Frei Galvão

(VOZ DO PASTOR D. Eugênio de Araújo Sales 4/12/1998)

 

A recente elevação de Frei Antonio de Sant’Anna Galvão à honra dos altares trouxe à Igreja no Brasil um sopro de espiritualidade. Sobre ele, assim se expressam em documento dirigido ao Provincial dos Franciscanos, no ano de 1798, o Bispo Dom Mateus de Abreu Pereira e o Senado da Câmara de São Paulo: "Este homem é preciosíssimo a toda esta Cidade e Vilas da Capitania de São Paulo; é homem religiosíssimo e de prudente conselho; todos acodem a pedir-lho; é o homem da paz e da caridade".

Hoje, no término do século XX e às vésperas do 3º Milênio do Nascimento de Jesus, do Grande Jubileu, Frei Galvão vem iluminar, apontar caminhos, amparar necessitados em São Paulo e em todo o Brasil. A mesma missão de séculos atrás, ele a exerce em nossos dias, agora elevado à honra dos altares, como Bem-aventurado. Um longo itinerário, desde 1739, quando nasceu em Guaratinguetá, então Diocese do Rio de Janeiro. Esta tinha por limites ao norte o Rio Jequitinhonha, Capitania de Porto Seguro, Bahia, e ao sul, o Estuário do Prata; a leste o Oceano Atlântico e a oeste, "terras desconhecidas", como rezava a Bula "Romani Pontificis pastoralis sollicitudo".

No ocaso de uma civilização onde se mesclam valores extraordinários simbolizados por esta personalidade providencial que é o Papa João Paulo II, ao lado da decomposição que lembra, em alguns aspectos, outros períodos da História da Humanidade, faz-se mister insistir na proeminência do exemplo sobre as palavras. O homem moderno, sedento de Justiça e à procura de Deus envereda, com freqüência, por caminhos que levam a ídolos e não à Verdade. Ele exige o comprovante de atos, do sinal. No interior da própria Igreja, o Senhor, entre os excepcionais frutos do Concílio, assinala o "homo inimicus", na expressão de São Mateus (13,25.28), que fez penetrar a "fumaça do demônio", como advertiu Paulo VI.

Por isso, as Beatificações e Canonizações assumem, em nossa época, um lugar especial na evangelização. Mais do que a exaltação de quem serviu com heroísmo, elas demonstram ao mundo que o ensinamento da Igreja é viável, compensador. Exortam a vivê-lo e a defendê-lo com coragem. A vida de Frei Galvão está repleta de testemunhos que falam mais do que suas palavras. Frei Galvão, como presbítero, tem muito a nos dizer. Ordenado sacerdote a 19 de julho de 1792, no Rio de Janeiro, por Dom Frei Antonio do Desterro, OSB, viveu fiel e intensamente sua consagração como padre e franciscano. O primeiro Bem-aventurado elevado aos altares, no Brasil, foi um sacerdote.

Frei Galvão, defensor dos direitos humanos, emerge de maneira fulgurante no episódio da condenação à morte – por motivo fútil – do soldado Caetano José da Costa. A atitude firme do Bem-aventurado custou-lhe a chamada "pena do degredo", a ser executada em 24 horas. Mesmo injusta e absurda a decisão, ele se dispôs a cumpri-la imediatamente. No entanto, a reação do Bispo Dom Manuel da Ressurreição, de autoridades e do povo, conseguiu a revogação da sentença do exílio. E ele, que partira em direção ao Rio de Janeiro, a pé, pôde retornar.

Como este, toda a existência de Frei Galvão está cheia de fatos que, no âmbito estritamente religioso, servem de alicerce essencial à atuação no campo social. Nosso Bem-aventurado nos dá um rumo e nos ajuda.

O aumento da devoção após a cerimônia da Beatificação, no dia 25 de outubro último, deve ser orientado para os testemunhos a serem imitados mais do que para a simples procura de soluções de ordem material. O Santo é, acima de tudo, uma prova da possibilidade de um cristão seguir em seus atos os passos de Jesus.

As solenidades por motivo da elevação aos altares de Frei Galvão nos levam a mais profunda reflexão sobre essa nota essencial ao fiel: a santidade. A consideração da essência da Igreja nos ensina que característica não é, em primeiro lugar, o distintivo heróico de um indivíduo. Trata-se de algo muito mais profundo que nos coloca em comunhão com o mistério de Deus e seu plano de salvação. Desde os primeiros séculos, a Igreja proclama o "Tu solus sanctus", "Só vós sois o Santo".

É interessante observar nos exórdios da história da instituição fundada por Cristo, no Credo mais antigo que conhecemos, o Credo chamado "apostólico", a afirmação: "Creio na Igreja santa". Em nossos templos por todo o mundo, esta fórmula é repetida na hora do batismo. Aos poucos foi explicitada, conservando sempre a original insistência no sinal indispensável, em forma mais completa: "Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica", como escreveu o primeiro Concílio Ecumênico, em 325. E nós somos a Igreja.

O Povo de Deus movido por exemplos do passado, manifesta grande alegria no presente, ao proclamar a virtude heróica de um homem, Frei Galvão, a fecundidade de sua vida. Voltados para o futuro, buscamos iluminá-lo com a mesma Fé que explica a grandeza de suas atitudes. Ele foi profundamente marcado por sua formação franciscana e devoção a Maria, cuja dimensão nos é revelada pelas expressões "entrega a Maria" e "filho e escravo perpétuo", assinadas com o próprio sangue, a 9 de novembro de 1766.

As celebrações por motivo da Beatificação de Frei Galvão constituem uma excelente oportunidade para refletir sobre a grandeza e a importância da santidade na vida do cristão. Voltaremos ao assunto.

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VOZ DO PASTOR D. Eugênio de Araújo Sales 23/10/1998 Apóstolos Suos

Cristo, quando enviou os Apóstolos a ensinar sua doutrina ao mundo inteiro, não os fez agir isoladamente mas como um grupo estável e lhes deu um chefe, Pedro, escolhido entre eles: "Apascenta meus cordeiros" (Jo 21,15-17). Por isso, Paulo, embora investido diretamente pelo Senhor Jesus em sua missão evangelizadora, a fim de evitar "o risco de correr em vão" (Gl 2,1-2.7-9), dirige-se a Jerusalém para assegurar a comunhão com o "colégio apostólico", que está sob uma autoridade suprema. À medida que levavam a chama da fé cristã aos recantos da terra então conhecida, escolhiam sucessores ("Lumen Gentium", 20). Diz o Vaticano II (Idem, 22): "Assim como, por instituição do Senhor, São Pedro e os restantes Apóstolos formam um colégio apostólico, assim, de igual modo, estão unidos entre si o Romano Pontífice, Sucessor de Pedro e os Bispos, sucessores dos Apóstolos".

Como no Pastor da Igreja de Roma está estabelecido o princípio e o fundamento perpétuo e visível da unidade da fé e comunhão, "por sua vez, cada Bispo é princípio e fundamento da unidade na sua respectiva Igreja particular" (Ibidem, 23). Não se trata de uma federação mas de um corpo vivo pela graça que percorre cada integrante que plenamente crê na mesma doutrina, pratica os atos dela decorrentes, obedece a seus ensinamentos.

No decorrer da História, para manter a unidade e garantir a colaboração e o afeto mútuos, enfrentando os mais diversos problemas e em circunstâncias variadas, surgiram "instrumentos, órgãos, meios de comunicação que favorecem ou manifestam essa união e solicitude comuns. Assim, desde o segundo século, nasceram os Concílios Particulares, Ecumênicos, Plenários, Provinciais e, a partir do século passado, as Conferências Episcopais. Estas tomaram grande impulso com o Vaticano II e merecem o devido destaque no Código do Direito Canônico (1983).

Sobre o assunto, com data de 21 de maio último, o Santo Padre publicou importante documento, um "Motu Proprio" denominado "Apostolos suos instituit".

Evidentemente, trata-se de válido instrumento para consolidar a estrutura do corpo episcopal, corrigir eventuais desvios, fortalecer o autêntico trabalho pastoral. Em um mundo tão complexo, com rapidez nas comunicação que divulga problemas sem soluções adequadas, ela corresponde às necessidades de uma instituição inserida num ambiente trepidante. Entretanto, diz o documento: "Todavia, a evolução de sua atividade sempre mais vasta, suscitou problemas de ordem teológica e pastoral, sobretudo no que diz respeito à sua relação com cada um dos Bispos diocesanos".

O Sínodo Extraordinário de 1985 reconheceu a necessidade das Conferências, mas fez advertências úteis e recomendou um estudo do seu "status teológico-jurídico".

Por falta de conhecimento suficiente da matéria, pessoas julgam a Conferência Episcopal como uma supra-diocese entre o Bispo e o Papa, como uma Corte para recursos contra decisões episcopais.

Em "Apostolos suos instituit" o Santo Padre, após a Introdução, aborda os seguintes itens: "A união colegial entre os Bispos"; "As Conferências Episcopais: Normas complementares sobre as mesmas". Reafirma a doutrina, muito clara, do Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática "Lumen Gentïum, e do Código do Direito Canônico que, por exemplo, afirma no cânon 381 parágrafo 1º: "Ao Bispo diocesano , na diocese que lhe foi confiada, compete todo o poder ordinário próprio e imediato que se requer para o exercício do seu múnus pastoral, com exceção das causa que, por direito, ou por decreto do Sumo Pontífice, estejam reservadas à suprema ou a outra autoridade eclesiástica".

O novo Documento esclarece e altera procedimentos, quando necessário. Eis alguns exemplos: "Os Bispos, tanto singularmente como reunidos em Conferência, não podem autonomamente, limitar o seu poder sagrado em favor da Conferência Episcopal. E menos ainda, de uma parte dela, seja esta o Conselho Permanente, uma Comissão ou o próprio Presidente". E logo adverte: "Nem a Conferência, nem o seu Presidente podem agir em nome de todos os Bispos, a não ser que todos e cada um hajam dado o consentimento". (nº 20). Os bispos, mesmo individualmente e sem gozar da infalibilidade do ensino "são, contudo, doutores e mestres autênticos da fé dos fiéis confiados a seus cuidados, que têm a obrigação de aderir, com religioso obséquio e espírito, ao Magistério autêntico dos seus Bispos" (nº 21). Para que as declarações doutrinais da Conferência dos Bispos "constituam Magistério autêntico, é necessário que sejam aprovadas por unanimidade dos membros Bispos ou então, quando aprovadas na reunião plenária por dois terços dos prelados que pertencem à Conferência, com voto deliberativo e que obtenham a revisão (recognitio) da Sé Apostólica" (Artigo 1º). A Conferência não pode conceder às Comissões ou outros organismos constituídos no seu seio o poder de realizar atos de magistério autêntico (Artigo 2º).

Vivemos em uma sociedade onde as pessoas dificilmente aceitam normas que lhes desagradam, ao passo que seguem com facilidade o que satisfaz à sua mentalidade, mesmo em se tratando de erros doutrinários. O católico autêntico se distingue do cidadão que usa indebitamente esse nome, pela obediência prestada a quem recebeu de Cristo a missão de, apesar de ser pecador, ensinar o verdadeiro caminho da Casa do Pai. Aliás, dessa escolha depende uma eternidade feliz.

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VOZ DO PASTOR D. Eugênio de Araújo Sales 11/12/1998 Mártires Brasileiros

Ainda repercutem os ecos dos aplausos pela elevação à honra dos altares do Bem-aventurado Frei Galvão. Eis que chega ao fim, na Congregação para a Causa dos Santos, o processo oriundo da Arquidiocese de Natal, de "Beatificação ou declaração do martírio dos servos de Deus André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, sacerdotes diocesanos e seus companheiros, mortos "in odium fidei" ( por ódio à fé ) em 1645. Serão os proto-mártires brasileiros. O Pe. André de Soveral veio ao mundo em São Vicente em 1572. Muitos outros também nasceram em nossa Pátria. O último de um grupo de jovens companheiro de João Martins que então perderam a vida, responde com ânimo alegre à proposta de renunciar à Fé, dizendo: "Deus não me abandona". Crianças, com suas mães, foram cruelmente massacradas. Famílias martirizadas!

Com a invasão holandesa, embora fosse afirmada haver liberdade de culto, ocorria uma crescente perseguição religiosa aos católicos. Os invasores eram, em parte ponderável, calvinistas. O período de 1637 a 1644, com Maurício de Nassau, vigorou uma tolerância, apesar dos protestos do Sínodo da Igreja reformada .

Os fatos aqui narrados sucederam na capitania do Rio Grande, tomada pelos bátavos em dezembro de 1633. Na localidade de Cunhaú havia uma capela, hoje restaurada. Funcionava importante engenho de açúcar. A quinze de julho de 1645 chega o enviado do governo holandês, o alemão Jacó Rabi. Vinha acompanhado de soldados e índios. Trazia ordens para serem comunicadas no dia seguinte, festividade de Nossa Senhora do Carmo. Por ocasião da consagração, fechadas as portas da igreja cuja patrona é Nossa Senhora da Candelária, começou a carnificina. Não houve resistência por parte dos fiéis, exortados pelo pároco, Padre Antônio Ferro. Esse sacerdote entrara na Companhia de Jesus a seis de agosto de 1593 na Bahia, exercia seu ministério junto aos índios (conhecia profundamente sua língua), no território que dependia do Colégio de Olinda. De janeiro de 1600 até fins de 1607, integrou o elenco dos padres e irmãos da província da Companhia de Jesus no Brasil. Deduz-se que depois passou ao clero secular, pois na época de sua morte exercia função de pároco em Cunhaú. Ao ser martirizado devia ter 73 anos. Na igreja calculam que estivessem 69 pessoas. Outros permaneceram em um imóvel vizinho, mas foram em grande número também massacrados. O processo de Beatificação não os inclui. Eles lutaram, embora, o fizessem em defesa da própria vida. Uma forte chuva e o receio do aparato militar levaram-nos a não participar da Missa. Resistiram, muitos conseguiram fugir, mas a maioria foi trucidada .

Os cronistas holandeses e portugueses divergem quanto ao número de vítimas entre 39 e 69.

Espalhou-se a dolorosa notícia. Em Natal alguns se refugiaram na Fortaleza dos Reis Magos, que tivera o nome substituído por Van Ceulen. Eram pessoas influentes na Província. Não foi possível abrigar maior número. Um outro grupo subiu o Rio Potengi e construiu precária defesa no lugar denominado ainda hoje de Uruaçu. No interior da paliçada estavam recolhidas cerca de 70 pessoas. Reagiram ao assédio dos bátavos e índios mas terminaram por capitular. Uma comissão foi conduzida ao Forte e depois levados rio Potengi acima até o porto de Uruaçu. Esperavam-nos duzentos índios tapuias comandados pelo terrível Antonio Paraupeba, convertido ao calvinismo. Foram mutilados e mortos. Após o trucidamento trouxeram da paliçada 52 homens e um número impreciso de mulheres e filhos. Depararam-se com os corpos dos cinco que haviam sido enviados como prisioneiros ao Forte. Todos haviam sido assassinados com extrema ferocidade. Aceitaram, no entanto, piamente o sofrimento e a morte. A crueldade levou Diogo Lopes Santiago a comparar os carrascos aos "tigres e leões ferozes".

Há fatos curiosos: "Uma jovem foi poupada por algozes que já haviam sacrificado suas duas irmãs pois era uma donzela elegante e a negociaram com os índios em troca de um cão de caça".

O mais emocionante nesse martírio ocorreu com Matias (ou Mateus) Moreira. Cortaram-lhe braços, pernas, perfuraram os olhos, retaliaram o corpo. Ao lhe arrancarem o coração pelas costas, suas últimas palavras foram "Louvado seja o Santíssimo Sacramento". O documento mais antigo que relata esse massacre, hoje ainda tão pouco conhecido, é a relação de Lupo Curado Garro, capitão e governador militar da Paraíba, redigido vinte dias após os acontecimentos. No século XVII Frei Manuel Calado do Salvador, religioso da Ordem de São Paulo Eremita, escreveu "O Valeroso Lucideno". A "História da Guerra de Pernambuco", foi elaborado entre 1661 e 1675 por Diogo Lopes Santiago, testemunha ocular da guerra contra os holandeses. Em 1675 é publicada, em Lisboa, pelo beneditino Rafael de Jesus, "O Castrioto Lusitano". Mais recentemente veio a lume, em 1904, um documento de 1757, redigido pelo também beneditino Dom Domingos Loureto Couto intitulado "Desagravos do Brasil e glórias de Pernambuco". O historiador Francisco Adorno de Varnhagem em 1872 editou "A História das lutas contra os holandeses no Brasil". Em nossos dias diversas obras têm sido publicadas. O Padre Arlindo Rubert em "A Igreja no Brasil", volume II, (págs. 121-125), trata das "vicissitudes da Igreja na invasão holandesa e perseguições religiosas". Na realidade, Cunhaú e Uruaçu não são casos isolados.

Em Natal, por ocasião do XII Congresso Eucarístico Nacional, o Papa João Paulo II, na homilia de Encerramento, a 13 de outubro de 1991 assim se expressou sobre Matias Moreira: "Quando insultado e ferido pelos hereges por sua recusa a renegar a fé na Eucaristia e fidelidade à Igreja do Papa, exclama enquanto lhe abriam o peito para lhe arrancar o coração "Louvado seja o Santíssimo Sacramento".

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VOZ DO PASTOR D. Eugênio de Araújo Sales 22/10/1999 Dia Das Missões

Em todo o mundo católico, no penúltimo domingo de outubro, celebra-se o Dia Missionário. Com antecedência, o Santo Padre envia uma mensagem sobre o evento, pois ele "constitui, para a Igreja, uma preciosa ocasião para refletir sobre sua natureza missionária" (nº 1).

Este ano, a data goza de especial importância. O 24 de outubro, por ser o último domingo das Missões deste milênio, às vésperas do Grande Jubileu, comemorativo do Nascimento de Jesus, o Salvador, nos deve questionar sobre nossa obediência ao mandato de Cristo: "Ide, pois, e ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo!" (Mt 28,19). Cada fiel, todos nós, somos chamados a levar o anúncio do Evangelho a todos os homens. Passados quase dois mil anos da vinda do nosso Redentor ao mundo, "duas terças partes da humanidade ainda não conhecem Cristo", como se referiu o Cardeal Jozef Tomko no dia 30 de setembro, na Arquidiocese de Paraná, Argentina, ao abrir o VI Congresso Missionário Latino-Americano (COMLA VI) e o I Congresso Americano Missionário (CAM).

Na Conclusão de sua Mensagem, o Papa João Paulo II nos lembra que "a missionariedade deve constituir a paixão de cada cristão; paixão pela salvação do mundo e ardente compromisso, em vista de instaurar o Reino do Pai" (nº 9). Não se trata de uma tarefa de ordem política ou econômica. No entanto, à medida que os homens vivem os ensinamentos de Jesus, suas vidas se transformam e, em conseqüência, farão surgir uma nova sociedade. Por isso, trabalhar pelas Missões é contribuir para a paz, a justiça social, a válida e duradoura mudança de estruturas. Atinge as raízes dos males, o pecado.

Desde seu nascimento, em Pentecostes, a Igreja tem sido caracterizada pelo esforço em transmitir a Boa Nova de Jesus Cristo. No entanto, esse zelo tem experimentado períodos de sombras. Em nossos dias, sente-se um afervoramento do trabalho em prol das Missões. Ele é múltiplo e variado. Vai do testemunho de uma vida coerente com a Fé que dá credibilidade aos ensinamentos oferecidos aos que não conhecem Cristo. É também para nós um apelo à oração em favor dos que, em lugares distantes e, por vezes, inóspitos, fazem presente a Palavra de Deus e a face da Igreja. Transmitem todo o conteúdo da sua Doutrina Social. As obras de promoção humana, especialmente nas áreas hospitalar e educacional, em terras que, pela primeira vez, recebem o anúncio do Evangelho Necessitam de colaboração. Esse gesto demonstra a consciência do valor do transcendental, pois abrem o coração à necessidade do próximo. A doação se faz de dois modos: oferecendo-se os fiéis para ir pessoalmente à missão ou ajudando essas obras e a manutenção dos que abraçaram tal sacrifício por amor à causa de Jesus.

Este ano, o Dia Mundial ocorre após a realização do grande Congresso Missionário – COMLA VII e CAM I – encerrado a 3 do corrente mês de outubro. Bem eloqüente seu lema: "América, com Cristo, sai de tua terra!". Revela um grande anseio de abrir o coração dos fiéis "ao mundo universal". Séculos atrás, fomos evangelizados pelo espírito missionário da Europa. Hoje, somos a metade de católicos em todo o universo. Somente de brasileiros, o número dos que trabalham por Cristo em outros países, ascende a mais de mil apóstolos, entre sacerdotes, religiosos e leigos, consagrados a essa causa. Como recebemos a Fé que veio de outras terras devemos, como retribuição, iluminar com a Palavra de Cristo, nossos irmãos que ainda não O conhecem.

Estavam presentes no Congresso 3.300 delegados da América e também de outros Continentes. A 30 de setembro, em um estádio, com aproximadamente 25.000 pessoas, o Arcebispo de Paraná, Argentina, Dom Esteban Karlic, também Presidente da Conferência Episcopal daquele país, pronunciou o Discurso de Abertura. Presidiu a celebração o Cardeal Jozef Tomko, Prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos e Enviado Especial do Santo Padre. Na Missa do dia 1º de outubro, concelebraram cerca de 105 Bispos e 800 sacerdotes. A delegação brasileira era composta por 450 participantes, entre Bispos, padres, religiosos e leigos. Quinze crianças representavam a Santa Infância, organização missionária, como o nome indica, para jovens. Do Estado do Rio de Janeiro participaram 26 congressistas.

O dia 29 foi dedicado à África; 30, à Ásia; 1º de outubro, à Europa e o seguinte, à Oceania. O encerramento, a 3 de outubro, à América. O Arcebispo, Dom Karlic, nessa oportunidade, anunciou o próximo Congresso: será na Guatemala.

As celebrações primaram sempre pela cuidadosa observância das prescrições litúrgicas. Não faltaram, infelizmente, expressões exóticas de alguns participantes, no que se refere às vestes para o Sacrifício Eucarístico. O acolhimento e o carinho, por parte da Arquidiocese anfitriã, foram notáveis.

Este Congresso obteve pleno êxito e será fator de grande importância no crescimento e expressão do espírito missionário na América.

Com o Grande Jubileu por ocasião do início do 3º Milênio do Nascimento de Jesus e o aniversário do Descobrimento do Brasil, este ano o Dia Missionário Mundial adquire especial significado. Recordamos a chegada ao Brasil dos primeiros sacerdotes que para aqui trouxeram a Palavra de Deus e implantaram a Igreja de Cristo .A celebração da primeira Missa em Porto Seguro por Frei Henrique de Coimbra foi o ato público inicial da nacionalidade. Nossos louvores ao Senhor pela graça recebida e a gratidão a todos os que, através de cinco séculos, edificaram a Igreja Católica em terras brasileiras.

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VOZ DO PASTOR D. Eugênio de Araújo Sales 17/12/1999 Mártires beatificados

O martírio é de grande importância na Igreja. Ele apresenta ao mundo alguém que testemunha a Fé católica, com a imolação da própria vida. Esse termo começou a assumir o significado usual em nossos dias, a partir do ano 155, com o "Martyrium Policarpi". Ele "não somente foi mestre insigne mas também mártir excelso (...) cujo martírio todos aspiram a imitar, porque aconteceu à semelhança de Cristo, como narrado no Evangelho". Indubitavelmente, esse sinal da credibilidade à revelação cristã diante de um mundo incrédulo anuncia a vivência dos valores evangélicos até o sacrifício do maior dom, que é a nossa existência. Em uma humanidade que busca a qualquer preço o bem-estar pessoal, o lucro, o gozo, ouve-se a expressão do Mestre: "Eu ofereço minha vida para depois retomá-la de novo" (Jo 10,7 e 18). Hoje registra-se um enriquecimento do conceito. Santo Tomás (in Epistola ad Romanos, 8,7)amplia, mas também marca limites ao uso da expressão: "Constitui o martírio, não só a proclamação da Fé mas toda e qualquer outra virtude não política, de inspiração sobrenatural, que tenha Cristo como objetivo".

No próximo dia 5 de março, na Praça de São `Pedro, em Roma, serão oficialmente reconhecidos como mártires um grupo de brasileiros massacrados no Rio Grande do Norte, em 16 de julho e 3 de outubro de 1645. A Arquidiocese do Rio de Janeiro far-se-á presente pelo seu Pastor e duas peregrinações: a oficial e a das religiosas.

O mais antigo relato dessas ocorrências foi feito vinte dias após o morticínio de Uruaçu, na "Breve, Verdadeira e Autêntica Relação das Últimas Tiranias e Crueldades que os Pérfidos Holandeses Usaram com os Moradores do Rio Grande" no "O Valeroso Lucideno" (1679) pags 277-280. O autor: Lopo Curado Garro. Inúmeros outros documentos foram consultados pelo Postulador da Causa, Monsenhor Francisco de Assis Pereira, em diversos arquivos de Natal, Recife, Roma, Holanda e Lisboa. Alguns nomes falam por si, da importância: Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Arquivo Secreto do Vaticano, Arquivo Geral do Reino, Antiga Companhia das Índias Ocidentais, especialmente "Nótulas Diárias" e "Cartas e Papéis do Brasil" (em Haia).

A memória desses acontecimentos chegou a nossos dias. Quando eu exercia o ministério eclesiástico na Arquidiocese de Natal, cuidei de preservar a memória dos fatos junto aos fiéis, dando seguidamente o nome desses heróis da Fé às obras sociais que iam surgindo, fruto do trabalho pastoral. Assim, foram criados juridicamente e funcionam ainda hoje a Escola Ambulatório Matias Moreira, o Centro Social Padre Ambrósio Ferro, o Instituto João Loustau Navarro.

Das ocorrências até nossos dias, a lembrança do martírio se manteve viva. Uma frase do General Fernando Távora, em artigo no "Diário de Natal" a 30 de agosto de 1950, resume essa constância: "Sem embargo, há mais de 300 anos as almas de Cunhaú atraem e acendem a devoção persistente da gente do agreste potiguar, que ali vão, em romaria, acendendo velas e rezando de joelhos por sobre ruínas que o tempo envelheceu".

A palavra do Santo Padre na manhã de 3 de outubro de 1991 em Natal, na homilia da Missa de encerramento do XII Congresso Eucarístico Nacional é um coroamento do período que vai da ocorrência dos fatos até à beatificação: "É uma circunstância feliz que o Congresso esteja sendo realizado em Natal. Precisamente aqui, em 1645, um homem simples, profundamente religioso, Matias Moreira, deu com os seus companheiros na região conhecida por Cunhaú e Uruaçu, um belo exemplo, que lembra o dos mártires da Igreja. Quando insultado – ferido pelos hereges, por sua recusa em renegar a Fé na Eucaristia e a fidelidade à Igreja do Papa, - exclamou, quando lhe abriam o peito para arrancar-lhe o coração: "Louvado seja o Santíssimo Sacramento!".

O processo diocesano teve início a 7 de maio de 1989 (Ascensão do Senhor), por Decreto do então Arcebispo, Dom Alair Vilar Fernandes de Melo e o "Nihil obstat" da Santa Sé foi outorgado a 16 de junho do mesmo ano. A última etapa da investigação em nível local foi a instauração, pelo novo Arcebispo, Dom ?Heitor de Araujo Sales, do Tribunal Arquidiocesano para a Causa dos Mártires. O processo diocesano foi concluído a 31 de maio de 1994 e a 14 de junho do mesmo ano, foi feita a entrega da documentação à Congregação das Causas dos Santos.

Em 21 de dezembro de 1998, o Papa João Paulo II assinou o Decreto reconhecendo o martírio dos que puderam ser identificados entre os cruelmente assassinados em Cunhaú, sacrificados na Matriz de Nossa Senhora das Candeias, a 70 Km de Natal; e em Uruaçu, nas imediações do Porto do Flamengo, distante 50 Km do Forte dos Reis Magos, também em Natal; dois sacerdotes e vinte e oito leigos – casais, crianças, jovens, adultos.

Às vésperas do Grande Jubileu do Nascimento de Jesus e dos 500 anos da Descoberta do Brasil, se insere essa extraordinária solenidade da beatificação dos primeiros mártires brasileiros. O Prefeito da Congregação das Causas dos Santos , Dom José Saraiva Martins, chamou-os de Protomártires do Brasil. Será a 5 de março, na Praça de São Pedro, em Roma.

Neste período que nos resta para a glorificação desses heróis da Fé diante do mundo, pensemos em suas lições, tão importantes para a vida cristã, na atualidade: a fidelidade à Igreja e à sua Cabeça visível, o Vigário de Cristo, o Santo Padre. Uma viva consciência de estar no mundo sem ser do mundo e cumprir o dever de levar a todos os quadrantes do universo a mensagem de nosso Salvador, o Cristo Jesus.

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VOZ DO PASTOR D. Eugênio de Araújo Sales 03/03/2000 Mártires brasileiros

Neste 5 de março, a Igreja, oficialmente, reconhece o martírio ocorrido em Cunhaú e Uruaçu, no Rio Grande do Norte, nos distantes idos de 1645, durante a ocupação holandesa. São elevados à honra dos altares, como Bem-aventurados, trinta vítimas do ódio a Deus e sua Igreja e entre eles estavam sacerdotes. O número dos massacrados era bem superior ao que as páginas da História guardaram.

O Prefeito da Congregação das Causas dos Santos, na reunião de 21 de dezembro de 1998, quando o Santo Padre confirmou a heroicidade cristã que abriu as portas para a beatificação, chamou-os de "proto-mártires do Brasil". São glorificados com essa dignidade exatamente quando o Brasil celebra os 500 anos do Descobrimento. Os novos bem-aventurados serão fatores eficazes junto a Cristo, em favor do crescimento de nosso imenso País na Fé cristã e adesão à sua Igreja.

O martírio pode ser visto sob diversos aspectos. entretanto, para ser considerado cristão, a morte deve ser acolhida livremente. Assim, o fiel morto em uma guerra religiosa não receberia esse título. Igualmente supõe a entrega da vida a um Deus pessoal e não apenas a um ideal, mesmo nobre, como a luta pela Justiça ou por uma ideologia. Por isso, o martírio é mais que qualquer heroísmo: é o amor consciente, acima de tudo. Isso nos faz entender o impacto que, desde os primórdios do cristianismo, esse gesto exerce sobre os cristãos e mesmo os pagãos.]

O motivo do martírio cristão está em Jesus Cristo, que se identifica com o Servo de Javé, a ser esmagado, e cuja morte traz a salvação do mundo. Morrer com Cristo, sem resistência, é uma entrega a Deus que é aceita por Ele. Em conseqüência, é uma participação na Cruz de Cristo, na força redentora de sua morte. A intrepidez pessoal desse gesto de entrega tem sua profundidade na identificação com a sorte de Jesus entregue sempre à vontade do Pai. "Morrer com Cristo, para com Ele ressuscitar", diz São Paulo (Rm 6,3-11). O mártir é alguém contra os valores enaltecidos neste mundo: o poder, o prazer, o dinheiro, o prestígio. Jesus, por seu sacrifício, patenteia o Evangelho e suas exigências na vida do fiel e o morto por amor a ele faz suas todas as opções do mesmo Cristo. Torna-se o testemunho da veracidade da mensagem evangélica de absoluta confiança no Pai.

Na história da Igreja as mais famosas perseguições tiveram início no Império Romano, com Nero, (54-68) decretada após o incêndio de Roma. Esse imperador tornou-se o símbolo da crueldade. Tácito (Annales, XV,44) descreve as atrocidades. Uma outra que se salientou ocorreu durante o governo do Imperador Décio (249-251). A Igreja havia crescido e estava bem estruturada. Segundo relata Cipriano de Cartago, Décio temia mais a eleição de um santo bispo em Roma que o surgimento de um rei que fosse seu opositor. Muitos cristãos apostataram (chamados "lapsi") ou fugiram. E também elevado foi o número dos que enfrentaram a tortura e a morte.

As últimas grandes perseguições do Império Romano ocorreram no governo do Imperador Diocleciano (284-305). Foi decretada a destruição de todas as igrejas, confisco dos livros dos cristãos, degradação social de todos os que aderiram ao cristianismo. Até o exército romano sofreu rigorosa "limpeza" por motivo da Fé cristã. Diz o historiador Eusébio que no Egito houve dias em que até cem mártires eram sacrificados.

A liberdade da Igreja concedida por Constantino pôs termo a essa dolorosa fase da História eclesiástica. No entanto, dois aspectos devem ser considerados. O crescimento da Igreja por todo o mundo, apesar de tantos sofrimentos. E o outro, é ser o martírio, ora mais ora menos, o companheiro da longa viagem da instituição fundada por Cristo, há quase 2.000 anos atrás. Sempre perseguida, mas viva até nossos dias.

A beatificação dos sacrificados por ódio à fé católica em Cunhaú e 0ruaçu, no Rio Grande do Norte, na Arquidiocese de Natal, se insere, de modo admirável no longo calvário da Igreja. Sangue e morte, mas sempre ressurreição e vida fecunda.

Neste dia 5, não participamos, apenas da glorificação desses intrépidos cristãos mas se abrem para nós grandes perspectivas de favores espirituais e, de maneira fecunda, surge o apelo que vem do Evangelho, pelo sacrifício da própria existência terrestre, por fidelidade à Fé católica. O Papa João Paulo II, em sua homilia no encerramento do XI Congresso Eucarístico Nacional, realizado em Natal no ano de 1991, ao se referir a esse notável fato histórico religioso, tem expressões de significativa beleza, recordadas por mim meses atrás: "Quando insultado – ferido pelos hereges por sua recusa em renegar a fé na Eucaristia e a fidelidade à Igreja do Papa – exclamou, quando lhe abriam o peito para arrancar-lhe o coração: ‘Louvado seja o Santíssimo Sacramento!’"

As celebrações pelos 500 anos da Descoberta do Brasil, a beatificação dos mártires de Cunhaú e Uruaçu representam os frutos da intensa evangelização desenvolvida em nossa Pátria.

Dentro do Grande Jubileu, com milhões e milhões de pessoas visitando as basílicas romanas e a Terra Santa, está inscrito também esse evento ocorrido nas localidades do Rio Grande do Norte, que nos falam da fidelidade à Igreja e da coragem de enfrentar um meio adverso. Na passagem do segundo milênio do Nascimento de Cristo, foram extraordinárias as manifestações e incompreensível o silêncio sobre a causa das mesmas celebrações. Dois milênios de quê? Do Nascimento de Jesus. A verdade deve ser restaurada, mesmo que irrite. O mundo ignora o motivo por que tantos deram sua vida, sofrendo o martírio.

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VOZ DO PASTOR D. Eugênio de Araújo Sales 11/02/2000

Exemplo de Sacerdócio Há indivíduos que são alvos constantes de pareceres severos da opinião pública e outros, ao contrário, passam pelo mundo, desconhecidos ou ignorados, apesar de relevantes trabalhos realizados. Neste caso encontra-se o Monsenhor Expedito Sobral de Medeiros, pároco por 56 anos em São Paulo do Potengi, no interior do Rio Grande do Norte. Desloquei-me do Rio para celebrar suas exéquias. Ele bem merecia o sacrifício!

Sua última grande obra, no campo social, foi aglutinar os homens públicos, a partir do Governador, Parlamentares, Prefeitos e as Comunidades flageladas pelas secas, utilizando a força moral da Igreja em busca de solução imediata e duradoura para o abastecimento de água às localidades do interior. Uma das três adutoras recebeu, à revelia, seu nome e somente esta leva água potável a 23 cidades ou povoados. A voz do povo carinhosamente já o apelidara de "o Monsenhor das águas", "o Profeta das águas". E quem conhece o sertão do Nordeste pode avaliar o alcance do significado desse título.

Na mensagem enviada ao Governador do Estado, por ocasião do falecimento, a 16 de janeiro último, por insuficiência respiratória decorrente de um câncer, o Presidente da República assim se expressa: "A força e a obstinação com que defendia a expansão da oferta de água para o semi-árido nordestino, como condição essencial para a preservação da vida e da dignidade humana, deixaram-me forte e indelével impressão, permitindo-me passar a denominá-lo de "apóstolo das águas". O alvo da luta desse discípulo de Cristo ia além das fronteiras do Estado, propugnava pela utilização do excedente hídrico do rio São Francisco.

A luta pela água é apenas um capítulo, o último e inacabado de toda uma existência sacerdotal a serviço do espiritual - zeloso pároco - e da dignidade do homem.

Falo com conhecimento de causa. O Movimento de Natal, com suas variadas e vitoriosas iniciativas, teve sempre em Monsenhor Expedito um sustentáculo, um incentivador. Ele fazia parte dos que iniciaram a Sindicalização Rural em nível nacional, a Campanha da Fraternidade, pequenas comunidades surgidas e assentadas em torno de receptores cativos da Emissora de Educação Rural, as Escolas Radiofônicas, as Maternidades, as Escolas de nível médio, a Ação Católica Rural, a Formação de Líderes, o Plano de Pastoral, a elevação do padrão cultural do Clero para melhor servir aos irmãos. Esses e outros empreendimentos começaram a surgir antes do Concílio Ecumênico Vaticano II e em uma época de extraordinária carência de meios materiais.

Ele sabia que o simples protesto nada constrói. Era firme em preservar a independência da Igreja mas, ao mesmo tempo, pacientemente procurava reunir acima dos partidos os políticos, em busca de uma causa tão nobre como o atendimento aos necessitados do Nordeste semi-árido. Ao sepultamento em sua paróquia do interior potiguar, estavam o seu Arcebispo e mais três Bispos, além de quase todos os sacerdotes da Arquidiocese de Natal. Ele foi sempre e acima de tudo, um ministro de Deus, fiel à sua Igreja, de onde lhe vinha a força e a orientação do seu trabalho social,

*** Em certo momento foi instado pelo então Arcebispo para assumir a Catedral de Natal. Razões de saúde do pároco do interior justificavam o convite de Dom Marcolino Dantas. Como desejasse permanecer onde estava, foi atendido. Há poucos anos foi nomeado, pelo atual Arcebispo, Vigário Episcopal para o Clero, mas residindo em São Paulo do Potengi. ***

Atravessou o período agudo da contestação na Igreja sem negar o juramento de fidelidade feito no altar a Deus, por ocasião de sua ordenação sacerdotal. Soube ser sempre obediente, um padre no pleno sentido da palavra, mesmo quando lidava com assuntos profanos. Onde estivesse buscava difundir o Evangelho e ajudar os necessitados por amor de Deus. Por isso, conservou até aos últimos dias da vida a juventude de espírito e a alegria dela decorrente.

Vi a ampla divulgação da imprensa local, por ocasião do falecimento e enterro, a imensa multidão, o município que parou, as manifestações das autoridades religiosas, civis, do Povo de Deus. Grande o sofrimento, ao lado de uma paz fruto de uma vida a serviço do Evangelho. Aludiam à graça de o terem tido como pastor em convivência ininterrupta: o primeiro e único pároco. "Nunca vi tantos homens reunidos, chorando tanto", confidenciou a uma freira um velho sertanejo, momentos antes do sepultamento.

Sei que existem no Brasil muitos outros sacerdotes como ele. Isso faz a força da Igreja de Cristo. Aliás, eles cumprem uma missão recebida e esperam o prêmio das mãos de Deus. No entanto, se um ou outro, por fraqueza humana ou outra causa, comete faltas, logo se difunde a má notícia, não raramente complementada com adendos inverídicos.

Antes da celebração da Missa de Exéquias foi feita a abertura do seu testamento. Escreve ele: "A quem me substituir, continue presente junto aos pobres e, pelo amor de Deus, não os humilhe. Considero uma grande graça que Deus me concedeu: ser servidor do Povo de Deus. Peço a Maria Santíssima, a "Compadecida", que se compadeça de mim e esteja a meu lado, no Julgamento. Amém". Assim termina o testamento, com data de 12 de setembro de 1997.

A Igreja Católica, em sua longa e quase bimilenar história, sobrevive pela graça de Deus, que age em homens como Monsenhor Expedito Medeiros.

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VOZ DO PASTOR D. Eugênio de Araújo Sales 12/05/2000 Vocações Sacerdotais

O 4º Domingo da Páscoa é conhecido como o Domingo do Bom Pastor. O trecho do Evangelho que contém essa parábola é lido na Missa do "Dia Mundial de Oração pelas Vocações". Este ano é o XXXVI e tem como tema "A Eucaristia, fonte de toda a vocação e ministério na Igreja".

O Concílio Vaticano II dedicou todo um documento, o "Optatam Totius" à questão das vocações sacerdotais. Estabelece, de início, o princípio de que "o incentivo às vocações sacerdotais obrigação de toda a comunidade cristã promovendo-as, sobretudo, por uma vida plenamente cristã. Enumera aspectos concretos do cumprimento desse dever. Evidentemente, em primeiro lugar está a família "animada pelo espírito de fé, de caridade e piedade, tornando-se assim, como que um primeiro seminário". ("Optatam Totius", 2a). Seguem depois "as paróquias, de cuja vida fecunda participam os próprios adolescentes" (ibidem), "Os professores e todos quantos, de algum modo, têm a seus cuidados, a formação de jovens, em particular as associações católicas" (ibidem). O texto conciliar exalta a importância do testemunho do próprio sacerdote "manifestem o máximo de zelo apostólico no fomento das vocações e por sua própria vida humilde, operosa, levada com ânimo alegre e também com mútua caridade sacerdotal (...) entusiasmem os adolescentes pelo sacerdócio" (ibidem). Portanto, a comunidade cristã é responsável pela transmissão de sua fé às novas gerações e, para isso, se torna fundamental o trabalho de recrutamento e de formação dos seminaristas. A Igreja sabe que a vocação é algo rigorosamente pessoal. O apelo que vem de Deus, deve encontrar, na consciência e no coração do vocacionado grande generosidade. O jovem rico busca algo maior, mas esbarra diante das exigências sem meias verdades da parte de Jesus. Eis um exemplo de como a graça de Deus pode se frustrar na falta de magnanimidade. Na descoberta de uma genuína e profunda amizade de Cristo, o jovem consegue entender o Mestre que o chama: "Tu segue-me... Farei de ti pescador de homens" (Mc 1,17). Tanto a contribuição da comunidade como o chamamento individual na consciência do vocacionado estão sob o influxo de um terceiro fator, e este é o mais profundo. Por isso, Jesus admoesta aos seus: "A messe é grande, mas poucos os operários! Pedi, pois, ao Senhor da messe que envie operários para a sua messe" (Mt 9,36ss) Também São Paulo declara que é por Deus que ele foi "segregado para o Evangelho" (Rm 1,1). É Jesus Cristo "por quem recebemos a graça e a missão de pregar, para louvor do seu nome (...) entre todos os gentios" (Rm 1,4s). Assim ele vê sua vocação como um chamado direto da parte de Deus. "Sou o último dos apóstolos, mas pela graça de Deus sou o que sou" (1 Cor 15,3ss).

O Santo Padre, em sua Mensagem para esse Dia Mundial, nos adverte: "Toda vocação é dom do Pai. E como todos os dons que vêm de Deus, chega através de muitas mediações humanas: a dos pais ou dos educadores, dos pastores da Igreja, de quem está diretamente empenhado no ministério de animação vocacional ou do simples fiel" (nº 4).

Em todas as turmas do último retiro espiritual do clero do Rio de Janeiro, apresentei aos sacerdotes um pedido formal, como fruto do Grande Jubileu: paróquia alguma sem, ao menos, um seminarista no Seminário de São José ou em preparação, nos Grupos de Vocações de Jovens (GVJ) ou Grupos de Vocações Adultas (GVA).

A presença de seminaristas e seu número, são sinais de vitalidade paroquial. A ausência de candidatos ao Sacerdócio deve ser motivo de grave interrogação sobre os métodos pastorais utilizados ou o zelo do pároco. Sem o sacerdote, e em número suficiente, correm risco a presença da Eucaristia, a administração de vários sacramentos, a formação dos leigos, a transmissão da Fé, de modo conveniente.

No Dia Mundial, a Obra das Vocações Sacerdotais e o Clube Serra, que se dedicam a essa causa, devem se sentir estimulados em seu labor. E cada um de seus membros questionar-se sobre o trabalho realizado e a maneira de executá-lo. O mesmo se diga de outros grupos e pessoas que, generosamente, se consagram ao fomento de vocações e a sua manutenção no Seminário de São José. Nossa casa de formação sacerdotal recebeu, este ano, 64 novos seminaristas, sendo que 8, no Menor, vindos dos grupos vocacionais e 56 nos Cursos de Filosofia e Teologia, vindos do Menor ou dos GVA. O número anual de ordenações sacerdotais nesta Arquidiocese tem se elevado substancialmente. Desde 1971, quando assumi a Arquidiocese, até nossos dias, foram ordenados 146 presbíteros para o Rio de Janeiro. O número de defecções é muito reduzido. O Seminário está cheio, atendendo também outras dioceses.

Acolhamos dois apelos do Papa João Paulo II, em sua Mensagem: "Cada fiel torne-se educador de vocações, sem ter receios de propor escolhas radicais; cada comunidade compreenda a centralidade da Eucaristia e a necessidade de ministros do Sacrifício Eucarístico; de todo o Povo de Deus se eleve sempre mais intensa e apaixonada a oração ao Dono da Messe, a fim de que mande operários para a sua messe. Confie essa sua súplica à intercessão dAquela que é a Mãe do Eterno Sacerdote."

E não nos esqueçamos: "A Eucaristia é fonte de toda a vocação e ministério na Igreja". E o Seminário é fundamental à vida eclesial. A responsabilidade de todos os fiéis no campo vocacional, fomento das vocações e manutenção dos seminários, casas de formação de futuros padres se estende à santificação do clero. A santidade de vida dos presbíteros multiplica seu número pela maior eficácia de seu trabalho pastoral.

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VOZ DO PASTOR

D. Eugênio de Araújo Sales

22/09/2000

Dominus Jesus

A Declaração "Dominus Jesus" da Congregação para a Doutrina da Fé traz a data de 6 de agosto último. A 16 de junho, o Papa João Paulo II havia, "Em consciência certa e com sua autoridade", ratificado e confirmado o Documento. Está destinado a exercer grande e benéfica influência na Igreja. Examinando a situação atual, constatamos algumas semelhanças com as condições existentes após 35 anos da realização do 1º Concílio Ecumênico em Nicéia, no ano 325. As diferenças entre a doutrina autêntica e interpretações distorcidas eram tão sutis naquela época, que sacerdotes e bispos ficavam perplexos diante da argúcia dos argumentadores em favor da heresia, mesmo um arianismo mitigado. Buscavam atenuar as exigências do Concílio de Nicéia. Este tratara do dogma fundamental da Fé cristã, a verdadeira identidade de Jesus Cristo, como Filho de Deus, "Deus verdadeiro de Deus verdadeiro". Sob a pressão do Imperador Constâncio (337-361), muitos bispos foram forçados ou induzidos a aderir à heresia ariana, que havia motivado a convocação do Concílio de Nicéia. O Papa Libério resistia; o Bispo de Poitiers, Hilário, sofreu repetidos exílios. Sobre esse momento histórico, quando muitos se adaptavam a meias-verdades e tantos fiéis sofriam, por guardarem a Fé íntegra da grande Tradição, eis que São Jerônimo, o sábio Doutor da Igreja, escrevia uma frase que revela a situação alarmante, dramática: "Gemia o mundo inteiro e surpreendeu-se ao se ver "ariano". "Ingemuit totus orbis et Arianum se esse miratus est" (Dialogo Adversus Luciferianos, nº 19).

Hoje, o poder do Imperador é substituído por interesses, pelo relativismo, subjetivismo, minando a reta Doutrina. Ao apresentar o Documento, o Cardeal Ratzinger resume a gravidade do momento atual: "Trata-se de convicções hoje já difundidas, não somente em ambientes teológicos, mas também em setores sempre mais vastos da opinião pública". Na atualidade, os erros, de modo sutil ou agressivo, tentam infiltrar-se, atingindo diretamente a identidade da Pessoa de Cristo. Embora os moderados fautores dessa subversão da Fé reconheçam que Jesus é Deus e Homem, dizem que, por ser limitada a natureza humana de Jesus, "a revelação de Deus (em Jesus) não pode ser considerada completa e definitiva". "Introduz-se, assim, a idéia errada de serem as religiões do mundo complementares à Revelação cristã". (Declaração, nº 1). Tal pressuposto atinge "o centro e o núcleo da Fé cristã" (idem, 1.2) A partir dessa afirmativa, Jesus não passa de uma pessoa, talvez de extraordinárias qualidades pessoais – mas incapaz de representar Deus de modo universal e definitivo. Diz o Documento "Dominus Jesus": "Semelhante posição está em total contradição com as (...) afirmações da Fé (...) Suas palavras e obras e o fato histórico de Jesus, se bem que limitados enquanto realidades humanas, têm, todavia, como sujeito a Pessoa divina do Verbo Encarnado (...) E assim, comporta o caráter definitivo e completo da Revelação dos caminhos salvíficos de Deus" (ibidem, 6.2). Quem fala nas palavras humanas de Jesus, é o própria Segunda Pessoa Divina, o Verbo. Graças a esta unidade pessoal em Jesus, do humano com o Divino, a verdade revelada por Ele é "única, plena e completa" (6.2;4.1)

A causa mais profunda e insidiosa dessa erosão da Fé está no "vazio metafísico da Encarnação histórica do Logos eterno reduzido a um simples aparecer de Deus na História" (idem 4.2). As outras grandes religiões são, muitas vezes, a projeção de uma sublime busca de Deus pela inteligência humana. O cristianismo, porém, não é primeiramente busca mas, supondo-a, é a resposta do Deus encarnado. (cfr Cap I. 5-8). Esta parte do Documento se refere mais às doutrinas e tendências oriundas do Oriente, que se infiltraram na Igreja, através de certo nivelamento na Fé. Cristo é a única norma para toda a obra da salvação, por isso, o trabalho missionário é insubstituível.

Levar o Evangelho aos confins do mundo é imperativo da Mensagem de Jesus. Somente Ele revela toda a verdade de Deus Pai. "O perene anúncio missionário da Igreja é hoje posto em causa por teorias de índole relativista, que pretendem justificar o pluralismo religioso, não apenas "de fato", mas também "de direito" (4.1). O Cardeal Ratzinger, em sua apresentação do Documento, afirmava: "Na base daquelas concepções (relativistas), o falar em verdade universal e vinculante, é considerado uma espécie de fundamentalismo, um atentado contra o espírito moderno" Em seguida, Ratzinger nos faz entender que substituir a missão e a conversão pelo diálogo, "já não é diálogo, mas ideologia do diálogo", porque fixa, apenas, posições, todas relativas, e já não ajuda o outro a encontrar a verdade, completa só na Revelação de Deus em Jesus Cristo Um profundo erro é distinguir entre Jesus – em quem habitaria ocasionalmente o Verbo eterno – e o próprio Verbo divino, que, fora da Encarnação de Jesus, continuaria agindo onde quisesse. Assim, as missões seriam desnecessárias; o mesmo Verbo, encarnado em Jesus, estaria, também, presente em outras culturas, religiões.

Todos nós, católicos e também os demais cristãos, devemos dizer: "Semelhantes teses estão em profundo contraste com a Fé cristã. Deve, de fato, crer-se firmemente na Doutrina da Fé que proclama ser Jesus de Nazaré, filho de Maria, e só Ele, é o Filho e o Verbo do Pai" (10.1) A sutileza dos erros expostos na Declaração "Dominus Jesus" revela a importância do Documento e a oportunidade de sua publicação. Urge que sejam detectados tão graves desvios e preservados os caminhos que levam a Deus, revelados por Jesus, Salvador único e universal

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VOZ DO PASTOR

D. Eugênio de Araújo Sales

29/09/2000

Unicidade e Unidade da Igreja

Em duas oportunidades apresentei aqui – e com todo respeito aos que pensam diferentemente – a Doutrina da Igreja Católica. Trata-se de um direito e um dever do Pastor. Ensinamentos alheios têm penetrado no corpo doutrinário e a Declaração "Dominus Jesus" que tenho comentado, visa exatamente a indicar para os católicos o discernimento entre verdade e erro.

Após expor a unicidade e a universalidade do mistério salvífico de Jesus Cristo, vejamos o que diz o Documento da Congregação para a Doutrina da Fé, aprovado pelo Santo Padre, sobre a unicidade e unidade da Igreja. Esta é única. Por mais que se fale em igrejas locais, nas diversas cidades por onde ia se espalhando a Palavra de Deus nos primórdios da evangelização, subjaz, em todo o Novo Testamento, que Jesus fundou uma única Igreja, que está presente nas autênticas igrejas particulares ou locais. O Senhor Jesus, único Salvador, não formou uma simples comunidade de discípulos, mas constituiu a Igreja como mistério salvífico. "Ele mesmo está na Igreja e esta, nEle" (Jo 15,1ss; Gl 3.28;Ef 4,15-16). Por isso, a plenitude do mistério salvífico de Cristo está na Igreja, unida inseparavelmente ao Senhor Jesus, que opera a salvação na Igreja e opera nela, que é o Corpo Místico de Cristo" (cfr 1Cor 12,12ss). A continuidade entre Jesus Cristo e a Igreja não é apenas algo externo ou organizacional. Já o Concílio Vaticano II assim se expressa: "Esta é a única Igreja de Jesus Cristo (...) que o nosso Salvador, depois de sua Ressurreição, confiou a Pedro para apascentar" (Jo 21,17), encarregando-o, a ele e aos demais apóstolos, de a difundirem e a governarem (Mt 28,18ss), levantando-a sempre como coluna e esteio da Verdade (1Tm 3,15; "Lumen Gentium",8). Continua o Concílio: "Esta Igreja (de Jesus) como sociedade constituída é organizada neste mundo, subsiste na Igreja Católica, governada pelo Sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele" (ibidem).

O Concílio Ecumênico e a Declaração pretendem "harmonizar duas afirmações doutrinárias: por um lado a de que a Igreja de Cristo, não obstante as divisões dos cristãos, continua a existir plenamente, só na Igreja Católica e, por outro, a de que há numerosos elementos de santificação e de Verdade fora (da estrutura visível da Igreja)" (16.3). O Documento não ultrapassa o Vaticano II, mas quer defender aquelas verdades contra as distorções e falsas interpretações surgidas nas décadas após o Concílio. E isto, unicamente por fidelidade a Jesus Cristo, a cuja palavra e obra a Igreja procurou ficar fiel, durante toda a História. O Documento não acusa as outras denominações cristãs, mas tem o dever de dizer que Cristo fundou uma Igreja, una e única. Não obstante os defeitos e pecados dos seus membros, apesar de tantas infidelidades de seus integrantes, a Igreja Católica conserva inalterado o depósito da Fé, a riqueza dos Sacramentos, na visível comunhão com os Pastores. Ela guardou, em sua plenitude, a Obra de Cristo e a Ele, constantemente, se converte. Em meio a sangrentas perseguições, a Igreja não foi infiel ao legado de Cristo. Os dogmas professados mais recentemente, sempre o foram como explicitações do que já integrava o depósito do passado.

O Documento proclama, com grande sabedoria, que há igrejas não-católicas, como as ortodoxas, que, embora não vivendo em perfeita comunhão com a católica" se mantêm unidas por vínculos estreitíssimos como o são a sucessão apostólica, uma válida Eucaristia... são verdadeiras Igrejas particulares" (17.1). O texto continua afirmando: "Também nessas Igrejas está presente e atua a Igreja de Cristo, embora lhes falte a plena comunhão com a Igreja Católica, enquanto não aceitam a Doutrina Católica do Primado, que por vontade de Deus, o Bispo de Roma objetivamente tem e exerce sobre toda a Igreja" (17,1).

Com imensa dor e sincera estima, a Igreja vê que muitas comunidades cristãs, diferentemente das Igrejas Ortodoxas, abandonaram parte da Doutrina e dos Sacramentos, e perderam a certeza da verdadeira sucessão apostólica. Por isso, não podem ser chamadas Igreja, num sentido integral e estrito. Todavia, elas, nascidas da Reforma Protestante, possuem imensos valores cristãos. "Os que foram batizados nestas Comunidades, estão, pelo Batismo, incorporados em Cristo e, portanto, vivem numa certa comunhão, se bem que imperfeita, com a Igreja" (17.2). A Igreja de Jesus Cristo não é a soma das Igrejas e comunidades cristãs. Tampouco é lícito dizer "que a Igreja de Cristo, hoje, já não existe em parte alguma, tornando-se, assim, o mero objeto de procura, por parte de todas as igrejas e comunidades" (17.3). Aquelas Igrejas e Comunidades, mesmo sem a comunhão total com a Igreja Católica, têm verdadeiro peso e valor no mistério da salvação, pois o Espírito Santo não se recusa a servir-se delas como instrumento de salvação, cujo valor deriva da plenitude da graça e da verdade confiada à Igreja Católica" (17.3). Em resumo, os elementos divinamente instituídos por Cristo, que constituem a Igreja, "existem reunidos na sua plenitude, na Igreja Católica e, sem essa plenitude, nas demais comunidades" (17.3).

Quanto à salvação dos outros homens que, sem culpa, não conhecem o Cristo, a Declaração insiste em afirmar que também eles se podem salvar. Vem do Cristo, através da Igreja, a salvação, embora não saibamos de que maneira Deus a opera. Ela é mistério de Deus.

Grave advertência aos católicos: "Há que lembrar a todos os filhos da Igreja que a grandeza de sua condição não é para atribuir aos próprios méritos, mas a uma graça especial de Cristo; se não corresponderem a essa graça, por pensamentos, palavras e obras, em vez de se salvarem, incorrerão num juízo mais severo (22.1; cfr "Lumen Gentium", 14)

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VOZ DO PASTOR

D. Eugênio de Araújo Sales

09/03/2001

Curso de Bispos

Anualmente, a Arquidiocese do Rio de Janeiro oferece um curso ao Episcopado Nacional. Trata-se de uma iniciativa estritamente pessoal, como gesto fraterno de colaboração da Arquidiocese do Rio de Janeiro com os irmãos no Episcopado. O encerrado a 9 de fevereiro último foi o XI e teve por tema: "Igreja e Ecumenismo", exposto pelo Cardeal Walter Kasper, até então Secretário do Pontifício Conselho pela Unidade dos Cristãos e hoje Presidente. Ele é conhecido entre nós pelos seus livros de conteúdo teológico, entre outros "Jesus, o Cristo" e "O Deus de Jesus Cristo". O Bispo Angelo Scola, professor e pesquisador, Magnífico Reitor da Universidade Lateranense, abordou aspectos fundamentais da Eclesiologia, dentro da qual se situa um autêntico esforço ecumênico. Lançou luzes sobre o recente e oportuno documento da Congregação para a Doutrina da Fé "Dominus Jesus". Por ele, vê-se que a Igreja Católica, sem trair nem nivelar o divino depósito da Fé que Jesus nos legou, abre as portas a todos os homens. Nesse contexto, o Cardeal Dario Castrillon Hoyos, Prefeito da Congregação para o Clero, discorreu sobre algo fundamental à nossa Igreja, no cumprimento de sua missão: o relacionamento do bispo com o seu presbitério.

Inscreveram-se 136, entre Cardeais, Arcebispos e Bispos. Pareceu-me oportuno trazer ao conhecimento público alguns tópicos desse rico material. Eles interessam a toda a comunidade e aos homens de boa vontade.

O clima de grande alegria e fraternidade indicava a oportunidade da iniciativa, que se repete com regularidade, em favor de nosso Episcopado.

A 5 de junho do ano passado, o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos comemorou 40 anos de existência. Foi instituído em 1960, como comissão preparatória ao Concílio. O Papa João XXIII, no Discurso de Abertura do Vaticano II, a 11 de outubro de 1962, afirmou "que começava a surgir na Igreja um dia precursor de luz esplendorosa". Para se avaliar o longo caminho já percorrido, basta recordar o que seria absolutamente impensável até então: a 18 de janeiro do ano 2000, cerca de 40 irmãos, vindos de outras igrejas e comunidades eclesiais, entraram, com o Bispo de Roma, em procissão, na Basílica de São Paulo Fora-dos-Muros. Nunca, até então, um evento foi assinalado por tão numerosa participação de outros cristãos não-católicos. A Porta Santa foi aberta pelo Santo Padre, acompanhado de dois enviados que representavam o Oriente e o Ocidente cristão. Ajoelharam-se com João Paulo II diante da Porta, isto é, de Cristo, nosso Redentor. A troca do sinal da paz foi uma marca profética e alegre do objetivo dessa peregrinação em busca da plena comunhão. Esse é apenas um episódio do recente Ano Santo.

Toda a Eclesiologia parte da resposta a uma pergunta: "Quem é a Igreja?" É a comunhão de pessoas, enxertadas em Cristo, comunhão essa que atravessa a História, tendo como ponto de partida a missão livremente conferida e aceita. A dimensão missionária é, pois, essencial. E ao mesmo tempo, no seu exercício, deve ser absolutamente fiel à doutrina de Jesus. Pregar a todo mundo, tudo e somente o que veio de Cristo e foi por Ele ensinado. Como exemplo, na obediência às raízes, não lhe é permitido admitir mulheres à Ordem sagrada. Incumbe à Igreja preservar a pureza do que foi comunicado pelo Senhor Jesus e transmitido através dos séculos.

A terceira parte do curso versou sobre o relacionamento do Bispo com o seu presbitério e o dever do Pastor em cumprir seu ministério junto a seus próvidos colaboradores, os sacerdotes, na expressão do Concílio. Deus proporciona a seu Povo, ainda hoje, a presença eficaz de Pastores que o congreguem, que o guiem segundo o Seu Coração que se revelou a nós plenamente em Cristo, Bom Pastor (Exortação Apostólica "Pastores dabo vobis" nº 28). Ele nada possui para si mesmo (Lc 9,59), não persegue os próprios interesses (Jo 13,14-16), oferece-se em resgate por nós, para livrar-nos da morte e fazer-nos participantes da vida eterna (Jo 10,10ss). Os padres representam seu Pastor nas comunidades dos fiéis, tomando sobre si uma parte importante do cargo e da solicitude pastoral, exercendo-a no trabalho cotidiano, sob a autoridade do Bispo (Ef 4,12; "Lumen Gentium", nº 28). Devemos reconhecer que Bispos e Presbíteros são homens de hoje: filhos de uma cultura decadente, que sonha com ilusões de bem-estar, distantes de Deus, que é o verdadeiro Bem. Daí serem as exigências da formação bem maiores para superarem a força do ambiente malsão que os rodeia. E de uma formação continuada que preserve a identidade do sacerdócio ministerial. Urge defender o caráter sobrenatural e sagrado do sacerdócio.

Eis um rápido bosquejo dos temas do Curso para os Bispos sobre "Igreja e Ecumenismo", com o objetivo de integrar os fiéis e pessoas de boa vontade nessa iniciativa da Arquidiocese do Rio. O texto integral das aulas virá a lume no próximo número da revista "Communio", edição em português.

O Cardeal Dario Castrillon concluiu sua reflexão sobre o Sacerdócio com a seguinte oração de João Paulo II (Exortação Apostólica "Ecclesia in America" nº 76): "Protege a tua Igreja e o Sucessor de Pedro, a quem Tu, Bom Pastor, confiaste a missão de apascentar todo o teu rebanho (...) Ensina-nos a amar tua Mãe, Maria, como Tu mesmo a amaste. Dá-nos força para anunciar com valentia a tua Palavra na empresa da Nova Evangelização para corroborar a esperança do mundo".

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VOZ DO PASTOR

D. Eugênio de Araújo Sales

16/03/2001

Conferência Episcopal

A Assembléia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos de 1985 expressou o desejo de que as Conferências Episcopais procedessem oportunamente a uma revisão de seus estatutos. Dando andamento a essa decisão do Sínodo, o Santo Padre João Paulo II publicou, com data de 21 de maio de 1998, a Carta Apostólica sob forma de "Motu proprio", "Apostolos Suos", acerca da natureza teológica e jurídica das Conferências dos Bispos. Entre as indicações do Sínodo acolhidas por "Apostolos Suos" está o estudo aprofundado do "status" teológico e, conseqüentemente, jurídico das Conferências Episcopais e, sobretudo, o problema de sua autoridade doutrinal" (nº 7). Desde então, muitas Conferências em atitude de comunhão afetiva e efetiva entre seus membros e com o Sucessor de Pedro, já fizeram a oportuna revisão e adequação de seus estatutos, como foi indicado na Carta Apostólica de 1998. Nossa Conferência Episcopal (CNBB) se prepara a cumprir essa determinação e espero que consiga efetuá-lo, na próxima Assembléia Geral, no mês de julho, com a aprovação de novos estatutos. Isso virá assegurar que a direção das atividades da Conferência Episcopal esteja real e diretamente nas mãos dos Bispos. Esse passo seria, sem dúvida, um imenso benefício haurido no Grande Jubileu e no 500º aniversário da evangelização do País. Em conseqüência, o Episcopado do Brasil poderá efetivar, com maior clareza e eficácia, a sua missão evangelizadora e pastoral, para o bem dos fiéis e da sociedade.

Reconheço que se trata de um assunto complexo, pois na Igreja, o elemento constitutivo, essencialmente divino, coexiste com o contexto histórico, cujas formas humanas são revestidas de um conteúdo revelado. Diante desta relativa complexidade do assunto, não é de admirar que pessoas retas optem por um modelo de conferência episcopal diverso do apresentado por Cristo, através de seu Vigário. Por exemplo, tentar exercer autoridade superior à que Jesus concedeu a cada Bispo, legitimamente ordenado, e em comunhão com o Sucessor de Pedro. Ou ver nas Conferências um lugar de competição entre diversas correntes do pensamento reinante. No entanto, seu sagrado dever é cumprir o mandato de Jesus, contribuir para a pregação do Evangelho em todo o mundo.

O Santo Padre, em sua Carta Apostólica, deixa clara a natureza teológica e jurídica dessas instituições. Proclama a grande utilidade das Conferências Episcopais, ao lado da exaltação de sua importância, especialmente em nossos dias. Aborda o árduo problema que é a relação da Conferência com a jurisdição de cada Bispo e destes com o Sucessor de Pedro.

Jesus instituiu, como autoridade suprema na Igreja, o Colégio Universal dos Bispos com o Papa e sob Pedro e seus Sucessores. Elegeu doze homens e os constituiu "um colégio ou grupo estável e deu-lhes como chefe Pedro, escolhido entre eles" ("Apostolos Suos", nº 1). A autoridade dos Doze não é fruto de uma soma, mas expressão da unidade da Igreja de Cristo. Assim, dois ou três dentre eles não agiriam em nome do Colégio, mas apenas por sua própria responsabilidade. Por isso Paulo e os seus julgam necessário ir até Jerusalém, para se encontrarem com o Colégio dos Apóstolos e Pedro. (Atos, 15,2).

O documento "Apostolos Suos" (12,2) nos diz: "A Igreja universal não pode ser concebida como a soma das Igrejas particulares, nem como uma federação das mesmas (...) De igual modo, também, o Colégio Episcopal não há de ser considerado como a soma dos Bispos postos à frente das Igrejas particulares (...) mas enquanto constituiu elemento essencial da Igreja universal, é uma realidade prévia ao múnus de presidência da Igreja particular (AS, idem). Com efeito, o poder do Colégio Episcopal sobre toda a Igreja não é constituído pela soma dos poderes que os diversos Bispos detêm sobre suas Igrejas particulares" (AS idem).

Dessa forma, a Conferência dos Bispos, por mais importante que possa ser no plano pastoral, disciplinar e também doutrinal, de per si, não tem autoridade colegial, parcela do único Colégio Episcopal com o Papa. Ela age apenas como poder individual de cada um dos Bispos participantes. Só se suas decisões tiverem o consenso unânime de todo o Episcopado participante, os fiéis da respectiva região estarão obrigados a obedecer, por uma opção de fé, seguindo as orientações de seu próprio Bispo, se ele vive em comunhão com o Santo Padre.

A Conferência não é nem uma instância superior a cada Bispo, nem uma instância intermediária entre cada Bispo e o Papa ou o Colégio Universal. Por isso, diz o Papa: "Não existe uma ação colegial igual a nível de cada Igreja particular, nem dos seus agrupamentos (AS 10,1). O Bispo diocesano apascenta, em nome do Senhor, o rebanho que lhe está confiado como seu Pastor próprio, ordinário, imediato e sua ação é estritamente pessoal, não colegial, embora animado pelo espírito de comunhão’ (AS 10,1). Continua o Papa, com a mesma clareza: "A nível de agrupamento de Igrejas particulares por zonas geográficas (nação, região), os Bispos que as presidem, ao exercerem conjuntamente o seu serviço pastoral, não o fazem com atos colegiais iguais aos do Colégio Episcopal" (AS 10.2).

Essas precisões doutrinárias não diminuem o valor insubstituível, até certo ponto, das Conferências Episcopais, que é fortemente acentuada pelo Papa.

O aperfeiçoamento dos estatutos, adaptados segundo as diretrizes do Sínodo de 1985 e de "Apostolos suos", será de grande importância para a vida católica em nosso País. Todos nós, Bispos, somos convocados para, à luz da Fé, contribuir para esse dever com a Igreja no Brasil.