A Missão

Dom Benedito Beni dos Santos
Bispo Auxiliar de São Paulo
Palestra proferida na 25ª Assembléia das Igrejas do Regional Sul 1,
em Itaici, de 21 a 23 de novembro de 2003

 

Encarte "Conjuntura Social e Documentação Eclesial" - Nº 708 CNBB

 

Na profissão de fé, que expressa a nossa identidade de cristãos, rezamos: “Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica”. Estas quatro características são chamadas “notas”, pois indicam e dão a conhecer onde se encontra a verdadeira Igreja de Cristo. Professamos que a verdadeira Igreja de Cristo é apostólica. Isso significa que ela está fundada sobre a confissão de fé dos apóstolos, registrada nos Evangelhos e em todo o Novo Testamento. Significa também que ela é missionária. Os apóstolos foram os primeiros missionários. Mas, na Sagrada Escritura, não existe a palavra missionário. Existe o seu equivalente: apostolo ou enviado.

Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, encontramos a realidade do envio. Certas pessoas enviam outras como seus mensageiros, para comunicar suas mensagens e decisões. A missão permite o encontro de pessoas distantes, pois a pessoa do enviado desaparece por detrás daquela que a envia. Rejeitar o enviado é a mesma coisa que rejeitar aquele que o enviou. No Evangelho, é o próprio Jesus quem o afirma: “Quem vos recebe, a mim recebe, e quem me recebe, recebe ao que me enviou”(Mt 10, 41). O enviado é, pois, inseparável daquele que o envia.

1. Jesus, o enviado por excelência

Jesus é o enviado por excelência. Seu envio é único. É superior a todos os outros enviados. Os profetas foram apenas servos enviados por Deus. Jesus, porém, é o Filho. Sua relação com o Pai, que o enviou, é uma relação única. Ele não é apenas o portador da mensagem de Deus. Na sua pessoa, Deus está presente. Ele, em pessoa, é a Palavra viva de Deus. A manifestação plena de sua autoridade e vontade. A manifestação de sua soberania salvadora.

Jesus, o enviado por excelência, também envia seus discípulos: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (Jo 20,21).

No tempo de Jesus, também os rabinos tinham discípulos: pessoas que os procuravam para aprender as lições da Torá e servi-los. Ser discípulo de um rabi era sinal de prestigio social. Jesus também tinha discípulos, mas em condições diferentes. É Jesus quem chama seus discípulos. O discipulado é uma vocação. Não são os discípulos que servem a Jesus. É ele que serve aos discípulos. Aquilo que ele disse após o lava-pés, ele o realizou durante todo o seu ministério: “Vós me chamais de Mestre e de Senhor e dizeis bem, pois eu o sou. Se, portanto, eu, o Mestre e o Senhor vos laveis os pés, também deveis lavar os pés uns aos outros” (Jo 13, 13-15).

Os discípulos participam da vida pobre de Jesus. Ainda mais: Jesus tem discípulos não para servi-lo, mas para prepará-los para a missão. A finalidade do discipulado é a missão. Os quatros Evangelhos sempre concluem com o Ressuscitado enviando os discípulos em missão. A Igreja – comunidade dos discípulos de Jesus – é, pois, a continuadora de sua missão.

Jesus coloca como pressuposto da missão o desapego dos bens materiais. Não se trata de um desapego qualquer, mas do desapego que torna livre para a missão. O missionário deve caminhar depressa. E a riqueza pesa. O missionário deve ser livre para a missão. E o apego à riqueza escraviza. A única riqueza do missionário deve ser Jesus Cristo e seu Evangelho. Foi o que afirmou Pedro ao paralítico colocado à porta do templo: “Não tenho prata nem ouro, mas o que tenho, isso te dou: em nome de Jesus Cristo Nazareno, anda!” (At 3, 6).

Jesus prevê ataques à missão. Os apóstolos são enviados como cordeiros no meio de lobos (cf. Mt 10, 16).

Mostra que a missão pode passar por reveses quando os enviados esquecem o sentido de sua missão, principalmente a fonte que a sustenta: a oração (cf. Mc 14, 29). Ou quando esquecem que o sucesso da missão não vem deles, mas de Deus (cf. Lc 10, 20).

2. A Igreja, comunidade missionária

A Igreja é apostólica, ou seja, missionária. É composta de pessoas que se reconhecem com enviadas do Senhor. O Evangelho lhe é anunciado não para ser guardado, mas para ser transmitido. A Igreja não vive para si. Ela é enviada para transmitir o Evangelho. O envio e a reunião, porém, são dois aspectos da mesma ação: levar a salvação ao seres humanos, reunindo-os na Igreja Povo de Deus. Povo pecador e redimido.

A Igreja é comunidade missionária ainda por outros motivos. Ela nasceu da missão do Filho e do Espírito Santo, enviados pelo Pai ao mundo. Sem este duplo envio, a Igreja não existiria. Ela é fruto da ação evangelizadora de Cristo e dos apóstolos, afirma Paulo VI na Evangelii Nuntiandi. Não é fruto acidental, continua o Papa. É fruto primeiro e querido.

A Igreja é comunidade missionária, porque sua configuração histórica e definitiva se dá em Pentecostes, quando ela se torna movimento missionário. A Igreja não nasceu para depois se tornar católica (universal). Ela já nasce católica porque missionária. Sem a missão, ela não seria católica.

Finalmente, a Igreja é missionária porque é a comunidade dos discípulos de Jesus. E, com já vimos, a finalidade do discipulado é a missão.

3. Origem da missão

A missão teve sua origem na manhã do domingo de páscoa, quando Maria Madalena e a outra Maria foram ao túmulo e o encontraram vazio. Logo após o anúncio da ressurreição, vem a missão: “Ide já contar aos discípulos que ele ressurgiu dos mortos, conforme havia dito” (Mt 28, 7). E elas foram apressadas fazer o anúncio aos discípulos que, segundo Marcos, estavam “aflitos e choravam” (Mc 16, 10).

Em Pentecostes, iniciou-se a missão a todos os povos da terra. Esta missão continua até aos nossos dias. Mas, apesar de vinte séculos, a missão ainda está no início. O anúncio de Jesus Cristo e de sua Palavra ainda não chegou a todos os povos, a todas as culturas, a todos os espaços sociais.

4. O que é, pois, a missão?

Ela é a caminhada da Palavra de pessoa para pessoa, de grupo para grupo, de povo para povo. O portador da Palavra é o missionário. Afirma o livro dos Atos, que registra a primeira história da missão, que a Palavra crescia e se multiplicava (cf. At 12, 24), ou seja, crescia e se multiplicava o número daqueles que ouviam a Palavra e se tornavam missionários. Quem ainda não se tornou missionário, pensa que ouviu a Palavra, mas, na realidade, não a ouviu.

O livro dos Atos narra a caminhada da Palavra que sai da Palestina e vai até Roma, levada pelo Apóstolo Paulo. Quando a Palavra chega a Roma, Lucas, de repente, encerra o livro dos Atos. Teologicamente, Lucas deixa o seu livro inacabado para mostrar que a missão não terminou. Precisa ser continuada pela Igreja. A história da missão precisa continuar sendo escrita.

Lucas mostra que a caminhada da Palavra enfrenta obstáculos: oposição dos chefes religiosos, magia, idolatria, distância geográfica. Mas a Palavra sai sempre vitoriosa.

Nessa primeira história da missão, ele indica o principal pressuposto da missão: o Espírito Santo. A Igreja, comunidade missionária, não precede ao dom do Espírito. Não existe sem o dom do Espírito. É o Espírito que a move em direção de todas as línguas, isto é, de todos os povos e culturas. O Espírito é também o primeiro missionário. Aquele que chega antes de todos para preparar o terreno para o anúncio da Palavra. Por isso mesmo, o anúncio da Palavra não é algo acrescentado às culturas. É resposta a uma expectativa, a uma procura.

A Palavra que o missionário anuncia não é simplesmente a transmissão de uma mensagem. É, na expressão de Paulo, manifestação do poder de Deus que salva. Não é transmissão mecânica. É transmissão da Palavra encarnada em sua vida, que se tornou parte dele e agora é testemunhada. Por isso Jesus envia seus discípulos para dar testemunho dele: “Sereis, então, minhas testemunhas em Jerusalém, em toda Judéia e Samaria, até os confins da terra” (At 1, 8).

A Palavra que o missionário anuncia possui uma dimensão escatológica. Torna o Reino de Deus presente no mundo, isto é, manifesta a soberania salvífica de Deus. Que acolhe a Palavra, acolhe o dom gratuito da salvação. Que recusa a Palavra, recusa o dom gratuito da salvação: “Aquele que crê e for batizado, será salvo; o que não crer será condenado” (Mc 16, 16).

5. Paulo, missionário

Paulo foi o maior missionário da história da Igreja. Realizou quatro viagens missionárias por diversos povos, enfrentando inúmeros perigos na terra e no mar. Perigos por parte dos judeus, dos gentios e até de falsos irmãos. Enfrentou açoites e prisões em Jerusalém e Roma (cf. 2Cor 4,8-12; 11, 23-29). Quatro de suas cartas ele as escreveu nas prisões.

A missão de Paulo teve a sua origem no encontro com o Ressuscitado, o Cristo Vivo, no caminho de Damasco (cf. At 9, 1-19). Neste encontro, Paulo fez três descobertas. Em primeiro lugar, descobriu a originalidade de Jesus. Antes, ele pensava que Jesus fosse apenas o fundador de uma religião ou de uma seita que colocavam em perigo a pureza da fé de seu povo. Pensava que, como todo fundador de religião, Jesus estava encerrado no passado. Descobre, agora, que ele possui uma originalidade com relação a todos os fundadores. Ele é o Ressuscitado, alguém atual, que está exercendo um poder salvífico.

Em segundo lugar, Paulo descobre, nessa experiência pascal, que todos aqueles que crêem em Jesus, formam uma só coisa com ele: “Quem és tu, Senhor!” pergunta ele. E a vóz responde: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues” (At 9, 5).

Finalmente, Paulo descobre a existência de um duplo Israel: o Israel segundo a carne e o Israel espiritual; o Israel particular, formado de um só povo, e o Israel universal, formado de todos os povos. Paulo sente-se impelido interiormente a deixar o Israel particular para ingressar no novo Israel.

A pregação missionária de Paulo é feita no poder do Espírito. No início da primeira carta aos tessalonicenses, ele afirma que a sua pregação não foi feita só com palavras, “mas com grande eficácia no Espírito Santo e com toda a convicção” (1Ts 1, 5). Na primeira carta aos coríntios, afirma que a sua pregação não está baseada na filosofia e na sabedoria dos homens, mas no poder do Espírito, a fim de que a fé “não se baseie na sabedoria dos homens, mas sobre o poder de Deus” (1Cor 2, 5).

O que dava a Paulo a autoridade para a missão de evangelizar era a sua santidade de vida, a conformação a Cristo: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20). Paulo tornou-se, pela santidade de vida, um ícone, uma imagem viva de Cristo. Por isso podia dizer: sede meus imitadores, como eu o sou de Jesus Cristo.

6. Santa Terezinha, a padroeira das missões

Santa Terezinha tinha um coração de missionária. Quando criança, procurava ajuntar moedas em um cofrinho para ajudar aos missionários. Mais tarde, já carmelita, desejou viver num Carmelo situado em terra de missão: Vietnã, China. Não conseguiu. Mas, dentro do carmelo, tornou-se uma grande missionária. Orava e sacrificava-se pelas missões. Enviava cartas a missionários para apoiá-los e incentivá-los em sua tarefa. Sentia-se unida aos missionários quando eles batizavam, ensinavam ou eram martirizados. Percebeu que, com sua morte, sua missão não iria terminar. Graças ao mistério da comunhão dos santos, iria adquirir uma dimensão mais profunda e universal.Então pronunciou estas palavras: “passarei o meu céu, fazendo o bem sobre a terra”. Com justa razão, ela foi declarada padroeira das missões pelo Papa Pio IX.

7. Espiritualidade missionária

A espiritualidade é uma modalidade de vida em que a pessoa se deixa a conduzir pelo Espírito Santo. Deixa-se governar por Ele. São Paulo fala de viver no regime do Espírito, que é o oposto do regime da carne (cf. Rm. 8, 1-14; Gl 5, 16-25). Vive no regime da carne aquele que se considera salvador de si mesmo, conta só com as próprias forças, é governado por suas paixões, pelos seus interesses. Vive no regime da carne quem se torna escravo dos bens materiais.

Para ter uma espiritualidade missionária são necessários:

a.      Ser sempre discípulo. Antes de proclamar a Palavra, deve ouvi-la, assimilá-la, vivê-la. Antes de tudo, anunciar a palavra pelo testemunho.

b.      Conformação a Cristo: tornar-se um retrato vivo de Cristo pela santidade. Sem santidade de vida, a missão perde sua identidade: pregamos a nós mesmos e não a Cristo; anunciamos a nossa palavra e não a Palavra de Deus; fazemos proselitismo e não missão.

c.       Vida orante: sem oração não existe santidade de vida. A oração é a união com Deus, aliança com Ele. A oração nos insere na dinamismo trinitário: nos dirigimos ao Pai, movidos pelo Espírito Santo. É Espírito que desperta, no coração da pessoa, o desejo de orar. Conduz o nosso colóquio com o Pai. Modela o pensamento e a afetividade do orante. Cristo, por sua vez, é o mediador da nossa oração. É ele que apresenta ao Pai as nossa súplicas e intercede por nós.

d.      Ter uma vida sacramental. Os sacramentos são sinais da graça. É pelos sacramentos, sobretudo a Eucaristia, que nos encontramos com o Cristo Vivo, fonte da missão.

e.      Viver em comunhão: ver sempre no outro um reflexo da Trindade. Procurar sempre a própria identidade eclesial na relação com o outro e não isoladamente. Considerar-se um depositário dos dons divinos, antes de tudo, para a comunidade, para o outro. Evitar as tentações egoístas que geram divisão, brigas, arrivismos e competição.

8. A missão na cidade

A missão hoje se desenvolve,com muita freqüência, no contexto da civilização urbana. A cidade não é apenas um novo espaço sócio-cultural, mas um novo modo de viver, baseado numa nova visão do mundo, em novas formas de cultura e comunicação, em novos costumes e modelos de vida. A civilização urbana implica um novo modo de relacionar-se com as pessoas, com a natureza e com Deus. Ela tem a marca das contradições sociais. Nessa civilização, a missão não deve preocupar-se só com o religioso, mas também com a defesa da vida e da dignidade humana. Deve enfrentar o problema do pluralismo e da mobilidade religiosa, representada pelas seitas, pelos messianismos,pelos novos movimentos religiosos.

Na civilização urbana, o interlocutor da missão se percebe como ser livre e autônomo. Ele se deixa convencer mais pelo testemunho de vida do que por argumentos racionais.

Não só os indivíduos são destinatários da evangelização, mas também os espaços sociais onde as pessoas vivem.

Nesta perspectiva, o nosso projeto de missão permanente deve se propor:

a.      Colocar nossas paróquias e comunidades em estado de missão permanente.

b.      Envolver todos os agentes de pastoral, os movimentos e as irmandades com as missões populares através de encontros de formação missionária.

c.       Intensificar as visitas às casas, de modo planejado.

d.      Promover a pastoral da acolhida.

e.      Usar os espaços das igrejas, durante a semana para encontros em torno da Palavra de Deus, celebrações e orações.

f.        Fazer com que a vida paroquial gire em torno de dois eixos: os sacramentos e a Palavra.