CÓDIGO DA VINCI

 

MARIA E JESUS

(Pe Ignácio dos padres escolápios)

 

PG 261-2 Fala Teabing, o historiador da coroa inglesa:  Maria  Madalena, a prostituta: É o legado de uma campanha feita pala Igreja primitiva para sujar a imagem de Madalena. A Igreja precisou difamar Maria Madalena para encobrir o perigoso segredo dela - seu papel como Santo Graal.....Mais especificamente o casamento dela com Jesus Cristo. A Última ceia praticamente proclama àqueles que a contemplam que Jesus e Maria Madalena eram um casal. O casamento de Jesus e Maria Madalena faz parte dos registros históricos....Além do mais, Jesus, como homem casado, faz muito mais sentido do que nossa versão bíblica de Jesus solteiro.  Fala Langdon o historiador de Harvard: Jesus era judeu e o decoro social daquela época praticamente proibia que um judeu fosse solteiro....Se Jesus não fosse casado pelo menos um dos evangelhos da bíblia teria mencionado isso e dado alguma explicação para o fato de ele ter ficado solteiro.

 

    Pg 263.- Teabing após mostrar fotocópias dos manuscritos de Nag Hammadi e do Mar Morto: Os mais antigos manuscritos cristãos . Estranhamente eles não coincidem com os evangelhos que temos na Bíblia... Folheando o evangelho de Filipe, Sophie leu: E a companheira do salvador é Maria Madalena. Cristo amava-a mais do que a todos os discípulos e costumava beija-la com freqüência na boca. O restante dos discípulos ofendia-se com isso e  expressava sua desaprovação. Diziam a ele: ¨por que tu a amas mais do que a nós todos?¨

 

Pg 248 Teabing:Mais de 80 evangelhos foram escolhidos para compor o Novo Testamento, e no entanto apenas alguns foram escolhidos – Mateus, Marcos, Lucas e João..... A bíblia, conforme a conhecemos hoje, foi uma colagem composta pelo imperador romano Constantino, o Grande.

 

Pg 251 Constantino promoveu Jesus a divindade quase quatro séculos depois de sua morte....mandou fazer uma Bíblia novinha em folha, que omitia os evangelhos que falavam do aspecto Humano de Cristo e enfatizava aqueles que o tratavam como divino.

 

Vamos por partes: 1o) O casamento de Maria Madalena. Segundo o que nos dizem alguns autores o casamento deu-se em Caná conforme o relato de João 2, 1-11. Para isso se servem de que o mestre-sala fala com o noivo; ele diz: tu guardaste o vinho bom até agora. Porém todo o texto que temos diz o contrário: Houve uma boda em Caná da Galiléia e a mãe de Jesus estava ali. Foi chamado[convidado] também Jesus e os seus discípulos à boda. Logo Jesus não era o noivo mas um dos convidados. Nada se diz sobre Maria Madalena. A resposta de Jesus: Que a mim e a ti? Indica que ele não era o noivo e sua mãe nada tinha que ver com a boda pois o seu caso era o de um convidado. Como é possível de uma frase sem sujeito onomástico mas que era noivo unicamente [tu guardaste o bom vinho] levantar tamanha conclusão? O lógico é pensar que não sabemos quem era o noivo e quem era a noiva  mas que Jesus era um simples convidado. Como pode dizer que o casamento de Jesus e Maria Madalena faz parte dos registros históricos?

 

2o) Mas quem foi na realidade Maria Madalena? Os evangelhos falam de Maria Madalena ou Maria de Magdala . Se fosse esposa de Jesus teriam dito Maria de Jesus assim como nomeiam a Maria mulher de Cléofas (Jo 19, 25). Mas é simplesmente Maria a Madalena (sic)Mt 27, 56;  e 28,1. Marcos 15, 40; 15, 47;16, 1 e 16, 9; Lucas 8, 2 e 24, 10 e finalmente João 19, 25; 20, 1 e 20, 18. Em todos os versículos é Maria a Madalena exceto em Lc 8, 2 em que o evangelista explica Maria a chamada Madalena. Pelo seu nome podemos dizer que não era casada, nem tinha parentes próximos vivos como filhos tal como Maria de Cléopas ou Maria mãe de Tiago e José. O seu sobrenome não era patronímico nem familiar, mas geográfico o que indica ser uma mulher solteira ou viúva sem filhos. Magdala [também de nome Magadã] situava-se no lugar que hoje ocupa Tariquéia, cinco quilômetros ao norte de Tiberíades, a cidade. O nome primitivo talvez seria Migdal-El [= torre de Deus]. A palavra Tariquéia é de origem grega e significa pesca salgada. Contava com uma frota de 230 barcas e uma população de 40 mil habitantes; mas parece exagerada e teremos que deduzi-la a 4 mil. Era a cidade mais importante do lago, incluindo Tiberíades. Esta foi fundada por Herodes Antipas nos anos 18 a 22 e chegou a ser a capital da Galiléia, substituindo a Séforis. Tinha foro, estádio,  um palácio real, templo pagão e sinagogas. Flávio Josefo a rendeu a Vespasiano. Após a guerra e queda de Jerusalém o sinédrio residiu nela e a escola rabínica que compilou o Talmud jerosolimitano no século IV e os massoretas, que no século VIII, vocalizaram o texto das escrituras com pontos vocálicos chamados tiberienses. Uma exegese moderna liga magdalena com uma palavra hebraica que significaria perfumista. Porém no pequeno dicionário de Sprong mais do que perfume a palavra meged e seu derivado migdanah significa coisa preciosa como uma gema ou um presente muito caro. Segundo o Talmud [o livro mais importante do judaísmo pos-bíblico intérpretre tradicional da Torah que compreende a Mishnã e a Guemará], Magdalena significa cabelo crespo de mulher, embora na sua rivalidade com o cristianismo diz dela que era adúltera. Não são pois, os evangelhos mas o Talmud que denegriu a Madalena..De todos os relatos deduzimos: Maria Madalena era uma mulher da qual Jesus tinha expulsado sete demônios que em termos modernos diríamos uma doença mental grave como uma loucura ou esquizofrenia. Ela acompanhava Jesus junto com outras mulheres que tinham sido curadas de espíritos malignos e também Joana mulher de Cuza, mordomo de Herodes [Antipas]e Susana e outras muitas as quais o serviam com suas posses (Lc 8, 2-3). Joana era uma mulher de mais de 50 anos e todas as mulheres que acompanhavam Jesus tinham essa idade. Um exemplo é a própria mãe de Jesus, Maria mãe de Tiago e José, e Salomé, a mãe dos filhos de Zebedeu que estavam com a Madalena ao pé da cruz, como diz Mateus (27, 56). A Madalena era amiga de Maria, a mãe de Tiago e José, e  é de supor da mesma idade, ou seja conforme diz Paulo em 1 Tm 5, 9  das mulheres inscritas no grupo das viúvas com não menos de sessenta anos.

 

3o) Era Maria Madalena uma pecadora ou a pecadora de Lc 7, 36-50? É difícil admiti-lo pois no seguinte capítulo Lucas (8,2) fala de Maria Madalena sem indicar que se trata da mesma pessoa. Ser ou estar possessa não é o mesmo que ser pecadora. E como alguns intérpretes afirmam, a palavra pecadora em Lucas significa mulher pagã ou mulher judia casada com um pagão muito mais do que mulher pública.

 

4o) Tampouco se pode identificá-la com Maria de Betânia pois o evangelho de João distingue perfeitamente ambas pessoas. A nossa Maria tem o nome de a Madalena do lugar da Galiléia, no norte e a de Betânia [lugar da Judéia no Sul] é chamada de irmã de Lázaro ou irmã de Marta. Poderíamos confundir a pecadora de Lucas 7, 36-50 com Maria de Betânia, porque ambas ungem os pés de Jesus com perfume e  secam com seus cabelos. Parece que era um costume aceitado na época. A mulher, no caso da pecadora na casa de Simão, teve lugar na Galiléia e os convivas eram fariseus; Pelo contrário Maria fez a unção na Judéia em casa do Simão, o leproso, em Betânia com os discípulos como convivas e o aparente desperdício do rico nardo poucos dias antes da morte de Jesus. Este fato, narrado por Mateus e Marcos sem indicar o nome da mulher, tem alguns detalhes diferentes de João como o de que o perfume foi derramado na cabeça de Jesus. Lucas fala de uma pecadora em casa de Simão e coincide com João em notar que ela ungiu os pés do Mestre. Ao máximo poderíamos deduzir que Maria de Betânia, a de João, era  a pecadora de Lucas. Porém isto está fora de cogitação porque o mesmo Lucas fala de Maria de Betânia em 10, 39-42 sem falar da identidade das duas. O próprio João distingue em seu relato entre Maria [a de Betânia] a quem chama simplesmente Maria em 20, 11 e 20, 16, e Maria a Madalena em 19, 25; 20, 1 e 20, 18.                                      

 

5o) Os textos evangélicos nunca identificam Maria Madalena com a pecadora ou com Maria de Betânia. A Igreja grega celebra três festas diferentes, uma para cada mulher. A Igreja latina antes de S. Agostinho(+430) falava de três mulheres a exceção de uma única passagem. Foi S. Gregório Magno(590-604) que de fato identificou as tres mulheres. A identificação foi muito posterior ao concílio de Nicéia(325). Não houve pois, na Igreja primitiva intenção alguma de sujar a imagem de Maria Madalena.

 

2A PARTE: A ÚLTIMA CEIA DE LEONARDO:

 

Em primeiro lugar é uma obra artística não uma obra histórica. Segundo o que o evangelho de João narra, os convivas estavam recostados ao modo romano (Jo 13, 25). Ver o escrito sobre o triclinium em artigo de exegese número 51 do XXII Domingo do tempo comum de presbíteros.com.br. Esta posição está confirmada no banquete em que Jesus teve seus pés lavados pela pecadora em Lucas. Seria impossível lavá-los se sentados ao modo dos índios ou em cadeiras como as que usamos atualmente, mas deitados ao modo romano os pés estavam à vista e era fácil ungi-los e lavá-los, pois ficavam do lado de fora das almofadas em que se recostavam. Nada disto aparece na pintura de Leonardo. Por outra parte se era a ceia pascal não devia haver mais de um cálice do qual todos bebiam ou participavam, pelo menos três vezes, durante o banquete. Lucas (22, 20) diz claramente o cálice [to potérion] indicando que era único. A mesma coisa diz Paulo no primeiro relato da santa ceia em 1 Cor 22, 20: Este o cálice [touto to potérion]. Por outra parte nenhuma mulher era convidada a se assentar na mesa num banquete judeu. Na pintura feita com óleo e muito estragada nos dias de hoje vemos 6 discípulos à esquerda de Jesus e seis à direita, incluído entre eles Judas. Como pode se afirmar que Maria era um dos discípulos? Haveria 6+7 ou seja treze. Tudo não passa de uma invencionice do autor. Realmente temos doze ou talvez menos copos mas só vemos uma copa de prata com base do mesmo metal. Pelo que respeita à letra M,  realmente, não  vi nada igual na foto do quadro pela Internet aumentado até 200%. Só está um |-| no meio da mesa na parte da frente, feito pelo vácuo próprio da porta da estância em que foi pintada. Quanto à mão com o punhal, parece ser a de Pedro que num escorço violento com a outra toca o ombro de João. Uma outra falha é que estão calçados com sandálias o que era contrário ao costume da época. Para não falar do kipá [solidéu] exigido durante as refeições. Os vestidos mais parecem próprios da idade média ou dos romanos que dos tempos de Jesus. Repito: a última ceia é um trabalho imaginativo de um artista não um retrato histórico de uma realidade que ele desconhecia e que nós entendemos melhor.

 

III PARTE: OS MAIS ANTIGOS MANUSNCRITOS CRISTÃOS

OS MANUSCRITOS DE NAG HAMMADI E DO MAR MORTO:

OS MAIS ANTIGOS MANUSCRITOS CRISTÃOS. Vejamos o que há de verdade nesta afirmação. Tenho em meu poder um quadro dos manuscritos cristãos mais antigos, todos eles papiros, alguns datados do primeiro século como o papiro 64/67 que alguns datam do ano 64 [outros do ano 200] contendo parte do evangelho de Mateus e hoje em Oxford(64) e Barcelona(67). É um papiro que chamam proto-Alexandrino, origem da família  desse nome.  O mais antigo, segundo todos os especialistas,  é o John Rylands ou P 457 que é datado no ano 125 na data mais tardia ou do ano 100 a mais antiga, contendo uma pequena parte do evangelho de S. João. Do ano 175 (150) está o papiro 90 ou Oxyrincus L 3523 datado entre 150 e 170, com parte do evangelho de João, hoje em Oxford. Papiro 46 ou de Chester Beatty II do ano 200 (85) com parte das epístolas paulinas. Vemos que entre os papiros mais antigos temos um de Oxyrinchus no Egito, atual Behnesa, e que é completamente ortodoxo. Mas parece que o autor do Códice da Vinci não conhece os papiros de Oxyrrynchus e só fala de Nag Hammadi e Qumram. 1)Vamos falar de Oxyrrynchus. Entre os muitos fragmentos gregos que falam de dívidas e contas comerciais junto aos primeiros versos de Homero, temos três papiros referentes a evangelhos apócrifos ou gnósticos; o papiro I achado em 1897, datado nos finais do século II com 8 ditos de Jesus.   Como exemplo um deles diz: se não observais o sábado não vereis o Pai. Daí que podemos dizer que esses ditos pertencem ao evangelho dos hebreus. O segundo é o papiro 654 descoberto em 1904 e datado um pouco posterior ao papiro I, contendo 5 ditos de Jesus (sic) [legei Jesous]. Um dos ditos pede para fazer as obras da verdade que com elas conhecerão o mistério escondido. É considerado pertencer ao mesmo grupo gnóstico que o papiro I. O terceiro papiro é o número 655, descoberto em 1904; este claramente do século III. Das 50 linhas deste papiro, só 23 se conservam. Pelo estilo pertence ao evangelho gnóstico dos Egípcios. Eis um exemplo: Quando te manifestarás a nós e quando te poderemos ver? Diz Jesus: quando vos despojardes [de vossos vestidos] e não sentirdes vergonha. Os outros papiros são posteriores e pertencem ao século IV e não interessam. Se o papiro I é datado no fim do século II (200 dC) os outros dois são considerados escritos entre 200-300dC. Em contraste com estes, os mais velhos papiros do NT são de Lucas (100 dC) e João (125 dC). Temos cópias do NT desde 150 dC e 200 dC junto com testemunhos dos primeiros Padres da Igreja. Logo a afirmação de que os mais antigos manuscritos cristãos eram os de Oxyrrinchus está descarta como falsa. Mas vejamos os papiros ou melhor códices de  Nag Hammadi, porque o autor desconhece os de Oxyrrynchus. Em 1945 se encontrou nesta localidade do alto Egito, um conjunto de códices que em total tinha 1000 páginas das quais 800 estão bem preservadas. São 13 códices contendo 44 diferentes escritos, mais 4 a 6 duplicados. Foram copiados cerca do ano 350 e constituem 53 tratados gnósticos [ao abrir a Internet todos falam de apócrifos gnósticos]. Todos são escritos em copto a língua falada  nesses anos da cristiandade do alto Egito. Alguns eruditos acreditam que são cópia do século IV que corresponde a escritos siriacos do século II, pois dos 144 lógia [ditos] de Jesus do evangelho de Tomé de Nag Hammmadi, 17 estão nos três fragmentos gregos de Oxyrrynchus 1, 655 e 654. O pápiro 655 é uma cópia do evangelho dos egípcios. Os outros fragmentos parecem cópias do evangelho dos hebreus. Entre eles temos o códice II que inclui os evangelhos chamados de Tomé e de Filipe. Temos que fazer um comentário especial sobre o evangelho de Tomé porque é nele que temos as palavras mais claras sobre a relação Jesus- Madalena. Evangelho de Tomé:Alguns eruditos, pertencentes ao Jesus Seminar, afirmam que os ditos do mesmo contém o verdadeiro evangelho de Jesus e que precedem aos escritos evangélicos tradicionais. Mas a diferença entre ambos é que o evangelho de Tomé não contém nenhuma referência à morte e ressurreição de Jesus. Reconhece Jesus como um Rabbi, um Mestre mas não um filho de Deus. Porém devemos considerar 4 coisas:A) Ele é um dos 44 escritos dos gnósticos Naasenos, cujas crenças são completamente diferentes da doutrina comum de Pedro e dos apóstolos, que nós temos hoje, e que em cartas de Paulo, vemos eram comuns já poucos anos após a morte de Cristo. Se a cruz e a ressurreição são retiradas do evangelho, desaparece a sua mensagem de salvação. Só resta a mensagem gnóstica da sabedoria como forma individual e particular de salvação que substitui a redenção de um por todos. A cruz estaria tão vazia de valor como estava para os que pretendiam que a circuncisão era necessária para ser cristão. Os naasenos adoravam a serpente, daí seu nome; pois serpente é nahás, mantendo que o líquido destes animais, em sua maioria venenoso, pudesse servir para redimir os homens da escravidão do pecado. Como em grego serpente é Ofis daí que eram também chamados ofitas. Seus ensinamentos estão no evangelho de Tomé e no evangelho dos egípcios. Nos escritos dos naasenos o homem é tripartito. Um andrógino[Adam] pai dos Eons que mais tarde se convertem em Girons daí o triplete de corpo, alma e espírito. Todos convergem em Cristo, do qual Tomé diz que se encontra no semem que as crianças tem escondido até a idade de sete anos e que se manifesta aos quatorze. Reconheciam o demiurgo como entidade encarregada de criar os Mundos. Em seu culto apresentavam Hermes com o membro ereto ao que davam o título de Razão.B) É completamente falso afirmar que o evangelho de Tomé é anterior aos escritos reconhecidos como Bíblia. Não há razões para afirmar que tenha sido escrito antes de 140 dC, pois os mais antigos fragmentos são do ano 200 dC como temos visto.  Se queremos apurar mais sabemos que Clemente de Roma fala em 97/98 dC sobre um evangelho dos Hebreus. C) Quase 100 novos livros sobre a Escritura foram escritos na segunda centúria. A Igreja conhecia este fato e rejeitou estes livros heréticos e lendários. D) Os comentaristas do Jesus Seminar formam um grupo de 200 liberais que a si mesmos se escolheram para falar de modo arrogante pela inteira academia bíblica quando esta está constituída por 9600 eruditos, membros da Sociedade da Literatura Bíblica. Enquanto N.T. Wright e outros eruditos conservadores rejeitam os achados do Jesus Seminar, o liberal Howard Clark Kee os denomina uma desgraça acadêmica. Eles não são representativos de uma verdadeira erudição bíblica. Sabemos que os naasenos eram posteriores a Ireneu (+202) que escreveu contra os gnósticos em detalhe porque não os cita nem conhece o evangelho de Tomé. Além dos Naasenos existiam 30 grupos diferentes de gnósticos divididos em duas classes: ascéticos e libertinos. Os naasenos eram ascéticos. Foi Hipólito em 222-225 que pela primeira vez menciona os Naasenos como sendo gnósticos e usando o evangelho de Tomé.

EVANGELHO DE TOMÉ.

 

Mesmo que pouco mais da metade dos ditos no evangelho de Tomé correspondam a ditos similares nos evangelhos, não é possível distinguir a verdade da ficção no dito evangelho. A conclusão mais aceita é que esse evangelho é do século II, uma parte das 44 escrituras que formavam parte de uma religião alternativa para os cristãos nesse século. Temos o evangelho de Maria Madalena, um fragmento grego datado do século II, que realmente fala do mal humor de Pedro porque Jesus falou ocultamente com Maria. Na subseqüente  discussão com Levi, este, enfadado,  partiu para pregar o evangelho segundo Maria. Porém o trecho que nos interessa é o seguinte: Simão Pedro protesta: Que se afaste Mariam [Madalena] de nós, pois as mulheres não são dignas da vida. Disse Jesus: Olha, eu me encarregarei de torná-la macho de modo que também ela se converta em espírito vivente, idêntico a vós; pois toda mulher que se tornar varão entrará no reino dos céu. Não é preciso muita inteligência para descobrir que este trecho nada tem a ver com o verdadeiro evangelho e sim muito com as idéias gnósticas que por outros meios conhecemos.

 

O EVANGELHO DE FILIPE

 

Este evangelho forma parte do códice II de Nag Hammadi . Segue a linha gnóstica de dar enorme importância às figuras dos apóstolos Filipe e Tomé como depositários dos ensinamentos secretos manifestados por Jesus após sua ressurreição e de seu desejo de manifestá-los por escrito.São 127 sentenças de um contexto gnóstico valentiniano. O papiro em questão tem uma data próxima ao século IV que reflete idéias do fim do século II ou princípio do século III. Sobre o assunto que nos interessa citamos estas palavras: Três [eram as que] caminhavam continuamente com o Senhor: sua mãe Maria, a irmã desta e a Madalena, a quem se designa como sua companheira[koinonós]. Maria é com efeito sua irmã. Sua mãe e sua companheira. O comentário é de que a Madalena reúne com sua união com o senhor as condições do gnóstico perfeito. De seu carácter gnóstico em que a sabedoria era a base da salvação temos este trecho do logion 55: A sabedoria- a quem chamam de estéril[steira] – é a mãe dos anjos; a companheira [koinonós= sócio, consorte, partícipe] {de Cristo é Maria} Madalena. {O Senhor amava Maria} mais que {todos} os discípulos[mathetés] e a beijou na {boca repetidas} vezes. Os outros lhe disseram: Por que {a queres} mais do que a nós todos? O Salvador respondeu e lhes disse: A que se deve que não os queira a vós tanto como a ela? Os colchetes{} servem para preencher lacunas do texto. Para entender o beijo na boca devemos citar o logion 31: Os perfeitos são fecundados por um beijo e geram. Por isso nos beijamos também uns aos outros e recebemos a fecundação pela graça que é comum. Portanto o beijo na boca não era constitutivo do matrimônio mas um costume dos gnósticos valentinianos em que os perfeitos comunicavam a semente pneumática, cujo protótipo era a comunicação entre Jesus e Maria Madalena. Assim está explicada a união entre Jesus e Maria Madalena após a ressurreição. De seu caráter gnóstico temos o logion 110: quem possui o conhecimento [gnosis] da verdade é livre.Agora: quem é livre não peca, pois quem peca é escravo do pecado.

 

OS MANUSCRITOS DE QUMRÃ

 

Teabing fala dos manuscritos do Mar Morto, que não podem ser outros que os de Qumrã. Destes documentos podemos dizer que são um conjunto de papiros achado a partir de 1947 nas cavernas da região de Qumram, no moderno Israel. e que até agora ainda não foram completamente restaurados e decifrados. Os Manuscritos do Mar Morto têm servido para muita coisa nos últimos quarenta anos, inclusive para uma exploração sensacionalista que se situa, na imaginação popular, naquele perigoso terreno entre as previsões de Nostradamus e o segredo dos discos voadores. Na verdade, sabe-se hoje muito bem o que eles são. São uma antiga biblioteca; eis tudo - e é muito. Inclusive, no início dos anos 50, depois da descoberta dos manuscritos, escavações realizadas nas proximidades pelo padre francês Roland de Vaux trouxeram à luz uma construção que, destruída e queimada no ano 68 da nossa era, concluiu-se tratar-se sem dúvida de um antigo convento. A partir daí formou-se um impressionante consenso entre os especialistas: nas cavernas, os membros da seita de Qumram esconderam a biblioteca do convento. Viviam-se os dias tempestuosos da revolta judaica contra o domínio romano que resultaria, no ano 70 da nossa era, na destruição de Jerusalém. Esconder os manuscritos, acondicionados em jarras, na iminência de um ataque romano que realmente viria a varrê-los do mapa, foi a maneira que os membros da seita encontraram de preservar seus documentos para a posteridade. Os escritos pertencem aos essênios uma comunidade que professava uma observância estrita da lei e tinham os bens em comum cujo rastro encontra-se em muitos outros textos da antiguidade. Na biblioteca que eles esconderam nas cavernas, há desde livros do Velho Testamento a documentos específicos da seita, como o Manual de Disciplina, que era seguido por seus membros. Os documentos foram datados num período que vai do ano 200 antes de Cristo até 67 depois. Ou seja: muitos deles são até contemporâneos de Jesus. Há centenas de textos completos e milhares de fragmentos, que vêm sendo pacientemente remontados por uma comissão na qual se misturam especialistas judeus e cristãos, sob a supervisão do governo israelense. Decepção: até agora, apesar de serem documentos da mesma época, não há nenhuma menção a Jesus. Isso não invalida, no entanto, o imenso valor dos textos de Qumram para o conhecimento da época e do ambiente que circundava Jesus. "Penetrar no mundo dos Manuscritos do Mar Morto equivale a mergulhar no tempo e no ambiente ideológico de Jesus", escreve Charlesworth, o autor de Jesus no Judaísmo. Os textos de Qumram revelam idéias muito próximas das de Jesus. Havia entre os membros da seita uma acentuada escatologia, por exemplo. Isto é, como em Jesus, um alerta permanente contra o fim dos tempos, que se considerava iminente. Havia também uma total entrega a Deus. Esses e outros traços comuns configuram uma espécie de elo perdido do pensamento judaico entre os tempos do Velho Testamento e o advento da era cristã e sugerem, entre um e outro, uma transição menos abrupta do que se chegou a supor. A seita de Qumram também escancara a realidade de um judaísmo vibrante e variado, nos tempos de Jesus, tão pouco unitário que alguns autores hoje preferem falar em "judaísmos", não num judaísmo só. No entusiasmo das primeiras descobertas chegou-se a imaginar um Jesus fortemente influenciado pela doutrina dos essênios, quando não um membro da seita. Na verdade, tanto quanto há semelhanças, há diferenças, a mais gritante das quais é a atitude perante as regras judaicas de conduta. Os essênios são ainda mais fanáticos que os fariseus na sua observância. Já Jesus, como se sabe, disse que o "sábado foi feito para o homem, não o homem para o sábado". Ele dava muito pouca importância ao rigor imobilista com que os ortodoxos mandavam guardar o dia santo, como de resto a todas as outras proibições e imposições rituais. Ou melhor: ele estava aí para subvertê-las mesmo, num contínuo chamamento para a superioridade da pureza e da devoção interiores, não exteriores. Em todo caso, há sinais de influência essênia em Jesus, uma das quais, relativa à expressão "pobres de espírito", uma das fórmulas enigmáticas de Jesus. A outra é "o Filho do Homem" que configura uma conclusão de James H. Charlesworth o autor de Jesus no Judaísmo, professor da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos que se poderia classificar de espetacular. "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus", diz a primeira das bem-aventuranças, do Sermão da Montanha (Mt 5:3). Que pobres de espírito serão esses? Eis a resposta de Charlesworth: pobres de espírito, bem como pobres, "são termos técnicos, usados pelos essênios para se descreverem". O autor cita um dos documentos de Qumram, o chamado Manuscrito da Guerra, para desfiar numerosos exemplos em que os essênios chamam-se a si próprios de pobres, ou pobres de espírito, identificados como "os perfeitos do caminho", que acabarão por derrotar os iníquos. O Sacerdote malvado que aparece nos comentários de Habacuc perseguindo ao Mestre da Justiça tem sido interpretado por alguns como sendo o cisma entre Anãs (?) e Jesus. Mas a maioria fala de um fato acontecido 140 anos antes no início da fundação da seita, quando um dos líderes dos Macabeus ilegitimamente assumiu o cargo de sumo sacerdote, relegando ao legítimo e perseguindo-o até a morte. O ódio com o qual descrevem os inimigos tira toda suposição de que a seita fosse realmente cristã. Qumrã caiu em poder dos romanos que a ocuparam na revolta de 68-70 e depois foi abandonada. Das 11 covas exploradas, só a número 7 contém papiros em grego e destes um único papiro, do tamanho de um polegar, contém um texto de seis linhas escritas só por uma página com 20 letras em 5 linhas diferentes, formando um pedaço de 3,9 X 2,7 cm. 20 letras e a única palavra completa é o KAI [e]. Dificilmente esta palavra pode identificar um texto. Dez anos mais tarde o papirologista espanhol José o´Callaghan publicou um artigo controvertido, afirmando que o manuscrito número 5 era um fragmento do evangelho de Marcos (6, 52-53). A rejeição desta hipótese teve como principal argumento a falta de comunicação entre os essênios e os cristãos. Hoje existe uma tendência a admitir a hipótese de O´Callaghan como uma teoria a ser tomada a sério. O material estava na caverna número 7 onde se encontraram 19 manuscritos escritos em grego, 18 em papiros e um preservado como impressão no duro chão da caverna. No simpósio da Universidade de Eichstätt (1992) chegou-se à conclusão de que o papiro em questão tinha muitas probabilidades de pertencer a Mc  6, 52-53, especialmente após ser examinado pela polícia pericial de Israel. É significativo que 5 dos fragmentos encontrados na cova 7, são de Marcos e dois da epístola aos Romanos que são entre os escritos do NT dos mais contrários à Tora. Será que os primitivos cristãos os recomendaram aos seus vizinhos Essênios para a custódia dos mesmos contra os romanos? Além disso dois fragmentos, um de Ex 29, 4-7 e o outro da deuterocanônica carta de Jeremias eram dois textos de suma importância para os primeiros cristãos. Uma particularidade muito importante é que os escritos da cova 7 estão escritos por uma só face apontando a rolos e não códices, estes últimos escritos por ambas caras como páginas de livros. Este dado é importante pois a passagem de rolo a códice só se deu perto do ano 80 dC. Até o 7Q5 todos os papiros neotestamentários conservados eram fragmentos de códice não de papiro. O´Calaghan levou a identificar outros fragmentos da cova 7 ente eles o número 4 como fração dos capítulos 3 e 4 da primeira carta de S. Paulo a Timóteo. Este descobrimento está à espera de maiores estudos. Entre os críticas se dizia que o fragmento era pequeno demais. Porém em papirologia tem-se identificado com grande precisão pedaços menores como o papiro 73 que nunca teve dificuldade em ser admitido como Mt 25, 43; 26,2-3. Claro que este papiro pertence ao século VI e não existem dificuldades exegéticas para admiti-lo. Feita por computação a probabilidade de que o 7Q5 pertencesse a um outro texto conhecido grego até ao século primeiro, é de um contra 10 mil milhões. Estatísticamente é uma cifra que se identifica com a certeza absoluta. Menor é a probabilidade do ADN de uma pessoa. Conclusão: Os mais antigos manuscritos cristãos pertencem aos evangelhos canônicos e aos escritos de S. Paulo totalmente contrários às hipóteses do livro que escreveu como novela histórica Dan Browun. Recentemente o professor Hunger da Universidade de Viena dizia respeito aos ataques de alguns biblistas contra a indentificação do 7Q5: Não sou religioso nem biblista, sou cientista. E como cientista posso dizer que do ponto de vista estritamente papirológico não existe debate possível: O´Callaghan tem razão.