Catequese Renovada 20 anos
Notas históricas *
Pe. Luiz Alves de Lima, sdb
Há 20 anos era aprovado o documento nº 26 da CNBB: Catequese Renovada Orientações e Conteúdo (CR). Considerado o mais importante
documento catequético brasileiro, tornou-se a cartilha dos nossos catequistas.
Seu processo de criação e aprovação representa um dos momentos mais vibrantes e
fecundos do Movimento Catequético Brasileiro (MCB), quer pelas pessoas
envolvidas, como pela produção dos mais diversos tipos de estudos e profundidade
da reflexão.
Sendo um documento oficial da Igreja no Brasil CR está fortemente ligado à reflexão e
decisões do episcopado. Este, por sua vez se serviu da experiência vital dos
agentes de catequese e da assessoria de estudiosos. Mais do que sua aprovação num
texto oficial, foi significativo o processo
pelo qual ele foi gerado: envolveu a participação dos catequistas de base,
grande número de catequetas e quatro assembléias gerais do episcopado
(1980-1983). Também foi precedido por dois instrumentos
de trabalho e a redação de vários roteiros
de catequese. Vamos percorrer brevemente este longo itinerário e acompanhar
os passos de seu desenvolvimento.
Participei da elaboração de CR, principalmente no final do
processo, e este artigo se baseia no abundante material de arquivos quer
pessoais, como oficiais, recolhidos também em trabalhos acadêmicos. De fato, já
foram produzidas várias teses de doutorado e mestrado sobre CR. Exporei,
dentro dos limites deste artigo, não somente as idéias e seu desenvolvimento ao
longo do processo de confecção e aprovação de CR, mas também as pessoas que deram suas contribuições, o que pode
favorecer uma maior compreensão dos diversos momentos [1].
A renovação eclesial, pastoral e teológica, provocada pelo
Concílio Vaticano II está na base da renovação catequética brasileira. Mais
proximamente, os esforços representados por catequistas e catequetas na década
de 60, particularmente o encontro nacional do Rio de Janeiro (julho de 1968), a semana internacional de
Medellín (agosto de 1968) e conseqüente Conferência do Episcopado Latino
Americano também em Medellín (agosto-setembro do mesmo ano), são como que os
pressupostos teológico-pastorais da catequese no Brasil.
O Papa Paulo VI em 1975 publicou a Evangelii
Nuntiandi, sobre a evangelização, talvez o maior documento eclesial do
século XX, após os documentos conciliares. Logo depois convocou o Sínodo de
1977 que, em continuidade com o tema da evangelização,
refletiu e apontou novos caminhos para a catequese
em nosso tempo. Grande papel também tiveram as novas lideranças que
apareceram na Igreja; elas transmitiram renovado entusiasmo e dinamismo no já
movimentado MCB. Em 1978 é eleito Papa João Paulo II, que com sua Catechesi Tradendae e visitas à América
Latina, particularmente ao Brasil (1980), influenciou o curso dos
acontecimentos. Ele afirmou: “o futuro da Igreja neste País depende em máxima
parte de uma catequese sólida, segura, alicerçada no mais genuíno ensinamento
da Igreja... tratem uma e muitas vezes desse tema em vossas assembléias
nacionais, regionais e diocesanas". No Brasil em 1979 houve também
renovação da presidência da CNBB e à frente do departamento nacional de
catequese, (Linha 3 = L 3), foi colocado D. Albano Cavallin que manifestará
carismática liderança na condução da renovação catequética, por bem três
mandatos.
A elaboração das Diretrizes
Gerais 1979-1982, sob o forte impacto dos documentos da Assembléia de Puebla (1979) proporcionaram um maior
esclarecimento e aprofundamento das opções teológico-pastorais da Igreja no
Brasil, elementos fundamentais para o desenvolvimento da catequese. A
reafirmação da dimensão comunitária e de uma eclesiologia
fundamentada na participação e comunhão, deram renovado impulso às CEBs
e pequenas comunidades. Da prática catequética destas comunidades vivas surgiu
o novo modelo catequético que foi proposto a toda a Igreja: o método da
interação entre fé e vida.
Dentro deste quadro de renovação da vida eclesial, a reflexão
catequética avançou consideravelmente. Duas assembléias gerais do episcopado
(1979 e 1980), três seminários nacionais e uma série de outras reuniões deram
passos significativos para a definição e aprofundamento das linhas
teológico-operativas da catequese. Rejeitando a idéia de um catecismo nacional
dentro dos velhos ou renovados esquemas catequéticos, pensou-se em elaborar um roteiro ou temário catequético que pudesse ir ao encontro de uma maior
unificação da catequese em âmbito nacional.
Os catequetas, no esforço de apresentar algo mais abrangente do que um
simples roteiro ou elenco de temas,
por mais renovados e profundos que fossem, procuraram estudar melhor a natureza
e finalidade da catequese e o sentido de seu conteúdo. Nas trilhas da recente tradição catequética a partir do
pós-Concílio, passando por Medellín e
Puebla, refletiu-se que a verdadeira
educação da fé só pode ser feita a partir dos acontecimentos da vida, de modos
que a mensagem ressoe (katá-ekéo!) continuamente na vida dos catequizandos, e
mais ainda, na vida e caminhada da comunidade de fé.
Também inspirando-se na reflexão européia dos anos 60 sobre a correlação (interpretação da vida à luz da fé e descoberta da fé em ligação
com a vida), formulou-se o princípio de interação entre fé e vida. Tal
modelo catequético, fiel a Jesus Cristo, à Igreja e à pessoa humana, procura,
dentro do contexto latino-americano e sobretudo brasileiro, privilegiar a opção
preferencial pelos pobres. Isto provoca notáveis alterações não só em termos metodológicos, mas também no conteúdo da catequese.
O interesse do episcopado pela catequese começou propriamente na 17ª
Assembléia Geral (= AG) em abril de
1979, quando a catequese foi
escolhida como tema de reflexões e decisões. Dom A. Cavallin, convocou, então,
um seminário em novembro de 1979 cuja finalidade era "fundamentar
critérios sobre conteúdo e metodologia para a pastoral catequética" à luz
dos recentes documentos e da caminhada histórica da catequese no Brasil. Suas conclusões em 10 pontos, praticamente
contêm as idéias que impulsionaram o MCB neste período e o núcleo do futuro
documento CR: um radical cristocentrismo, uma substancial eclesiologia de comunhão e uma forte dimensão antropológico-situacional.
A preocupação da L 3 era formular os conteúdos da catequese, em vista do temário ou roteiro catequético
solicitado. Mas este Seminário acaba afirmando que o conteúdo fundamental da
catequese é o seguimento de Jesus Cristo dentro da comunidade de Fé que o
transmite por um processo de Tradição à qual pertence a Escritura, e tudo isto
articulado com as situações concretas da vida. À luz destas teses é que se
entende a outra formulação tão divulgada naqueles anos: a caminhada da comunidade faz parte do conteúdo da catequese. Para
o episcopado não foi fácil aceitar e integrar, como veremos, este princípio
dentro do documento CR: inúmeras
discussões, assembléias, reuniões, documentos e confrontos se sucederam até se
chegar a uma formulação aceita e aprovada.
Durante a 18ª AG (fevereiro de 1980) foi discutido o tema catequese, mas as idéias ainda não
estavam maduras. O episcopado determina explicitamente num pequeno documento:
"elabore-se um núcleo ou roteiro de
catequese em nível nacional". Acrescenta que deve conter os elementos fundamentais
exigidos pela integridade da mensagem conforme os documentos a partir do
Vaticano II, traçar orientações de pedagogia catequética, ser adaptável aos
regionais, dioceses e às diversas situações dos destinatários e, finalmente,
ser ponto de referência para os elaboradores de texto.
Em junho de 1980 realiza-se outro Seminário
em S. Paulo. Os participantes saíram dele um pouco frustrados, pois não
conseguiram chegar a conclusões oficiais. Entretanto foi um encontro decisivo
para a reflexão posterior: recusa-se a elaboração de uma simples lista de temas
e buscou-se uma nova concepção de catequese; a experiência religiosa da
comunidade de fé é o lugar da manifestação da Palavra de Deus e elemento
central da educação da fé. Um dos participantes, o Pe. Wolfgang Gruen,
salesiano, desenvolveu tais idéias, apresentando-as em outubro do mesmo ano
numa assembléia regional do Leste II e no encontro nacional de novembro
seguinte em Brasília. O resultado de tudo isso é levado à Assembléia Geral da
CNBB de 1981, quando o tema catequese é discutido mais amplamente. Pode-se
dizer que o texto do Pe. W. Gruen tornou-se, então, o ponto de referência e de
discussão em torno do qual se intensifica o debate do MCB até se tornar, num processo
lento e de intensa participação, no documento nacional CR.
Em síntese, o novo texto base
apresentou estas idéias: 1. A catequese doutrinal, com sua lista de verdades a serem transmitidas, está
superada e seria um contra-senso repropor este modelo nocional. 2. A reflexão
cristã se faz a partir dos acontecimentos da vida, do contrário o Evangelho não
se torna uma mensagem. 3. Isto é
possível através do planejamento de uma catequese em interação com a vida, de modo que a mensagem ressoe sistematicamente
ao longo da caminhada da comunidade, caminhada que também deve ser planejada.
4. Este modelo de catequese deve ter duas prioridades: a) fidelidade a Jesus
Cristo, à Igreja e à pessoa humana; b) opção preferencial pelos pobres, ótica
sob a qual tudo há de ser visto.
Muitos outros elementos foram abordados neste texto, como a descrição
dos três modelos catequéticos (doutrinal, experiencial e de interação), a
mediação da experiência religiosa na educação da fé, a correlação entre
tradições da fé e novas experiências de vida (de modo especial nas CEBs), a
caminhada da comunidade de fé com autêntico conteúdo da educação da fé, os
passos que se interagem mutuamente num crescimento contínuo da comunidade
(futuramente denominados: a união entre os membros, a abordagem da realidade, a
vida eclesial e a explicitação da fé). A descrição da mensagem (que seria o tal roteiro)
não é visto como uma atualização de temas doutrinais, mas como uma mensagem
viva, proclamada e ouvida dentro da situação histórica: é um sucinto quadro de
referência ou de expressões de fé formuladas a partir das experiências de fé
vividas nas CEBs. As discussões que se seguiram marcam, sem dúvida, um dos
períodos mais pujantes do MCB após o Vaticano II.
Durante a 19ª Assembléia Geral (fevereiro de 1981) o debate foi
intenso, porém não se chegou a uma definição. O episcopado prefere remeter o
assunto para a próxima Assembléia. É publicado um texto como um Instrumento de Trabalho (IT) com o título Orientações em torno do conteúdo da
catequese. Na verdade este título traduz aquilo que os assessores pensavam:
não queriam simplesmente elaborar uma lista de "verdades" a serem
ensinadas ou transmitidas na catequese, mas sim apresentar uma reflexão séria
sobre todo o ato catequético e sua
função dentro do conjunto eclesial, particularmente dentro da pastoral
orgânica. Começa com uma pequena visão histórica da catequese; seguem-se
3 grandes capítulos: o primeiro trata dos três
modelos de catequese (doutrinário, empirista e de interação: neste último
há uma ampliação); o segundo apresenta alguns
critérios para uma catequese realista e autêntica hoje (opção pelos pobres,
fidelidade a Jesus Cristo, Igreja e à pessoa humana, catequese como parte da
pastoral de conjunto). O terceiro capítulo intitula-se Prática do modelo de interação: a caminhada da comunidade, a mensagem, observações metodológicas sobre a mensagem, outros
elementos integrantes do conteúdo, suas conseqüências. Note-se que a parte
intitulada Mensagem permanece
praticamente a mesma elaborada pelo Pe. Gruen, porém é impressa em itálico, o
que lhe dá maior realce. Isto será mantido também na edição definitiva de CR quando este terceiro capítulo aqui
intitulado Mensagem, se transformou
em Temas fundamentais para a Catequese
Renovada.
Vinte mil cópias deste texto foram distribuídas: a intenção da L 3 foi
prolongar o processo de elaboração do novo Documento
Catequético envolvendo o maior número possível de pessoas, em todos os
níveis e ampliando a discussão sobre a catequese. Era uma metodologia para
facilitar a reflexão e assimilação da renovação que vinha no bojo do documento.
De fato assim aconteceu: desencadeou-se um intenso movimento de reflexão,
talvez nunca havido anteriormente. Multiplicam-se reuniões, assembléias,
cursos, conferências, dias de estudos, dramatizações, encenações e outras
iniciativas com os catequistas de base para aprofundar as idéias do novo
documento.
Houve um entusiasmo generalizado, e no ambiente eclesial começou-se a
falar e discutir conceitos que para a maioria era novidade: caminhada da comunidade, formulações da fé,
revelação de Deus através de palavras e
acontecimentos, interação entre fé
e vida, catequese como processo, modelo doutrinal, empirista, de interação...
Foi um grande momento do do MCB: pela primeira vez em nossa história
discutiu-se amplamente a natureza e o significado da catequese na comunidade
cristã. Nem todos conseguiam acompanhar suficientemente a reflexão, mas
percebiam que catequese é assunto importante e que ela estava adquirindo um
novo rosto. Não faltaram críticas, às vezes contundentes, como as da
Arquidiocese do Rio de Janeiro, principalmente no tocante à concepção de revelação,
a transmissão da mensagem e sua relação com a caminhada da
comunidade. A impostação geral, fundamentada na prática e teologia da
libertação, encontrava sérias resistências e críticas, às vezes mordazes, dos
opositores desta corrente teológico-pastoral.
O IT foi bastante reelaborado, com contribuições do encontro
nacional de coordenadores regionais (outubro de 1981) e um
intenso trabalho da L 3 à frente da qual estava o Pe. José Gueerickx.
Abandonou-se a idéia de se chegar a um roteiro, pois "não
adiantaria mudar apenas o roteiro,
sem ir mais a fundo". Ir a fundo,
aqui, significa elaborar verdadeiras diretrizes
nacionais de catequese sem ter que ficar girando "em torno do conteúdo
da catequese". Prevaleceu a idéia de apresentar as orientações gerais da
catequese, sem descer ao elenco das verdades da fé. Como conseqüência, o
novo IT preparado para ser
apresentado na próxima Assembléia dos Bispos e depois publicado como separata
para o estudo nas comunidades, não
continha mais aquela pequena descrição da Mensagem que havia desde os
esboços anteriores. Assim, sem nenhum roteiro,
temário ou esboço da mensagem, o
novo IT é apresentado à 20ª AG de
1982.
No encaminhamento do tema durante a 20a. Assembléia em 1982
falou-se da ampla discussão nas dioceses e do cuidado dos redatores em acolher
as sugestões feitas até então, dando atenção maior à figura de Cristo na
Revelação, às dimensões da catequese e melhor distribuição da matéria;
mereceram destaque: a opção pelos pobres, espírito comunitário, fidelidade a
Jesus Cristo, à Igreja e à pessoa humana, interação entre doutrina e vida, a
caminhada da comunidade. A maioria das críticas recaiu sobre o conteúdo da catequese e a relação entre revelação e catequese: alguns acusaram o
documento de dar mais importância ao método
do que ao conteúdo, de desprezar o conteúdo revelado, privilegiando a situação do catequizando, de igualar a
revelação em Cristo com as manifestações de Deus na História, de dar pouco
valor às antigas fórmulas da fé, inteligíveis em todos os tempos. Houve
insistência na preparação, o quanto antes, do tão solicitado roteiro com os conteúdos catequético
para ser enviado aos catequistas. Da votação resultou que o texto deveria
voltar às bases, ainda como Instrumento
de Trabalho; que se retomasse o texto dos temas fundamentais de catequese apresentados na 18ª AG
desenvolvendo o conteúdo fundamental de cada item, de modo que tudo estivesse
terminado no início de 1983. Note-se que nesta Assembléia foi também aprovada a
instituição do “Dia Nacional do Catequista" a ser celebrado no último
domingo de agosto.
Apesar de todo o esforço dos redatores, os conceitos não estavam
claros e havia ainda muita resistência em compreender o tema da revelação, ou a nova visão de conteúdo da catequese sempre com o
fantasma de falsas interpretações. O preconceito contra esta visão certamente
tinha como pano de fundo também a polêmica que se vivia naqueles anos entre o
magistério e os teólogos da libertação, com intensa repercussão no Brasil.
Assim, é patente o mandato dos bispos para que se voltasse ao problema dos temas fundamentais de catequese,
desenvolvendo o esquema baseado em Puebla
(que, por sinal havia sido novamente distribuído em Assembléia). A posição da
Assembléia era clara: por mais interessante que fosse considerar a caminhada da
comunidade como conteúdo da catequese, era necessário definir claramente o
conteúdo doutrinal da catequese: a confecção
de um roteiro era urgente.
Diante destes resultados, D. Albano se dirige a várias pessoas, como,
por exemplo, a Frei L. Boff e seu irmão Frei Clodovis, pedindo que elaborassem
roteiros de conteúdo catequético. Porém, foi no Encontro Nacional de
Coordenadores do ano seguinte que as coisas foram decididas. Neste ínterim,
alguns teólogos ajudam na reformulação do IT
que é publicado com o título de Orientações
para uma Catequese Renovada.
A nova redação do texto estava bastante modificada e dividida em 3
partes: 1. Visão histórica; 2. Catequese renovada e suas exigências; 3. Prática
de uma catequese renovada.. Aumentou consideravelmente a parte histórica, onde também se faz a análise das tendências e as orientações atuais do magistério. Na segunda parte foi reelaborada a questão da revelação que, ainda foi objeto de criticas; expõe-se a doutrina da
interação entre vivência e formulações da
fé, expressão que foi repetida à saciedade durante todos os debates, as
exigências desta interação, particularmente a tríplice fidelidade a Deus, à Igreja e à pessoa humana, e as várias dimensões da catequese. Enfim, na terceira parte se descrevia a prática de uma catequese renovada, abordando
o itinerário catequético da
comunidade, a figura do catequista,
o problema dos textos e manuais de
catequese e, já no final se
fazia alguma referência à catequese de
crianças. Isto significa
que a concepção de catequese deste documento foi pensada a partir do adulto. Reafirmou-se a intenção de colocar os fundamentos de uma
renovação geral da catequese, sua finalidade, conteúdo, metodologia e figura do
catequista; o novo passo seria a elaboração
do roteiro por parte de um grupo
de estudos. Através dos regionais, 40 mil cópias deste documento são
espalhadas pelas comunidades.
Esta redação intensificou o interesse pela catequese não só pela
insistência sobre o roteiro, que
agora deve ser redigido por mandato explícito do episcopado, mas também pela
discussão que o novo texto provocou. O assessor de catequese, Pe. J. Geeurickx,
afirma que em Brasília continuavam a chegar críticas e sugestões a perder de
vista... Pe. Gruen aponta algumas contradições internas e pede que se refaça
toda a fundamentação teológica; o regional Leste II fala da fragmentação do
texto, idealista e longe da realidade; critica a eliminação do conteúdo da
catequese mas reconhece o valor do documento em mostrar que catequese é muito
mais do que elenco de verdades. Da
Arquidiocese do Rio de Janeiro vieram 35 páginas com críticas e textos
alternativos. Num artigo de jornal, o cardeal desta arquidiocese refuta a idéia
de que a comunidade esteja no centro da catequese: é preciso colocar a doutrina
autêntica no centro de tudo, e a memorização deve ser retomada. A Nunciatura
Apostólica diz que enviou o texto à Congregação para o Clero, e esta expressou
o desejo de ainda revê-lo antes da publicação definitiva. Após uma elogiosa
avaliação sobre o esforço e originalidade do documento, a Nunciatura critica o
desequilíbrio antropológico, a visão de revelação e a subjacente concepção
eclesiológica, além de alguns vazios muito sérios; afirma, entre outras coisas,
que “a catequese pode ser um anúncio válido em si mesmo, ainda que não se
chegue à interação entre vivência e fé”. Muitas contribuições vieram da parte
do Pe. J. Ruiz de Copegui e do Pe. A. Antoniazzi que tiveram atuação decisiva
na revisão posterior do documento numa reunião em S. Paulo (julho de 1982).
Nesta reunião, da qual também participei, diversos aspectos são discutidos,
como destinatários, problema da linguagem na catequese, orientações
pedagógicas, a questão das fontes formais (Escritura, Tradição,
Liturgia, Vida Cristã) e materiais (situação atual). Por fim, os
participantes dão início à nova redação a partir de um esquema proposto pelo
Pe. Antoniazzi.
Para D. Albano, a maior preocupação era o roteiro, uma vez que
as orientações gerais já estavam bastante discutidas: restava dar uma resposta ao
episcopado que insistia sobre um roteiro
claro com o conteúdo explícito da catequese. No Encontro Nacional de Catequese de Agosto de 1982 são estudados 4
modelos de roteiro catequéticos já existentes: 1) O texto mais antigo do
Pe. Gruen, revisto pelo Instituto Lumen Christi de Campinas, que fazia parte
das primeiras redações. 2) O roteiro do Instituto Teológico Pio XI,
baseado nos documentos de Puebla, através de um esquema preparado pelo Pe.
Ralfy Mendes de Oliveira, desenvolvido posteriormente por mim; 3) O roteiro dos
irmãos Boff (cf acima) revisto pelo INP, e do qual muito me servi para elaborar
o segundo roteiro; 4) O roteiro do Regional Norte, tendo à frente Pe. Sandro
Galazzi e Frei Ari Pintarelli, tradução popular do primeiro roteiro, fortemente
ancorado nas experiências das CEBs. Neste último, como no dos Irmãos Boff, tudo
está concentrado ao redor do conceito de Reino
de Deus, visto, porém, radicalmente a partir da perspectiva da Teologia da
Libertação.
Com este Encontro Nacional propriamente concluiu-se o processo de
consulta às bases sobre o documento catequético. Os trabalhos passaram então
para o âmbito dos grupos de estudo e da Assembléia episcopal. Estes pequenos
grupos, como os seminários anteriores, podem ser considerados a origem do
GRECAT (Grupo Nacional de Reflexão Catequética), fundado em 1983 após a
aprovação de CR e que até hoje assessora a dimensão bíblico-catequética.
Um grupo de trabalho (bispos e catequetas) reunido em Belo Horizonte (novembro
de 1982), sob a coordenação do Pe. A. Antoniazzi, fez a revisão e redação de
todo o texto. Tendo que optar por um dos quatro roteiros para integrar o corpo
do documento de catequese a ser apresentado à assembléia dos bispos, foi
escolhido o segundo roteiro (do Instituto Pio XI). A razão que mais pesou nesta
escolha foi o fato de ser o roteiro mais completo dos quatro, satisfazer de
certa maneira o pedido dos bispos e desenvolver um esquema já apresentado nas
assembléias anteriores. Abandonou-se o nome roteiro e foi dado o título
definitivo de Temas fundamentais para uma
catequese renovada, como terceira parte do documento CR. Nesta
reunião ficou articulado e configurado o texto já quase definitivo para a
assembléia geral. Ainda uma reunião em Brasília (Pe. J. Gueerickx, Ir. I. J.
Nery e Pe. L. A. Lima) em dezembro 1982; fizemos as últimas integrações e
revisões destes Temas fundamentais (3a. parte), enquanto
outro grupo concluía a redação das outras três partes.
Na Assembléia Geral da CNBB de 1983 o texto é apresentado com o título
Catequese Renovada - Diretrizes e Conteúdo: era a quarta vez que o tema
entrava numa assembléia episcopal, agora como um documento bastante elaborado
para a aprovação definitiva. É composto de quatro partes: 1. A catequese e a
comunidade na história da Igreja (dimensão comunitária da catequese). 2.
Princípios fundamentais para uma catequese renovada (parte teológica, expondo o
tema da revelação e sua relação com a catequese); 3. Temas fundamentais para
uma catequese renovada (o tão solicitado roteiro: é a parte mais longa);
4. A comunidade catequizadora (a catequese dentro da caminhada da comunidade).
As discussões e observações se concentraram mais na segunda parte
(revelação) e terceira (conteúdo da catequese). Em 15 de Abril, o texto refeito
e emendado com as sugestões da Assembléia, foi aprovado por unanimidade. Um
longo aplauso indicou a satisfação episcopal pela conclusão de tão longo
processo de elaboração do documento catequético. Logo depois foi publicado
oficialmente nas edições Paulinas com o título Catequese Renovada - Orientações e Conteúdo. Em carta de aprovação
do documento o Card. Silvio Oddi, prefeito da Congregação para o Clero fez uma
apreciação altamente elogiosa.
A acolhida ao documento foi entusiasta. O longo processo de
preparação, reflexão e colaboração na gênese deste documento por parte de
tantos catequistas, coordenadores, catequetas e pastoralistas, despertara uma
forte expectativa em torno dele. Em
apenas um mês foram necessárias três edições, sendo distribuídos cinqüenta mil
exemplares, cifra impressionante, dado o pouco hábito de leitura e o pequeno
poder aquisitivo da maioria dos catequistas. Durante todo o ano de 1983 e 1984
multiplicaram-se os cursos, reuniões, assembléias regionais, diocesanas e
paroquiais, e muitas outras iniciativas para estudar CR. A divulgação e operacionalização de CR foram obra, sobretudo, dos novos assessores da L 3: o Ir. I. J.
Nery, com seu dinamismo organizacional e ao venerando Fr. Bernardo Cansi, de
santa memória, com sua grande carismática força de comunicação popular.
Foi uma longa e penosa caminhada, mas com resultados promissores. O
envolvimento dos catequistas de base e de pessoas de todos os níveis eclesiais
fez com que CR fosse não só um ponto de chegada consensual, mas também
um poderoso instrumento para a renovação catequética. Ele está em sua 32ª
edição, cerca de 200 mil exemplares distribuídos, sinal de sua grande aceitação
e utilização. Ao lado da edição oficial devem ser consideradas também as
inúmeras versões em linguagem simplificada ou popular. Este processo histórico
serve de modelo para outras produções similares. Hoje estamos trabalhando na
redação do Diretório Nacional de Catequese: é uma boa oportunidade para
resgatar as grandes intuições de CR e atualizá-las. Certamente chegará o
momento também de redigir um Catecismo Nacional, embora isto não
estivesse nas perspectivas de CR há 20 anos atrás. Será então o momento
de resgatar também os outros três roteiros de catequese não integrados
em CR (cf acima 3.1). Eles poderão inspirar os possíveis catecismos
nacionais ou regionais.
·
Artigo publicado também in Vida Pastoral XLIV
(2003), nº 232, pp. 3-8
Pe.
Luiz Alves de Lima, salesiano, é Diretor e Professor do Instituto
Teológico Pio XI, membro do GRECAT e da SCALA, redator da Revista de
Catequese, coordenador do grupo redator do Diretório Nacional de
Catequese.
[1] Neste artigo, bastante sintético, não cito nenhuma nota bibliográfica. Entretanto cada afirmação está baseada na ampla documentação de arquivos, como de publicações. Os interessados na fundamentação bibliográfica poderão consultar tanto minha tese doutoral (Alves de Lima Luiz, A face brasileira da catequese, Universidade Pontifícia Salesiana, Faculdade de Teologia, Tese nº 346, Roma 1995, 550 pp.), ou um seu resumo, mais acessível: Alves de Lima Luiz, Gênese e significado do documento “Catequese Renovada” in Passos M. (org.), Uma história no plural, Petrópolis, Vozes 2000, pp.115-174; e ainda ID., O recente movimento catequético brasileiro in Revista de Catequese 19 (1996) n. 73, jan.-março, pp. 5-24