A Moral como tentação
Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior[1]
O Catecismo
da Igreja Católica foi apresentado pela constituição Fidei depositum como
um serviço que o sucessor de Pedro quis prestar à Igreja e como um dom
aos pastores e aos fiéis. Trata-se de um texto de referência segura e «de forma
toda especial para a elaboração dos catecismos locais» (n. 4).
Assim,
quando em 1993 foi publicada a primeira edição em língua portuguesa do Catecismo da Igreja Católica, no
Brasil foi retomado o debate sobre a natureza dos textos e manuais de
catequese. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) já há dez anos
publicara um documento sobre a catequese no qual se pode ler o seguinte juízo:
«As conhecidas diferenças culturais e regionais do nosso País nos induzem
a pensar que um único manual de catequese para todo o Brasil seria inviável, ou
ao menos inadequado»[2].
A publicação de um catecismo para toda a Igreja parece ter contradito esta
opinião. O que não se considerava exeqüível a um nível mais simples, como o
nacional, foi realizado a nível universal.
O Catecismo, verdadeiro best
seller nos primeiros anos, foi acolhido com alegria pelos bispos e pelos
fiéis das igrejas brasileiras, mesmo se algumas pessoas tentaram neutralizar a
sua influência apresentando-o simplesmente como um «banco de dados» e
suscitando em alguns setores um certo alarme sobre um «modelo eclesial de
neo-cristandade», um renascimento do «colonialismo» e do «fundamentalismo»
catequístico.
Depois de um pouco de agitação,
percebeu-se que estes perigos não existiam, senão por outra razão, pelo fato de
o texto do Catecismo superar em muito o nível médio de cultura do povo
brasileiro e quem o considerava um grande risco se viu lutando contra moinhos
de vento. Também aqui se vê o porquê de se insistir sobre a elaboração de
textos catequéticos adequados às várias idades e culturas, sem os quais o
serviço prestado pelo Catecismo não teria muito resultado.
Por tudo isso, pode-se
perguntar: qual o modelo de manual catequístico desejado pelas igrejas brasileiras?
Com a resposta a esta pergunta fundamenta-se também a razão pela qual foi
julgado «inadequado» um catecismo nacional para o Brasil.
O catecismo paradigmático
deveria, segundo muitos, ser escrito com um método que os próprios bispos
brasileiros chamaram, em seu documento de 1983, de «princípio de interação»
(CR 112). Segundo este princípio a fé e a vida,
postas em relação e influência recíproca, interagem e se modificam mutuamente.
Este princípio de interação não
constituiu um novidade radical na história da catequese da América Latina; na
verdade, já nas conclusões da II Conferência do Episcopado Latino-Americano em
Medellin, no ano de 1968, podia ser lido: «As situações históricas e as
aspirações autenticamente humanas são parte indispensável do conteúdo da
catequese» (Catequese, 6). Apesar disto, será apenas através deste
documento de 83 que tal princípio será divulgado entre os catequistas do Brasil
até provocar quase que uma transformação do objetivo específico da catequética:
sem dúvida, participa-se da catequese «para aprender a viver e atuar como
cristãos», mas é necessário acrescentar – segundo o mesmo documento – que isto
significa ser «agentes de transformação na sociedade brasileira de hoje» (CR
137).
Quatro anos mais tarde, um grupo
de especialistas pôde esclarecer ulteriormente esta reflexão com a distinção
entre método superficial e método profundo de catequese[3].
Uma catequese feita a partir de um método superficial teria como finalidade
apenas a educação da pessoa. O método profundo, ao contrário, teria os
«objetivos do próprio processo de transformação da sociedade através de
comunidades de fé»[4].
De que forma se chegou a isto
que alguns classificaram como verdadeiro sociologismo catequético? Não creio
que seja justo renovar uma enésima acusação contra uma «teologia da libertação
filo-comunista», como se décadas de batalha contra o marxismo tivessem feito de
nós melhores cristãos e testemunhas mais heróicas da fé.
A raiz deste fenômeno não se
encontra nem no Brasil, nem na América Latina, mas em uma tentação que por
séculos tormentou repetidamente o ocidente cristão: a tentação de sermos
historicamente relevantes.
Quando o Verbo se fez carne, ele
nos revelou com que amor Deus nos ama, um amor quenótico, um amor que
brilha na irrelevância crucifixa chamada à ressurreição. No deserto, porém,
Jesus foi tentado a abandonar esta estrada, assumindo a lógica do poder, da
relevância, da eficiência. Hoje, também nós, somos tentados a seguir esta mesma
lógica mundana, ou seja, somos tentados a transformar pedras em pão.
Não é simples, porém, vencer
esta tentação. Como não desejar transformar pedras em pão, quando se vê um
recém-nascido passando fome nos braços de sua mãe subnutrida? Como não querer
transformar a história de tantos meninos de rua em uma história de vida? Como
seguir o caminho da irrelevância crucificada diante de uma família que se
esfacela porque o pai não encontra um emprego?
«Se és o Filho de Deus, manda
que esta pedra se transforme em pão» (Lc 4,3).
Como já foi dito, esta não é uma
tentação somente das igrejas do Brasil, mas de todos, sobretudo do ocidente
cristão. A este respeito vale a pena recordar o que foi dito por Enzo Bianchi,
prior do mosteiro de Bose: Fez-se uma grande batalha para não transformar o
cristianismo da América Latina em uma libertação política, mas depois, de fato,
na Europa ele é transformado em uma batalha pelos direitos do homem, por uma
administração política não corrupta, por uma moral familiar, por uma
organização da solidariedade e da filantropia... É importante recordar que
todos estes aspectos não devem ser deixados de lado, mas o proprium do
cristão é a fé em Cristo. Claro, o cristianismo comporta uma moral, uma práxis
inspirada pelo Evangelho, mas no seu centro encontra-se a fé no Homem-Deus[5].
«Nós, porém, proclamamos Cristo crucificado» (1Cor 1,23).
Sob este aspecto a tentação de
transformar as pedras em pão aparece como uma tendência a reduzir o conteúdo do
anúncio cristão e da catequese a uma moral eficaz.
Além do mais, é isto que o homem
moderno espera da Igreja. O iluminismo lhe deixou como herança uma suspeita
diante da fé e transformou muitos cristãos em pessoas que têm vergonha de crer.
Assim, desde que René Descartes anunciou de maneira surpreendente que a vida
não podia ser interrompida pela dúvida metódica e decidiu seguir uma morale
par provision[6], foram
muitos a descobrirem para que "servia" a Igreja. Ela serve porquanto
seja capaz de dar à sociedade moderna uma certa moralidade, mesmo se par
provision, na espera de algo de melhor.
Tudo isto parece uma reedição da
perene tentação da Igreja no ocidente, que muito cedo foi transformada numa
tutora da sociedade invadida pelos bárbaros. Desta vez, porém, deparamo-nos com
bárbaros instruídos, embora sempre bárbaros porque privados de uma moral racional.
É importante reafirmar que aqui
não queremos deslegitimar todo o serviço que a Igreja pode e deve prestar à
sociedade. Porém, está sempre à espreita a tentação de clericalismo que reduz a
finalidade da Igreja a um imanente «serviço ao mundo», como se a mesma Igreja
tivesse duas finalidades: uma mundana e uma outra escatológica. No entanto,
sabemos que a relação entre a Igreja e o mundo é muito mais complexa. A Igreja
é o próprio mundo em processo de transfiguração, ela é uma ferida incurável
para este mundo e para a sua auto-suficiência.
Assim pode-se ver como, no mundo
das incertezas morais, a Igreja tornou-se "útil", tornou-se
relevante. Mais útil ainda se se consegue, como em alguns países, colocar toda
a ênfase de sua pregação em uma moral social.
A Igreja se torna instrumento do
Reino de Deus, precipitadamente identificado com este mundo, liberto da
opressão e da injustiça; uma visão demasiado otimista do humano à qual falta um
pouco de sentido do trágico e do místico. Esta instrumentalização da Igreja
tornou-se tão clara que conseguiu transformar a condenação marxista – que vê na
religião uma «superestrutura», uma «ideologia» – em aprovação, desde que se
transponha o conteúdo da significatividade religiosa para o campo da práxis
politico-social[7]. A verdade,
porém, é que quando se transforma a religião em ativismo social, a sociedade
nada ganha e a religião tudo perde[8].
A catequese deve retornar ao
específico cristão. Deve retornar à fé no Homem-Deus, para dar novamente à
práxis cristã a sua verdadeira identidade de epifania da fé.
O crescimento das seitas e das
denominações pentecostais nos países latino-americanos é explicado também pelo
fato de que nossa pregação se reduziu a uma exortação moralizante.
Não quero arriscar aqui
explicações simplistas, porque o fenômeno das seitas é certamente muito
intrincado e não penso que se possa dar um juízo definitivo a seu respeito.
Quando, porém, se vê estes
grupos em ação, damo-nos conta de que existe uma característica comum a todos:
são pessoas com a consciência clara de que devem transmitir o seu credo
e, no caso dos cristãos, a sua fé.
Para a maioria dos católicos, ao
contrário, não é assim. Os nossos presbíteros, catequistas e agentes pastorais
ainda se movem numa espécie de "ilusão da catequese". Supõe-se a fé
das pessoas que freqüentam a liturgia, as reuniões, as várias atividades
paroquiais. Desta suposição, passa-se imediatamente às costumeiras exortações
morais, que não têm efeito positivo algum, ao contrário, desencorajam. A fé
porém não se supõe, mas se transmite. E assim se vê como, sob a mentalidade da
eficácia, a Igreja perde a única eficácia que poderia ter: a de transformar os
corações.
Os fiéis deste grande continente
latino-americano, que possui um terço de todos os católicos do mundo, têm, na
verdade, necessidade de uma catequese querigmática que seja capaz de transmitir
ou de aumentar a fé. Obviamente, não podemos parar no primeiro anúncio, mas não
podemos no entanto dispensá-lo. A catequese pode ser também o lugar do encontro
com Deus.
No Brasil isto explica também o
sucesso de alguns movimentos, entre os quais o movimento carismático, que estão
entre os poucos grupos organizados que ainda têm a coragem de fazer missão. Ao
contrário, as estruturas eclesiais tradicionais parecem sobrecarregadas com o
jugo da má consciência de origem européia. Para elas o ato de evangelizar,
acusado de ser instrumento de colonialismo europeu, tornou-se difícil e
custoso.
A elaboração de catecismos
locais seria talvez a ocasião de repristinar, no Brasil , a identidade do
catecismo como livro da fé e do Espírito. Mas isto exige uma mudança
metodológica cujo ponto de partida seja o equilíbrio da divino-humanidade.
Com esta convicção, concluímos
citando Olivier Clément, esperando que as palavras deste filho do oriente sejam
profecia da vitória do ocidente sobre as suas tentações.
«O cristianismo do século XXI
não será nem um moralismo, nem um pietismo mas o anúncio – que chama a uma
santidade criadora – da vitória de Cristo sobre a morte e sobre o inferno
[...].
Uma espiritualidade criadora –
segundo a qual quanto mais se mergulha em Deus, tanto mais torna-se responsável
pelos homens – constitui a verdadeira infra-estrutura da história (para
retomar, invertendo-o, o vocabulário marxista).
Na divino-humanidade, o divino
não absorve e não esmaga o humano, assim como também o humano, para se
auto-afirmar, não precisa eliminar o divino. Para retomar a grande afirmação
dos Padres gregos, "Deus se fez homem para que o homem possa se tornar
Deus", ou seja, homem em plenitude,
capaz de amar e de criar em plenitude»[9].
[1] Padre Paulo Ricardo é
membro do Conselho Internacional de Catequese da Congregação para o Clero. O
texto reproduzido a seguir é uma tradução
do original italiano, proferido durante o Congresso Internacional de Catequese
– Vaticano, 09-12 de outubro de 2002.
[2] CNBB, Catequese renovada: orientações e conteúdo. 15/04/1983 = CR
[3] Cf. GRECAT (Grupo de Reflexão sobre a Catequese), Textos e manuais de catequese; publicado na coleção Estudo da CNBB, 53.
[4] Ibidem 119.
[5] Cf. Bianchi, Enzo. Ricominciare nell’anima, nella Chiesa, nel mondo. Genova, Marietti, 1992, 38.
[6] Cf. Discours, 3, Oeuvres philosophiques, ed. F. Alquié, Paris, 1969, I, 591-592.
[7] Castoriadis, Cornelius. “Institution de la société et religion” in: Esprit, mai 1982: 116-31.
[8] Cf. A observação é de Louis Duprè no prefácio à tradução francesa do seu clássico The Other Dimension: A Search for the Meaning of Religious Attitudes; (L’autre dimension. Paris, du Cerf, 1977).
[9] Il potere crocifisso. Vivere la fede in um mondo pluralista. Magnano, Edizioni Qiqajon, 1999, 61-62.