SOBRE O ROMANCE DE BROWN “CÓDIGO DA VINCI” (2a PARTE)
RETOMANDO O RELATO
(Pe Ignácio dos padres escolápios)

 

Na primeira parte temos visto como se iniciou a Inquisição: como busca aos hereges para distingui-los e entregÁ-los ao braço secular. Faltava saber se as bruxas, outrora consideradas feiticeiras com conhecimentos esotéricos eram ou não hereges. A solução foi dada por Tomás de Aquino(1224-74) que aprofunda o tema sobre a superstição de S. Agostinho falando sobre o pacto com o diabo distinguindo com claridade o pacto expresso, direto, do pacto tácito, que incluía sortilégios, astrologia, adivinhação, presságios, quiromancia e práticas similares. Afirma: Toda adivinhação para conhecer os futuros eventos, faz uso do conselho e ajuda dos demônios. Isto às vezes se implora expressamente mas outras vezes e sem intenção alguma do homem, os mesmos demônios intervêm secretamente e anunciam sucessos futuros que eles conhecem. Esta hipótese transformava em heresia sucessos que hoje denominamos de trapaça e superstição. Mesmo assim as bruxas estavam soltas. Em 1400 em Paris a corte francesa como muitas outras cortes da Europa era lugar ideal para a magia e a astrologia. Porém a idéia do pacto tácito com o diabo lentamente vai conformando o pensar dos teólogos. Esta nova imagem de bruxas se reunindo em sessões noturnas parece que teve início ao pé dos Alpes ocidentais na metade do século XIV. Já é o começo do século XV quando a perseguição se inicia e se fala do aquelarre[do vascuence: prado do bode] do pacto explícito e dos demônios íncubos [no ato sexual intervêm como machos]e súcubos [no ato sexual intervêm como fêmeas] e outra aberrações. Passamos pois, da bruxa/feiticeira ou xamanista (o xamanismo mistura ciência de plantas com conjuros de espíritos) à bruxa/diabólica com pacto demoníaco e portanto herética. Um dado importante: O Fornicarius de Johan Nider (ceca de 1437) narra o diálogo entre um teólogo e um cético numa variedade de tópicos. Dele tomamos este exemplo para indicar que a perseguição das bruxas não teve começo com a Inquisição. Um juiz secular, um tal de Peter de Gruyeres da diocese de Lausanne que tinha queimado muitas bruxas de ambos os sexos e exilado outras do território, um monge beneditino que tinha sido no século necromante, iluminista, palhaço e membro de uma companhia ambulante e o inquisidor de Autun que tinha condenado muitas bruxas. De todos eles se serve como exemplo. Ele afirma que todos os processos eram similares e traz como exemplo a condena de um jovem junto com sua mulher em Berna. O jovem tinha escapado uma primeira vez das garras do tal Peter, mas na segunda vez foi indiciado e posto em xadrez à parte da sua mulher. No cárcere ele declarou: A cerimônia de minha iniciação foi : Primeiro num domingo antes da consagração da água benta(sic) o futuro discípulo com seus mestres devem ir à igreja e lá na presença dos mestres deve renunciar Cristo e sua fé, o batismo e a Igreja universal. Então ele deve dar homenagem ao magistérulo [pequeno mestre] pois assim e não com outro nome é mencionado o Diabo. Logo bebe a pomada determinada e sente dentro de si uma imagem de nossa arte e dos ritos principais da seita. Depois disso me senti seduzido. O que o jovem disse correspondia em todos os detalhes à verdade. Os tribunais agora passam dos bispos locais aos monacais, submetidos diretamente ao Papa. Mesmo assim subsistem os tribunais civis. Os evangélicos erigiram seus próprios tribunais e para dizer a verdade, foram mais tenazes e cruéis nessa caçada que se prolongou por dois séculos. Do ponto de vista católico um dado importante: foi a primeira inquisição no sentido de busca feita na Alemanha e que o Papa Inocêncio VIII teve que reforçar por meio de uma bula, chamada Bula Bruxa. Esta e não outra foi a base para o Malleus Maleficarum de que fala o nosso autor.

BULA BRUXA: Seu título é Summis Desiderantes [com os máximos desejos] de 9 de dezembro de 1484. Eis um resumo da mesma: <<Chegou aos nosso ouvidos que em algumas partes do Norte da Germânia...e das dioceses de Mainz, Colônia, Treveris, Salzsburg e Bremem [Alemanha do oeste] muitas pessoas de ambos os sexos abandonaram a fé e se entragaram aos demônios, incubi e succubi, e por meio de seus encantos , feitiços, conjuras e outras malditas práticas tem degolado infantes ainda no ventre de suas mães tanto como os fetos do gado e tem murchado o produto da terra, os cachos da vide, as frutas das árvores...Estas bruxas afligem e atormentam homens e mulheres, bestas de carga, rebanhos, assim como outros animais com terríveis e penosos sofrimentos e chagas tanto interiores como exteriores. Impedem os homens de realizar o ato sexual e as mulheres de conceber...Renunciam em forma blasfema da fé que receberam no batismo e pela instigação do inimigo da humanidade não hesitam em cometer a mais loucas abominações e mais execráveis excessos para o letal perigo de suas almas, resultando em ofensa de sua Majestade e causa de escândalo e perigo para muitíssimos. Embora nossos queridos filhos Enrique Kramer e James Sprenger professores de Teologia, ..sejam delegados como inquisidores desta herética pravidade...não obstante, não poucos dos clérigos e de homens de leis...não se envergonham de afirmar que estas atrocidades não são praticadas nessas províncias e conseqüentemente os tais inquisidores não tem base legal para exercer sua função em tais regiões...Por isso essas abominações permanecem sem castigo não sem grave dano para as almas e perigo de eterna condenação. Portanto Nós desejosos de remover os obstáculos dos inquisidores e também de aplicar remédios potentes para prever a heresia e outras torpezas...decretamos que os ditos inquisidores tenham poder de para proceder à justa correção, apresamento, e castigo de qualquer pessoa.. Estendemos estas letras às ditas províncias, cidades, diocese,s distritos territórios, pessoas e crimes e damos licença aos ditos Inquisidores por separado ou em conjunto, assim como a nosso querido filho John Gremper, sacerdote da dioccese de Constance, seu notário...Por letras apostólicas requeremos nosso venerável irmão o Bispo de Estraburgo que ele ou outros anunciem nossa bula que ele solenemente publicará et... Publicada em Roma no dia 9 de dezembro de 1484.>> COMENTÁRIO: O Papa declara os fatos que o impelem a formular a bula. Como vemos são em geral atos que na época se consideravam tremendamente pecaminosos como era o abortamento e a infertilidade produzidos por meios artificiais tanto em homens como em animais e plantas. E em segundo lugar comina toda classe de autoridade, sem privilégios ou isenção, com excomunhão, suspensão, interdito e maiores penas, censuras e castigos se necessários, para que não impeçam a atuação dos inquisidores que nesta época passaram de membros do clero local sob a jurisdição dos bispos a membros da ordem mendicante nomeados pelo Papa. Esta é a famosa Bula que precedeu o Mallus Maleficarum. Não era a primeira vez que os teóricos pactos com Satanás davam pé à perseguição. Já em 1232 Gregório IX incluiu este aspecto em suas bulas aos habitantes de Stedingerland em Odemburgo cujos rituais sexuais, bestialidades, incestos e homossexuais não duvidava em equiparar e condenar.

O MALLEUS:Escrito em latim o Malleus foi submetido primeiramente à universidade de Colônia [esse detalhe é importante, porque isso indica que os autores seguem as idéias mais ilustres e progressivas da época] em 9 de maio de 1487. Não esqueçamos que Colônia foi a universidade de Alberto Magno e Tomás de Aquino (cerca 1249). Sem dúvida se tornou o documento eclesiástico mais importante na caça às bruxas. Segundo afirmam alguns autores foi publicado pela primeira vez em 1489 pouco após a invenção da imprensa e cinco anos após a bula bruxa e se tornou o livro base para bruxas tanto para católicos como para protestantes. Dava licença aos bispos e às autoridades seculares para perseguir as bruxas se não existissem representativos da Inquisição. Após os tribunais se espalharem por toda Europa algumas vilas ficaram com só duas mulheres sobreviventes. Podemos traduzi-lo como Martelo das Malfeitoras[em feminino]ou melhor das que fazem o mal que significava na prática Bruxas. O MM teve a mesma importância que o Directorium Inquisidorum de Nicolás Eymerich na Inquisção do século 14. Eymerich, religioso catalão, ingressou na ordem dominicana em 1334 e foi nomeado inquisidor geral de Aragão [a única inquisição em território espanhol na idade média] em 1356. Mas foi destituído por seu excessivo rigor conta os albigenses. Reposto no cargo em 1366 foi desterrado por Juan I de Aragão. O MM consta de três partes: A primeira é um exame filosófico-teológico sobre os elementos constitutivos da bruxaria. A realidade e a depravação das bruxas foi enfatizada e a descreça na intervenção diabólica era condenado como heresia. trata da bruxaria em geral. A segunda parte é o estudo sobre os métodos usados pelas bruxas e como se libertar dos feitiços por elas causados de exemplos e remédios. A terceira parte é sobre os processos judiciais tanto civis (!) como eclesiásticos contra bruxas e outros tipos de heresia, das prescrições legais da perseguição, quem deve ser torturado, como e quando. A tortura seria o método de afirmar confissões. Comentários sobre a primeira parte: O MM codifica –dirá a Britânica- o folcore e as crenças dos camponeses da região alpina e foi dedicado ao cumprimento do Êxodo 22, 18: Não permitirás que uma bruxa viva. Foi publicado em 1486 pela primeira vez. Promoveu ou iniciou muitos dos modernos falsos conceitos sobre bruxas e foi causa da influência da bruxaria na sociedade. Tudo foi crido como verdade irrefutável. Hoje essas idéias são comuns entre os cristãos com respeito à religião revivida como neopaganismo da bruxaria ou Wicca. Embora o MM seja desconhecido em tempos modernos, sua influência ainda perdura. No tempo em que foi publicado havia dentro da comunidade cristã muitos estudiosos e teólogos que duvidaram da existência das bruxas e as consideravam como mera superstição. Os tais foram tratados pelo MM como manifestantes de sabor herético. Durante a Inquisição poucas bruxas foram descobertas ou julgadas. Vamos citar alguns trechos para que sirvam de exemplo. Das 14 questões em que está dividido um primeiro capítulo, 6 delas se referem a atos de bruxaria que tem como finalidade os atos sexuais unidos à geração: desde demônios íncubos [que se comportam como machos] e súcubos [como fêmeas] até impedir o ato em si mesmo ou a procriação que devia resultar sem excluir abortos provocados. Em outros capítulos a parte sexual se mistura com os danos feitos ao gado e colheitas. De fato afirmam os autores que as bruxas parteiras eram as que ultrapassavam em crimes todas as demais. É importante sublinhar-diz um autor- que as teorias demonológicas não foram assunto exclusivo da Teologia. Filósofos, matemáticos e físicos debatiam seriamente ditas especulações no seio das universidades européias mais prestigiosas. E o debate durou até princípios do século XVIII. As bruxas eram culpáveis do que Agostino tinha descrito como uma associação criminal do mundo oculto. Muitos protestantes importantes dos séculos seguintes, apesar de suas diferenças com a Igreja católica, adotaram pontos de vista quase idênticos. Incluso humanistas como Desidério Erasmo e Tomás Moro criam nas bruxas. Abandonar a bruxaria- dizia John Wesley, o fundador do metodismo- é como abandonar a Bíblia. William Blastone, o célebre jurista, afirmava em 1765: Negar a possibilidade, mais, a existência real da bruxaria, equivale a contradizer plenamente o mundo revelado por Deus em várias passagens tanto do Antigo como do Novo Testamento. Esta reflexão vem dar uma resposta geral e não só inquisitorial eclesiástica à primeira questão: por que perseguir as bruxas. Comentários obre a segunda parte: O pacto formal, o transporte, a cópula íncuba, uso dos sacramentos para seus feitiços, a possessão diabólica devido a seus conjuros, enfermidades, morte e oferenda de crianças ao diabo. Esta é a seção primeira . Na segunda temos os remédios contra demônios íncubos e súcubos, contra a limitação do poder gerativo, perda do membro viril, contra ódio e amor desordenados , a obsessão, o granizo e outros males. Os remédios são principalmente como lemos num testemunho de um tal Tomas de Brabante, o sinal da cruz, a água benta, a recepção dos sacramentos, jejum e oração e finalmente o exorcismo, porque se pensava que as bruxas atuavam com poderes demoníacos. Comentários sobre a terceira parte: trata sobre como descobrir as bruxas, a forma de julgamento, testemunhas, defesa, tortura, quando deve ser aplicada e formas da mesma; e finalmente as sentenças e penas impostas. Vamos expor alguns detalhes interessantes; mas antes devemos fazer uma advertência importante: os autores decidem muitas das questões apoiando-se no Direito Canônico, ou seja na lei dominante. Não inventam nada, querem explicar os casos novos fundamentados nas leis vigentes. Vejamos como inquirir [buscar] as bruxas. Temos três métodos, todos admitidos pela lei canônica: 1) Quando alguém denuncia ante um juiz uma pessoa de heresia ou de proteger hereges oferecendo-se com a pena do talião caso a acusação fosse falsa. Os autores rejeitam esa forma de acusação, porque o motivo da mesma não é a fé, e porque pode existir a retaliação o que o torna litigioso. 2) Quando o denunciante é um informante sem provas e sem querer se misturar com o caso mas por zelo da fé ou por medo à excomunhão do ordinário ou seu vigário [a inquisição ainda estava sob o poder dos bispos]ou no caso do juiz secular pelo castigo para aqueles que faltam ao dever de informação. 3) O terceiro método é o da inquisição onde sem o acusador da 1 nem o informante da 2 o juiz ouvindo que existem bruxas em determinado lugar procede não por instância de uma parte mas por seu dever, após uma citação geral afixada nas paredes da igreja paroquial ou da prefeitura[muitos dos processos eram civis, talvez 80 %] OMM diz que este terceiro método é o mais comum porque não se requer nem acusadores nem informantes. Um segundo ponto interessante é sobre as testemunhas.Resumindo as diversas questões Um mínimo de dois, conformes no essencial dos fatos, do juramento e reexame das testemunhas, de sua qualidade e condição, de se se devem admitir-se inimigos mortais como testemunhas.A esta última pergunta responde que não, mas podem se admitir testemunhos. As testemunhas devem ser examinadas na presença de 4 pessoas e os acusados de duas maneiras: em termos gerais e em termos particulares. Ninguém será condenado à morte sem que ele confesse seu crime. Se existe direta ou indiretamente evidência de fato ou pela exposição das testemunhas, poderá ser aplicada a tortura. Se a bruxa chora diante do juiz ou da tortura ela não é bruxa porque como diz S Bernardo as lágrimas dos humildes penetram os céus. A Tortura: Pelo que parece no MM a tortura aplicável era o Strappado [atando os braços por detrás e enganchados a uma polia o levantavam] com o que se conseguia o elongação dos braços e o retorcido dos mesmos pelo que diz indiretamente sobre os que não confessam porque submetidos anteriormente à mesma agüentam a repentina elongação ou retorcido dos mesmos. Seria a tortura mais freqüente. Já temos visto que não admitiam o ordalio da barra de ferro quente, porque as bruxas tinham seus segredos para evitar a dor e era tentar a Deus pedindo um milagre. Um outro dado é que eram despojadas de suas vestes e nalguns lugares até depiladas para evitar subterfúgios e aparelhos. Finalmente um dado interesante: em 1485 ou sejsa dois anos antes de ser publicado o Malleus o inquisidor de Como ordenou 41 bruxas serem queimadas após serem rapadas completamente. Isto foi devido ao Malleus?