Evangelização e leitura orante
da Bíblia
Cardeal Cláudio Hummes, ofm
Arcebispo Metropolitano
de São Paulo
Irmãos e irmãs! Estamos entrando
no mês de setembro, Mês de Bíblia. Poderá ser um período de renovação da nossa
vida cristã individual e comunitária.
De fato, a Bíblia é uma forma de
presença de Deus no meio de seu povo. Ela nos faz ouvir a Deus, a Ele nos
conduz e nos faz conhecer seu amor. Se estivermos abertos à ação do Espírito
Santo, a Bíblia nos fará não só ter um conhecimento teórico da Palavra de Deus,
mas também experimentar vivamente o amor com que Deus nos ama. Essa experiência
é fundamental na vida cristã.
O Papa nos diz que a Bíblia é a
história de como Deus ama seu povo (cf. Familiaris Consortio, 12). Não tanto a história de como nós amamos ou
não amamos a Deus, ainda que isso também esteja registrado na Bíblia. Ela é,
antes de tudo, a história de como Deus ama seu povo, de como Deus agiu, age e
agirá na história da humanidade. Isso significa que, se quisermos saber e
experimentar de como Deus ama seu povo, um dos caminhos mais diretos é a
leitura da Bíblia, principalmente dos Evangelhos, que narram a culminância
desse amor de Deus por nós na pessoa de Jesus Cristo, morto e ressuscitado. De
fato, Jesus, para nossa salvação, desceu do céu, fez-se homem, morreu na cruz e
ressuscitou dos mortos.
Um dos métodos melhores para
descobrir a Bíblia como caminho de encontro com Jesus Cristo e para fazer a
experiência de seu amor neste encontro, é a leitura orante.
Esse método usam-no muitos atualmente. Ele vem da
antiga tradição da Igreja. Foi divulgado no Brasil pela Conferência dos
Religiosos. Mas também, o próprio Papa João Paulo II o recomenda, quando, no
documento “Igreja na América”, de 1999, fala do modo de encontrar Jesus Cristo
na Igreja, hoje. O primeiro modo, segundo o Papa, é “a Sagrada Escritura, lida
à luz da Tradição, dos (Santos) Padres e do Magistério, e aprofundada através
da meditação e da oração” (n. 12).
A leitura orante
da Bíblia se compõe de quatro passos, a saber, a leitura do texto, a meditação,
a oração e a contemplação.
O primeiro passo é a leitura do
texto. Começa-se pela escolha de um trecho da Bíblia, de preferência um texto
dos Evangelhos. Na leitura do texto, podemos conhecer primeiro a letra da
Palavra de Deus, para penetrar em seguida no seu espírito e compreender seu
sentido. Por essa razão, é preciso ler devagar, com toda atenção, e deixar-se
envolver pelo texto. Assim, ele pode situar-nos no momento histórico em que foi
escrito, para descobrir o que Deus queria dizer ao povo naquele tempo, o que
Deus significava para aquele povo, como se revelava e como o povo na época
reagia ao que Deus lhe revelava, isto é, à revelação de “como Deus amava seu
povo”.
O segundo passo é a meditação do
texto. Na meditação perguntamos o que diz o texto para mim, para nós, hoje?, o
que Deus quer dizer a nós hoje através do texto lido? Na meditação, trata-se,
portanto, de tornar o texto atual e trazê-lo para dentro de nossa vida e
realidade, tanto pessoal como social. Para melhor meditar, será bom repetir a
leitura do texto, revolvê-lo e por assim dizer ruminá-lo e mastigá-lo, até
descobrir o que ele tem a dizer a nós, hoje.
O terceiro passo é rezar. A
oração, aliás, deve estar presente desde o início da leitura orante, quando invocamos o Espírito Santo, a fim de que Ele
nos ilumine e acompanhe na leitura. Também a meditação já é um pensar que vai
se transformando em oração. De fato, a meditação nos deve levar à oração, nos
deve levar a falar com Deus sobre o que o texto nos diz. Será uma oração de
louvor e de súplica ao Deus que ama seu povo e me ama também individualmente.
Por fim, no quarto passo,
entramos na contemplação. Os três passos anteriores terminam assim por nos
fazer contemplar a Deus, nos colocam diante de Deus e nos fazem experimentar o
mistério de seu amor, onde as palavras já não contam tanto, mas em que nos
sentimos felizes de estar com Deus e de provar seu amor.
Essa forma de leitura orante da Bíblia nos qualifica, obviamente, de modo muito
vivo para anunciar esta Palavra aos outros e cria em nós o elã
missionário, o impulso de levar outros a encontrarem-se
com Jesus Cristo vivo, no Espírito Santo. E Jesus nos conduzirá ao Pai.
Josp - 01/09/04