, discriminadas, uma madre Teresa
de Calcutá, o papa João Paulo II que percorre o mundo inteiro afirmando os
valores da paz, da vida e do espírito. São os que trabalham em nossos colégios,
hospitais, asilos e creches espalhados por todo o mundo, manifestando o amor de
Deus por meio da caridade e da promoção do ser humano.
O compromisso da Igreja é com a
dignidade da vida humana. Portanto não poderá aceitar as formas de opressão,
violência e miséria que inviabilizam o bem individual e o coletivo. Não pode conformar-se
com a banalização e o desprezo pela vida desde a sua concepção até a morte
natural. Não pode aceitar a cultura da morte. Como instituição universal, deve
se empenhar para que sejam minimizadas as aberrações que provocam as injustiças
e as perversidades existentes no mundo, tanto do ponto de vista social como no
moral e espiritual.
Sob o aspecto social, a Igreja
reafirma a disposição de trabalhar conjuntamente com as forças da sociedade
livremente organizada e dos poderes temporais constituídos para promover ações
capazes de erradicar definitivamente a miséria.
Do ponto de vista moral, a Igreja
considera o subjetivismo e o individualismo exacerbado, o consumismo ilimitado,
o utilitarismo pragmático, o imediatismo irresponsável, a cultura do descartável
e, principalmente, o hedonismo, a prepotência do mais forte sobre o mais fraco,
a supremacia de um povo sobre outro, a escravidão dos mais pobres aos mais
ricos, a corrupção ativa e passiva, como práticas que ferem os princípios
éticos, distanciando as pessoas umas das outras, acirrando o egoísmo e os ódios
incontáveis, enfim, afastando os seres humanos da solidariedade e do afeto,
necessários para uma convivência menos aterradora.
Finalmente, sob o prisma
espiritual, a Igreja reforça a fé na salvação do homem, quando cada um de nós
for capaz de se libertar dos condicionamentos que nos amesquinham diante do
próximo e de Deus, e quando o mandamento maior de Cristo for vivenciado por
todos com verdadeira intensidade.
Por defender os valores que dignificam
a vida humana é que a Igreja permanece viva e atuante.
“O respeito pela pessoa humana
implica que se respeitem os direitos que decorrem de sua dignidade de criatura.
Estes direitos são anteriores à sociedade e se lhe impõem. São eles que fundam
a legitimidade moral de toda autoridade. Conculcando-os ou recusando-se a
reconhecê-los na sua lei positiva, uma sociedade mina sua própria legitimidade
moral” (Catecismo da Igreja Católica nº 1930).