CÓDIGO DA VINCI.-3A) PARTE: DEIXANDO FALAR OS HISTORIADORES

 

DOIS CRIMES NÃO IMAGINÁRIOS: A CONTRACEIÇÃO E O ABORTO

 

(Pe.  Ignácio dos padres scolápios)

 

O MM indaga primeiro tudo o que se deve à condição da mulher; em segundo lugar que classe de mulheres são particularmente propensas à superstição e terceiro no que se refere às parteiras as quais ultrapassam todas as maldades. E descrevem-se sete métodos mediante os quais as parteiras infectam com sua bruxaria o ato venéreo e a conceição no ventre da mulher. Ente eles citaremos: obstrução da força gerativa em homens, aborto em mulheres e oferenda de crianças ao diabo. As  ervas que usavam eram sávia e emenagogo [provocador da menstruação]. Francis Bodin (erudito secular francês) explicitamente declara: Quem pratica [a arte] viola as leis de Deus e da natureza porque obstrui o propósito do matrimônio o qual foi ordenado por Deus. Por conseguinte, isso leva ao divórcio ou à infertilidade e constitui um sacrilégio do ato sagrado. Ainda mais, tão pouco pode negar que cometeu homicídio, porque quem evita uma conceição  ou um nascimento de um menino comete não menor homicídio que aquele que corta a garganta a outro. Uma comparação: sabemos que entre os nativos da América do Norte eram conhecidas mais de 200 plantas, raízes e remédios de controle da natalidade. Que isto mesmo fosse conhecido pelas mulheres sábias ou bruxas e parteiras é mais do que lógico e este conhecimento era transmitido por organizações de mulheres(!). Por outra parte nenhum homem podia ser autorizado a tratar uma mulher. Durante a gravidez não havia outra pessoa a não ser a bruxa, com suas poções,ou o sacerdote, com suas rezas. As mães transmitiam seus conhecimentos às filhas. Daí a importância que o MM dá à inquisição dos familiares das bruxas. O manual de S. Hubert, anterior a esta caça, impunha uma penitência de três anos ao infanticídio intencional. Agora compreendemos por que alguns perseguidores de bruxas diziam que também as bruxas brancas mereciam a fogueira, já que muitas camponesas recorriam a elas para limitar sua fecundidade. Limitá-la entre os animais era produto da magia negra, entre os homens era um ato diabólico. A PESTE NEGRA: Foi um verdadeiro desastre demográfico. Entre 1348-49 pereceu um terço da população da Europa. Em Veneza com 100 mil habitantes morreram 70 mil durante a peste negra. A Igreja que tinha 20 % da terra fértil ficava sem braços e assim também o Estado e os senhores feudais. Não é de se estranhar que já para o ano de 1360 começou a caça e a execução das que se chamavam de mulheres sábias. Os códigos de leis que anteriormente só falavam de adultérios e violações, agora começam a proibir abortos, anticoncepcionais e sodomia, como o Código Bambergensis de 1507 e o da Carolina de 1532. (tomado de Brujas e política demográfica. Quema e inquisición).

 

Não encontramos nada sobre as bruxas nos mais antigos manuais do Santo Ofício. O mais antigo , escrito pelo inquisidor Bernard Gui (1324). Foi inquisidor em Toulouse de 1308 a 1323. Foi nomeado Bispo e morreu em 1333. Nesses quinze anos deu 623 sentenças das quais 136 pessoas foram condenadas a vestir sambenitos [casulas com a cruz de S. André] muitas das quais comutadas depois, 307 encarcerados por vida com mais da metade comutada, e 41 entregues para ser executadas ao braço secular. Destas últimas 30 eram cátaros, 7 valdenses e 4 beguinas. Nenhuma bruxa foi queimada. Para compará-lo em termos modernos temos que em 15 anos nos EEUU desde 1990 houve 500 execuções e 3670 estão na fila da morte. Seu manual com o título De sortilegiis et Divinis invocatoribus demoniorum descreve a heresia dos Albigenses, e como um aparte se citam diversas práticas de adivinhação e  mágicas, junto com alguns conjuros ao demônio. O mais próximo das bruxas é o comentário sobre fatis mulieribus quas vocant bonos resque ut dicunt vadunt de nocte [as fadas que a gente fala de coisa boa, que voam à noite. O segundo manual foi o de Eymerich de 1376. Ele inclui o decreto de João XXII de 1326 contra diversas formas de culto ao demônio. Na versão comentada de Francisco da Peña de 1576 desse manual, fala-se bastante sobre a conjuração ao demônio e a relação que com este têm os magos, mas a menção ao aquelarre não existe. Em todos estes manuais o sortilégio ocupa o último lugar em ordem das heresias. A postura da Igreja muda a partir de 1400 . Os detalhes os encontramos pela primeira vez na década de 1430. O primeiro tratado foi Ut magorum et maleficiorum errores de Clode Tholosan, juiz secular(!) da província de Daphiné. O outro, Fornicarius do dominicano Joan Nider. Com ambos se inicia a interminável série de tratados demonológicos dos séculos XV ao XVII.( Tomado de La Inquisición y Brujaria de Gustav Henningsen).

 

NÚMERO DE MORTES :

 

Segundo os protagonistas da novela durante 300 anos a Igreja, queimou a assombrosa cifra de cinco milhões de mulheres. Esta é uma cifra repetida na literatura neopagã Wicca, New Age e feminista radical, embora em outra Web e textos de bruxaria atuais se fala até de 9 milhões. Os neopagãos necessitam uma shoah [holocasausto]própria. As feministas afirmam que as bruxas eram feministas daquela época e que seus rituais serviam para reforçar uma oposição ao domínio masculino.

 

Segundo Joseph Hansen a primeira queima de bruxas teria acontecido em 1275 quando a Inquisição de Toulouse condenou Ângela de la Barthe  por ter comido carne de crianças e ter tido relações com o diabo. Ao longo do século seguinte, segundo ele, centenas de homens e mulheres acusados de bruxaria foram queimados pelas inquisições de Toulouse e Caracassone. Mas a investigação mais recente demonstra uma coisa totalmente diferente. Os dados sobre a sangrenta caça de bruxas tem como base um livro de divulgação escrito pelo romancista francês Lamothe-Langon(1829). Em 1970 se demonstrou que as fontes medievais apresentadas por Lamothe-Langon jamais existiram, mas foram por ele inventadas para adornar seu relato. A raiz destes fatos a cronologia se retrasou quase cem anos. Os primeiros, embora escassos informes, datam de 1360, ou seja um século mais tarde da suposta queima de Ângela de la Barthe. E não foi a Inquisição quem iniciou a perseguição, mas a justiça civil na Suíça e na Croácia. Resulta interessante ver como a Inquisição de Milão não sabia o que fazer com dois caminhantes noturnos em 1384 e 1390, que confessaram ter participado de uma espécie de aquelarre branco em que a fada Madonna Oriente os instruía na forma de ajudar a gente a combater a bruxaria. Parece que a legalização da caça de bruxas teve sua origem nas exigências do povo que pressionava os tribunais civis. Pouco a pouco a Igreja teve que se adaptar a esta corrente; mas a Inquisição não parece involucrada nesse tipo de perseguições com anterioridade ao século XV. A Inquisição está menos disposta a se deixar levar por essas histórias [visionárias] do que os tribunais civis. No Malleus se declara que os atos das bruxas podem ser cometidos sem cair em heresia, sem erro na fé, não obstante grande pecado(Gustav Henningsen)

 

1484: Nesse ano, -afirma Kurtz- dois anos antes da impressão do Malleus mataram-se na Europa 300mil bruxas. Sendo que a população da Europa tinha 80 milhões de habitantes e a maior cidade, Paris 80 mil habitantes. Na grenoble católica o poder civil preferentemente ente os anos 1428-47[antes do Malleus] condenou à morte 167 pessoas. Na Saxônoa protestante num só dia de 1580 se queimaram 133 bruxas. No pequeno cantão protestante suíço de Vaud em 10 anos mataram 311 bruxos. Na Baviera 2000 entre os anos 1500 a 1756. Um só perseguidor de bruxas na Alemanha teve sob sua consciência a morte de 900 pessoas. Um juiz francês [poder civil] se gabava de ter queimado 800 mulheres em 16 anos de magistratura. Queimaram-se 600 durante a administração de um bispo protestante em Bamberg(Alemanha). Na Genebra protestante de Calvino foram queimadas 500 pessoas num só ano de 1515.

 

A partir do Código de lei secular como a Constitutio Criminalis Carolina do Imperador Carlos V de 1532 agora incluem-se leis contra a bruxaria, na sua maioria recomendando a pena de morte. Começando neste período e continuando até o século XVIII aproximadamente meio milhão de pessoas foram executadas por bruxaria, na sua maioria mulheres. A caça de bruxas variava consideravelmente dependendo do tempo e lugar. Alguns lugares se salvaram quase completamente enquanto outros, em várias ondas de perseguição, quase todas as mulheres foram executadas. No continente europeu a maioria das bruxas convictas eram queimadas depois de longas torturas, enquanto na Inglaterra e suas colônias a maioria das bruxas convictas morriam enforcadas.

 

GUSTAV HEENNINGHEN: Em 1080 Gregório VII se queixa ao rei Harold da Dinamarca porque os daneses tinham o costume de fazer certas mulheres responsáveis de tempestades, epidemias e de toda classe de males e de matá-las logo do modo mais bárbaro. Uma crônica eclesiástica trata como mártires  três mulheres queimadas por serem envenenadoras de pessoas perto de Munich em 1090. Nada se encontra nos mais antigos manuais.  No início, a Espanha seguiu na zaga de outros países. De 1498 a 1522 (14 anos), o Santo Oficio condenou a onze bruxas à fogueira.  Os processos por bruxaria estão divididos entre tribunais civis, episcopais e de Inquisição. De um cálculo aproximado de mil causas, 63% foi julgado por autoridades civis, 17% corresponde aos tribunais episcopais e 20 % à Inquisição. A metade das 200 causas correspondentes à Inquisição corresponde ao inquisidor Heinrich  Institoris que tinha sido nomeado inquisidor em 1484 pelo Papa Inocêncio VIII. A Inquisição não teve um papel tão importante na perseguição das bruxas durante a Idade Média como a ela é atribuído. Mas que temos a dizer da Idade Moderna? Para o ano de 1525 os tribunais da Inquisição da Europa tinham sido extinguidos. E a era do Santo Ofício tinha chegado ao seu fim. A Inquisição moderna tinha agora bases nacionais. Foi estabelecida na Espanha em 1478, em Portugal em 1531 e a Romana em 1542. Baseando-nos nos resultados mais recentes da investigação calcula-se que houve perto de 100 mil causas de bruxaria na Europa. Das quais a metade [50 mil] acabaram na fogueira. Mas a intensidade das perseguições variou muito de país a país. O país em que houve maior numero de vítimas é a Alemanha 25 mil (16 milhões) com 1,56 por cada mil habitantes. Colocamos entre parêntesis o número de habitantes na época das diversas nações. A Polônia 10 mil (3,4 milhões) com 2,94 por mil. A França 4 mil (20 milhões) com 0.20 por mil. A Suíça 4 mil (um milhão)  com 4,00 por mil. A Dinamarca 1550 (970 mil ) com 1, 39 por mil. A Inglaterra com 1500 (6,5 milhões)_ com 0.23 A  Itália mil (13,1 milhões ) com 0,076 por mil. Os que menos bruxas queimaram foram Portugal 7 (um milhão) com 0.0007 por mil.  Espanha 300 (8, 1 milhões) 0,037 por mil. Paises Baixos com 200 ( 1,5 milhões) com 0,13 por mil. Por habitantes os países com menos queimas por mil são os países em que atuou a Inquisição moderna: Portugal [0.0007] Espanha[0,037] Itália [0,076] Paises Baixos [0, 133] França [0.200], todos católicas ou com grande influência católica. Os mais afetados por mil habitantes são Lichtenstein [300], Suíça [4,00], Polônia[2,94], Alemanha [1,56], Dinamarca[1,39], Noruega [1,39], Áustria[0.50],  Checoslováquia [0,50], Islândia [0, 44], Suécia [0, 43] .  A metade da queima das bruxas se deu nos estados alemães com 25 mil pessoas. E a mais afetada foi Lichtenstein com uma queima correspondente a 10% da população. Na cabeça da menor intensidade estão Portugal, Espanha e Itália, os únicos países que conservaram a Inquisição, adaptando-a a sua nova base nacional. Porém há ainda dados mais novedios e que praticamente advogam pela Inquisição como tribunal moderadíssimo: Das 7 queimas de bruxas em Portugal só 1 foi devida ao tribunal eclesiástico. Das 300 na Espanha só 27 foram julgadas pela Inquisição e das 100 na Itália só 8 foram queimadas após serem julgadas em tribunais eclesiásticos. Donde estão os 5 milhões que a Igreja queimou? Foi o MM o que dirigiu os tribunais eclesiásticos da nova Inquisição moderna, ou foram os tribunais civis os causantes da imensa maioria das execuções? Mas sigamos com o depoimento de Henningsen: Calculo que a Inquisição nos países católicos do Mediterâneo teve entre 10 mil ou 12 mil processos contra a bruxaria,  dos quais só temos um total de 136 execuções, ou seja uma percentagem de 1,36 mortes ou 1,33% das processadas. Equivale realmente ao que nos dizem os modernos: que a pena capital na Inquisição teve uma percentagem de 1,26% do total de processos efetuados. Escandell afirma que entre 1478 e 1834 (refundação e abolição do Santo Oficio), se condenou à morte  1,2% dos processados. Um dado real constatado nos documentos: de 1489 até 1526 [37anos] a Inquisição espanhola queimou 11 bruxas. Hennigsen tira as conseqüências: A inquisição foi dura contra marranos[judeus conversos apóstatas] protestantes e moriscos [mouros reincidentes na religião islâmica] , mas branda contra as bruxas, tão branda que aos olhos de um europeu do norte seria um escândalo. A História demonstra que a Inquisição foi a salvação de milhares de pessoas acusadas de um crime impossível.

 

 COMO NOTA: no tempo mais agudo da inquisição durante os 20 primeiros anos[1480-1500] se calculam 2 mil judeus conversos executados de mais de 100 mil processos o que dá um 2% de penas capitais. Em Portugal 80% dos casos foram contra judeus conversos. A porcentagem de condenados à morte foi mui superior à espanhola. Na Inglaterra foram justiçados quatro vezes mais católicos pelos protestantes que protestantes pela inquisição espanhola. (Henry Kamen). Henrique VIII condenou ao patíbulo 2 cardenais, 20 arcebispos e bispos, mais de 500 abades e monges e multidão de doutores, nobres e funcionários da Coroa. No total se calculam 60 mil católicos em todo o estado e condição, mortos, torturados ou encarcerados. Isabel I superou seu pai e levou ao suplício e à forca 40 mil dissidentes religiosos na Irlanda. Calvino, de 1541 a 46 interveio pessoalmente na execução de 58 pessoas. Um juiz francês do poder civil gabava-se de ter queimado 800 mulheres em 16 anos de magistratura. Queimaram-se 600 durante a administração de um bispo protestante em Bamberg [Alemanha]. Na Genebra protestante de Calvino foram queimadas 500 pessoas no ano 1515. A última bruxa a ser executada foi Anna Göldin, enforcada na Suíça em 1782. Na França foi em 1745. Finamente traduzimos de um artigo de Internet: Quando recorremos a historiadores sérios se calcula que entre 1400 e 1800 foram executadas na Europa entre 30 mil e 80 mil pessoas por bruxaria. Nem todas foram queimadas, nem todas foram mulheres. E a maioria não morreu nas mãos de oficiais da Igreja, nem mesmo de católicos. A maioria das vítima foi na Alemanha, coincidindo com as guerras camponesas e protestantes dos séculos XVI e XVII. Quando uma região mudava de denominação abundavam as acusações de bruxaria e a histeria coletiva. Os tribunais civis,locais e municipais eram especialmente entusiastas, especialmente nas zonas calvinistas e luteranas. De todas as formas a bruxaria tem sido perseguida e castigada com a morte por egípcios, gregos romanos, vikings,  ect. O paganismo sempre matou bruxos e bruxas. A idéia do neopaganismo feminista de que a bruxaria era uma religião  feminista pré-cristã não tem base histórica