Como conheci
o Papa Bento XVI?
Pe. André Luís Buchmann de Andrade
Mestrando
Roma – Itália
Desde a
adolescência ouvi falar muito no nome do Cardeal Joseph Ratzinger através dos meios de
comunicação católicos ou não. Quando entrei no seminário comecei notar que se
tratava de uma pessoa importante, porque sempre era citado
nas palestras, aulas e conversas. Fui, então, crescendo e tendo a
consciência de que se tratasse de um fiel colaborador do Santo Padre.
Lembro-me
muito bem de ver, na tv, as
imagens de sua chegada e presença no Rio de Janeiro quando, a convite do
Cardeal Eugênio Sales esteve na Cidade Maravilhosa para um simpósio de
Teologia.
Não entendia
bem as críticas que, às vezes, eram feitas a ele. Entendi sempre que se se tratava de uma pessoa fiel a nosso falecido Papa, o querido João Paulo II, só poderia ser da confiança
dos cristãos.
Estudando
Teologia fui me aprofundando sobre a importância de Ratzinger
no Concílio Vaticano II que transformou a vida da Igreja.
Ainda no
seminário e nos meus primeiríssimos anos de sacerdócio passei a admirar o
Cardeal Ratzinger por sua coragem. Infelizmente, no
mundo atual, temos um pouco de medo de dizer a verdade, de corrigir os que
erram, de turvar a nossa boa imagem. Notava que ele tinha essa coragem
certamente não por prazer, mas por dever. Dever de todo católico e dever como
Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Dever que é também uma obra de
misericórdia: “corrigir os que erram”. Obra esta que vem completada por outra:
“suportar com paciência os defeitos alheios”.
Como
Pároco, sedento de aprender cada vez mais a verdade para poder transmiti-la aos
fiéis, acompanhava os escritos pessoais do Cardeal Ratzinger
e também as publicações da Doutrina da Fé. Chamou-me muito a atenção sempre o
que pensava sobre a celebração da Missa. A Missa não deve ser um show. A piedade
e o esmero na preparação e celebração do Santo Sacrifício do Altar. Sobre o
Ecumenismo sem confusão. Para tanto aconselho que os leitores tenham diante de
seus olhos a Declaração Dominus Iesus,
da Congregação da qual era Prefeito este Papa até a morte de João Paulo II.
Chegando a
Roma, pude notar a importância de Ratzinger na Cidade
Eterna. Uma importância que transpunha os muros vaticanos.
Comecei
também a ouvir histórias aqui e acolá que ilustravam a simplicidade do Cardeal.
Parecia até contradição. Como um homem tão ilustre poderia ser o protagonista
de fatos tão corriqueiros?
Só para que
os leitores saibam conto um fato ocorrido aqui
Quando morreu o Cardeal Lucas Moreira Neves, o seu velório foi na
Capela do Colégio Pio Brasileiro. Durante as várias horas de guardamento foram muitas as personalidades que vieram prestrar sua última homenagem. Muitas as pessoas simples
também.
Diante da
portaria chegou um eclesiástico no banco do passageiro de um Fiat muito
simples. Apresentou-se à portaria vestido de clergyman
preto como um sacerdote qualquer. Um sacerdote um pouco desligado acolheu este
“padre” e o levou até a capela. O “padre” rezou em silêncio diante do corpo de
Dom Lucas e depois de estar um pouco em oração encaminhou-se ao corredor que dá
acesso à portaria. O sacerdote, que o recebeu na entrada, estava esperando-o.
No exato momento passa um outro sacerdote do Colégio e, reconhecendo o Cardeal Ratzinger, beija sua mão dizendo: “Eminência, como vai?” Só
então o padre que o acolhia viu que, de fato, se tratasse de Ratzinger.
E casos assim temos, aqui em Roma, aos montes a respeito de
nosso querido Bento XVI.
Sempre ouvi
dizer que ele, que morava até semana passada num apartamento na Piazza Città Leonina, bem perto
do Portão de Sant’Ana, que dá acesso ao Vaticano,
saía, nas tardes livres, para tomar café nos bares, em torno ao Vaticano, para
conversar com os moradores e turistas. Achava que fosse um exagero esta história
até que, sem querer, pude comprová-la. E foi assim que, por alguns minutos,
pude conversar com o atual Papa, porém, ainda cardeal há uns dois meses.
Estávamos, uns oitenta padres do Colégio Brasileiro, no Palácio
Apostólico Vaticano, no andar inferior ao do apartamento do Papa visitando a
Capela Redemptoris Mater.
Era uma tarde cultural com guia que nos explicava a teologia dos mosaicos desta
Capela onde o Santo Padre recebe grupos maiores que não cabem na sua capela
particular.
Quando
acabou a visita, o grupo se dissolveu na Praça de São Pedro. Ficamos 5 sacerdotes tirando fotos na Praça.
Pe. Antônio Lopes Fonseca, da Diocese de Penedo e eu
resolvemos vir de metrô para casa e os outros resolveram voltar de ônibus.
Nosso caminho nos obrigava a passar perto da casa de Ratzinger.
Diante da Porta de Sant’Ana resolvemos passar na loja
das Irmãs Paulinas. Com isso, sem querer, passamos diante do prédio do
apartamento do Cardeal. Quando estávamos na Praça Leonina vi o Cardeal saindo
de casa a pé. Comentei com o Padre Antônio. Veja quem está saindo ali. É o
Cardeal Ratzinger. O Pe.
Antônio teimou comigo: “Trata-se de um padrezinho italiano com frio. Não pode
ser o Cardeal. Imagine que ele iria estar caminhando
por aqui!” Eu respondi que ele poderia ter razão, mas para que pudéssemos ter
certeza deveríamos perguntar. Disse, ainda, que se eu tivesse razão ele, o Pe. Antônio, seria o fotógrafo. Fomos nos aproximando e eu o cumprimentei, pedi desculpas e
perguntei se ele era o Cardeal Ratzinger. Ele disse
que sim. Fiquei tão sem ação que em vez de puxar mais assunto já fui pedindo logo
se poderíamos tirar uma foto. Ele, educadíssimo aceitou. Enquanto fomos
preparando a máquina ele foi de uma gentileza sem par. Perguntou-nos de onde
éramos. Falamos que éramos brasileiros. Ele então começou a falar o nome dos
cardeais brasileiros e disse que estava muito contente porque naquela semana
havia almoçado com o Cardeal da Bahia, Dom Geraldo. Depois perguntou o que
fazíamos
Durante
estes minutos Pe. Antônio e eu trocamos de lugar
sendo fotógrafos e fotografados e o Cardeal continuava conversando. Chamou-nos
a atenção porque ele não fazia pose diante da câmera, mas continuava olhando-nos,
e conversando conosco. Quando nos despedimos eu pedi
desculpas por tê-lo parado ali na calçada e tê-lo atrasado. Ele respondeu: “Foi
um prazer”.
Como não
ficar contente com a fineza de uma pessoa importante que pára na rua para falar
com os passantes?
Depois, que
nos despedimos olhamos para trás e já havia uma outra pessoa conversando com
ele.
Mas a
gentileza dele não terminou ali. Revelei as fotos e enviei-as à portaria da
Congregação da Doutrina da Fé com nossos nomes atrás agradecendo ao Cardeal a
oportunidade e pedindo sua bênção. Não passou uma semana e chegou-me um pacote
do Correio Vaticano. Dentro estavam nossas fotos com dedicatória. Um presente,
uma bênção, uma dedicatória do homem que dali dois meses seria Papa.
Na noite de
21 de abril, aqui no Colégio, os três Cardeais Brasileiros, nossos ilustres
hóspedes, fizeram-nos uma palestra sobre o perfil do novo Papa. Dom Humes, Dom Scheid e Dom Falcão
nos passaram sua ótima impressão a respeito de Bento XVI.
Dom Cláudio
Humes, Cardeal Arcebispo de São Paulo nos disse que o
Cardeal Ratzinger na Doutrina da Fé, antes de chamar
a atenção de um teólogo, por seus erros, dava muitas chances, procurava pontos
positivos, dava tempo, às vezes anos, para que o escritor ou professor
repensasse suas idéias.
O novo Papa
conhece muito bem as duas importantes obras de misericórdia acima citadas sobre
a correção e a paciência.
Dom Eusébio
Scheid, Cardeal Arcebispo do Rio disse que não
podemos acreditar em pessoas amargas que julgam o Papa atual pinçando da sua
vida passada esta ou aquela decisão. Decisões que, se forem analisadas a fundo,
foram sempre para o bem da doutrina de Cristo e da vida da Igreja.
O Cardeal
Falcão, Arcebispo Emérito da Capital Federal, disse-nos que foi uma alegria
muito grande aos Cardeais poder eleger Bento XVI.
Aqui, em
Roma, estamos sendo testemunhas da alegria de todos. Nesta última sexta-feira,
quando tive de levar um documento de Dom Scheid ao
Vaticano, uma senhora alemã me parou na Praça de São Pedro e me perguntou onde
ficava a Prefeitura da Casa Pontifícia. Ela queria marcar uma audiência com o
Papa. Junto à sua ingenuidade percebi também muita alegria. Agradeceu-me e
disse: “Estamos muito felizes com o nosso Papa!”
Terminando
este artigo e tendo diante dos olhos, o que vi aqui, em Roma, nestes momentos
históricos da agonia de nosso finado e querido João Paulo II, vejo o ainda
Cardeal Ratzinger presidindo, como Decano do Colégio
Cardinalício, os funerais do Papa (quando na sua homilia foi aplaudido 13
vezes) e em outras cerimônias conduzindo com maestria as homenagens ao Grande
Papa Polonês. Diante de tudo isso lembro-me do canto
que aprendi na infância: “Viva o Papa! Viva o Papa, nosso Pai comum. Deus lhe
dê vida, Deus o conserve por muitos anos”.