PARA
UMA TEOLOGIA DO MILAGRE
Prof. Dr. Pe. Manoel Augusto Santos
FATEO –
PUCRS
"Publicado em Teocomunicação 142 (2003)
881-894".
Desde os princípios da
humanidade, os fenômenos extraordinários, assombrosos ou maravilhosos causaram
não apenas estupefação, mas também reflexão e pensamento religioso, seja na
autenticidade, seja no imaginário. Mesmo nos dias atuais, eivado de
racionalismo, é fácil perceber a influência de tais fenômenos. Curas,
possessões, exorcismos, fantasmas, mau-olhado, encosto, casas mal-assombradas,
trabalhos-magias, fenômenos carismáticos e tantos outros assuntos similares
pertencem aos âmbitos religioso, ficcional, de superstição, de cinema, de
processos psiquiátricos ou de sensacionalismo. Somente alguém distanciado das
lides pastorais da Igreja desconsideraria sua relevância.
No âmbito judaico-cristão,
os fenômenos extraordinários têm importância capital. A Revelação de Deus, que
tem uma natureza pública e social, expressa-se por palavras, mas também através
de fatos e mesmo através de fatos prodigiosos que chamamos milagres. Os milagres
fazem parte da Revelação e como tal devem ser considerados.
Assim,
convém esclarecer alguns aspectos gerais que facilitam a compreensão e o
oportuno julgamento que muitas vezes é requerido ao teólogo-pastor. Negar a
possibilidade de fenômenos extraordinários ou sobrenaturais seria puro
ceticismo. Acreditar na veracidade e sobrenaturalidade de todos os pretensos
casos seria colecionar o maravilhoso imprudentemente, expondo a Igreja ao
risível. Nada dizer seria deixar livre curso ao imaginário. O presente artigo é
uma sistematização a partir de uma importante bibliografia sobre o assunto[1],
porém não pretende ser exaustivo. Além disso, pode-se encontrar ampla e diversa
bibliografia relacionada[2].
1 O que é um milagre?
Milagre
vem do latim miraculum. Na Antigüidade
clássica era um fato excepcional ou inexplicável, um fato maravilhoso ou
extraordinário que suscita admiração, considerado como sinal e manifestação de
uma vontade divina[3].
A partir
do testemunho bíblico, percebe-se uma evolução na compreensão teológica do
milagre. Os momentos centrais dessa compreensão foram a doutrina de Santo
Agostinho, de Santo Tomás e a resposta apologética à crítica ilustrada. O
Magistério da Igreja ocupou-se do milagre, sobretudo a partir do Concílio
Vaticano I.
a) Na
Sagrada Escritura
As
coordenadas da linguagem bíblica sobre o milagre são diversas. O termo traduziu
a riqueza expressiva dos termos hebraicos ot,
nifla’ot, nora’ot, môfét, e os termos gregos sêmeia, dýnamis, thaúmata, térata, parádoxa, etc.
Para o
aspecto psicológico do milagre: no Antigo Testamento encontramos môfét, que significa prodígio, um fato
insólito, que provoca assombro, admiração, surpresa. No Novo Testamento,
encontramos thaumázo e téras, com o mesmo tipo de significado.
No entanto, esse prodígio, aos olhos da Sagrada Escritura, não é um prodígio
profano, mas sagrado.
Para o
aspecto factual, ontológico: no Antigo Testamento, encontramos nifla’ôt, que são obras próprias de Deus
e impossíveis para o homem (ações divinas), manifestações e efeitos do poder
divino. É o aspecto ontológico do milagre: obra transcendente, impossível às
criaturas, o que supõe uma intervenção especial da causalidade divina.
Para o
aspecto intencional ou semiológico ou noético: no Novo Testamento, encontramos sêmeion (l. signum), pois o milagre não é somente um prodígio que suscita o
assombro, mas um sinal que Deus dirige aos homens. O milagre é portador de uma
intenção divina que há de ser lida. Assim, ora Deus dá a entender que está com
o seu enviado (p. ex., Moisés, Elias), ora que chegou o Reino (p. ex., nos
“sinais” operados por Jesus).
Assim,
para a Sagrada Escritura, o milagre é um prodígio religioso (aspecto
psicológico), uma obra de poder (aspecto da causalidade), um sinal dirigido por
Deus (aspecto da intencionalidade). Especialmente nos Evangelhos, é considerado
como sinal, isto é, como “palavra plástica” de Deus que interpela o homem e o
ajuda a proferir um ato de fé na mensagem transmitida por Cristo. Ou seja, os
milagres são sinais divinos que não podem dar-se separados ou isolados da
Revelação de Deus à qual pertencem e que expressam.
b) Em
Santo Agostinho
Nos
Padres, o milagre é apresentado dentro do conjunto da Revelação e da fé,
destacando seu caráter de sinal assim como a função que lhe é própria: orientar
à Revelação.
Santo
Agostinho foi o primeiro a estabelecer uma doutrina sistemática sobre o
milagre, que influirá até ao século XII. Considera o milagre no horizonte da
atividade criadora de Deus, que deixou sementes e virtualidades nas coisas (rationes seminales). No milagre importa
mais o seu valor de sinal e não tanto o de transcendência física. Ele reconhece
no milagre a intervenção divina, que não consiste, no entanto, em um ato de
poder criador de Deus, mas em um desígnio de sua providência, mediante o qual desperta
“a energia” que já havia depositado nas coisas. Os milagres seriam fenômenos
que Deus provoca a partir das sementes secretas que se encontravam em germe
desde a criação. Portanto, de certa forma, tudo, na natureza e no mundo, pode
ser considerado como milagre, e os milagres especiais o são por seu caráter
insólito e extraordinário. O fundamental neles não é o poder que mostram, mas
que Deus pode utilizá-los de modo especial como sinais. Em De Trinitate, são propriamente milagres e sinais aqueles fatos que
se apresentam a nossos sentidos para transmitir-nos algo divino[4].
Em De utilitate credendi, milagre é
tudo o que, sendo difícil e não-habitual, supera as esperanças e o poder do
espectador assombrado[5].
Portanto, um acento no psicológico: para Santo Agostinho, o importante no
milagre é sua capacidade de elevar o homem à inteligência das realidades do
mundo da graça. Não nega a intervenção direta de Deus, mas acima de tudo é um
sinal devido ao seu caráter não-habitual ou extraordinário. Uma síntese do
pensamento agostiniano sobre o milagre encontra-se no comentário sobre a
multiplicação dos pães, em Tractatus in
Ioannis Evangelium[6].
c) Em
Santo Anselmo e Santo Tomás
Santo
Anselmo distingue tríplice causalidade: a da natureza, a do homem, a de Deus. A
natureza e o homem não podem fazer nada sem Deus, mas Deus pode atuar sem a
natureza e sem o homem. O milagre tem que ver com a causalidade divina,
independentemente de toda causa segunda; é um fato transcendente, que só pode
atribuir-se a Deus. Portanto, um acento no ontológico.
Santo
Tomás de Aquino ocupou-se do milagre em diversos lugares[7].
O Aquinate retoca a definição de Santo Agostinho: Miraculum dicitur arduum et insolitum supra facultatem naturae et spem
admirantis proveniens[8]. Afirma que nos milagres podemos
distinguir: primeiro, o que nele ocorre, quer dizer, algo que supera as forças
da natureza, que é o que faz designar o milagre como ato de poder; em segundo
lugar, a finalidade do milagre, isto é, a manifestação de um caráter
sobrenatural; finalmente, seu caráter excepcional é que os faz designar como
prodígios ou maravilhas[9].
Ainda, o
Doutor Angélico distingue três gêneros de milagres, segundo a distância entre o
fato devido à intervenção divina e as possibilidades das causas segundas:
milagres em que Deus obra algo que a natureza nunca pode fazer; milagres em que
Deus obra algo que a natureza pode realizar, mas em outra ordem; milagres em
que Deus obra algo que também as criaturas fazem, mas o faz sem ater-se a
determinadas exigências[10].
d) Na crítica
ilustrada e na Apologética
Depois de
Santo Tomás, acentuou-se o aspecto ontológico, sem preocupação demasiada com os
outros aspectos. A própria idéia de Santo Tomás sobre lei e natureza acabaram
cedendo espaço às idéias racionalistas: a lei no contexto moderno. A natureza,
pensam os deístas e ilustrados, está regida por leis necessárias e
inalteráveis, postas por Deus. Postula-se, então, sobre bases filosóficas, uma
visão determinista da natureza. Um determinismo que acabou adversário da
possibilidade do milagre. Nessa visão da natureza, o milagre torna-se
impossível; claro está, dentro da visão da crítica ilustrada onde a noção de
Deus é a própria do deísmo ou do panteísmo, onde Deus é entendido como suprema
Razão que se manifesta na universalidade e necessidade, mas que se vê
incapacitada de integrar a liberdade.
A
resposta da Apologética teológica insistiu sobretudo na possibilidade dos
milagres e na “quebra” das leis naturais que os caracteriza e que somente Deus
pode realizar. Ao centrar-se de maneira preponderante na transcendência física
do milagre, a Apologética deixou, de certo modo, que o caráter de sinal caísse
no esquecimento. Ao ater-se somente à consideração do milagre/prodígio,
concebido como um fato de ordem física que supera a força eficiente de todas as
criaturas, sem apelar ao caráter intencional, reduz um problema religioso a um
problema de pura causalidade eficiente. Pois o milagre em sua especificidade
mais profunda é um sinal de uma ordem da graça dirigido por Deus.
e) Numa
renovação na idéia de milagre
Uma fonte
de renovação sobre o pensamento em torno ao milagre deve-se ao filósofo Maurice
Blondel. Para ele, o milagre não é somente um prodígio físico que se refere
exclusivamente aos sentidos, à ciência ou a filosofia, mas que é, ao mesmo
tempo, um sinal dirigido a todo homem, um sinal de ordem espiritual e de
caráter moral e religioso, um sinal que revela, não apenas a existência da
Causa Primeira (do que os fatos naturais são suficientes para assegurar-nos),
mas, sobretudo, a bondade de um Deus Pai que marca sua intervenção especial e
que autentica desse modo um dom sobrenatural.
Assim, o
milagre tem uma realidade física. Não é somente um fato extraordinário,
percebido aos olhos da fé; é um testemunho escrito por Deus nos fatos. Se o
milagre é verdadeiramente figurativo da bondade “anormal” de Deus, é preciso
que possua uma realidade física. Os milagres são benefícios temporais
verdadeiros e reais. O milagre é o análogo do sobrenatural. Situa-se no juízo
mesmo de dois mundos: é sinal sensível das realidades invisíveis.
Mais. O
milagre tem uma função no tempo presente: um benefício real. Mas este benefício
não é mais que uma prefiguração, uma antecipação fugidia da “terra prometida”.
O milagre pertence ao mundo da Revelação divina. Por sua própria natureza, o
homem não pode ser mais que servidor, amigo, “filho adotivo”: numa invenção
sobre-humana e supradivina do amor. O milagre é a “teofania” da bondade
misericordiosa e favorável que triunfa sobre a natureza e sobre o tempo no
tempo e na natureza mesma. Os milagres
são “atos falantes”, “palavras atuantes”. Se o milagre nos desconcerta e nos
inquieta, é porque nos urge à conversão. Em sua relação com a doutrina da fé, o
milagre é motivo de credibilidade. Mostra a bondade da mensagem em exercício.
Ainda: é
impossível demonstrar cientificamente a transcendência de um fato. Mas o
milagre não se situa nesse nível. Não fala a linguagem da ciência. O que se
pode constatar é seu caráter extraordinário e perceber sua relação com a
mensagem de Deus. O milagre é o que na ordem sensível se leva a cabo
divinamente, com vistas ao sobrenatural. O milagre recorda-nos que o mundo é
criado por Deus, que não existe mais que nEle e para Ele.
Portanto,
para Blondel, o milagre é ao mesmo tempo um fato extraordinário que rompe
bruscamente com o curso habitual das coisas e uma manifestação absolutamente
particular da bondade de Deus Pai. Um sinal figurativo e confirmativo da
mensagem cristã. Um sinal da “anormal” bondade de Deus. Um prodígio
significante: aurora da nova criação.
Segundo
R. Latourelle, milagre é um prodígio religioso, que expressa na ordem cósmica
(o homem e o universo) uma intervenção especial e gratuita do Deus de poder e
de amor, que dirige aos homens um sinal da presença ininterrupta de uma palavra
de salvação no mundo.
Assim, em
primeiro lugar, é um prodígio na ordem cósmica, um fenômeno insólito que altera
o curso habitual das coisas e que causa surpresa e admiração. Em segundo lugar,
é um prodígio religioso ou sagrado, ou seja, realizado num contexto religioso
(não-fantasmagórico, fabuloso ou mítico). No contexto profano, o milagre não
teria nenhum sentido e nenhuma razão de ser. Em terceiro lugar, é uma
intervenção especial e gratuita do Deus de poder e de amor. Em quarto lugar, é
um sinal divino, ou seja, é um prodígio com significado.
f) No
Magistério
Não há
uma definição completa de milagre dada pelo Magistério da Igreja, ou seja,
nunca o julgou necessário ou nunca a quis dar. O Concílio Vaticano I indica as
características do milagre: são fatos divinos, isto é, têm Deus como autor, ao
menos como causa principal, e são fatos distintos dos da Providência ordinária
supondo uma intervenção especial de Deus; são sinais dirigidos por Deus aos
homens para ajudar-nos a reconhecer que Deus falou à humanidade; causam
assombro[11].
Pio X
recolhe no juramento antimodernista o mesmo ensinamento do Vaticano I,
insistindo na idéia de que os milagres são motivos de credibilidade acomodados
a toda época[12]. Pio XII
refere-se também ao juízo certo de credibilidade, que se apóia nos milagres,
acerca da origem divina da religião cristã[13].
No
Concílio Vaticano II mencionam-se: “obras, sinais e milagres pelos quais Cristo
revela e atesta a Revelação”[14];
“os milagres de Jesus permitem comprovar que o Reino de Jesus já chegou à
terra”[15];
Cristo “apoiou e confirmou sua pregação com milagres para excitar e robustecer
a fé dos ouvintes, mas não para exercer coação sobre eles”[16].
2 As condições de um milagre
A
Teologia afirma que o milagre é essencialmente um sinal ou palavra-feito de
Deus, dotada de três características. Com efeito, o milagre é: a) um fato real,
b) totalmente inexplicável pela ciência contemporânea ao mesmo, c) realizado em
autêntico contexto religioso, como sinal ou resposta de Deus a esse contexto.
Um fato
real: porque requer-se que o episódio apresentado seja histórico, autêntico,
real. Sabe-se quanto a imaginação é fértil em criar casos maravilhosos ou, ao
menos, em aumentar as dimensões estranhas de determinado fato. Também o
subconsciente, com suas aspirações íntimas, a alucinação, a sugestão, é
responsável por muitos dos casos tidos como milagres pelo vulgo.
Um fato
inexplicável pela ciência contemporânea ao mesmo: a ciência moderna tem
elucidado numerosos fenômenos que, na época de sua ocorrência, foram tidos como
milagres. Mas há fatos (p. ex., nos Evangelhos) que a ciência não explica, nem
jamais explicará. Mas basta para ser “sinal” que a ciência contemporânea não o
saiba explicar, nem conheça pista para explicá-lo futuramente.
Um fato
realizado em autêntico contexto religioso: o milagre vem confirmar, da parte de
Deus, uma atitude religiosa do homem. Ora, Deus só pode confirmar valores
autênticos e verdadeiros. Por isso, mesmo quando a ciência considera
inexplicável um fato, a Igreja permanece reticente. Ela examina as
circunstâncias: terá sido resposta a uma prece humilde, confiante, inspirada na
verdadeira fé? Terá servido para confirmar um servidor de Deus cuja doutrina ou
cujo comportamento precisavam da chancela do próprio Deus? Será que o prodígio se
verificou em contexto de magia, crendices, superstições, culto ao demônio?
Portanto,
por sua própria índole, o milagre é um sinal, ou uma palavra “plástica”
dirigida por Deus a determinada porção da humanidade, a fim de suscitar a fé
dos homens ou tornar mais facilmente acreditável aquilo que o milagre assinala
(a mensagem ou a pessoa). O milagre é uma das formas da comunicação reveladora
de Deus. Forma parte das obras, através das quais, junto com as palavras, tem
lugar a Revelação. Às obras concretamente compete manifestar e confirmar a
doutrina[17]. A função
significativa que os milagres oferecem da Revelação realiza-se em vários
níveis: são sinais do poder misericordioso de Deus (p. ex., Mt 9, 1-8); são
sinais do Reino messiânico (p. ex. Mc 1, 35-39); são sinais da missão divina de
seus enviados (p. ex., Ex 4, 1; 14,31; 1 Re 18, 37-39; Mt 11, 21; Jo 3, 2; 7,
31; At 2, 22; 10, 38); são sinais da glória de Cristo (p. ex., Mt 11, 27; Jo 1,
14; 3, 35); são sinais de salvação (p. ex., Mc 1, 40-45; Lc 5, 10); são sinais
escatológicos (p. ex., Cl 1, 18; Rm 8, 11).
3 Aspectos positivos e negativos a observar nos
fenômenos
Podemos
observar aspectos positivos e negativos durante a análise de um possível
milagre. Critérios negativos (não são reconhecidos como milagres) são:
- os
fenômenos ambivalentes: suscetíveis de dupla interpretação (natural ou
transcendental). Certos acontecimentos podem verificar-se tanto em contexto
religioso como em contexto puramente natural (p. ex., vozes interiores,
êxtases, sonhos premonitórios, adivinhação do pensamento, visões, etc). Muitas
vezes será difícil distinguir;
- os
fenômenos de experiência meramente individual: só uma determinada pessoa o vive
e o conhece. São verdadeiros sinais para a pessoa, inclusive podem ser de Deus,
mas não podem ser utilizados como mensagem destinada a mais pessoas. Tais
sinais têm algo de incomunicável, pois implicam um tanto de experiência
imediata e de intuição, que não se pode enquadrar em um esquema objetivo e
válido para o grande público (p. ex., sinais da Divina Providência, sonhos,
iluminações, etc). Muitas vezes poder-se-ia apelar à mera coincidência e, em
outros casos, à sugestão;
- as
curas de moléstias funcionais. As curas de doenças são os mais comuns
“milagres”. Devem-se distinguir-se doenças orgânicas das funcionais. As doenças
orgânicas são as doenças nas quais há um ou mais órgãos afetados na sua
integridade anatômica ou histológica, ou deformado e degenerescente, de modo a
estar em vias de perecer. As doenças meramente funcionais são as doenças que
não dependem de lesão física mas de perturbação do sistema nervoso. Existem
perturbações histéricas pseudo-orgânicas que apresentam todos os sintomas de
uma lesão orgânica, sem que esta exista realmente. Há quem mencione também as
doenças psicossomáticas, nas quais um fundo nervoso está associado a lesões
orgânicas. Em alguns casos, o elemento psíquico predomina e é diretamente
responsável por irritações orgânicas (p. ex., dermatoses, moléstias cardíacas).
Em outros casos, o fator orgânico predomina, mas o estado psíquico ou afetivo
do paciente influi. Para “milagres”
interessam as lesões orgânicas nitidamente diagnosticadas e tidas como
incuráveis pela medicina contemporânea.
Existem
também circunstâncias que desabonam um pretenso “milagre”: ambiente de
irreverência a Deus, imoralidade, charlatanismo ou ilusionismo, cobiça de
lucros materiais ou aceitação destes, ocasião de orgulho, vaidade ou
sensualidade e culto da personalidade; ambientes de sensacionalismo e alarde,
de fantasia e vã curiosidade, pois as obras de Deus costumam ser discretas;
espírito de arrogância e de domínio com que alguém trata as coisas de Deus.
São
critérios positivos:
- no caso
de cura, em se tratando de doença orgânica grave, consistindo em alterações
anatômicas significativas (modificação, perda ou hiperprodução de tecidos).
Esta doença terá sido diagnosticada pelos métodos mais seguros e considerada
totalmente incurável aos olhos da medicina contemporânea;
- no caso
de cura, tenham sido ineficientes todos os meios terapêuticos devidamente
aplicados;
- no caso
de cura, verifique-se a restauração dos órgãos ou tecidos lesados em espaço de
tempo tão breve que possa ser considerado instantâneo;
- no caso
de cura, não se tenha registrado o prazo ordinariamente necessário para a
recuperação gradual da função lesada (a pessoa retoma suas atividades com
naturalidade em tempo extraordinariamente pequeno);
- seja a cura duradoura,
capaz de ser comprovada por exames sucessivos, feitos a intervalos regulares
durante longo espaço de tempo;
-
autênticas atitudes de fé (oração e humildade); os efeitos do “milagre” são
confirmação dos homens na verdade e no bem, repúdio ao pecado, conversões à
reta fé, paz na alma, concórdia e caridade entre as pessoas, fidelidade ao
dever de estado, obediência à autoridade eclesiástica, etc.
4 Etapas da verificação de milagres
Existem
questões decisivas e sucessivas na análise de um possível milagre. Realmente
sucedeu esse fato prodigioso? Não existe uma causa natural para o fato? O
agente do milagre foi Deus? Qual a mensagem que Deus quis transmitir?
Daí,
pode-se dizer que são quatro as etapas para verificação dos milagres: a)
verificar a autenticidade do fato; b) verificar a possibilidade de explicação
científica (de parte das ciências físicas, químicas, biológicas, médicas ou
psicológicas); c) verificar a explicação teológica (explicação sobrenatural);
d) verificar o significado (o motivo da permissão ou realização do específico
fenômeno).
Na
primeira etapa, da verificação da autenticidade do fato, o rigor da análise
quer excluir possibilidade de mentira, de boato, de fraude, de falsas
recordações ou deformações da memória, de ilusões ou alucinações, da mitomania
dos histéricos ou da interpretação delirante dos paranóicos, etc.
Na
segunda etapa, constatado o fato, procede-se à investigação sobre possível
causa natural. Intervêm as diversas ciências teóricas, experimentais ou
aplicadas, de acordo com a natureza do fenômeno: física, química, biologia,
medicina, psiquiatria, engenharia, astronomia, etc.
Na terceira
etapa, o processo teológico, apela-se à Revelação e à Teologia. Tal etapa deve
realizar-se apenas quando a anterior estiver decididamente esgotada em suas
possibilidades. Ou seja, vai-se à causalidade sobrenatural, depois de eliminada
a causalidade natural.
Na quarta
etapa, do significado, quer-se descobrir o motivo da realização ou permissão,
por parte de Deus, do específico fenômeno. Além da Revelação e da Teologia, há
que estar atento às circunstâncias e às repercussões pessoais, comunitárias ou
até mundiais do fenômeno. Evidente, enquanto sinais de poder que permitem
captar a presença e a ação salvífica de Deus, os milagres não têm todos o mesmo
valor. Existe entre eles uma graduação. O decisivo no milagre é sua
significância salvífica. Traduzindo: “O
que Deus quis com isso?”
[1] R. LATOURELLE, Milagros de Jesús y Teología del Milagro, Salamanca: Sígueme, 1990. Id., “Milagre”, in: R. LATOURELLE; R. FISICHELLA (dir.), Dicionário de Teologia Fundamental, Petrópolis-Aparecida: Vozes-Santuário, 1994, p. 624-640. W. MUNDLE; O. HOFIUS, “Milagro”, in L. COENEN; E. BEYREUTHER; H. BIETENHARD, Diccionario Teológico del Nuevo Testamento, v. III, p. 85-94. J. A. SAYÉS, Compendio de Teología Fundamental, Valencia: Edicep, 1998, p. 157s, 179-182, 272-276, 279-304. F. OCÁRIZ; A. BLANCO, Revelación, Fe y Credibilidad, Madrid: Palabra, 1998, p. 388-392, 555-572. J. METZ, “Milagro”, in: Sacramentum Mundi, Barcelona: Herder, 1984, v. 4, p. 595-599. E. MARTÍN NIETO, “Milagro”, in: F. RAMOS, Diccionario de Jesús de Nazaret, Burgos: Monte Carmelo, 2001, p. 825s. L. PIMENTEL CINTRA, Ciência e Milagres, São Paulo: Quadrante, 1994. R. BAUMANN, “Milagro”, in: Diccionario de Conceptos Teológicos, Barcelona: Herder, 1990, v. 2, p. 69-80. C. IZQUIERDO URBINA, Teología Fundamental, Pamplona: Eunsa, 1998, p. 391-407. M. SCHMAUS, A Fé da Igreja, Petrópolis: Vozes, 1982, v. 1, p. 93-97. N. ABBAGNANO, “Milagre”, in: Dicionário de Filosofia, 2ed., São Paulo: Mestre Jou, 1982, p. 641.
[2] P. ex.: G. AMORTH, Un esorcista racconta, Roma: Dehoniane, 1990. C. BALDUCCI, La possessione diabolica, 9ed., Roma: Mediterranee, 1988. M. ELIADE, Tratado de História das Religiões, Lisboa: Cosmos, 1990. E. FRIEDRICHS, Onde os espíritos baixam, São Paulo: Paulinas, 1965. P. A. GRAMAGLIA, Espiritismo; dimensões ocultas da realidade, São Paulo: Paulus, 1995. G. HUBER, O diabo, hoje, São Paulo: Quadrante, 1999. W. KASPER et alii, Diabo, demônios, possessão, São Paulo: Loyola, 1992. B. KLOPPENBURG, Espiritismo e fé, São Paulo: Quadrante, 1990. Id., Espiritismo; orientação para os católicos, São Paulo: Loyola, 1986. Id., O Espiritismo no Brasil, Petrópolis: Vozes, 1960. E. LA PORTA, Estudo psicanalítico dos rituais afro-brasileiros, Rio de Janeiro, 1979. R. LAURENTIN, Il demonio mito o realtà?, Milano-Udine: Massimo-Segno, 1995. V. MARCOZZI, Fenômenos paranormais e dons místicos, São Paulo: Paulinas, 1993. A. SCOLA et alii, Sectas satánicas y fe cristiana, Madrid: Palabra, 1998. A. STILL, Nas fronteiras da ciência e da parapsicologia, São Paulo: IBRASA, 1965. B. WENISH, Satanismo, Petrópolis: Vozes, 1992.
[3] Cf. Ilíada, II, 234; Odisséia, III, 173; XII, 394.
[4] Cf. PL 42, 879.
[5] Cf. PL 42, 90: “Miraculum voco quidquid arduum aut insolitum supra spem vel facultatem mirantis apparet”.
[6] Cf. PL 35, 1592.
[7] Cf. sobretudo
em De potentia q. 6; S. Th. I, q. 105, aa. 6-8.
[8] S. Th. I, q. 105, a. 7, ad. 2.
[9] Cf. S. Th. II-II, q. 178, a. 1, ad.
1: “In miraculis duo attendi possunt: unum quidem est id quod fit, quod quidem
est aliquid excedens facultatem naturae, et secundum hoc miracula dicuntur
virtutes; aliud est id propter quod miracula fiunt, scilicet ad manifestandum
aliquid supernaturale, et secundum hoc communiter dicuntur signa; propter
excellentiam autem dicuntur portenta vel prodigia, quasi procul aliquid
ostendentia”.
[10] Cf. Contra Gentiles III, c. 100.
[11] Cf. DS 3009.
[12] Cf. DS 3539.
[13] Cf. DS 3876.
[14] DV 4.
[15] LG 5.
[16] Dignitatis humanae 11.
[17] Cf. DV 2.