Discurso do Ex.mo Sr. Núncio apostólico dom Lorenzo Baldisseri, no primeiro dia da 40ª Assembléia Geral da CNBB, 30 de abril de 2003.
Em.mos Cardeais, Ex.mos Arcebispos e Bispos,
Queridos Irmãos e Irmãs
Senhor Prefeito
“Ai de mim se não evangelizar”
(1 Cor 9,16)
Com estas estimulantes palavras de São Paulo, compraz-me transmitir-lhes,
queridos Irmãos no Episcopado, a minha mais cordial saudação no início desta
41ª Assembléia Geral da Conferência Episcopal. Venho dum País missionário, a
Índia, onde, juntamente com o Nepal, transcorreram-se três anos e meio como
Núncio Apostólico, e onde vivi uma experiência de Igreja, estimulante,
presente, missionária.
Nesta abertura de Assembléia, na qual também será eleita a nova Presidência da
CNBB, quero saudar a todos vós, Irmãos no episcopado, mas de modo deferente, a
Presidência atual desta Conferência, Sua Ex.cia Dom Jayme Henrique Chemello,
Dom Marcelo Pinto Carvalheira e Dom Raymundo Damasceno Assis, agradecendo o
convite que me foi feito para participar desta Assembléia.
Como Núncio Apostólico trago, antes de tudo, - nesta primeira ocasião em que me
encontro com quase a totalidade do episcopado brasileiro, o afeto, as saudações
e a Bênção Apostólica do Santo Padre, e, asseguro a todos minha maior disponibilidade
de serviço, de comunhão para com o Episcopado e a Igreja do Brasil.
Em vossas pessoas, quero saudar, com respeito e afeto episcopal, a porção do
Povo de Deus de cada diocese do Brasil.
“Ai de mim se não evangelizar”, urgiu São Paulo, o Apóstolo dos gentios, e a
mesma urgência a evangelizar impele hoje, mais do que no passado, toda Igreja
em qualquer continente ou lugar se encontre. Urge a Igreja no Brasil, que, a
partir do lançamento da nova evangelização feita pelo Papa João Paulo II em
Santo Domingo, em 1992, tem tomado passos concretos de ação através de
programas pontuais, cada quatro anos, com o título “Diretrizes Gerais da Ação
Evangelizadora” da CNBB, definindo as pautas evangelizadoras da Igreja no
Brasil. O anteprojeto do novo documento que será apresentado, discutido e
aprovado nesta Assembléia, será a nova contribuição da CNBB às Igrejas
particulares no Brasil neste próximo quadriênio.
“Ai de mim se não evangelizar” é o grito dum homem, o Apóstolo Paulo, que tomou
a sério o mandato do Senhor aos Apóstolos: “Ide a todo o mundo e pregai o
Evangelho a todas as criaturas. Quem acreditar e for batizado será salvo, mas
quem não acreditar será condenado” (Mc 16,15-16). Trata-se porém, de um mandato
peremptório e imperativo que a Igreja primitiva acolheu e pôs na prática “sine
glossa”, como dirá São Francisco de Assis 12 séculos depois.
A pregação, o anúncio do Evangelho é, e será sempre, o papel fundamental da
Igreja em todos os tempos e lugares do mundo. O anúncio é sua razão de ser, sua
motivação última, sua missão.
A missão da Igreja, de proclamar a Boa Nova, é bem explicitada pela Encíclica
“Redemptoris Missio”, quando, evidenciando seu aspecto fontal, afirma que Deus
pronunciou sua Palavra definitiva em Jesus Cristo. Deus deu-se a conhecer, após
a primeira revelação na criação e nas numerosas intervenções no Antigo
Testamento, de modo mais pleno e último em Jesus Cristo. Por meio dele, Deus
Pai “disse à humanidade Quem é. E esta auto-revelação definitiva de Deus, é o
motivo fundamental pelo qual a Igreja é, por sua natureza, missionária. Não
pode deixar de proclamar o Evangelho, ou seja, a plenitude da verdade que Deus
nos deu a conhecer acerca de Si mesmo” (RM nº 5).
O conteúdo da pregação, portanto, é o próprio Jesus Cristo. “Sendo Ele a Boa
Nova, continua a Encíclica, então em Cristo há identidade entre mensagem e
mensageiro, entre o dizer, o fazer e o ser, assim que, esta identificação
permite a Cristo de proclamar a “Boa Nova”, “não só por aquilo que diz ou faz,
mas também pelo que é” (RM 13).
Isso é fundamental para dar identidade a todas as ações da Igreja, chamada,
como Ela é, a anunciar o Reino de Deus, cujo fundamento é Cristo, único
Salvador e Redentor. As ações da Igreja são então, as ações de Cristo, na
medida em que os batizados sejam membros vivos da Igreja pela fé e pela prática
das virtudes cristãs, e propriamente, quando a Igreja atua nos sacramentos. Os
valores cristãos, os valores evangélicos, de que se fala freqüentemente,
assumem o atributo de cristão e de evangélico com respeito a esta identidade.
Mas, é preciso esclarecer que muitos deles são comuns a outras religiões ou
ideologias.
Com referência ao Reino de Deus, Jesus o inaugurou e o selou com seu sangue e
sua ressurreição, assim que os discípulos puderam e podem pregar o Reino de
Deus, anunciando a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. Conseqüentemente, “o
Reino de Deus não é um conceito, um programa, sujeito a livre elaboração, mas é
acima de tudo, uma Pessoa, que tem o nome e o rosto de Jesus de Nazaré” (RM18).
Apraze-me recordar aqui o que diz a Redemptoris Missio com respeito à certa
maneira de entender o Reino, que não está em consonância com o sentir da
Igreja. Cito o texto ao n. 17: “De fato, existem concepções de salvação e
missão que podem ser designadas ‘antropocêntricas’, no sentido redutivo da
palavra por ser concentrarem nas necessidades terrenas do homem. Nesta
perspectiva, o Reino passa a ser uma realidade totalmente humanizada e
secularizada, onde o que conta são os programas e as lutas para a libertação
socioeconômica, política e cultural, mas sempre num horizonte fechado ao
transcendente. Sem negar que, a este nível, também existem valores a promover,
todavia, estas concepções permanecem nos limites de um reino do homem (...). O
Reino de Deus, pelo contrário, “não é deste mundo (...) não é daqui debaixo”
(Jô 18,36) (RM 17). A Encíclica sinala também outra maneira de conceber o
Reino, classificada como ‘reino-cêntrica’, “pretendendo com isso, fazer
ressaltar a imagem de uma Igreja que não pensa em si, mas dedica-se totalmente
a testemunhar e servir o Reino. É uma ‘Igreja para outros’ - dizem - como
Cristo é o homem para outros. A tarefa da Igreja é orientada num duplo sentido:
por um lado promover os denominados ‘valores do Reino’, como a paz, a justiça,
liberdade, a fraternidade, por outro, favorecer o diálogo entre povos, as
culturas, as religiões, num mútuo enriquecimento, ajudem o mundo a renovar-se e
a caminhar cada vez mais na direção do Reino” (n. 17)
Aqui me parece de suma importância compartilhar uma experiência eu vivi nos
países orientais onde servi nas Nunciaturas, primeiro no Japão, como Secretário
há muitos anos atrás e, recentemente, na Índia e Nepal, como Núncio. Os
preceitos védicos da religião indú, os ensinos budistas, xintoístas,
lao-tseanos, Confucianos, as sutras corânicas do Islam, o pensamento de Gandhi,
os poemas de Tagore, contém altos valores humanos, que se assimilam aos valores
do Reino. Eles convidam e pregam a concórdia, a harmonia, o respeito recíproco,
a liberdade, a fraternidade, o amor ao próximo, a paz. São de fato valores
universais.
Obviamente, se é certeza que estes valores compartilhados por cristãos e
seguidores de outras religiões e ideologias são uma excelente base de diálogo,
de entendimento, de ação comum para o bem da humanidade, é também um desafio
que interpela a nós cristãos. Impele, para nós, um maior conhecimento da nossa
fé e uma correta consciência de nossa própria identidade cristã, a fim de
evitar confusão e incerteza, e chegar a um relativismo religioso que faz
aceitar todas religiões como iguais e boas. Neste sentido, compreendemos a
proliferação das seitas, o vai e vem de gente de uma Igreja para outra, pessoas
desorientadas que passam de uma religião ou crença a outra. Nossas comunidades
eclesiais necessitam, diz o Santo Padre aos Bispos de Nordeste 2 e Norte 1 e
Noroeste em visita ad limina, uma fé sólida e esclarecida, que permita um sadio
ecumenismo e um diálogo respeitoso e sincero.
O que faz a diferença, o que especifica a mensagem cristã de todas outras
mensagens é Jesus Cristo, o Filho de Deus, que se fez homem, padeceu, foi
sepultado e ressuscitou entre os mortos, subiu aos céus e está sentado à
direita de Deus Pai. É a Trindade Santa.
Confesso que nunca foi tão claro para mim o significado do sinal da cruz como
no Japão, na Índia e no Nepal. Na Índia onde a dimensão transcendental do homem
não se questiona, onde Deus faz parte da natureza humana, onde a oração é como
o respiro humano, o sinal distintivo do cristão, a cruz, com as palavras “em
nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, adquire toda sua plena certeza de
fé, e sua especificidade cristã. Para o indú é normal, natural que Deus se
manifeste, também que possa encarnar-se - se fala de 12 encarnações de Vishnu -
mas é inconcebível, absurdo, que um Deus, o Filho Deus, possa morrer, e morrer
na cruz, e muito menos possa ressurgir dentre os mortos. Aqui a famosa frase de
São Paulo, toma todo seu pleno significado: “Nos porém anunciamos Cristo
crucificado, que para os judeus é escândalo, e para os gentios é loucura” (1
Cor 1,23). Uma linguagem dura, mas Jesus não recuou quando também os apóstolos
ameaçaram abandonar Jesus que falou do pão da vida como sua carne, não recuou
quando teve que dizer a verdade, que Ele é o Filho de Deus e Rei, mas não deste
mundo, ante o Sinédrio.
A mensagem de Cristo, suas palavras, é a mensagem de Deus Pai, que através de
Cristo atinge a todos seres humanos, dando-lhes a dimensão divina, jamais
conhecida para homem. Cristo quando fala de amor, fala de amor de Deus. Ele
afirma que Deus é amor. Mas não só diz que “Deus é amor” (1 Jo 4,8-16). Ele
indica um mandamento novo: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Com
Jesus a dimensão do amor não é mais humana, é divina pela sua encarnação. O
amor cristão é o amor de Cristo, não é simplesmente o amor humano. O amor, de
que fala São Paulo aos Coríntios não é virtude humana, é uma virtude teologal:
a caridade. Esta dimensão do amor permite amar aos inimigos e doar a vida para
o outro. Não há outro ensino no mundo que convida a amar aos inimigos.
Portanto, parece-me indispensável em nossa pregação e em nossa pastoral, não
dar por subentendido esta peculiaridade de nossa fé que a identifica e que a
leva à plenitude da verdade e à salvação. Vivemos no contexto cristão, numa
tradição cristã, onde falamos de Amor e de outros valores ditos “evangélicos”,
trabalhamos por instaurar a justiça, promover igualdade, dignidade, liberdade.
Tudo isso é o grande compromisso da Igreja, especialmente de hoje em dia, mas a
eficácia e o êxito de tudo isso é diretamente proporcional ao anúncio, que deve
ser sempre primeiro em nossos projetos. Quando Cristo é conhecido, vive nos
sacramentos e na vida da gente, então podemos falar de amor, que é diferente do
amor filantrópico: será então um amor transformador, revolucionário sem armas.
O risco de nossa ação pastoral, de nossa ação de koinomia na sociedade de hoje
é de agir, se não se coloca Cristo no centro, como homens e mulheres de boas
intenções, revestidos de bondade natural e filantrópica, trabalhando como
agentes civis, empregados de governo, funcionários de ONGs ou de Agências
humanitárias.
As pessoas pedem a Igreja e aos cristãos não só o pão, empregos, vivendas,
educação, saúde, mas alma, espírito, respostas ao sentido da vida, o amor
desinteressado e gratuito, que brota do coração do homem Deus, Jesus Cristo,
que dá sua resposta não só às súplicas de vida na terra, mas às súplicas
fundamentais da vida, das doenças, da morte, conseqüências do mal e do pecado.
Nosso esforço de elevar as pessoas que vivem na pobreza, das necessidades
primárias, são ações necessárias e prioritárias; estão na linha do ensino e da
experiência de Jesus, mas bem sabemos que Jesus, quando ressuscitou Lázaro, não
foi para dar-lhe uma vida terrena para sempre. Ele curou aos doentes não para
dar-lhes saúde para sempre na terra. Ele curou, ressuscitou, ele fez todos os
milagres para afirmar seu Reino, o novo Reino, que não é deste mundo. As
“obras” de que fala São João, são as ações de Cristo que foram sinais do
advento da nova era da libertação do pecado e da morte. Ele não inaugurou uma
era de justiça humana na terra, não tirou o homem da luta contra o demônio, que
tenta e convida constantemente aos bens terrenos, mentindo sobre a verdade do
homem.
A necessidade de espiritualidade, de vida interior é uma das exigências do
homem e mulher de hoje, apesar da prosperidade e o do progresso, realidades
estas, que são positivos, mas ameaçam constantemente à perda do sentido de
Deus. O Santo Padre a este respeito, diz em seu discurso aos Bispos do Regional
Sul 1, em visita ad limina: “Vós percebeis quão difundida é esta exigência de
Deus, entre a vossa gente, uma população tradicionalmente ancorada nos perenes
princípios do cristianismo, mas submetida a influências negativas de várias
ordens. Porventura, - comenta o Santo Padre - o fenômeno das seitas (...), não
é um sinal concreto de uma insatisfeita aspiração ao sobrenatural? Não
constitui ele (...) um autêntico desafio a renovar o estilo do acolhimento dentro
das comunidades eclesiais e um estímulo premente a uma nova e corajosa
evangelização, que desenvolva formas adequadas de catequese sobretudo para os
adultos?”.
Queridos Irmãos no Episcopado,
Nesta ciclópica tarefa de evangelizar, nós os pastores precisamos agir em
colegialidade e em comunhão.
“Unidos para a missão!”, disse o Santo Padre aos Bispos do Regional Sul II em
visita ad limina, em Outubro passado. É um apelo que nesta Assembléia Nacional,
adquire um particular significado, sendo reunidos quase todos os Bispos do
Brasil, para definir as novas pautas evangelizadoras deste próximo quadriênio.
O Santo Padre a este respeito ressalta duas grandes colunas das exigências de
comunhão: “conservar o depósito da fé na sua pureza e integridade, e “unidade
de todo o Colégio dos Bispos sob a autoridade do Sucessor de Pedro (cf. Exor.
Ap. pós-sinodal Ecclesia in América, 33). Estas duas colunas permitem entender
a missão como missão universal, de toda a Igreja, implicando todos os Bispos do
mundo - e, porém os bispos do Brasil - na solicitude, com e sob Pedro, de todas
as Igrejas e de toda a humanidade.
Ao reiterar-lhes minha cordial saudação, assim como meu sentimento de fraternal
estima e afeição, manifesto-lhes também minha sincera alegria pela ocasião que
me oferecem de conviver convosco nestes dias de reflexão, de estudo e de
oração.
Nossa Senhora, que acompanhou no Cenáculo os Apóstolos que “perseveravam
unanimemente na oração” (At 1,14), estará certamente entre nós nestes dias,
invocando também juntamente conosco “que Deus nos dê a Sua graça e a Sua bênção
e Sua face resplandeça sobre nós!” (Sl 66).