SOBRE O ROMANCE DE BROWN “CÓDIGO DA
VINCI” (1a parte)
OS TEMPLÁRIOS E A INQUISIÇÃO
(Pe Ignáciodos padres escolápios)
AFIRMAÇÕES GRATUITAS: Por não dizer
completamente anti históricas, temos na página 335:
-Disse Langdon, o historidor
de Harvard(?): Durante a Inquisição, a Igreja [com maiúscula, portanto será a
Igreja Católica] acusou os templários de todos os tipos de heresias, não foi? Leigh, o historiador da Coroa inglesa (?): -Correto.
Inventaram todos os tipos de acusações. Sodomia, urinar na cruz, adoração ao
demônio, uma lista e tanto.
REFUTAÇÃO: Quem acusou de tais
abominações, aliás conseguidas sob tortura como provas, foi o rei Filipe o
Belo. Houve duas fases na condenação dos
Templários A primeira fase podemos chamá-la de
comissão real. Felipe, o Belo, neto de S. Luis, efetuou um interrogatório
preliminar e com a força das assim chamadas revelações de uns poucos membros
indignos e degradados. Enviaram-se ordens secretas através da França para
arrestar todos os templários no mesmo dia (13 de outubro de 1307) e de
submetê-los à interrogação mais rigorosa. Apareceu como um fato feito pelo rei
à petição dos inquisidores eclesiásticos; porém na realidade era sem sua
cooperação. O rumor sobre um acordo
prévio entre o rei e o Papa tem sido finalmente descartado. Foi uma
revelação duvidosa que permitiu Felipe encarar, desde a ortodoxia, perseguir os
Templários como hereges, coisa que lhe deu a oportunidade que ansiava para
invocar a ação da Santa Sede.
Levada à termo sem a autorização do Papa, que
tinha as Ordens militares sob sua jurisdição imediata, esta investigação era
radicalmente corrupta enquanto a sua finalidade e procedimentos. Não só
levantou Clemente V uma enérgica protesta, senão que anulou o juízo
integramente e suspendeu os poderes dos
bispos e seus inquisidores.(Charles Muller)
A influencia dos templários se
eclipsou bruscamente na noite da sexta feria do dia 13 de outubro quando, em
cumprimento de um mandato de Felipe IV, todos os templários daquele
pais foram arrestados.
Filipe logrou que se confirmaram
diante do Papa as confissões de setenta e dois templários acusados, os quais
tinham sido previamente escolhidos e treinados de antemão. Tendo em vista esta
investigação feita em Poitiers (junho de 1308), o
Papa, que até então tinha se mantido incrédulo, finalmente se mostrou
interessado e formou uma nova comissão que ele mesmo dirigiu. Deixou a causa da
Ordem à comissão papal e o julgamento dos indivíduos
às comissões diocesanas às que devolveu seus poderes.
Segunda fase: a comissão papal: A segunda fase do processo foi o interrogatório papal que não estava restringido à França, mas que se
estendia a todos os países cristãos. Na maioria dos países, Espanha, Portugal,
Alemanha, Chipre, os templários foram achados inocentes. Na Itália, salvo por
alguns poucos distritos, a decisão foi a mesma. Mas na
França os inquisidores [episcopais] (1)aceitaram os
fatos como foram estabelecidos anteriormente e se limitaram a reconciliar os
arrependidos, membros culpáveis, impondo diversas penalidades canônicas que se
estendiam até a prisão perpétua. Só os que se obstinavam na heresia deviam ser entregues ao
braço secular. Porém, devido a uma interpretação rígida das regras do julgamento, os que
negavam suas confissões anteriores eram considerados hereges reincidentes.
Desta forma 54 templários que se tinham retratado após sua confissão, foram
condenados como reincidentes e queimados publicamente em 12 de maio de 1310.
Subseqüentemente os outros templários que tinham sido julgados, com muito
poucas exceções, se declaram culpáveis. Ao mesmo tempo a comissão papal assinada ao exame da causa da Ordem, tinha assumido
seus deveres e reunia a documentação que teria que ser submetida do Papa e ao
concílio geral convocado para decidir sobre o destino final da Ordem. A
culpabilidade das pessoas isoladas não implicava a culpabilidade da Ordem.
Embora a defesa da Ordem foi efetuada deficientemente, pois a maioria dos
templários não sabia ler nem escrever nem entendia os termos técnicos
jurídicos, não foi possível provar que a Ordem como corpo professasse doutrina
herética alguma ou que uma regra secreta, distinta da regra
oficial, fosse praticada. Em conseqüência o Concilio Geral de Viena, na Dauphiné [França], no dia 16 de outubro de 1311, foi
favorável por maioria à conservação da Ordem.
O Papa, indeciso e pressionado, finalmente adotou um curso meio: decretou
a dissolução, não a condenação da Ordem e não por sentença penal, mas por um
Decreto Apostólico (Bula 22 de março d 1312). Suprimida a ordem, o Papa
unicamente devia decidir sobre o destino de seus membros e como dispor de seus
bens. As propriedades foram entregues à Ordem rival dos Hospitalários
para serem usadas no seu propósito original, qual era
a defesa dos Santos Lugares. Porém em Portugal e Aragão o domínio foi entregue
a duas Ordens novas, a de Cristo em Portugal e a de Montesa
em Aragão [Espanha]. Pelo que respeita aos membros os templários reconhecidos
inculpados tiveram licença para se unir a uma outra Ordem militar ou bem
regressar ao estado secular [não esqueçamos que eram monges com votos]. Neste
último caso foi-lhes concedida uma pensão vitalícia com cargo aos bens da
Ordem. Os templários que se declararam culpados diante de seus bispos deviam
ser tratados conforme aos rigores da justiça, temperados por uma misericórdia
generosa. O papa reservou para seu próprio discernimento a causa do grande Mestre,
Jacobo de Molay e de seus três primeiros comandantes. Eles
tinham confessado sua culpabilidade; faltava reconciliá-los com a Igreja, após testemunhado seu arrependimento com a solenidade
acostumada. Para oferecer maior publicidade a esta solenidade, foi erigida
diante de Notre Dame
[catedral de Paris] uma plataforma para a leitura da sentença. Mas no momento
supremo, o grande Mestre recuperou sua coragem e proclamou a inocência dos
templários e a falsidade de suas próprias supostas confissões. Em reparação por
seu instante de fragilidade declarou-se disposto ao sacrifício de sua vida.
Sabia o destino que lhe esperava. Imediatamente depois deste ato foi arrestado
como herético reincidente junto a outro comandante, Godofredo de Charney, que escolheu compartir seu destino e por ordem de
Felipe foram queimados na estaca frente às portas do palácio. Esta morte
valente impressionou vivamente o povo e dado que tanto o Papa como o rei faleceram pouco depois, correu a lenda de que o grande
Mestre desde as chamas tinha convocado os dois a comparecer dentro de um ano
frente ao tribunal divina.
(1) Devemos distinguir entre Inquisição como tribunal episcopal, que constituía a Inquisição medieval e a Inquisição papal, espanhola e romana. A origem da Inquisição medieval temos que busca-la nos séculos XI-XII quando se intensificou a atividade dos cátaros e dos albigenses.Os príncipes e o povo reagiram violentamente contra eles. Os papas, durante algum tempo, tiveram que frear esse impulso crescente. Porém finalmente no Concílo de Latrão III (1179)incitaram os príncipes a aplicar as sanções penais contra os hereges. O IV Concílio de Latrão (1225) codificou as leis existentes e urgiu o seu comprimento. O papa Gregório IX em 1231 aceitou para toda a Igreja a constituição de Federico II(1224) pela que se impunha a pena de morte aos hereges e formou o tribunal da Inquisição do qual foi encarregada a ordem dos dominicanos. Na Espanha só existiu como tal no reino de Aragão. Neste tempo destacou-se como obra a de Nicolas Eimerich com o nome de Diretório de Inquisidores, manual da Inquisição medieval. O Malleus Maleficorum que foi publicado em 1486, bastante mais tarde do que foi a era da Inquisição dos tempos dos cátaros e albigenses. Trataremos das bruxas em outro artigo.