Exemplo de Sacerdócio

VOZ DO PASTOR D. Eugênio de Araújo Sales 11/02/2000

Há indivíduos que são alvos constantes de pareceres severos da opinião pública e outros, ao contrário, passam pelo mundo, desconhecidos ou ignorados, apesar de relevantes trabalhos realizados. Neste caso encontra-se o Monsenhor Expedito Sobral de Medeiros, pároco por 56 anos em São Paulo do Potengi, no interior do Rio Grande do Norte. Desloquei-me do Rio para celebrar suas exéquias. Ele bem merecia o sacrifício!

Sua última grande obra, no campo social, foi aglutinar os homens públicos, a partir do Governador, Parlamentares, Prefeitos e as Comunidades flageladas pelas secas, utilizando a força moral da Igreja em busca de solução imediata e duradoura para o abastecimento de água às localidades do interior. Uma das três adutoras recebeu, à revelia, seu nome e somente esta leva água potável a 23 cidades ou povoados. A voz do povo carinhosamente já o apelidara de "o Monsenhor das águas", "o Profeta das águas". E quem conhece o sertão do Nordeste pode avaliar o alcance do significado desse título.

Na mensagem enviada ao Governador do Estado, por ocasião do falecimento, a 16 de janeiro último, por insuficiência respiratória decorrente de um câncer, o Presidente da República assim se expressa: "A força e a obstinação com que defendia a expansão da oferta de água para o semi-árido nordestino, como condição essencial para a preservação da vida e da dignidade humana, deixaram-me forte e indelével impressão, permitindo-me passar a denominá-lo de "apóstolo das águas". O alvo da luta desse discípulo de Cristo ia além das fronteiras do Estado, propugnava pela utilização do excedente hídrico do rio São Francisco.

A luta pela água é apenas um capítulo, o último e inacabado de toda uma existência sacerdotal a serviço do espiritual - zeloso pároco - e da dignidade do homem.

Falo com conhecimento de causa. O Movimento de Natal, com suas variadas e vitoriosas iniciativas, teve sempre em Monsenhor Expedito um sustentáculo, um incentivador. Ele fazia parte dos que iniciaram a Sindicalização Rural em nível nacional, a Campanha da Fraternidade, pequenas comunidades surgidas e assentadas em torno de receptores cativos da Emissora de Educação Rural, as Escolas Radiofônicas, as Maternidades, as Escolas de nível médio, a Ação Católica Rural, a Formação de Líderes, o Plano de Pastoral, a elevação do padrão cultural do Clero para melhor servir aos irmãos. Esses e outros empreendimentos começaram a surgir antes do Concílio Ecumênico Vaticano II e em uma época de extraordinária carência de meios materiais.

Ele sabia que o simples protesto nada constrói. Era firme em preservar a independência da Igreja mas, ao mesmo tempo, pacientemente procurava reunir acima dos partidos os políticos, em busca de uma causa tão nobre como o atendimento aos necessitados do Nordeste semi-árido. Ao sepultamento em sua paróquia do interior potiguar, estavam o seu Arcebispo e mais três Bispos, além de quase todos os sacerdotes da Arquidiocese de Natal. Ele foi sempre e acima de tudo, um ministro de Deus, fiel à sua Igreja, de onde lhe vinha a força e a orientação do seu trabalho social,

*** Em certo momento foi instado pelo então Arcebispo para assumir a Catedral de Natal. Razões de saúde do pároco do interior justificavam o convite de Dom Marcolino Dantas. Como desejasse permanecer onde estava, foi atendido. Há poucos anos foi nomeado, pelo atual Arcebispo, Vigário Episcopal para o Clero, mas residindo em São Paulo do Potengi. ***

Atravessou o período agudo da contestação na Igreja sem negar o juramento de fidelidade feito no altar a Deus, por ocasião de sua ordenação sacerdotal. Soube ser sempre obediente, um padre no pleno sentido da palavra, mesmo quando lidava com assuntos profanos. Onde estivesse buscava difundir o Evangelho e ajudar os necessitados por amor de Deus. Por isso, conservou até aos últimos dias da vida a juventude de espírito e a alegria dela decorrente.

Vi a ampla divulgação da imprensa local, por ocasião do falecimento e enterro, a imensa multidão, o município que parou, as manifestações das autoridades religiosas, civis, do Povo de Deus. Grande o sofrimento, ao lado de uma paz fruto de uma vida a serviço do Evangelho. Aludiam à graça de o terem tido como pastor em convivência ininterrupta: o primeiro e único pároco. "Nunca vi tantos homens reunidos, chorando tanto", confidenciou a uma freira um velho sertanejo, momentos antes do sepultamento.

Sei que existem no Brasil muitos outros sacerdotes como ele. Isso faz a força da Igreja de Cristo. Aliás, eles cumprem uma missão recebida e esperam o prêmio das mãos de Deus. No entanto, se um ou outro, por fraqueza humana ou outra causa, comete faltas, logo se difunde a má notícia, não raramente complementada com adendos inverídicos.

Antes da celebração da Missa de Exéquias foi feita a abertura do seu testamento. Escreve ele: "A quem me substituir, continue presente junto aos pobres e, pelo amor de Deus, não os humilhe. Considero uma grande graça que Deus me concedeu: ser servidor do Povo de Deus. Peço a Maria Santíssima, a "Compadecida", que se compadeça de mim e esteja a meu lado, no Julgamento. Amém". Assim termina o testamento, com data de 12 de setembro de 1997.

A Igreja Católica, em sua longa e quase bimilenar história, sobrevive pela graça de Deus, que age em homens como Monsenhor Expedito Medeiros.