Eucaristia, vida da Igreja
Pe. Antonio Valentini Neto
Pároco da Catedral São José de Erexim
No dia 17
de abril de 2003, quinta-feira santa, João Paulo II promulgou sua décima quarta
encíclica, intitulada ECCLESIA DE EUCHARISTIA. O título é tirado das primeiras
palavras do documento em latim, traduzidas literalmente: a Igreja da Eucaristia
vive.
Objetivo e
contexto do documento
Pelo
documento, o Papa quer despertar um novo enlevo eucarístico, um novo
encantamento pela Eucaristia, um novo apreço, uma renovada estima pelo
sacramento do altar.
Para
isto, retoma alguns aspectos teológicos fundamentais deste precioso dom de
Cristo à Igreja – a Eucaristia é mistério da fé, constrói a Igreja, é sinal e
fator da comunhão eclesial, tem, como a própria Igreja, fundamento apostólico,
o indispensável zelo na sua celebração e sua dimensão Mariana. A partir deles,
aponta algumas iniciativas pastorais a serem desenvolvidas e chama atenção para
aspectos disciplinares não bem observados e para falhas a serem corrigidas.
Anuncia
também um documento posterior, a ser elaborado pelos setores competentes da
Cúria Romana, sobre as normas litúrgicas a respeito da celebração eucarística,
incluindo referências de caráter jurídico. É de se esperar que o mesmo dê
continuidade à renovação litúrgica, catequética, enfim, pastoral desencadeada
pelo Concílio Vaticano II, confirmando os passos dados em tantos lugares na
adaptação, inculturação e criatividade na liturgia.
Pela nova
encíclica, o Papa quer também dar continuidade ao grande Jubileu do ano 2000. O
primeiro documento dele apontando caminhos a serem percorridos pela Igreja após
o Jubileu foi NOVO MILLENNIO INEUNTE (no Início do Novo Milênio), no qual
convidou a todos a navegar nas águas profundas da Nova Evangelização do mundo
atual. Exortou a identificar e apreciar as abundantes e inúmeras graças do ano
santo e fazê-las frutificar em ardentes propósitos e diretrizes de ação de
acordo com a realidade concreta de cada Igreja local. O segundo documento foi o
Rosário da Virgem Maria, chamado pelo próprio Papa de coroamento mariano do
evento jubilar. Nele fez o relançamento do Rosário. Em síntese, pelos três
documentos, João Paulo II propõe avançar em águas mais profundas, contemplando
o rosto de Cristo, com Maria, de modo especial onde Ele mais e melhor se
encontra, a Eucaristia.
No início
de seu pontificado, em outubro de 1978, João Paulo II exortou a ninguém ter
medo de abrir as portas para Cristo. Revelou grande expectativa e até mesmo
ansiedade por celebrar o Jubileu dos dois mil anos do nascimento de Cristo.
Agora, a partir da celebração jubilar, convoca a seguir em frente com determinação
e esperança, contemplando o Cristo, “o autor e consumador de nossa fé” (Heb 12,
1).
Eucaristia,
mistério da fé
Em cada
celebração eucarística, o ministro ordenado que a preside anuncia: eis o mistério
da fé e a assembléia confirma: anunciamos, Senhor, a vossa Morte e proclamamos
a vossa Ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!
A
Eucaristia brotou do coração de Cristo ao viver o drama de sua Paixão e Morte.
Antecipou para os apóstolos a participação no sacrifício de sua vida e deixou
para a Igreja a possibilidade de participar posteriormente no mesmo sacrifício.
Ele não só realizou o sacrifício redentor, mas também nos deixou o meio de
participarmos dele como se nele estivéssemos presentes.
Na
Eucaristia, Cristo entregou à Igreja o sacrifício de sua vida oferecida ao Pai,
chamando-a a oferecer-se a si própria a Deus com Ele. Por ter ressuscitado,
Cristo dá à sua Igreja o Pão da vida e o cálice da bênção, por transformar, de
forma real, o pão e o vinho em seu Corpo e em seu Sangue. É verdadeiro mistério
da fé, que vai além da compreensão humana e só pode ser aceito na fé. É também
mistério de luz. Nela, podemos reviver a experiência dos discípulos de Emaús:
termos os olhos abertos e reconhecermos Jesus Ressuscitado (Lc 24, 31).
Sacrifício
real de Cristo, a Eucaristia é também verdadeiro banquete, no qual Ele se dá em
alimento, para possuirmos desde já a vida eterna.
Pelas
circunstâncias dramáticas em que foi instituída e que faz reviver, não se pode
celebrá-la sem ter presente o drama vivido pelos irmãos e pelas irmãs. Como ela
anuncia não só a morte de Cristo mas também sua ressurreição e por isso
alimenta a esperança na vida eterna, ela exige empenho total de cada
participante no cumprimento de suas obrigações familiares, comunitárias e
sociais, visando a justiça e a solidariedade nas relações humanas. Esta
exigência se torna mais aguda no atual mundo globalizado, no qual os mais
pobres pouco ou nada podem esperar. Mas é justamente nele que deve brilhar a
esperança cristã.
Por
anunciar a morte de Cristo até que ele venha, a Eucaristia inclui o compromisso
de cada participante tornar eucarística a própria vida.
A
Eucaristia constrói a Igreja
O
Concílio Vaticano II acentuou que a Eucaristia é o ponto alto da vida da
Igreja. A Igreja vive da Eucaristia, por ela é alimentada, por ela é iluminada.
Ela manifesta e faz crescer a comunhão dos que crêem em Cristo. Nela recebemos
Cristo e somos por Ele recebidos. Nela é consolidada a unidade dos que a
celebram. Porque Cristo nos dá seu Corpo a comer e seu Sangue a beber, entramos
em comunhão sacramental com Ele. São João Crisóstomo lembra que o pão é
transformado em Corpo de Cristo e quem o recebe é transformado também no corpo
de Cristo, seu corpo vivo que é a Igreja.
Neste
item, o Papa aponta como iniciativa pastoral o estímulo ao culto eucarístico
fora da Missa. Tal iniciativa compete acima de tudo aos pastores, inclusive com
o testemunho pessoal nas exposições do Santíssimo Sacramento e também com
visitas de adoração a Cristo presente nas espécies eucarísticas.
A
propósito deste aspecto, na introdução, João Paulo II chama atenção de que em
alguns lugares se verifica um abandono quase completo do culto de adoração
eucarística.
A
apostolicidade da Eucaristia e da Igreja
Numa das
fórmulas do creio, dizemos que a Igreja é una, santa, católica e apostólica.
Pode-se também conferir à Eucaristia estes atributos. A expressão a Igreja é
apostólica, como também a Eucaristia, tem três significados: ela é constituída
sobre o alicerce dos apóstolos, testemunhas escolhidas e enviadas em missão por
Cristo; ela guarda e transmite, com a ajuda do Espírito Santo, a doutrina
recebida dos apóstolos; ela continua a ser ensinada, santificada e dirigida
pelos apóstolos, por meio dos seus sucessores, os bispos.
Observações
pastorais e disciplinares do Papa a partir deste aspecto:
- Nesta
sucessão apostólica se situa o ministro ordenado, indispensável e
insubstituível para uma comunidade celebrar a Eucaristia.
- Cabe unicamente
ao sacerdote recitar a oração eucarística.
- Deve-se
dar graças a Deus pelos avanços no campo do ecumenismo. Porém, mesmo
respeitando as convicções religiosas dos irmãos separados, os católicos não
podem participar da comunhão nas suas celebrações, nem podem substituir a missa
do domingo por celebrações ecumênicas da Palavra ou encontros de oração comum.
- “Se a
Eucaristia é o centro da vida da Igreja, o é igualmente para o ministério
sacerdotal. ... A Eucaristia é a principal e central razão de ser do sacramento
do Sacerdócio” (n° 31). Que o sacerdote viva a recomendação conciliar de
celebrar diariamente a Eucaristia. Com ela, vencerá a dispersão das múltiplas
tarefas pastorais, encontrará a força de realizá-las e um centro unificar de
sua vida e de seu ministério.
- Da
centralidade da Eucaristia na vida e ministério dos sacerdotes, deriva o
empenho deles na pastoral em favor das vocações sacerdotais. É indispensável e
urgente prover as comunidades da celebração eucarística, que requer a presença
do sacerdote.
A Eucaristia e a comunhão eclesial
A Igreja
é mistério de comunhão. É sua missão promover a comunhão com a Trindade e a
comunhão dos fiéis entre si. A Eucaristia é o sacramento por excelência da
comunhão. Ela celebra a comunhão e é realizada na comunhão. A Eucaristia
celebra a comunhão e faz crescer nela.
Observações
pastorais e disciplinares:
- Quando
há quebra de comunhão, não se pode receber o sacramento da comunhão, sem antes
celebrar o sacramento da reconciliação. Não pode comungar quem obstinadamente
persevera em pecado grave manifesto.
- Não é
possível dar a comunhão a quem não é batizado ou rejeita a verdade integral de
fé sobre o mistério eucarístico.
- A
comunhão da assembléia eucarística deve ser precedida da comunhão com o próprio
Bispo e com o Papa e nela prolongada.
- A força
da Eucaristia de promover a comunhão revela a importância da missa dominical, à
qual todos são obrigados, salvo impedimento grave.
- No
contexto da Eucaristia como sacramento da comunhão eclesial se insere o empenho
pelo ecumenismo, no qual, a partir do Concílio Ecumênico Vaticano II, foram
dados passos muito significativos. Mas porque a celebração da Eucaristia,
expressão da unidade da Igreja, “comporta a exigência imprescindível duma
completa comunhão nos laços da profissão de fé, dos sacramentos e do governo
eclesiástico, não é possível concelebrar a liturgia eucarística enquanto não
for restabelecida a integridade de tais laços” (n° 44 da Encíclica). Neste
ponto, o Papa expressa ardente desejo de se vir a celebrar juntos a única
Eucaristia do Senhor e lembra a possibilidade de pessoas de outras Igrejas ou
comunidades eclesiais, em circunstâncias, receberem a comunhão eucarística em
celebrações da comunidade católica.
O decoro
da celebração eucarística
Pela
narração dos evangelhos, causa admiração a simplicidade e ao mesmo tempo a
dignidade com que Jesus instituiu a Eucaristia. Mas antes de Jesus enviar os
discípulos a fazerem uma cuidadosa preparação para celebrar a ceia pascal, numa
“grande sala”, houve a “unção de Betânia”. Uma mulher usou com abundância, sem
medida, perfume precioso para ungir Jesus, levando Judas a perguntar porque não
vender aquilo para ajudar os pobres. A partir desta cena, o Papa diz que a
Igreja nunca teve receio de “desperdiçar” (esbanjar) investindo o melhor dos
seus recursos diante do dom incomensurável da Eucaristia. Para garantir a
dignidade da celebração e de tudo o que envolve este sacramento, banquete
sagrado, pão dos anjos, a Igreja foi criando regulamentação especial para a
liturgia eucarística e desenvolvendo rico patrimônio de arte na arquitetura, na
pintura, na música, na escultura, inspirado na Eucaristia.
Observações
disciplinares:
- Toda
atenção possível às normas que regulamentam a construção e o adorno dos edifícios
sacros.
- Não
empobrecer ou prejudicar o precioso “tesouro” com a introdução de
experimentações ou práticas sem cuidadosa verificação das competentes
autoridades eclesiásticas.
-
Observância, com grande fidelidade, das normas litúrgicas, sem inovações não
autorizadas e muitas vezes completamente impróprias. Esta observância é
expressão concreta da autêntica eclesialidade da Eucaristia e modo silencioso e
expressivo de amor à Igreja.
É aqui
que o Papa anuncia um documento específico para reforçar as normas litúrgicas,
arrematando: “A ninguém é permitido aviltar este mistério que está confiado às
nossas mãos: é demasiado grande para que alguém possa permitir-se de trata-lo a
seu livre arbítrio, não respeitando o seu caráter sagrado nem a sua dimensão
universal” (final do N° 52).
Na escola
de Maria, Mulher “Eucarística”
Não se
fala de Jesus, o Filho de Deus feito um de nós, sem falar de Maria, sua Mãe. E
não se fala dela senão por causa de seu Filho. Para compreender melhor o
mistério da Eucaristia é necessário refletir também sobre a relação dela com
este sacramento.
Os
relatos evangélicos da instituição da Eucaristia não mencionam a presença de
Maria no Cenáculo. Mas ela esteve com os apóstolos em oração aguardando o
Espírito Santo. Ela acompanhou com carinho de mãe as primeiras comunidades
reunidas na fé em seu Filho Ressuscitado pela força do Espírito. Nelas,
seguramente, participou da celebração eucarística, comungando o Corpo de
Cristo, acolhendo-o novamente em seu ventre.
Alguns aspectos
desta relação entre Maria e a Eucaristia segundo o documento:
· A
palavra de Cristo: “fazei isto em minha memória” lembra a recomendação de Maria
em Caná: “fazei tudo o que Ele vos disser”.
· O
“Fiat”, o sim de Maria ao anjo que lhe pedia para acreditar que aquele que ela
concebia pelo Espírito Santo era o Filho de Deus lembra o “amém” que cada fiel
diz ao receber a comunhão proclamando crer que o pão consagrado é o Corpo de
Cristo.
· Sua
contemplação de Cristo recém-nascido, estreitando-o em seus braços é o modelo
do amor que se deve ter para Cristo eucarístico.
· Maria
participou da dimensão sacrificial da Eucaristia de forma antecipada quando
levou seu Filho ao templo e ouviu a profecia de Simeão, concretizando-a depois
ao pé da Cruz e participando da celebração eucarística presidida pelos
apóstolos.
· Receber
a Eucaristia é receber também Maria, acolhendo-a como Mãe, a exemplo de João.
· Celebrar
a Eucaristia é viver o perfeito louvor ao Pai em Cristo, por Ele e com Ele.
Maria, ao cantar seu louvor ao Pai no magnificat, carregava Jesus em seu
ventre. Louvou o Pai por Jesus, mas também nele e com ele. “Se o Magnificat
exprime a espiritualidade de Maria, nada melhor do que esta espiritualidade nos
pode ajudar a viver o mistério eucarístico. Recebemos o dom da Eucaristia, para
que a nossa vida, à semelhança da de Maria, seja toda ela um magnificat” (final
do n° 58) .
Viver a
Eucaristia em sua integridade
A
Eucaristia, insiste o Papa, é o tesouro da Igreja, o coração do mundo, o penhor
da meta para qual, mesmo inconscientemente, anseia toda pessoa humana. Nela
temos Jesus, o seu sacrifício redentor, a sua ressurreição, o dom do Espírito
Santo, a adoração, a obediência e o amor ao Pai. Importa vivê-la em sua
integridade, sem reduções nem instrumentalizações. “Então a Igreja fica
solidamente edificada, e exprime-se o que ela é verdadeiramente: una, santa,
católica e apostólica; povo, templo e família de Deus; corpo e esposa de
Cristo, animada pelo Espírito Santo; sacramento universal de salvação e comunhão
hierarquicamente organizada” (n° 61).
Erexim,
07 de maio de 2003.