Dominus Jesus

 

VOZ DO PASTOR  D. Eugênio de Araújo Sales 22/09/2000

 

A Declaração "Dominus Jesus" da Congregação para a Doutrina da Fé traz a data de 6 de agosto último. A 16 de junho, o Papa João Paulo II havia, "Em consciência certa e com sua autoridade", ratificado e confirmado o Documento. Está destinado a exercer grande e benéfica influência na Igreja. Examinando a situação atual, constatamos algumas semelhanças com as condições existentes após 35 anos da realização do 1º Concílio Ecumênico em Nicéia, no ano 325. As diferenças entre a doutrina autêntica e interpretações distorcidas eram tão sutis naquela época, que sacerdotes e bispos ficavam perplexos diante da argúcia dos argumentadores em favor da heresia, mesmo um arianismo mitigado. Buscavam atenuar as exigências do Concílio de Nicéia. Este tratara do dogma fundamental da Fé cristã, a verdadeira identidade de Jesus Cristo, como Filho de Deus, "Deus verdadeiro de Deus verdadeiro". Sob a pressão do Imperador Constâncio (337-361), muitos bispos foram forçados ou induzidos a aderir à heresia ariana, que havia motivado a convocação do Concílio de Nicéia. O Papa Libério resistia; o Bispo de Poitiers, Hilário, sofreu repetidos exílios. Sobre esse momento histórico, quando muitos se adaptavam a meias-verdades e tantos fiéis sofriam, por guardarem a Fé íntegra da grande Tradição, eis que São Jerônimo, o sábio Doutor da Igreja, escrevia uma frase que revela a situação alarmante, dramática: "Gemia o mundo inteiro e surpreendeu-se ao se ver "ariano". "Ingemuit totus orbis et Arianum se esse miratus est" (Dialogo Adversus Luciferianos, nº 19).

Hoje, o poder do Imperador é substituído por interesses, pelo relativismo, subjetivismo, minando a reta Doutrina. Ao apresentar o Documento, o Cardeal Ratzinger resume a gravidade do momento atual: "Trata-se de convicções hoje já difundidas, não somente em ambientes teológicos, mas também em setores sempre mais vastos da opinião pública". Na atualidade, os erros, de modo sutil ou agressivo, tentam infiltrar-se, atingindo diretamente a identidade da Pessoa de Cristo. Embora os moderados fautores dessa subversão da Fé reconheçam que Jesus é Deus e Homem, dizem que, por ser limitada a natureza humana de Jesus, "a revelação de Deus (em Jesus) não pode ser considerada completa e definitiva". "Introduz-se, assim, a idéia errada de serem as religiões do mundo complementares à Revelação cristã". (Declaração, nº 1). Tal pressuposto atinge "o centro e o núcleo da Fé cristã" (idem, 1.2) A partir dessa afirmativa, Jesus não passa de uma pessoa, talvez de extraordinárias qualidades pessoais – mas incapaz de representar Deus de modo universal e definitivo. Diz o Documento "Dominus Jesus": "Semelhante posição está em total contradição com as (...) afirmações da Fé (...) Suas palavras e obras e o fato histórico de Jesus, se bem que limitados enquanto realidades humanas, têm, todavia, como sujeito a Pessoa divina do Verbo Encarnado (...) E assim, comporta o caráter definitivo e completo da Revelação dos caminhos salvíficos de Deus" (ibidem, 6.2). Quem fala nas palavras humanas de Jesus, é o própria Segunda Pessoa Divina, o Verbo. Graças a esta unidade pessoal em Jesus, do humano com o Divino, a verdade revelada por Ele é "única, plena e completa" (6.2;4.1)

A causa mais profunda e insidiosa dessa erosão da Fé está no "vazio metafísico da Encarnação histórica do Logos eterno reduzido a um simples aparecer de Deus na História" (idem 4.2). As outras grandes religiões são, muitas vezes, a projeção de uma sublime busca de Deus pela inteligência humana. O cristianismo, porém, não é primeiramente busca mas, supondo-a, é a resposta do Deus encarnado. (cfr Cap I. 5-8). Esta parte do Documento se refere mais às doutrinas e tendências oriundas do Oriente, que se infiltraram na Igreja, através de certo nivelamento na Fé. Cristo é a única norma para toda a obra da salvação, por isso, o trabalho missionário é insubstituível.

Levar o Evangelho aos confins do mundo é imperativo da Mensagem de Jesus. Somente Ele revela toda a verdade de Deus Pai. "O perene anúncio missionário da Igreja é hoje posto em causa por teorias de índole relativista, que pretendem justificar o pluralismo religioso, não apenas "de fato", mas também "de direito" (4.1). O Cardeal Ratzinger, em sua apresentação do Documento, afirmava: "Na base daquelas concepções (relativistas), o falar em verdade universal e vinculante, é considerado uma espécie de fundamentalismo, um atentado contra o espírito moderno" Em seguida, Ratzinger nos faz entender que substituir a missão e a conversão pelo diálogo, "já não é diálogo, mas ideologia do diálogo", porque fixa, apenas, posições, todas relativas, e já não ajuda o outro a encontrar a verdade, completa só na Revelação de Deus em Jesus Cristo Um profundo erro é distinguir entre Jesus – em quem habitaria ocasionalmente o Verbo eterno – e o próprio Verbo divino, que, fora da Encarnação de Jesus, continuaria agindo onde quisesse. Assim, as missões seriam desnecessárias; o mesmo Verbo, encarnado em Jesus, estaria, também, presente em outras culturas, religiões.

Todos nós, católicos e também os demais cristãos, devemos dizer: "Semelhantes teses estão em profundo contraste com a Fé cristã. Deve, de fato, crer-se firmemente na Doutrina da Fé que proclama ser Jesus de Nazaré, filho de Maria, e só Ele, é o Filho e o Verbo do Pai" (10.1) A sutileza dos erros expostos na Declaração "Dominus Jesus" revela a importância do Documento e a oportunidade de sua publicação. Urge que sejam detectados tão graves desvios e preservados os caminhos que levam a Deus, revelados por Jesus, Salvador único e universal

===========================================================

VOZ DO PASTOR

D. Eugênio de Araújo Sales

29/09/2000

Unicidade e Unidade da Igreja

Em duas oportunidades apresentei aqui – e com todo respeito aos que pensam diferentemente – a Doutrina da Igreja Católica. Trata-se de um direito e um dever do Pastor. Ensinamentos alheios têm penetrado no corpo doutrinário e a Declaração "Dominus Jesus" que tenho comentado, visa exatamente a indicar para os católicos o discernimento entre verdade e erro.

Após expor a unicidade e a universalidade do mistério salvífico de Jesus Cristo, vejamos o que diz o Documento da Congregação para a Doutrina da Fé, aprovado pelo Santo Padre, sobre a unicidade e unidade da Igreja. Esta é única. Por mais que se fale em igrejas locais, nas diversas cidades por onde ia se espalhando a Palavra de Deus nos primórdios da evangelização, subjaz, em todo o Novo Testamento, que Jesus fundou uma única Igreja, que está presente nas autênticas igrejas particulares ou locais. O Senhor Jesus, único Salvador, não formou uma simples comunidade de discípulos, mas constituiu a Igreja como mistério salvífico. "Ele mesmo está na Igreja e esta, nEle" (Jo 15,1ss; Gl 3.28;Ef 4,15-16). Por isso, a plenitude do mistério salvífico de Cristo está na Igreja, unida inseparavelmente ao Senhor Jesus, que opera a salvação na Igreja e opera nela, que é o Corpo Místico de Cristo" (cfr 1Cor 12,12ss). A continuidade entre Jesus Cristo e a Igreja não é apenas algo externo ou organizacional. Já o Concílio Vaticano II assim se expressa: "Esta é a única Igreja de Jesus Cristo (...) que o nosso Salvador, depois de sua Ressurreição, confiou a Pedro para apascentar" (Jo 21,17), encarregando-o, a ele e aos demais apóstolos, de a difundirem e a governarem (Mt 28,18ss), levantando-a sempre como coluna e esteio da Verdade (1Tm 3,15; "Lumen Gentium",8). Continua o Concílio: "Esta Igreja (de Jesus) como sociedade constituída é organizada neste mundo, subsiste na Igreja Católica, governada pelo Sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele" (ibidem).

O Concílio Ecumênico e a Declaração pretendem "harmonizar duas afirmações doutrinárias: por um lado a de que a Igreja de Cristo, não obstante as divisões dos cristãos, continua a existir plenamente, só na Igreja Católica e, por outro, a de que há numerosos elementos de santificação e de Verdade fora (da estrutura visível da Igreja)" (16.3). O Documento não ultrapassa o Vaticano II, mas quer defender aquelas verdades contra as distorções e falsas interpretações surgidas nas décadas após o Concílio. E isto, unicamente por fidelidade a Jesus Cristo, a cuja palavra e obra a Igreja procurou ficar fiel, durante toda a História. O Documento não acusa as outras denominações cristãs, mas tem o dever de dizer que Cristo fundou uma Igreja, una e única. Não obstante os defeitos e pecados dos seus membros, apesar de tantas infidelidades de seus integrantes, a Igreja Católica conserva inalterado o depósito da Fé, a riqueza dos Sacramentos, na visível comunhão com os Pastores. Ela guardou, em sua plenitude, a Obra de Cristo e a Ele, constantemente, se converte. Em meio a sangrentas perseguições, a Igreja não foi infiel ao legado de Cristo. Os dogmas professados mais recentemente, sempre o foram como explicitações do que já integrava o depósito do passado.

O Documento proclama, com grande sabedoria, que há igrejas não-católicas, como as ortodoxas, que, embora não vivendo em perfeita comunhão com a católica" se mantêm unidas por vínculos estreitíssimos como o são a sucessão apostólica, uma válida Eucaristia... são verdadeiras Igrejas particulares" (17.1). O texto continua afirmando: "Também nessas Igrejas está presente e atua a Igreja de Cristo, embora lhes falte a plena comunhão com a Igreja Católica, enquanto não aceitam a Doutrina Católica do Primado, que por vontade de Deus, o Bispo de Roma objetivamente tem e exerce sobre toda a Igreja" (17,1).

Com imensa dor e sincera estima, a Igreja vê que muitas comunidades cristãs, diferentemente das Igrejas Ortodoxas, abandonaram parte da Doutrina e dos Sacramentos, e perderam a certeza da verdadeira sucessão apostólica. Por isso, não podem ser chamadas Igreja, num sentido integral e estrito. Todavia, elas, nascidas da Reforma Protestante, possuem imensos valores cristãos. "Os que foram batizados nestas Comunidades, estão, pelo Batismo, incorporados em Cristo e, portanto, vivem numa certa comunhão, se bem que imperfeita, com a Igreja" (17.2). A Igreja de Jesus Cristo não é a soma das Igrejas e comunidades cristãs. Tampouco é lícito dizer "que a Igreja de Cristo, hoje, já não existe em parte alguma, tornando-se, assim, o mero objeto de procura, por parte de todas as igrejas e comunidades" (17.3). Aquelas Igrejas e Comunidades, mesmo sem a comunhão total com a Igreja Católica, têm verdadeiro peso e valor no mistério da salvação, pois o Espírito Santo não se recusa a servir-se delas como instrumento de salvação, cujo valor deriva da plenitude da graça e da verdade confiada à Igreja Católica" (17.3). Em resumo, os elementos divinamente instituídos por Cristo, que constituem a Igreja, "existem reunidos na sua plenitude, na Igreja Católica e, sem essa plenitude, nas demais comunidades" (17.3).

Quanto à salvação dos outros homens que, sem culpa, não conhecem o Cristo, a Declaração insiste em afirmar que também eles se podem salvar. Vem do Cristo, através da Igreja, a salvação, embora não saibamos de que maneira Deus a opera. Ela é mistério de Deus.

Grave advertência aos católicos: "Há que lembrar a todos os filhos da Igreja que a grandeza de sua condição não é para atribuir aos próprios méritos, mas a uma graça especial de Cristo; se não corresponderem a essa graça, por pensamentos, palavras e obras, em vez de se salvarem, incorrerão num juízo mais severo (22.1; cfr "Lumen Gentium", 14)