SEGUNDA REFUTAÇÃO DO "CÓDICE
DA VINCI"(2ª parte)
(Pe. Ignácio, dos Padres Escolápios)
AS BRUXAS E A
INQUISIÇÃO:
Na página 135 lemos um
resumo sobre a perseguição às bruxas no renascimento
segundo o historiador(?)de Harvard, Langdon: <A inquisição
católica publicou o livro que se pode considerar o mais sangrento da
história da humanidade. O Malleus Maleficarum - ou o Martelo das
feiticeiras- doutrinava o mundo contra os ¨perigos das mulheres de
pensamento liberal¨e instruiu o clero sobre a forma de localizar, torturar
e destruir essas mulheres. As pessoas consideradas ¨bruxas¨ pela igreja
incluíam todas as professoras (?), sacerdotisas, ciganas,
místicas, amantes da natureza, coletoras de ervas e qualquer mulher
¨que fosse suspeita de sintonizar-se com o mundo natural¨. As parteiras
também eram perseguidas e mortas por sua prática herética
do uso do conhecimento médico para evitar as dores do parto- um
sofrimento, segundo a Igreja, que era a punição justa por Eva ter
dividido o Fruto da Árvore do Conhecimento, gerando assim a idéia
do Pecado Original. Durante 300 anos de caça às bruxas, a Igreja
queimou na fogueira a quantidade impressionante de cinco milhões de
mulheres>.
RESPOSTA
INTRODUÇÃO:
Atualmente entre os não-cristãos que muitas vezes se intitulam
neo-pagãos, muitos homens e mulheres se dizem bruxos, e afirmam que a
maioria das bruxas executadas no tempo da caça às mesmas eram membros
de religiões pagãs. Tais são as idéias dos membros
de Wicca. Esta é a nova religião chamada também Witchcraft
ou simplesmente Craft fundada na Inglaterra perto dos anos 50 do século
passado, pelos livros de Gerald Gardner. A Wicca venera uma deusa feminina no
seu aspecto triplo de virgem, mãe e anciã cujo símbolo
é a lua como
continuação da deusa pagã Diana. Como Deus masculino
admite o deus conífero, ligado ao deus sol pois nasce-morre e
ressuscita. Pan e Dionísio são os deuses pagãos mais
representados. O símbolo mais usado é a estrela de Davi dentro de
um círculo, junto com outros símbolos maçônicos e
mágicos, dependendo dos antigos cultos célticos. Celebram 8
sabbats, 4 menores coincidindo com os equinócios e 4 maiores, no final
dos meses intermediários. A prática da bruxaria é comum e
nalgum casos também o satanismo. Seu princípio moral é
faze o que queres desde que não prejudiques os outros. Daí a
liberdade sexual absoluta. Com esta pequena introdução
entenderemos melhor a base do juízo histórico que usa Dan Brown
em seu romance.
Vejamos as afirmações
gratuitas exageradas e falsas. 1)A Igreja católica publicou um livro.
Bom, para dizer a verdade, antes do Malleus foram publicados manuais para
inquisidores desde 1230, incluíndo muitas vezes questões relacionadas
com a bruxaria além da heresia convencional como o Fornicarius do frade
dominicano John Nider(1380-1438). É verdade que o livro que mais influiu
foi o Malleus dos dominicanos Heinrich Kramer [também conhecido como
Institoris] e Jacob Sprenger de 1486 do qual houve dez edições em
menos de cinqüenta anos. Outro compêndio como manual da
Inquisição foi o Compendium Maleficorum(1608)do inquisidor
italiano Francesco Guaso. Também houve publicações de
autoridades seculares e políticas como Jean Bodino ou Bodin [famoso
economista francês] em De la Demonomanie dês sorciers [que por certo
teve 17 edições em 23 anos portanto mais popular do que o
Malleus, texto este último particular para os inquisidores] ou o do
anglicano rei Jacobo I em 1597. Como vemos não foi um único livro
e houve um outro publicado por um leigo tanto mais importante que o Malleus.
2)Doutrinava o mundo. Errado! Era um manual para inquisidores de forma que a
continuação deve admitir instruiu o clero. 3)Parece que a
finalidade era o perigo das mulheres de pensamento liberal. Vamos refutar esta
afirmação pois o pensamento liberal das mulheres era praticamente
inusitado nos tempos do Malleum. Houve um período que podemos chamar
como da caça às bruxas. Vamos distinguir entre feiticeira e
bruxa. A bruxa tem pacto com o diabo e por isso adquire poderes
extraordinários. Já as feiticeiras exercem malefícios por
meio de práticas supersticiosas. E são precisamente estas, as
feiticeiras [maleficae] que são buscadas e condenadas pelo MM. Os
inquisidores pensavam que os atos das bruxas podem ser cometidos sem cair na
heresia, sem erro na fé, não obstante grande pecado (MM volume
III, questão I). Qual era pois o pecado das bruxas que a
Inquisição descobriu nessa época (1450-1750) para
caçá-las de modo tão implacável? O nosso autor
junta-se à opinião das feministas atuais (e dos membros da Wicca)
que afirmam que as bruxas eram as feministas daquela época e que seus
rituais serviam para reforçar sua oposição ao
domínio masculino. Porém isso não constitui heresia que
era o motivo da Inquisição da Igreja. Por isso vamos ver a
refutação olhando as páginas da verdadeira
História.
UM POUCO DE HISTÓRIA:
a) ANTES DE 1450:
DA EXCOMUNHÃO À PENA DE
LESA MAJESTADE
O AT , considerava o povo hebreu
como uma teocracia (=Jahvé era a autoridade total e suprema), suas leis
eram de caráter religioso e civil ao mesmo tempo.(Um exemplo moderno
são os estados islâmicos não laicos). Nas leis do AT a pena
de morte era considerada como justa, em determinados casos como a idolatria (Dt
13,6), blasfêmia(Lv 24,16),
os falsos profetas (Zc 13,3)
e a incitação à apostasia(Dt 13,2-8). O NT
interioriza (Mt 5,28) e separa a religião do Estado(Jo 18,36). E repudia
a violência como técnica, tanto frente a infiéis como a
pecadores, admitindo como prática unicamente a pregação
persuasiva (Mt 18,19-20). Jesus só usou de violência uma vez, ante
os mercadores do templo, não para pregar a fé, mas para corrigir
um abuso(Jo 12,13-16)
Ante as condutas escandalosas dos
blasfemos e dos cismáticos, os apóstolos aplicam o preceito do
Senhor; ou seja, a excomunhão. Se ele recusar ouvir a própria
Igreja, seja para ti como pagão e o coletor de impostos(Mt 18,15), com
os quais os judeus não tinham relações sociais. Nestes
casos a excomunhão substitui a pena de morte que a Igreja proíbe,
assim como outros métodos de violência física,
próprios do Estado. Com respeito aos hereges, os bons e os maus devem
conviver até o juízo final, segundo o Senhor (Mt 13,30). Paulo
dirá aos corintios que oportet
et haereses esse(= é conveniente que haja também
divisões de opinião), que mal traduzido do latim, resultou em
“é necessário que haja hereges”.(I Cor 11, 19).
Como chegamos à
intolerância e perseguição durante a Idade Média?
Segundo o Pe. Quevedo o primeiro processo de bruxaria de que temos conhecimento
foi instaurado pelo faraó Ramsés III por volta de 1300 a C. Porém
não se castigava no Egito a prática da magia, pois o
próprio faraó era mestre na mesma. Parece que foi uma
apropriação indevida de um leigo na matéria, que roubou
certos secretos do faraó, o que precipitou o castigo. Suetônio diz
que Augusto [pontífice máximo]mandou queimar mais de 2 mil livros
de bruxaria confiscados em
Roma. Os romanos consideravam qualquer outra prática,
diferente das previstas em sua religião como supérflua,
inútil e supersticiosa. Passamos à religião cristã
que se transforma em
oficial. De um modelo pagão, o romano, em que a religião do Estado era
oficial, perseguindo toda outra que não fosse a tradicional e
estabelecida, quando o Imperador já é cristão, como
aconteceu com Teodósio, no ano de 380, se proibiu o arianismo. Por isso
os imperadores podem convocar concílios, são requisitados para
impedir o cisma ou a heresia, e louvados por seu zelo sacerdotal e real. A
Igreja se vê envolvida no tipo de repressões que o Estado pode
suscitar porque os hereges estão implicados na ordem social e na
segurança cidadã. O Estado por meio do Codex Teodosianus(de
Teodósio) acrescenta às penas do desterro e confiscação
de bens, a pena capital. S. Agostinho(+ 430) embora lamente a dureza dos
castigos impostos e defenda que deve ser excluída a pena de morte,
vê-se forçado a pedir ajuda imperial contra os donatistas na
África, rigoristas fanáticos, cujo chefe Donato era verdadeiro
agitador de massas. Eram seguidores de Montano(172) o qual pregava o fim
próximo do mundo, a renúncia ao matrimônio e o
exercício de um rigoroso jejum e que por sua vida de pureza e
perfeição, atraia muitos incautos. Parece que a História
se repete, sendo estes donatistas os predecessores dos albigenses. Porém
a Igreja está formada por homens e mulheres de todas as classes,
pecadores na sua maioria, para que a abundância do pecado seja superada
pela abundância da graça (Rm 5,20) e não pretendamos uma
Igreja santa, mas uma igreja redimida. O Imperador Constantino em 317 dC
penaliza a magia com castigos e correções como merecem os homens
que a praticam. O código de Teodósio em 438 castiga com toda
classe de penalidades os que invocam o demônio. Quando em 385 o imperador
Máximo condena à morte Prisciliano, o bispo hispano acusado de
maniqueísmo, o papa Sirício, S. Ambrosio e S. Martin de Tours
protestam energicamente. Lactâncio (sec IV),o Cicero Cristão,
escreve: “Se queres defender a religião com o derramamento de
sangue, os tormentos ou o mal, não a defendes mas a maculas e a
violas”.
APÓS AS INVASÕES
BÁRBARAS
Podemos dizer que compreende
desde o século V com as invasões e a queda do império
romano(476) pelo hérulo Odoacro, até o X. Os hérulos eram
tribos selvagens, bárbaras que não falavam latim, e que aparecem
no século III às margens do mar Negro. Unem-se aos godos e logo aos hunos de
Átila para formar um reino no Danúbio, invadindo daí o
Império Romano do Ocidente então regido por Rômulo, com o
mesmo nome do fundador de Roma. Vamos estudar este período, dominado em
parte por Justiniano(+565) pois as leis de seu Corpus Iuris Civilis e Codex
Iustinianus. foram os princípios jurídicos de um estado de
Direito, o chamado Direito romano, que prevaleceu até hoje. Durante esses
escuros anos dos séculos V ao IX em que a figura de Carlo Magno(766-814)
centra com seu poder e influência a Europa cristã, a Igreja foi a
educadora dos povos novos e a depositária da cultura mediterrânea
por não dizer romana. Os laicos eram quase todos analfabetos e era o
clero quem preservava e transmitia a romanitas. Com a exceção da
Espanha dos visigodos e da Inglaterra dos monges discípulos de
Patrício e do venerável Beda, o resto da Europa era terra
selvagem, sem cultura nem direito. Dois fenômenos vieram transformar este
estado de coisas: a conquista do sul da Europa pelo islã e o ressurgir
do reino franco nas antigas Gálias. Se a primeira destruiu a rica
tradição romana recopilada por Isidoro e sua escola de Sevilla, a
segunda fundou-se em uma nova realidade, a chamada Christianitas, uma nova
forma importantíssima de Teocracia, que mais tarde descreverá
Federico II em carta ao Papa Gregório IX como a existência de duas
espadas porém numa só bainha: a Igreja. Ou ecclesiam et imperium
esse unum et idem [a Igreja e o império eram uma só coisa
idêntica]. A respeito de nosso caso para que a heresia se
constituísse delito ou crime, existiam diversos decretos e leis: Diocleciano no
ano 387 condenando à morte pela fogueira todos os chefes maniqueistas; O
Codex Teodosianus do ano 407 que equipara o delito de heresia com o de lesa
majestade, castigando-o com a pena de morte, leis do imperador Leão em
407 e de Justiniano em 510 declarando réus do último
suplício a diversos hereges. Mas quem sabia disso? A lei sálica[=dos
sálicos povos francos que habitavam a Germânia inferior] de
Clodoveu nesse século V, prescreve uma multa de mil denários
à bruxa que tenha comido carne humana. Carlomagno (cerca 800) assassinou
os sacerdotes pagãos na Saxônia. Ele mesmo, no final do
século VIII, fixava penas de prisão para os bruxos, seguidas de
um período de penitência. No ano de 873 Carlos o Calvo, declara
que devem desaparecer os feiticeiros de nossa terra: aqueles que se dedicam
à prática de malefícios contra as pessoas como era o caso
de privar da saúde, ou da vida, ou levar à loucura. Na Inglaterra
parece que a morte das bruxas começou bem cedo. Em 690 um bruxo devia
pagar 6 shelins ou a própria pele. No século IX a lei dos
sacerdotes Northumbrian declarava que se alguém praticava em qualquer
forma a bruxaria e o culto aos ídolos, embora fosse um representante do
rei, tinha que pagar 10 meios marcos, a metade a Cristo e a metade ao rei. No
ano 906 o Cânon Episcopi descreve a Bruxaria como totalidade de
ilusões e fantasias, por isso pagã e herética. Em 936 o
Papa Leão VII instruía ao arcebispo de Lorch [Alemanha] para ser
mais benigno que a justiça civil com os feiticeiros: perdoar-lhes a vida
para que possa fazer penitência. Era na época em que o rei Ramiro
I da Espanha decretava pena de fogueira contra magos e feiticeiras. No
século XI o rei Coloman da Hungria recusou ditar leis contra as bruxas
porque não existiam. Nesse século houve uma grande revolta na
Polônia liderada por sacerdotes pagãos que foi afogada em sangue por
ordens do rei Boleslav, o Valente. No século XII John de Salisbury
[secretário do arcebispo de Canterbury] referia-se à festa das
bruxas como um fabuloso sonho. Mas tudo mudou com os hereges chamados
cátaros, patarinos ou albigenses.
A CRUZADA CONTRA OS ALBIGENSES
FATOS: Eram também
chamados cátaros [limpos ou puros] que pretendiam uma absoluta pureza de
costumes, iluminados com as doutrinas maniqueias [dois princípios: do
bem e do mal]e apojando-se na miséria social da época e que,
contrária à Igreja, iniciou uma revolução entre os
séculos XI e XII, recebendo diversos nomes como Albigenses[da cidade de
Albi], e de Patarinos [pobres]no norte de Itália.e Ketzers no Reno
alemão. Seus costumes eram anti-sociais, com a condenação
do matrimônio, o anticlericalismo, ante o qual pretendiam opor os Bons
Homes. Vestiam vestes pretas, não podiam comer carne e sempre andavam
aparelhados cada bom home perfeito tinha seu sòci e cada perfeita sua
sòcia e praticavam a endura uma espécie de suicídio em que
se negavam a ingerir alimentos. O povo simples deixou de escutar os
clérigos que tiveram nalguns lugares de abandonar suas atividades ao
comprovar que ninguém os escutava. O movimento teve início no ano
1000 dentro da França da língua de Oc [ daí o Languedoc]
diferente da língua propriamente francesa de Oil, do norte. Para os
historiadores laicistas só tinham um defeito: a
discriminação da mulher que o catarismo considerava como
receptora de influências satânicas, dada sua função
generativa. Somente em livros de História eclesiástica
encontramos a verdadeira razão pela qual esta se defendeu pois
alimentavam um ódio feroz contra a Igreja Católica[de Roma],
ódio que em muitas ocasiões se manifestava no saque dos templos,
em atentados sacrílegos, assassinatos de clérigos e fiéis.
S. Bernardo, recorrendo a Aquitânia e o Languedoc, não vê
mais que templos sem fiéis, fiéis sem sacerdotes, sacerdotes sem
honra, cristãos sem Cristo. A heresia semeou a discórdia em todas
as famílias <...>As igrejas estão desertas e se convertem
em ruínas- dirá. 1212: um exército cruzado composto por
tropas castelhanas(60 mil), navarras e aragonesas (50 mil)e um contingente de
cruzados (70 mil) derrota os almohades(250 mil) nas Navas de Tolosa, impedindo
uma nova invasão árabe na Espanha. Em 1117 Raimundo V de Toulouse escrevia
que a heresia penetrou em todas as partes.
No Languedoc e na Aquitânia [sudoeste francês] a maior parte
da nobreza era favorável; pois ao negar à Igreja o direito a possuir
bens terrenos, justificava seu despojo. Razão havia para isso porque a
autoridade real era praticamente nula. Os hereges mais fanáticos eram os
das comarcas de Albi e Toulouse, que incendiavam igrejas, pisoteavam
hóstias consagradas e cometiam outras tropelias contra os
católicos. Calcula-se que havia 14 mil perfeitos na Europa,
distribuídos principalmente entre o norte da Itália e o sul da
França. Todos os perfeitos tinham a obrigação de ganhar
adeptos e pecava gravemente o perfeito que não tratasse de converter um
interlocutor, ainda estranho à seita. Calcula Guillermo de Tudela que os
soldados contra os cruzados no território de Toulouse eram 200 mil. Mesmo reduzindo o seu número por
4 teríamos na época um grande número. A Igreja, sem prestígio
devido a seus costumes mundanos, não oferecia argumentos
contrários aos hereges; tudo pelo contrário, favorecia a
propagação de suas doutrinas austeras. O cardeal Humberto da
Silva defendeu o uso da espada conta os hereges. Em contra, no mesmo tempo, S.
Pedro Damiani (1007-1072) grande diplomata dos Papas, defensor da
aliança entre o Império e o Papado, mantinha idéias
contrárias. Em 1119 a
pregação em Tolouse, assim como a seguinte excomunhão,
teve efeitos nulos. Do fracasso de Bernardo(1145), e dos dominicanos fundados
para combater a heresia, chegou-se a conclusão de que a guerra era a
única maneira justa de encontrar a paz. A primeira cruzada tinha
já conquistado Jerusalém (1099) e em 1118 foi fundada a primeira
ordem militar da Igreja, a dos templários, reconhecida em 1128 pelo Papa
como sua milícia pois só a ele estavam submetidos. Finalmente o
Decreto de Graciano justifica as guerras contra hereges, cismáticos e
pagãos(1140) João Graciano era um monge de um mosteiro
camaldulense de Bolônia(Itália nordeste). Escreveu o Concordis
Discordantium Canonum, conhecido como Decreto de Graciano. Era uma
recopilação de cânones e decretos do direito romano civil e
eclesiástico. No Concílio de Tours (1163) a heresia é
condenada. Em 1165 houve um encontro,
promovido pelo bispo de Albi, entre bons homes e católicos que foi um
fracasso, terminando em gritos e insultos. Em 1167 convoca-se o concílio
cátaro de Saint-Félix-de-Caraman perto de Toulouse, em que as
diversas igrejas cátaras se organizaram definindo seus limites e
nomearam bispos titulares como chefes das mesmas. Em 1176 teve lugar o
Concílio de Lombers perto de Albi: o arcebispo de Narbona em pessoa, com
outros bispos teve um colóquio com os cátaros sem resultado. O
Papa Alexandre III no último capítulo do concílio
Lateranense III(1179) anatematizou [=lançou a excomunhão ,
declarando estar fora da Igreja] os que publicamente ensinavam o catarismo nas
regiões de Gasconia (Vascunha francesa), Albegesia et partibus
Tolosanis. exortando os nobres a tomar as armas contra os hereges em defesa do
povo fiel. No ano seguinte o Cardeal legado, Henrique de Albano, foi enviado
à frente de uma cruzada contra Roger II conde de Beziers e Carcasona.Em
1184 o Papa Lucio II e o imperador Federico barba Vermelha se concertaram para
o combate contra a heresia. Do acordo saiu a decretal Ad Abolendam em que se
previa um certo aparato diocesano que estaria em atuação e seria
apoiado pelos poderes seculares. Mas não se previa a pena de morte. Foi
em 1199 que o Papa Inocêncio III renova o anterior decreto pela bula
Vergentis in Senium que introduziu uma novidade perigosa equiparando a heresia
com o delito de lesa majestade. Nela como pena da heresia estava a fogueira. Em
1206 Inocêncio III, vista a inoperância dos bispos e do clero
local, designa como legado para o condado de Tolouse, com plenos e
independentes poderes, mas só em matéria de heresia [era o
início da Inquisição papal], Pierre de Castelnau com a
ajuda de Arnaud Amalric, abade da Ordem do Cister e de S. Domingos, o fundador
da ordem dominicana. Em 1208 Pierre excomungou o conde Raymond VI, castigo que
acarretava a confiscação dos bens e das terras. No dia seguinte
depois de ser comunicada a excomunhão o delegado papal foi assassinado .
O papa aproveitou a ocasião pra declarar mártir a Pierre e
convocar uma cruzada [ a chamada 5a cruzada] contra os hereges.Em 1209 no
sínodo de Avignon, presidido pelo próprio Papa, instou na
obrigação que as autoridades laicas tinham de perseguir os
hereges,sob pena de excomunhão. Bispos, sacerdotes, cistercienses e
dominicanos exortaram o povo a tomar as armas. Com poucas tropas, o conde se
submeteu e o novo legado pontifício como penitência mandou fosse
açoitado perante três arcebispos e mais de vinte bispos. Sob o
mando do tristemente célebre Arnau de Amalric o enorme exército
cruzado [300 mil homens]foi conquistando os castelos e cidades cátaras a
começar pela cidade de Beziers. Dizem que 7 mil pessoas foram
massacradas na igreja da Madalena, sendo que a cidade foi saqueada durante dois
dias, sem distinção entre hereges,católicos, mulheres e
crianças. Todos foram eliminados. Calcula-se o número em 30 mil.
Ao perguntar a Arnau como distinguir entre católicos e hereges, ele
respondeu: Matai todos eles. Deus reconhecerá os seus. Era o ano 1209. Esta matança fez
que as restantes cidades se renderam exceto Carcassone. Após um severo
assédio de quinze dias o conde rendeu-se morrendo no cárcere. O
condado foi dado a Simão de Monfort, antigo cruzado em terra santa. Este
continuou a luta durante um tempo. Famosa foi a batalha de Muret, [setembro de
1213] em que o rei de Aragão pereceu lutando a favor dos albigenses ou
melhor de seu cunhado o visconde Trencavel de Carcassone. Monfort continuou na
luta até 1218 em que uma pedra lançada por um artefato
bélico, segundo a lenda manejado por mãos de uma mulher, o
atingiu mortalmente na cabeça. Após a morte de Simão foi o
rei da França que tomou a direção da luta. Com a conquista
do castelo de Montsegur em 1243 e Queribus em 1258, terminou finalmente a luta.
A guerra contra os cátaros durou 45 anos e causou um milhão de
vítimas. Como nota final sobre a inquisição
pontifícia ou romana podemos dar estas duas datas importantes: 1215
Concílio IV de Latrão sob o papa Inocêncio III, cânon
III em que se afirmava:a) Toda heresia deve ser perseguida por meio de uma
ação concertada das autoridades eclesiásticas e laicas.
b)os bispos disporão a inquisitio de hereges em cada paróquia de
sua diocese. c) Os convictos arrependidos sofrerão a
confiscação dos bens. d) Os empedernidos serão relegados
ao braço secular para serem castigados por este com a animadversio
debita (devida repreensão ou castigo) [não se especifica a pena].
1224: Introdução da pena capital contra os hereges. Federico
II da Alemanha decreta que aquele
manifestamente convicto de heresia pelo bispo de sua diocese será
imediatamente tomado pelas autoridades do lugar e entregue ao fogo. Desta vez o
imperador se adiantava ao Papa. Por isso em 1226 houve queima de hereges em
Rimini e Masserata., então sob o domínio do imperador. 1225: Os
albigenses passaram de 3 para 4 bispados, aumentando seu poder. Cruzada nova
sob o papa Honório III (1226-27) com as mesmas indulgências que as
de Terra Santa. O papa pede a Luis VIII rei da França que dirija a
cruzada até a total exterminação do mal. O Papa pede aos
bispos que empreguem como inquisidores os frades dominicanos, sem negar a
autoridade dos bispos na matéria. 1226: Concílio Provincial de
Bourges que pede aos reis da França e de Aragão incorporem em
suas leis o cânon 3 do Concílio de Latrão, condenando com
animadversatione debita os hereges que tivessem sido condenados pelos bispos.
1229: Eram os tempos de Gregório IX (1227-41). Firmada a paz com o conde
de Toulouse em abril de 1229, este se compromete a dar dois marcos a quem denunciasse um herege.
Imediatemente os regentes de Luis IX
o santo (1226-70), então com 15 anos, promulgam a
Ordenança Cupientes que previa a pena de morte na fogueira como castigo
supremo para os hereges.Toda heresia deve ser perseguida como o primeiro a
decretar a pena de morte para os hereges. No outono deste ano se celebra o
Concílio de Toulouse que recomendava aos bispos que para combater a
heresia tivessem juizes especiais
como os dominicanos que possuíam grandes conhecimentos
teológicos. Estabelece a obrigação dos fiéis
adultos de denunciar os hereges e testemunhar contra eles. Os testemunhos devem
ser secretos embora se indicava a confrontação dos mesmos com as
deposições dos indiciados. Finalmente se distinguem os três
casos inquisitoriais típicos: Os que espontaneamente se apresentam a
confessar. Os que se convertem por medo da morte com pena de prisão. Os
recalcitrantes para ser entregues ao braço secular, com a animadversio
debita que significa já morte na fogueira. As disposições
acabaram pronto com valdenses e cátaros. 1231:
Constituição Excommunicamus et anathematisamus [excomungamos e
anatenatizamos] de Gregório IX em que se limita a colecionar e refundir
todas as antigas disposições de Verona, Latrão, Avignon,
Narvona e Toulouse convertendo-as em lei universal da Igreja. Especialmente
após o tratado de Meaux o delegado do Papa Cardeal Romano do Santo
Ângelo, convocou o concílio de Tolouse. Redigiram-se 45
cânones cujo objetivo era a busca, instrução e castigo dos
convictos em
heresia. Aceitava-se a identificação da
animadversio e da morte na fogueira, assim como o cárcere
perpétuo para os arrependidos pelo temor da morte. Gregório IX
pediu que se negasse sepultura sagrada aos hereges que tivessem sido condenados
à pena capital[ devemos ter em conta que as sepulturas estavam dentro das
igrejas e só no final do século XIX por razões de
assépsia os cadáveres foram enterrados nos chamados
cemitérios que receberam o nome de campos-santos, fora pois do terreno
eclesial]. 1233: Na França teve lugar o auto de fé de La Charité onde
numerosos hereges foram queimados. 1234: A Inquisição foi de modo
pleno submetida juridicamente aos bispos de modo que nunca na França,
Espanha ou Itália decaiu o poder dos mesmos para revisar as
sentenças dos inquisidores (Pg 261 Vol I de História da
Inquisição Espanhola, BAC). Estes detalhes indicam que apontar a
Inquisição espanhola como referente para certos fatos é
uma ignorância da História, imperdoável. 1242: Em Avignonet
dois dominicanos com os familiares da inquisição, mais de setenta
homens, foram degolados quando
dormiam. Inicia-se de novo a guerra entre os poderes feudais de
Occitãnia e o rei da França, neste caso S. Luis IX. 1243:Bula de
Inocêncio IV contra cátaros e patavinos 1244: Traz a queda de
Montsegur, 200 perfeitos que se negaram a retratar-se foram queimados vivos.
1252:A inquisição adota a tortura. A guerra duraria até a
queda de Queribus no ano 1258 terminou a heresia albigense. O problema da
Inquisição no século XIV foi o dos místicos
chamados espirituais e as beguinas, papelardas ou bizocche que sem constituir
ordem Religiosa aceitavam qualquer tipo de exageração. Finalmente
nos últimos anos da idade média, como revelação de
um neopaganismo, temos o fenômeno da bruxaria. No século XIII a
Igreja tomou a decisão de que a crença nas bruxas era uma
ilusão. Antes de 1350 bruxaria
e feitiçaria significavam a mesma coisa. A feitiçaria é
eterna e universal. Porém a bruxaria está limitada ao
período 1450-1750. Antes de 1300 somente houve casos isolados.
Até o século XV a lei secular não continha nenhum
parágrafo sobre bruxaria. Foi no início deste século que
apareceu o primeiro tratado teológico sobre os males da bruxaria o
Fornicarius do dominicano John Nider (1380-1438). Nele se afirma que um bruxo
pode provocar uma nevada matando um frango preto. Porém em 1484 [final
do século XV] o Papa Inocêncio VIII emitiu a chamada Bula Bruxa
que se tornou lei para toda a Europa e foi a base legal para que a
Inquisição pudesse castigar e exterminar todas as bruxas. A
idéia de que o diabo estava como pacto pelo menos implícito nos
fatos de bruxaria está em Tomás de Aquino (que fala de pactos
expressos e tácitos), pois sem a ajuda de poderes extra-naturais
não se podem fazer determinados feitos extraordinários. Como
resumo: A luta contra os albigenses foi também uma luta entre o poder
feudal e o poder real na França. Esta obteria a Occitânia como
terra dentro de suas divisas e só faltava a Normandia no Norte e o
Rossilhão no sul, que conseguiria séculos mais tarde. Por outra
parte o anarquismo e anti-hierarquismo das doutrinas cátaras favoreceram
as idéias político-religiosas contrárias como os poderes
reais e religiosos, especialmente o papado. Foi também uma defesa
religiosa que usou como método a Inquisição, devido
às dificuldades de conhecer os adeptos das doutrinas cátaras.