Frei Galvão
(VOZ DO PASTOR D. Eugênio de
Araújo Sales 4/12/1998)
A
recente elevação de Frei Antonio de Sant’Anna Galvão à honra dos altares trouxe
à Igreja no Brasil um sopro de espiritualidade. Sobre ele, assim se expressam
em documento dirigido ao Provincial dos Franciscanos, no ano de 1798, o Bispo
Dom Mateus de Abreu Pereira e o Senado da Câmara de São Paulo: "Este homem
é preciosíssimo a toda esta Cidade e Vilas da Capitania de São Paulo; é homem
religiosíssimo e de prudente conselho; todos acodem a pedir-lho; é o homem da
paz e da caridade".
Hoje,
no término do século XX e às vésperas do 3º Milênio do Nascimento de Jesus, do
Grande Jubileu, Frei Galvão vem iluminar, apontar caminhos, amparar
necessitados em São Paulo e em todo o Brasil. A mesma missão de séculos atrás,
ele a exerce em nossos dias, agora elevado à honra dos altares, como
Bem-aventurado. Um longo itinerário, desde 1739, quando nasceu em
Guaratinguetá, então Diocese do Rio de Janeiro. Esta tinha por limites ao norte
o Rio Jequitinhonha, Capitania de Porto Seguro, Bahia, e ao sul, o Estuário do
Prata; a leste o Oceano Atlântico e a oeste, "terras desconhecidas",
como rezava a Bula "Romani Pontificis pastoralis sollicitudo".
No
ocaso de uma civilização onde se mesclam valores extraordinários simbolizados
por esta personalidade providencial que é o Papa João Paulo II, ao lado da
decomposição que lembra, em alguns aspectos, outros períodos da História da
Humanidade, faz-se mister insistir na proeminência do exemplo sobre as
palavras. O homem moderno, sedento de Justiça e à procura de Deus envereda, com
freqüência, por caminhos que levam a ídolos e não à Verdade. Ele exige o
comprovante de atos, do sinal. No interior da própria Igreja, o Senhor, entre
os excepcionais frutos do Concílio, assinala o "homo inimicus", na
expressão de São Mateus (13,25.28), que fez penetrar a "fumaça do
demônio", como advertiu Paulo VI.
Por
isso, as Beatificações e Canonizações assumem, em nossa época, um lugar
especial na evangelização. Mais do que a exaltação de quem serviu com heroísmo,
elas demonstram ao mundo que o ensinamento da Igreja é viável, compensador.
Exortam a vivê-lo e a defendê-lo com coragem. A vida de Frei Galvão está
repleta de testemunhos que falam mais do que suas palavras. Frei Galvão, como
presbítero, tem muito a nos dizer. Ordenado sacerdote a 19 de julho de 1792, no
Rio de Janeiro, por Dom Frei Antonio do Desterro, OSB, viveu fiel e
intensamente sua consagração como padre e franciscano. O primeiro
Bem-aventurado elevado aos altares, no Brasil, foi um sacerdote.
Frei
Galvão, defensor dos direitos humanos, emerge de maneira fulgurante no episódio
da condenação à morte – por motivo fútil – do soldado Caetano José da Costa. A
atitude firme do Bem-aventurado custou-lhe a chamada "pena do
degredo", a ser executada em 24 horas. Mesmo injusta e absurda a decisão,
ele se dispôs a cumpri-la imediatamente. No entanto, a reação do Bispo Dom
Manuel da Ressurreição, de autoridades e do povo, conseguiu a revogação da
sentença do exílio. E ele, que partira em direção ao Rio de Janeiro, a pé, pôde
retornar.
Como
este, toda a existência de Frei Galvão está cheia de fatos que, no âmbito
estritamente religioso, servem de alicerce essencial à atuação no campo social.
Nosso Bem-aventurado nos dá um rumo e nos ajuda.
O
aumento da devoção após a cerimônia da Beatificação, no dia 25 de outubro
último, deve ser orientado para os testemunhos a serem imitados mais do que
para a simples procura de soluções de ordem material. O Santo é, acima de tudo,
uma prova da possibilidade de um cristão seguir em seus atos os passos de
Jesus.
As
solenidades por motivo da elevação aos altares de Frei Galvão nos levam a mais
profunda reflexão sobre essa nota essencial ao fiel: a santidade. A
consideração da essência da Igreja nos ensina que característica não é, em
primeiro lugar, o distintivo heróico de um indivíduo. Trata-se de algo muito
mais profundo que nos coloca em comunhão com o mistério de Deus e seu plano de
salvação. Desde os primeiros séculos, a Igreja proclama o "Tu solus
sanctus", "Só vós sois o Santo".
É
interessante observar nos exórdios da história da instituição fundada por
Cristo, no Credo mais antigo que conhecemos, o Credo chamado
"apostólico", a afirmação: "Creio na Igreja santa". Em
nossos templos por todo o mundo, esta fórmula é repetida na hora do batismo.
Aos poucos foi explicitada, conservando sempre a original insistência no sinal
indispensável, em forma mais completa: "Creio na Igreja una, santa,
católica e apostólica", como escreveu o primeiro Concílio Ecumênico, em
325. E nós somos a Igreja.
O
Povo de Deus movido por exemplos do passado, manifesta grande alegria no
presente, ao proclamar a virtude heróica de um homem, Frei Galvão, a
fecundidade de sua vida. Voltados para o futuro, buscamos iluminá-lo com a
mesma Fé que explica a grandeza de suas atitudes. Ele foi profundamente marcado
por sua formação franciscana e devoção a Maria, cuja dimensão nos é revelada
pelas expressões "entrega a Maria" e "filho e escravo perpétuo",
assinadas com o próprio sangue, a 9 de novembro de 1766.
As
celebrações por motivo da Beatificação de Frei Galvão constituem uma excelente
oportunidade para refletir sobre a grandeza e a importância da santidade na
vida do cristão. Voltaremos ao assunto.
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VOZ
DO PASTOR D. Eugênio de Araújo Sales 23/10/1998 Apóstolos Suos
Cristo,
quando enviou os Apóstolos a ensinar sua doutrina ao mundo inteiro, não os fez
agir isoladamente mas como um grupo estável e lhes deu um chefe, Pedro,
escolhido entre eles: "Apascenta meus cordeiros" (Jo 21,15-17). Por
isso, Paulo, embora investido diretamente pelo Senhor Jesus em sua missão
evangelizadora, a fim de evitar "o risco de correr em vão" (Gl
2,1-2.7-9), dirige-se a Jerusalém para assegurar a comunhão com o "colégio
apostólico", que está sob uma autoridade suprema. À medida que levavam a
chama da fé cristã aos recantos da terra então conhecida, escolhiam sucessores
("Lumen Gentium", 20). Diz o Vaticano II (Idem, 22): "Assim
como, por instituição do Senhor, São Pedro e os restantes Apóstolos formam um
colégio apostólico, assim, de igual modo, estão unidos entre si o Romano
Pontífice, Sucessor de Pedro e os Bispos, sucessores dos Apóstolos".
Como
no Pastor da Igreja de Roma está estabelecido o princípio e o fundamento
perpétuo e visível da unidade da fé e comunhão, "por sua vez, cada Bispo é
princípio e fundamento da unidade na sua respectiva Igreja particular"
(Ibidem, 23). Não se trata de uma federação mas de um corpo vivo pela graça que
percorre cada integrante que plenamente crê na mesma doutrina, pratica os atos
dela decorrentes, obedece a seus ensinamentos.
No
decorrer da História, para manter a unidade e garantir a colaboração e o afeto
mútuos, enfrentando os mais diversos problemas e em circunstâncias variadas,
surgiram "instrumentos, órgãos, meios de comunicação que favorecem ou
manifestam essa união e solicitude comuns. Assim, desde o segundo século,
nasceram os Concílios Particulares, Ecumênicos, Plenários, Provinciais e, a
partir do século passado, as Conferências Episcopais. Estas tomaram grande
impulso com o Vaticano II e merecem o devido destaque no Código do Direito
Canônico (1983).
Sobre
o assunto, com data de 21 de maio último, o Santo Padre publicou importante
documento, um "Motu Proprio" denominado "Apostolos suos
instituit".
Evidentemente,
trata-se de válido instrumento para consolidar a estrutura do corpo episcopal,
corrigir eventuais desvios, fortalecer o autêntico trabalho pastoral. Em um
mundo tão complexo, com rapidez nas comunicação que divulga problemas sem
soluções adequadas, ela corresponde às necessidades de uma instituição inserida
num ambiente trepidante. Entretanto, diz o documento: "Todavia, a evolução
de sua atividade sempre mais vasta, suscitou problemas de ordem teológica e
pastoral, sobretudo no que diz respeito à sua relação com cada um dos Bispos
diocesanos".
O
Sínodo Extraordinário de 1985 reconheceu a necessidade das Conferências, mas
fez advertências úteis e recomendou um estudo do seu "status
teológico-jurídico".
Por
falta de conhecimento suficiente da matéria, pessoas julgam a Conferência
Episcopal como uma supra-diocese entre o Bispo e o Papa, como uma Corte para
recursos contra decisões episcopais.
Em
"Apostolos suos instituit" o Santo Padre, após a Introdução, aborda
os seguintes itens: "A união colegial entre os Bispos"; "As
Conferências Episcopais: Normas complementares sobre as mesmas". Reafirma
a doutrina, muito clara, do Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática
"Lumen Gentïum, e do Código do Direito Canônico que, por exemplo, afirma
no cânon 381 parágrafo 1º: "Ao Bispo diocesano , na diocese que lhe foi
confiada, compete todo o poder ordinário próprio e imediato que se requer para
o exercício do seu múnus pastoral, com exceção das causa que, por direito, ou
por decreto do Sumo Pontífice, estejam reservadas à suprema ou a outra
autoridade eclesiástica".
O
novo Documento esclarece e altera procedimentos, quando necessário. Eis alguns
exemplos: "Os Bispos, tanto singularmente como reunidos em Conferência, não
podem autonomamente, limitar o seu poder sagrado em favor da Conferência
Episcopal. E menos ainda, de uma parte dela, seja esta o Conselho Permanente,
uma Comissão ou o próprio Presidente". E logo adverte: "Nem a
Conferência, nem o seu Presidente podem agir em nome de todos os Bispos, a não
ser que todos e cada um hajam dado o consentimento". (nº 20). Os bispos,
mesmo individualmente e sem gozar da infalibilidade do ensino "são,
contudo, doutores e mestres autênticos da fé dos fiéis confiados a seus cuidados,
que têm a obrigação de aderir, com religioso obséquio e espírito, ao Magistério
autêntico dos seus Bispos" (nº 21). Para que as declarações doutrinais da
Conferência dos Bispos "constituam Magistério autêntico, é necessário que
sejam aprovadas por unanimidade dos membros Bispos ou então, quando aprovadas
na reunião plenária por dois terços dos prelados que pertencem à Conferência,
com voto deliberativo e que obtenham a revisão (recognitio) da Sé
Apostólica" (Artigo 1º). A Conferência não pode conceder às Comissões ou
outros organismos constituídos no seu seio o poder de realizar atos de
magistério autêntico (Artigo 2º).
Vivemos
em uma sociedade onde as pessoas dificilmente aceitam normas que lhes
desagradam, ao passo que seguem com facilidade o que satisfaz à sua
mentalidade, mesmo em se tratando de erros doutrinários. O católico autêntico
se distingue do cidadão que usa indebitamente esse nome, pela obediência
prestada a quem recebeu de Cristo a missão de, apesar de ser pecador, ensinar o
verdadeiro caminho da Casa do Pai. Aliás, dessa escolha depende uma eternidade
feliz.
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VOZ
DO PASTOR D. Eugênio de Araújo Sales 11/12/1998 Mártires Brasileiros
Ainda
repercutem os ecos dos aplausos pela elevação à honra dos altares do
Bem-aventurado Frei Galvão. Eis que chega ao fim, na Congregação para a Causa
dos Santos, o processo oriundo da Arquidiocese de Natal, de "Beatificação
ou declaração do martírio dos servos de Deus André de Soveral e Ambrósio
Francisco Ferro, sacerdotes diocesanos e seus companheiros, mortos "in
odium fidei" ( por ódio à fé ) em 1645. Serão os proto-mártires
brasileiros. O Pe. André de Soveral veio ao mundo em São Vicente em 1572.
Muitos outros também nasceram em nossa Pátria. O último de um grupo de jovens
companheiro de João Martins que então perderam a vida, responde com ânimo
alegre à proposta de renunciar à Fé, dizendo: "Deus não me abandona".
Crianças, com suas mães, foram cruelmente massacradas. Famílias martirizadas!
Com
a invasão holandesa, embora fosse afirmada haver liberdade de culto, ocorria
uma crescente perseguição religiosa aos católicos. Os invasores eram, em parte
ponderável, calvinistas. O período de 1637 a 1644, com Maurício de Nassau,
vigorou uma tolerância, apesar dos protestos do Sínodo da Igreja reformada .
Os
fatos aqui narrados sucederam na capitania do Rio Grande, tomada pelos bátavos
em dezembro de 1633. Na localidade de Cunhaú havia uma capela, hoje restaurada.
Funcionava importante engenho de açúcar. A quinze de julho de 1645 chega o
enviado do governo holandês, o alemão Jacó Rabi. Vinha acompanhado de soldados
e índios. Trazia ordens para serem comunicadas no dia seguinte, festividade de
Nossa Senhora do Carmo. Por ocasião da consagração, fechadas as portas da
igreja cuja patrona é Nossa Senhora da Candelária, começou a carnificina. Não
houve resistência por parte dos fiéis, exortados pelo pároco, Padre Antônio
Ferro. Esse sacerdote entrara na Companhia de Jesus a seis de agosto de 1593 na
Bahia, exercia seu ministério junto aos índios (conhecia profundamente sua
língua), no território que dependia do Colégio de Olinda. De janeiro de 1600
até fins de 1607, integrou o elenco dos padres e irmãos da província da
Companhia de Jesus no Brasil. Deduz-se que depois passou ao clero secular, pois
na época de sua morte exercia função de pároco em Cunhaú. Ao ser martirizado
devia ter 73 anos. Na igreja calculam que estivessem 69 pessoas. Outros
permaneceram em um imóvel vizinho, mas foram em grande número também
massacrados. O processo de Beatificação não os inclui. Eles lutaram, embora, o
fizessem em defesa da própria vida. Uma forte chuva e o receio do aparato
militar levaram-nos a não participar da Missa. Resistiram, muitos conseguiram
fugir, mas a maioria foi trucidada .
Os
cronistas holandeses e portugueses divergem quanto ao número de vítimas entre
39 e 69.
Espalhou-se
a dolorosa notícia. Em Natal alguns se refugiaram na Fortaleza dos Reis Magos,
que tivera o nome substituído por Van Ceulen. Eram pessoas influentes na
Província. Não foi possível abrigar maior número. Um outro grupo subiu o Rio
Potengi e construiu precária defesa no lugar denominado ainda hoje de Uruaçu.
No interior da paliçada estavam recolhidas cerca de 70 pessoas. Reagiram ao
assédio dos bátavos e índios mas terminaram por capitular. Uma comissão foi
conduzida ao Forte e depois levados rio Potengi acima até o porto de Uruaçu.
Esperavam-nos duzentos índios tapuias comandados pelo terrível Antonio
Paraupeba, convertido ao calvinismo. Foram mutilados e mortos. Após o trucidamento
trouxeram da paliçada 52 homens e um número impreciso de mulheres e filhos.
Depararam-se com os corpos dos cinco que haviam sido enviados como prisioneiros
ao Forte. Todos haviam sido assassinados com extrema ferocidade. Aceitaram, no
entanto, piamente o sofrimento e a morte. A crueldade levou Diogo Lopes
Santiago a comparar os carrascos aos "tigres e leões ferozes".
Há
fatos curiosos: "Uma jovem foi poupada por algozes que já haviam
sacrificado suas duas irmãs pois era uma donzela elegante e a negociaram com os
índios em troca de um cão de caça".
O
mais emocionante nesse martírio ocorreu com Matias (ou Mateus) Moreira.
Cortaram-lhe braços, pernas, perfuraram os olhos, retaliaram o corpo. Ao lhe
arrancarem o coração pelas costas, suas últimas palavras foram "Louvado
seja o Santíssimo Sacramento". O documento mais antigo que relata esse
massacre, hoje ainda tão pouco conhecido, é a relação de Lupo Curado Garro,
capitão e governador militar da Paraíba, redigido vinte dias após os acontecimentos.
No século XVII Frei Manuel Calado do Salvador, religioso da Ordem de São Paulo
Eremita, escreveu "O Valeroso Lucideno". A "História da Guerra
de Pernambuco", foi elaborado entre 1661 e 1675 por Diogo Lopes Santiago,
testemunha ocular da guerra contra os holandeses. Em 1675 é publicada, em
Lisboa, pelo beneditino Rafael de Jesus, "O Castrioto Lusitano". Mais
recentemente veio a lume, em 1904, um documento de 1757, redigido pelo também
beneditino Dom Domingos Loureto Couto intitulado "Desagravos do Brasil e
glórias de Pernambuco". O historiador Francisco Adorno de Varnhagem em
1872 editou "A História das lutas contra os holandeses no Brasil". Em
nossos dias diversas obras têm sido publicadas. O Padre Arlindo Rubert em
"A Igreja no Brasil", volume II, (págs. 121-125), trata das
"vicissitudes da Igreja na invasão holandesa e perseguições
religiosas". Na realidade, Cunhaú e Uruaçu não são casos isolados.
Em
Natal, por ocasião do XII Congresso Eucarístico Nacional, o Papa João Paulo II,
na homilia de Encerramento, a 13 de outubro de 1991 assim se expressou sobre
Matias Moreira: "Quando insultado e ferido pelos hereges por sua recusa a
renegar a fé na Eucaristia e fidelidade à Igreja do Papa, exclama enquanto lhe
abriam o peito para lhe arrancar o coração "Louvado seja o Santíssimo
Sacramento".
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VOZ
DO PASTOR D. Eugênio de Araújo Sales 22/10/1999 Dia Das Missões
Em
todo o mundo católico, no penúltimo domingo de outubro, celebra-se o Dia
Missionário. Com antecedência, o Santo Padre envia uma mensagem sobre o evento,
pois ele "constitui, para a Igreja, uma preciosa ocasião para refletir
sobre sua natureza missionária" (nº 1).
Este
ano, a data goza de especial importância. O 24 de outubro, por ser o último
domingo das Missões deste milênio, às vésperas do Grande Jubileu, comemorativo
do Nascimento de Jesus, o Salvador, nos deve questionar sobre nossa obediência
ao mandato de Cristo: "Ide, pois, e ensinai todas as nações, batizando-as
em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo!" (Mt 28,19). Cada fiel,
todos nós, somos chamados a levar o anúncio do Evangelho a todos os homens.
Passados quase dois mil anos da vinda do nosso Redentor ao mundo, "duas
terças partes da humanidade ainda não conhecem Cristo", como se referiu o
Cardeal Jozef Tomko no dia 30 de setembro, na Arquidiocese de Paraná,
Argentina, ao abrir o VI Congresso Missionário Latino-Americano (COMLA VI) e o
I Congresso Americano Missionário (CAM).
Na
Conclusão de sua Mensagem, o Papa João Paulo II nos lembra que "a missionariedade
deve constituir a paixão de cada cristão; paixão pela salvação do mundo e
ardente compromisso, em vista de instaurar o Reino do Pai" (nº 9). Não se
trata de uma tarefa de ordem política ou econômica. No entanto, à medida que os
homens vivem os ensinamentos de Jesus, suas vidas se transformam e, em
conseqüência, farão surgir uma nova sociedade. Por isso, trabalhar pelas
Missões é contribuir para a paz, a justiça social, a válida e duradoura mudança
de estruturas. Atinge as raízes dos males, o pecado.
Desde
seu nascimento, em Pentecostes, a Igreja tem sido caracterizada pelo esforço em
transmitir a Boa Nova de Jesus Cristo. No entanto, esse zelo tem experimentado
períodos de sombras. Em nossos dias, sente-se um afervoramento do trabalho em
prol das Missões. Ele é múltiplo e variado. Vai do testemunho de uma vida
coerente com a Fé que dá credibilidade aos ensinamentos oferecidos aos que não
conhecem Cristo. É também para nós um apelo à oração em favor dos que, em
lugares distantes e, por vezes, inóspitos, fazem presente a Palavra de Deus e a
face da Igreja. Transmitem todo o conteúdo da sua Doutrina Social. As obras de
promoção humana, especialmente nas áreas hospitalar e educacional, em terras
que, pela primeira vez, recebem o anúncio do Evangelho Necessitam de
colaboração. Esse gesto demonstra a consciência do valor do transcendental,
pois abrem o coração à necessidade do próximo. A doação se faz de dois modos:
oferecendo-se os fiéis para ir pessoalmente à missão ou ajudando essas obras e
a manutenção dos que abraçaram tal sacrifício por amor à causa de Jesus.
Este
ano, o Dia Mundial ocorre após a realização do grande Congresso Missionário –
COMLA VII e CAM I – encerrado a 3 do corrente mês de outubro. Bem eloqüente seu
lema: "América, com Cristo, sai de tua terra!". Revela um grande
anseio de abrir o coração dos fiéis "ao mundo universal". Séculos
atrás, fomos evangelizados pelo espírito missionário da Europa. Hoje, somos a
metade de católicos em todo o universo. Somente de brasileiros, o número dos
que trabalham por Cristo em outros países, ascende a mais de mil apóstolos,
entre sacerdotes, religiosos e leigos, consagrados a essa causa. Como recebemos
a Fé que veio de outras terras devemos, como retribuição, iluminar com a
Palavra de Cristo, nossos irmãos que ainda não O conhecem.
Estavam
presentes no Congresso 3.300 delegados da América e também de outros
Continentes. A 30 de setembro, em um estádio, com aproximadamente 25.000
pessoas, o Arcebispo de Paraná, Argentina, Dom Esteban Karlic, também Presidente
da Conferência Episcopal daquele país, pronunciou o Discurso de Abertura.
Presidiu a celebração o Cardeal Jozef Tomko, Prefeito da Congregação para a
Evangelização dos Povos e Enviado Especial do Santo Padre. Na Missa do dia 1º
de outubro, concelebraram cerca de 105 Bispos e 800 sacerdotes. A delegação
brasileira era composta por 450 participantes, entre Bispos, padres, religiosos
e leigos. Quinze crianças representavam a Santa Infância, organização
missionária, como o nome indica, para jovens. Do Estado do Rio de Janeiro
participaram 26 congressistas.
O
dia 29 foi dedicado à África; 30, à Ásia; 1º de outubro, à Europa e o seguinte,
à Oceania. O encerramento, a 3 de outubro, à América. O Arcebispo, Dom Karlic,
nessa oportunidade, anunciou o próximo Congresso: será na Guatemala.
As
celebrações primaram sempre pela cuidadosa observância das prescrições
litúrgicas. Não faltaram, infelizmente, expressões exóticas de alguns
participantes, no que se refere às vestes para o Sacrifício Eucarístico. O
acolhimento e o carinho, por parte da Arquidiocese anfitriã, foram notáveis.
Este
Congresso obteve pleno êxito e será fator de grande importância no crescimento
e expressão do espírito missionário na América.
Com
o Grande Jubileu por ocasião do início do 3º Milênio do Nascimento de Jesus e o
aniversário do Descobrimento do Brasil, este ano o Dia Missionário Mundial
adquire especial significado. Recordamos a chegada ao Brasil dos primeiros
sacerdotes que para aqui trouxeram a Palavra de Deus e implantaram a Igreja de
Cristo .A celebração da primeira Missa em Porto Seguro por Frei Henrique de
Coimbra foi o ato público inicial da nacionalidade. Nossos louvores ao Senhor
pela graça recebida e a gratidão a todos os que, através de cinco séculos,
edificaram a Igreja Católica em terras brasileiras.
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VOZ
DO PASTOR D. Eugênio de Araújo Sales 17/12/1999 Mártires beatificados
O
martírio é de grande importância na Igreja. Ele apresenta ao mundo alguém que
testemunha a Fé católica, com a imolação da própria vida. Esse termo começou a
assumir o significado usual em nossos dias, a partir do ano 155, com o
"Martyrium Policarpi". Ele "não somente foi mestre insigne mas
também mártir excelso (...) cujo martírio todos aspiram a imitar, porque
aconteceu à semelhança de Cristo, como narrado no Evangelho".
Indubitavelmente, esse sinal da credibilidade à revelação cristã diante de um
mundo incrédulo anuncia a vivência dos valores evangélicos até o sacrifício do
maior dom, que é a nossa existência. Em uma humanidade que busca a qualquer
preço o bem-estar pessoal, o lucro, o gozo, ouve-se a expressão do Mestre:
"Eu ofereço minha vida para depois retomá-la de novo" (Jo 10,7 e 18).
Hoje registra-se um enriquecimento do conceito. Santo Tomás (in Epistola ad
Romanos, 8,7)amplia, mas também marca limites ao uso da expressão:
"Constitui o martírio, não só a proclamação da Fé mas toda e qualquer
outra virtude não política, de inspiração sobrenatural, que tenha Cristo como
objetivo".
No
próximo dia 5 de março, na Praça de São `Pedro, em Roma, serão oficialmente
reconhecidos como mártires um grupo de brasileiros massacrados no Rio Grande do
Norte, em 16 de julho e 3 de outubro de 1645. A Arquidiocese do Rio de Janeiro
far-se-á presente pelo seu Pastor e duas peregrinações: a oficial e a das
religiosas.
O
mais antigo relato dessas ocorrências foi feito vinte dias após o morticínio de
Uruaçu, na "Breve, Verdadeira e Autêntica Relação das Últimas Tiranias e
Crueldades que os Pérfidos Holandeses Usaram com os Moradores do Rio
Grande" no "O Valeroso Lucideno" (1679) pags 277-280. O autor:
Lopo Curado Garro. Inúmeros outros documentos foram consultados pelo Postulador
da Causa, Monsenhor Francisco de Assis Pereira, em diversos arquivos de Natal,
Recife, Roma, Holanda e Lisboa. Alguns nomes falam por si, da importância:
Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Arquivo Secreto do Vaticano, Arquivo Geral
do Reino, Antiga Companhia das Índias Ocidentais, especialmente "Nótulas
Diárias" e "Cartas e Papéis do Brasil" (em Haia).
A
memória desses acontecimentos chegou a nossos dias. Quando eu exercia o
ministério eclesiástico na Arquidiocese de Natal, cuidei de preservar a memória
dos fatos junto aos fiéis, dando seguidamente o nome desses heróis da Fé às
obras sociais que iam surgindo, fruto do trabalho pastoral. Assim, foram
criados juridicamente e funcionam ainda hoje a Escola Ambulatório Matias
Moreira, o Centro Social Padre Ambrósio Ferro, o Instituto João Loustau
Navarro.
Das
ocorrências até nossos dias, a lembrança do martírio se manteve viva. Uma frase
do General Fernando Távora, em artigo no "Diário de Natal" a 30 de
agosto de 1950, resume essa constância: "Sem embargo, há mais de 300 anos
as almas de Cunhaú atraem e acendem a devoção persistente da gente do agreste
potiguar, que ali vão, em romaria, acendendo velas e rezando de joelhos por
sobre ruínas que o tempo envelheceu".
A
palavra do Santo Padre na manhã de 3 de outubro de 1991 em Natal, na homilia da
Missa de encerramento do XII Congresso Eucarístico Nacional é um coroamento do
período que vai da ocorrência dos fatos até à beatificação: "É uma
circunstância feliz que o Congresso esteja sendo realizado em Natal.
Precisamente aqui, em 1645, um homem simples, profundamente religioso, Matias Moreira,
deu com os seus companheiros na região conhecida por Cunhaú e Uruaçu, um belo
exemplo, que lembra o dos mártires da Igreja. Quando insultado – ferido pelos
hereges, por sua recusa em renegar a Fé na Eucaristia e a fidelidade à Igreja
do Papa, - exclamou, quando lhe abriam o peito para arrancar-lhe o coração:
"Louvado seja o Santíssimo Sacramento!".
O
processo diocesano teve início a 7 de maio de 1989 (Ascensão do Senhor), por
Decreto do então Arcebispo, Dom Alair Vilar Fernandes de Melo e o "Nihil obstat"
da Santa Sé foi outorgado a 16 de junho do mesmo ano. A última etapa da
investigação em nível local foi a instauração, pelo novo Arcebispo, Dom ?Heitor
de Araujo Sales, do Tribunal Arquidiocesano para a Causa dos Mártires. O
processo diocesano foi concluído a 31 de maio de 1994 e a 14 de junho do mesmo
ano, foi feita a entrega da documentação à Congregação das Causas dos Santos.
Em
21 de dezembro de 1998, o Papa João Paulo II assinou o Decreto reconhecendo o
martírio dos que puderam ser identificados entre os cruelmente assassinados em
Cunhaú, sacrificados na Matriz de Nossa Senhora das Candeias, a 70 Km de Natal;
e em Uruaçu, nas imediações do Porto do Flamengo, distante 50 Km do Forte dos
Reis Magos, também em Natal; dois sacerdotes e vinte e oito leigos – casais,
crianças, jovens, adultos.
Às
vésperas do Grande Jubileu do Nascimento de Jesus e dos 500 anos da Descoberta
do Brasil, se insere essa extraordinária solenidade da beatificação dos
primeiros mártires brasileiros. O Prefeito da Congregação das Causas dos Santos
, Dom José Saraiva Martins, chamou-os de Protomártires do Brasil. Será a 5 de
março, na Praça de São Pedro, em Roma.
Neste
período que nos resta para a glorificação desses heróis da Fé diante do mundo,
pensemos em suas lições, tão importantes para a vida cristã, na atualidade: a
fidelidade à Igreja e à sua Cabeça visível, o Vigário de Cristo, o Santo Padre.
Uma viva consciência de estar no mundo sem ser do mundo e cumprir o dever de
levar a todos os quadrantes do universo a mensagem de nosso Salvador, o Cristo
Jesus.
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VOZ
DO PASTOR D. Eugênio de Araújo Sales 03/03/2000 Mártires brasileiros
Neste
5 de março, a Igreja, oficialmente, reconhece o martírio ocorrido em Cunhaú e
Uruaçu, no Rio Grande do Norte, nos distantes idos de 1645, durante a ocupação
holandesa. São elevados à honra dos altares, como Bem-aventurados, trinta
vítimas do ódio a Deus e sua Igreja e entre eles estavam sacerdotes. O número
dos massacrados era bem superior ao que as páginas da História guardaram.
O
Prefeito da Congregação das Causas dos Santos, na reunião de 21 de dezembro de
1998, quando o Santo Padre confirmou a heroicidade cristã que abriu as portas
para a beatificação, chamou-os de "proto-mártires do Brasil". São
glorificados com essa dignidade exatamente quando o Brasil celebra os 500 anos
do Descobrimento. Os novos bem-aventurados serão fatores eficazes junto a
Cristo, em favor do crescimento de nosso imenso País na Fé cristã e adesão à
sua Igreja.
O
martírio pode ser visto sob diversos aspectos. entretanto, para ser considerado
cristão, a morte deve ser acolhida livremente. Assim, o fiel morto em uma
guerra religiosa não receberia esse título. Igualmente supõe a entrega da vida
a um Deus pessoal e não apenas a um ideal, mesmo nobre, como a luta pela
Justiça ou por uma ideologia. Por isso, o martírio é mais que qualquer
heroísmo: é o amor consciente, acima de tudo. Isso nos faz entender o impacto
que, desde os primórdios do cristianismo, esse gesto exerce sobre os cristãos e
mesmo os pagãos.]
O
motivo do martírio cristão está em Jesus Cristo, que se identifica com o Servo
de Javé, a ser esmagado, e cuja morte traz a salvação do mundo. Morrer com
Cristo, sem resistência, é uma entrega a Deus que é aceita por Ele. Em
conseqüência, é uma participação na Cruz de Cristo, na força redentora de sua
morte. A intrepidez pessoal desse gesto de entrega tem sua profundidade na
identificação com a sorte de Jesus entregue sempre à vontade do Pai.
"Morrer com Cristo, para com Ele ressuscitar", diz São Paulo (Rm
6,3-11). O mártir é alguém contra os valores enaltecidos neste mundo: o poder,
o prazer, o dinheiro, o prestígio. Jesus, por seu sacrifício, patenteia o
Evangelho e suas exigências na vida do fiel e o morto por amor a ele faz suas
todas as opções do mesmo Cristo. Torna-se o testemunho da veracidade da
mensagem evangélica de absoluta confiança no Pai.
Na
história da Igreja as mais famosas perseguições tiveram início no Império
Romano, com Nero, (54-68) decretada após o incêndio de Roma. Esse imperador
tornou-se o símbolo da crueldade. Tácito (Annales, XV,44) descreve as
atrocidades. Uma outra que se salientou ocorreu durante o governo do Imperador
Décio (249-251). A Igreja havia crescido e estava bem estruturada. Segundo
relata Cipriano de Cartago, Décio temia mais a eleição de um santo bispo em
Roma que o surgimento de um rei que fosse seu opositor. Muitos cristãos
apostataram (chamados "lapsi") ou fugiram. E também elevado foi o
número dos que enfrentaram a tortura e a morte.
As
últimas grandes perseguições do Império Romano ocorreram no governo do
Imperador Diocleciano (284-305). Foi decretada a destruição de todas as
igrejas, confisco dos livros dos cristãos, degradação social de todos os que
aderiram ao cristianismo. Até o exército romano sofreu rigorosa
"limpeza" por motivo da Fé cristã. Diz o historiador Eusébio que no
Egito houve dias em que até cem mártires eram sacrificados.
A
liberdade da Igreja concedida por Constantino pôs termo a essa dolorosa fase da
História eclesiástica. No entanto, dois aspectos devem ser considerados. O
crescimento da Igreja por todo o mundo, apesar de tantos sofrimentos. E o
outro, é ser o martírio, ora mais ora menos, o companheiro da longa viagem da
instituição fundada por Cristo, há quase 2.000 anos atrás. Sempre perseguida,
mas viva até nossos dias.
A
beatificação dos sacrificados por ódio à fé católica em Cunhaú e 0ruaçu, no Rio
Grande do Norte, na Arquidiocese de Natal, se insere, de modo admirável no
longo calvário da Igreja. Sangue e morte, mas sempre ressurreição e vida
fecunda.
Neste
dia 5, não participamos, apenas da glorificação desses intrépidos cristãos mas
se abrem para nós grandes perspectivas de favores espirituais e, de maneira
fecunda, surge o apelo que vem do Evangelho, pelo sacrifício da própria
existência terrestre, por fidelidade à Fé católica. O Papa João Paulo II, em
sua homilia no encerramento do XI Congresso Eucarístico Nacional, realizado em
Natal no ano de 1991, ao se referir a esse notável fato histórico religioso,
tem expressões de significativa beleza, recordadas por mim meses atrás:
"Quando insultado – ferido pelos hereges por sua recusa em renegar a fé na
Eucaristia e a fidelidade à Igreja do Papa – exclamou, quando lhe abriam o
peito para arrancar-lhe o coração: ‘Louvado seja o Santíssimo
Sacramento!’"
As
celebrações pelos 500 anos da Descoberta do Brasil, a beatificação dos mártires
de Cunhaú e Uruaçu representam os frutos da intensa evangelização desenvolvida
em nossa Pátria.
Dentro
do Grande Jubileu, com milhões e milhões de pessoas visitando as basílicas
romanas e a Terra Santa, está inscrito também esse evento ocorrido nas
localidades do Rio Grande do Norte, que nos falam da fidelidade à Igreja e da
coragem de enfrentar um meio adverso. Na passagem do segundo milênio do
Nascimento de Cristo, foram extraordinárias as manifestações e incompreensível
o silêncio sobre a causa das mesmas celebrações. Dois milênios de quê? Do
Nascimento de Jesus. A verdade deve ser restaurada, mesmo que irrite. O mundo
ignora o motivo por que tantos deram sua vida, sofrendo o martírio.
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VOZ
DO PASTOR D. Eugênio de Araújo Sales 11/02/2000
Exemplo
de Sacerdócio Há indivíduos que são alvos constantes de pareceres severos da
opinião pública e outros, ao contrário, passam pelo mundo, desconhecidos ou
ignorados, apesar de relevantes trabalhos realizados. Neste caso encontra-se o
Monsenhor Expedito Sobral de Medeiros, pároco por 56 anos em São Paulo do
Potengi, no interior do Rio Grande do Norte. Desloquei-me do Rio para celebrar
suas exéquias. Ele bem merecia o sacrifício!
Sua
última grande obra, no campo social, foi aglutinar os homens públicos, a partir
do Governador, Parlamentares, Prefeitos e as Comunidades flageladas pelas
secas, utilizando a força moral da Igreja em busca de solução imediata e
duradoura para o abastecimento de água às localidades do interior. Uma das três
adutoras recebeu, à revelia, seu nome e somente esta leva água potável a 23
cidades ou povoados. A voz do povo carinhosamente já o apelidara de "o
Monsenhor das águas", "o Profeta das águas". E quem conhece o
sertão do Nordeste pode avaliar o alcance do significado desse título.
Na
mensagem enviada ao Governador do Estado, por ocasião do falecimento, a 16 de
janeiro último, por insuficiência respiratória decorrente de um câncer, o
Presidente da República assim se expressa: "A força e a obstinação com que
defendia a expansão da oferta de água para o semi-árido nordestino, como
condição essencial para a preservação da vida e da dignidade humana,
deixaram-me forte e indelével impressão, permitindo-me passar a denominá-lo de
"apóstolo das águas". O alvo da luta desse discípulo de Cristo ia
além das fronteiras do Estado, propugnava pela utilização do excedente hídrico
do rio São Francisco.
A
luta pela água é apenas um capítulo, o último e inacabado de toda uma
existência sacerdotal a serviço do espiritual - zeloso pároco - e da dignidade
do homem.
Falo
com conhecimento de causa. O Movimento de Natal, com suas variadas e vitoriosas
iniciativas, teve sempre em Monsenhor Expedito um sustentáculo, um
incentivador. Ele fazia parte dos que iniciaram a Sindicalização Rural em nível
nacional, a Campanha da Fraternidade, pequenas comunidades surgidas e
assentadas em torno de receptores cativos da Emissora de Educação Rural, as
Escolas Radiofônicas, as Maternidades, as Escolas de nível médio, a Ação
Católica Rural, a Formação de Líderes, o Plano de Pastoral, a elevação do
padrão cultural do Clero para melhor servir aos irmãos. Esses e outros
empreendimentos começaram a surgir antes do Concílio Ecumênico Vaticano II e em
uma época de extraordinária carência de meios materiais.
Ele
sabia que o simples protesto nada constrói. Era firme em preservar a
independência da Igreja mas, ao mesmo tempo, pacientemente procurava reunir
acima dos partidos os políticos, em busca de uma causa tão nobre como o
atendimento aos necessitados do Nordeste semi-árido. Ao sepultamento em sua
paróquia do interior potiguar, estavam o seu Arcebispo e mais três Bispos, além
de quase todos os sacerdotes da Arquidiocese de Natal. Ele foi sempre e acima
de tudo, um ministro de Deus, fiel à sua Igreja, de onde lhe vinha a força e a
orientação do seu trabalho social,
***
Em certo momento foi instado pelo então Arcebispo para assumir a Catedral de
Natal. Razões de saúde do pároco do interior justificavam o convite de Dom
Marcolino Dantas. Como desejasse permanecer onde estava, foi atendido. Há
poucos anos foi nomeado, pelo atual Arcebispo, Vigário Episcopal para o Clero,
mas residindo em São Paulo do Potengi. ***
Atravessou
o período agudo da contestação na Igreja sem negar o juramento de fidelidade
feito no altar a Deus, por ocasião de sua ordenação sacerdotal. Soube ser
sempre obediente, um padre no pleno sentido da palavra, mesmo quando lidava com
assuntos profanos. Onde estivesse buscava difundir o Evangelho e ajudar os
necessitados por amor de Deus. Por isso, conservou até aos últimos dias da vida
a juventude de espírito e a alegria dela decorrente.
Vi
a ampla divulgação da imprensa local, por ocasião do falecimento e enterro, a
imensa multidão, o município que parou, as manifestações das autoridades
religiosas, civis, do Povo de Deus. Grande o sofrimento, ao lado de uma paz
fruto de uma vida a serviço do Evangelho. Aludiam à graça de o terem tido como
pastor em convivência ininterrupta: o primeiro e único pároco. "Nunca vi
tantos homens reunidos, chorando tanto", confidenciou a uma freira um
velho sertanejo, momentos antes do sepultamento.
Sei
que existem no Brasil muitos outros sacerdotes como ele. Isso faz a força da
Igreja de Cristo. Aliás, eles cumprem uma missão recebida e esperam o prêmio
das mãos de Deus. No entanto, se um ou outro, por fraqueza humana ou outra
causa, comete faltas, logo se difunde a má notícia, não raramente complementada
com adendos inverídicos.
Antes
da celebração da Missa de Exéquias foi feita a abertura do seu testamento.
Escreve ele: "A quem me substituir, continue presente junto aos pobres e,
pelo amor de Deus, não os humilhe. Considero uma grande graça que Deus me
concedeu: ser servidor do Povo de Deus. Peço a Maria Santíssima, a
"Compadecida", que se compadeça de mim e esteja a meu lado, no
Julgamento. Amém". Assim termina o testamento, com data de 12 de setembro
de 1997.
A
Igreja Católica, em sua longa e quase bimilenar história, sobrevive pela graça
de Deus, que age em homens como Monsenhor Expedito Medeiros.
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VOZ
DO PASTOR D. Eugênio de Araújo Sales 12/05/2000 Vocações Sacerdotais
O
4º Domingo da Páscoa é conhecido como o Domingo do Bom Pastor. O trecho do
Evangelho que contém essa parábola é lido na Missa do "Dia Mundial de
Oração pelas Vocações". Este ano é o XXXVI e tem como tema "A
Eucaristia, fonte de toda a vocação e ministério na Igreja".
O Concílio Vaticano II dedicou todo um documento, o
"Optatam Totius" à questão das vocações sacerdotais. Estabelece, de
início, o princípio de que "o incentivo às vocações sacerdotais obrigação
de toda a comunidade cristã promovendo-as, sobretudo, por uma vida plenamente
cristã. Enumera aspectos concretos do cumprimento desse dever. Evidentemente,
em primeiro lugar está a família "animada pelo espírito de fé, de caridade
e piedade, tornando-se assim, como que um primeiro seminário".
("Optatam Totius", 2a). Seguem depois "as paróquias, de
cuja vida fecunda participam os próprios adolescentes" (ibidem), "Os
professores e todos quantos, de algum modo, têm a seus cuidados, a formação de
jovens, em particular as associações católicas" (ibidem). O texto conciliar
exalta a importância do testemunho do próprio sacerdote "manifestem o
máximo de zelo apostólico no fomento das vocações e por sua própria vida
humilde, operosa, levada com ânimo alegre e também com mútua caridade
sacerdotal (...) entusiasmem os adolescentes pelo sacerdócio" (ibidem).
Portanto, a comunidade cristã é responsável pela transmissão de sua fé às novas
gerações e, para isso, se torna fundamental o trabalho de recrutamento e de
formação dos seminaristas. A Igreja sabe que a vocação é algo rigorosamente pessoal.
O apelo que vem de Deus, deve encontrar, na consciência e no coração do
vocacionado grande generosidade. O jovem rico busca algo maior, mas esbarra
diante das exigências sem meias verdades da parte de Jesus. Eis um exemplo de
como a graça de Deus pode se frustrar na falta de magnanimidade. Na descoberta
de uma genuína e profunda amizade de Cristo, o jovem consegue entender o Mestre
que o chama: "Tu segue-me... Farei de ti pescador de homens" (Mc
1,17). Tanto a contribuição da comunidade como o chamamento individual na
consciência do vocacionado estão sob o influxo de um terceiro fator, e este é o
mais profundo. Por isso, Jesus admoesta aos seus: "A messe é grande, mas
poucos os operários! Pedi, pois, ao Senhor da messe que envie operários para a
sua messe" (Mt 9,36ss) Também São Paulo declara que é por Deus que ele foi
"segregado para o Evangelho" (Rm 1,1). É Jesus Cristo "por quem
recebemos a graça e a missão de pregar, para louvor do seu nome (...) entre
todos os gentios" (Rm 1,4s). Assim ele vê sua vocação como um chamado
direto da parte de Deus. "Sou o último dos apóstolos, mas pela graça de
Deus sou o que sou" (1 Cor 15,3ss).
O Santo Padre, em sua Mensagem para esse Dia Mundial,
nos adverte: "Toda vocação é dom do Pai. E como todos os dons que vêm de
Deus, chega através de muitas mediações humanas: a dos pais ou dos educadores,
dos pastores da Igreja, de quem está diretamente empenhado no ministério de
animação vocacional ou do simples fiel" (nº 4).
Em todas as turmas do último retiro espiritual do clero
do Rio de Janeiro, apresentei aos sacerdotes um pedido formal, como fruto do
Grande Jubileu: paróquia alguma sem, ao menos, um seminarista no Seminário de
São José ou em preparação, nos Grupos de Vocações de Jovens (GVJ) ou Grupos de
Vocações Adultas (GVA).
A presença de seminaristas e seu número, são sinais de
vitalidade paroquial. A ausência de candidatos ao Sacerdócio deve ser motivo de
grave interrogação sobre os métodos pastorais utilizados ou o zelo do pároco.
Sem o sacerdote, e em número suficiente, correm risco a presença da Eucaristia,
a administração de vários sacramentos, a formação dos leigos, a transmissão da
Fé, de modo conveniente.
No Dia Mundial, a Obra das Vocações Sacerdotais e o
Clube Serra, que se dedicam a essa causa, devem se sentir estimulados em seu
labor. E cada um de seus membros questionar-se sobre o trabalho realizado e a
maneira de executá-lo. O mesmo se diga de outros grupos e pessoas que,
generosamente, se consagram ao fomento de vocações e a sua manutenção no
Seminário de São José. Nossa casa de formação sacerdotal recebeu, este ano, 64
novos seminaristas, sendo que 8, no Menor, vindos dos grupos vocacionais e 56
nos Cursos de Filosofia e Teologia, vindos do Menor ou dos GVA. O número anual
de ordenações sacerdotais nesta Arquidiocese tem se elevado substancialmente.
Desde 1971, quando assumi a Arquidiocese, até nossos dias, foram ordenados 146
presbíteros para o Rio de Janeiro. O número de defecções é muito reduzido. O
Seminário está cheio, atendendo também outras dioceses.
Acolhamos dois apelos do Papa João Paulo II, em sua
Mensagem: "Cada fiel torne-se educador de vocações, sem ter receios de
propor escolhas radicais; cada comunidade compreenda a centralidade da
Eucaristia e a necessidade de ministros do Sacrifício Eucarístico; de todo o
Povo de Deus se eleve sempre mais intensa e apaixonada a oração ao Dono da
Messe, a fim de que mande operários para a sua messe. Confie essa sua súplica à
intercessão dAquela que é a Mãe do Eterno Sacerdote."
E não nos esqueçamos: "A Eucaristia é fonte de
toda a vocação e ministério na Igreja". E o Seminário é fundamental à vida
eclesial. A responsabilidade de todos os fiéis no campo vocacional, fomento das
vocações e manutenção dos seminários, casas de formação de futuros padres se
estende à santificação do clero. A santidade de vida dos presbíteros multiplica
seu número pela maior eficácia de seu trabalho pastoral.
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VOZ DO PASTOR
D. Eugênio de Araújo Sales
22/09/2000
Dominus Jesus
A Declaração "Dominus Jesus" da Congregação
para a Doutrina da Fé traz a data de 6 de agosto último. A 16 de junho, o Papa
João Paulo II havia, "Em consciência certa e com sua autoridade",
ratificado e confirmado o Documento. Está destinado a exercer grande e benéfica
influência na Igreja. Examinando a situação atual, constatamos algumas
semelhanças com as condições existentes após 35 anos da realização do 1º
Concílio Ecumênico em Nicéia, no ano 325. As diferenças entre a doutrina
autêntica e interpretações distorcidas eram tão sutis naquela época, que
sacerdotes e bispos ficavam perplexos diante da argúcia dos argumentadores em
favor da heresia, mesmo um arianismo mitigado. Buscavam atenuar as exigências
do Concílio de Nicéia. Este tratara do dogma fundamental da Fé cristã, a
verdadeira identidade de Jesus Cristo, como Filho de Deus, "Deus
verdadeiro de Deus verdadeiro". Sob a pressão do Imperador Constâncio
(337-361), muitos bispos foram forçados ou induzidos a aderir à heresia ariana,
que havia motivado a convocação do Concílio de Nicéia. O Papa Libério resistia;
o Bispo de Poitiers, Hilário, sofreu repetidos exílios. Sobre esse momento
histórico, quando muitos se adaptavam a meias-verdades e tantos fiéis sofriam,
por guardarem a Fé íntegra da grande Tradição, eis que São Jerônimo, o sábio
Doutor da Igreja, escrevia uma frase que revela a situação alarmante,
dramática: "Gemia o mundo inteiro e surpreendeu-se ao se ver
"ariano". "Ingemuit totus orbis et Arianum se esse miratus
est" (Dialogo Adversus Luciferianos, nº 19).
Hoje, o poder do Imperador é substituído por
interesses, pelo relativismo, subjetivismo, minando a reta Doutrina. Ao
apresentar o Documento, o Cardeal Ratzinger resume a gravidade do momento
atual: "Trata-se de convicções hoje já difundidas, não somente em
ambientes teológicos, mas também em setores sempre mais vastos da opinião
pública". Na atualidade, os erros, de modo sutil ou agressivo, tentam
infiltrar-se, atingindo diretamente a identidade da Pessoa de Cristo. Embora os
moderados fautores dessa subversão da Fé reconheçam que Jesus é Deus e Homem,
dizem que, por ser limitada a natureza humana de Jesus, "a revelação de
Deus (em Jesus) não pode ser considerada completa e definitiva".
"Introduz-se, assim, a idéia errada de serem as religiões do mundo complementares
à Revelação cristã". (Declaração, nº 1). Tal pressuposto atinge "o
centro e o núcleo da Fé cristã" (idem, 1.2) A partir dessa afirmativa,
Jesus não passa de uma pessoa, talvez de extraordinárias qualidades pessoais –
mas incapaz de representar Deus de modo universal e definitivo. Diz o Documento
"Dominus Jesus": "Semelhante posição está em total contradição
com as (...) afirmações da Fé (...) Suas palavras e obras e o fato histórico de
Jesus, se bem que limitados enquanto realidades humanas, têm, todavia, como
sujeito a Pessoa divina do Verbo Encarnado (...) E assim, comporta o caráter
definitivo e completo da Revelação dos caminhos salvíficos de Deus"
(ibidem, 6.2). Quem fala nas palavras humanas de Jesus, é o própria Segunda
Pessoa Divina, o Verbo. Graças a esta unidade pessoal em Jesus, do humano com o
Divino, a verdade revelada por Ele é "única, plena e completa"
(6.2;4.1)
A causa mais profunda e insidiosa dessa erosão da Fé
está no "vazio metafísico da Encarnação histórica do Logos eterno reduzido
a um simples aparecer de Deus na História" (idem 4.2). As outras grandes
religiões são, muitas vezes, a projeção de uma sublime busca de Deus pela
inteligência humana. O cristianismo, porém, não é primeiramente busca mas,
supondo-a, é a resposta do Deus encarnado. (cfr Cap I. 5-8). Esta parte do
Documento se refere mais às doutrinas e tendências oriundas do Oriente, que se
infiltraram na Igreja, através de certo nivelamento na Fé. Cristo é a única
norma para toda a obra da salvação, por isso, o trabalho missionário é
insubstituível.
Levar o Evangelho aos confins do mundo é imperativo da
Mensagem de Jesus. Somente Ele revela toda a verdade de Deus Pai. "O
perene anúncio missionário da Igreja é hoje posto em causa por teorias de
índole relativista, que pretendem justificar o pluralismo religioso, não apenas
"de fato", mas também "de direito" (4.1). O Cardeal
Ratzinger, em sua apresentação do Documento, afirmava: "Na base daquelas
concepções (relativistas), o falar em verdade universal e vinculante, é considerado
uma espécie de fundamentalismo, um atentado contra o espírito moderno" Em
seguida, Ratzinger nos faz entender que substituir a missão e a conversão pelo
diálogo, "já não é diálogo, mas ideologia do diálogo", porque fixa,
apenas, posições, todas relativas, e já não ajuda o outro a encontrar a
verdade, completa só na Revelação de Deus em Jesus Cristo Um profundo erro é
distinguir entre Jesus – em quem habitaria ocasionalmente o Verbo eterno – e o
próprio Verbo divino, que, fora da Encarnação de Jesus, continuaria agindo onde
quisesse. Assim, as missões seriam desnecessárias; o mesmo Verbo, encarnado em
Jesus, estaria, também, presente em outras culturas, religiões.
Todos nós, católicos e também os demais cristãos,
devemos dizer: "Semelhantes teses estão em profundo contraste com a Fé
cristã. Deve, de fato, crer-se firmemente na Doutrina da Fé que proclama ser
Jesus de Nazaré, filho de Maria, e só Ele, é o Filho e o Verbo do Pai"
(10.1) A sutileza dos erros expostos na Declaração "Dominus Jesus"
revela a importância do Documento e a oportunidade de sua publicação. Urge que
sejam detectados tão graves desvios e preservados os caminhos que levam a Deus,
revelados por Jesus, Salvador único e universal
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VOZ DO PASTOR
D. Eugênio de Araújo Sales
29/09/2000
Unicidade e Unidade da Igreja
Em duas
oportunidades apresentei aqui – e com todo respeito aos que pensam
diferentemente – a Doutrina da Igreja Católica. Trata-se de um direito e um
dever do Pastor. Ensinamentos alheios têm penetrado no corpo doutrinário e a
Declaração "Dominus Jesus" que tenho comentado, visa exatamente a
indicar para os católicos o discernimento entre verdade e erro.
Após expor a
unicidade e a universalidade do mistério salvífico de Jesus Cristo, vejamos o
que diz o Documento da Congregação para a Doutrina da Fé, aprovado pelo Santo
Padre, sobre a unicidade e unidade da Igreja. Esta é única. Por mais que se
fale em igrejas locais, nas diversas cidades por onde ia se espalhando a
Palavra de Deus nos primórdios da evangelização, subjaz, em todo o Novo
Testamento, que Jesus fundou uma única Igreja, que está presente nas autênticas
igrejas particulares ou locais. O Senhor Jesus, único Salvador, não formou uma
simples comunidade de discípulos, mas constituiu a Igreja como mistério
salvífico. "Ele mesmo está na Igreja e esta, nEle" (Jo 15,1ss; Gl
3.28;Ef 4,15-16). Por isso, a plenitude do mistério salvífico de Cristo está na
Igreja, unida inseparavelmente ao Senhor Jesus, que opera a salvação na Igreja
e opera nela, que é o Corpo Místico de Cristo" (cfr 1Cor 12,12ss). A
continuidade entre Jesus Cristo e a Igreja não é apenas algo externo ou
organizacional. Já o Concílio Vaticano II assim se expressa: "Esta é a
única Igreja de Jesus Cristo (...) que o nosso Salvador, depois de sua
Ressurreição, confiou a Pedro para apascentar" (Jo 21,17), encarregando-o,
a ele e aos demais apóstolos, de a difundirem e a governarem (Mt 28,18ss),
levantando-a sempre como coluna e esteio da Verdade (1Tm 3,15; "Lumen
Gentium",8). Continua o Concílio: "Esta Igreja (de Jesus) como
sociedade constituída é organizada neste mundo, subsiste na Igreja Católica,
governada pelo Sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele"
(ibidem).
O Concílio
Ecumênico e a Declaração pretendem "harmonizar duas afirmações
doutrinárias: por um lado a de que a Igreja de Cristo, não obstante as divisões
dos cristãos, continua a existir plenamente, só na Igreja Católica e, por
outro, a de que há numerosos elementos de santificação e de Verdade fora (da
estrutura visível da Igreja)" (16.3). O Documento não ultrapassa o
Vaticano II, mas quer defender aquelas verdades contra as distorções e falsas
interpretações surgidas nas décadas após o Concílio. E isto, unicamente por
fidelidade a Jesus Cristo, a cuja palavra e obra a Igreja procurou ficar fiel,
durante toda a História. O Documento não acusa as outras denominações cristãs,
mas tem o dever de dizer que Cristo fundou uma Igreja, una e única. Não
obstante os defeitos e pecados dos seus membros, apesar de tantas infidelidades
de seus integrantes, a Igreja Católica conserva inalterado o depósito da Fé, a
riqueza dos Sacramentos, na visível comunhão com os Pastores. Ela guardou, em
sua plenitude, a Obra de Cristo e a Ele, constantemente, se converte. Em meio a
sangrentas perseguições, a Igreja não foi infiel ao legado de Cristo. Os dogmas
professados mais recentemente, sempre o foram como explicitações do que já
integrava o depósito do passado.
O Documento
proclama, com grande sabedoria, que há igrejas não-católicas, como as
ortodoxas, que, embora não vivendo em perfeita comunhão com a católica" se
mantêm unidas por vínculos estreitíssimos como o são a sucessão apostólica, uma
válida Eucaristia... são verdadeiras Igrejas particulares" (17.1). O texto
continua afirmando: "Também nessas Igrejas está presente e atua a Igreja
de Cristo, embora lhes falte a plena comunhão com a Igreja Católica, enquanto
não aceitam a Doutrina Católica do Primado, que por vontade de Deus, o Bispo de
Roma objetivamente tem e exerce sobre toda a Igreja" (17,1).
Com imensa dor
e sincera estima, a Igreja vê que muitas comunidades cristãs, diferentemente
das Igrejas Ortodoxas, abandonaram parte da Doutrina e dos Sacramentos, e
perderam a certeza da verdadeira sucessão apostólica. Por isso, não podem ser
chamadas Igreja, num sentido integral e estrito. Todavia, elas, nascidas da
Reforma Protestante, possuem imensos valores cristãos. "Os que foram
batizados nestas Comunidades, estão, pelo Batismo, incorporados em Cristo e,
portanto, vivem numa certa comunhão, se bem que imperfeita, com a Igreja"
(17.2). A Igreja de Jesus Cristo não é a soma das Igrejas e comunidades
cristãs. Tampouco é lícito dizer "que a Igreja de Cristo, hoje, já não
existe em parte alguma, tornando-se, assim, o mero objeto de procura, por parte
de todas as igrejas e comunidades" (17.3). Aquelas Igrejas e Comunidades,
mesmo sem a comunhão total com a Igreja Católica, têm verdadeiro peso e valor
no mistério da salvação, pois o Espírito Santo não se recusa a servir-se delas
como instrumento de salvação, cujo valor deriva da plenitude da graça e da
verdade confiada à Igreja Católica" (17.3). Em resumo, os elementos
divinamente instituídos por Cristo, que constituem a Igreja, "existem
reunidos na sua plenitude, na Igreja Católica e, sem essa plenitude, nas demais
comunidades" (17.3).
Quanto à
salvação dos outros homens que, sem culpa, não conhecem o Cristo, a Declaração
insiste em afirmar que também eles se podem salvar. Vem do Cristo, através da
Igreja, a salvação, embora não saibamos de que maneira Deus a opera. Ela é
mistério de Deus.
Grave
advertência aos católicos: "Há que lembrar a todos os filhos da Igreja que
a grandeza de sua condição não é para atribuir aos próprios méritos, mas a uma
graça especial de Cristo; se não corresponderem a essa graça, por pensamentos,
palavras e obras, em vez de se salvarem, incorrerão num juízo mais severo
(22.1; cfr "Lumen Gentium", 14)
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VOZ DO PASTOR
D. Eugênio de
Araújo Sales
09/03/2001
Curso de
Bispos
Anualmente, a Arquidiocese do Rio de Janeiro oferece um
curso ao Episcopado Nacional. Trata-se de uma iniciativa estritamente pessoal,
como gesto fraterno de colaboração da Arquidiocese do Rio de Janeiro com os
irmãos no Episcopado. O encerrado a 9 de fevereiro último foi o XI e teve por
tema: "Igreja e Ecumenismo", exposto pelo Cardeal Walter Kasper, até
então Secretário do Pontifício Conselho pela Unidade dos Cristãos e hoje
Presidente. Ele é conhecido entre nós pelos seus livros de conteúdo teológico,
entre outros "Jesus, o Cristo" e "O Deus de Jesus Cristo".
O Bispo Angelo Scola, professor e pesquisador, Magnífico Reitor da Universidade
Lateranense, abordou aspectos fundamentais da Eclesiologia, dentro da qual se
situa um autêntico esforço ecumênico. Lançou luzes sobre o recente e oportuno
documento da Congregação para a Doutrina da Fé "Dominus Jesus". Por
ele, vê-se que a Igreja Católica, sem trair nem nivelar o divino depósito da Fé
que Jesus nos legou, abre as portas a todos os homens. Nesse contexto, o
Cardeal Dario Castrillon Hoyos, Prefeito da Congregação para o Clero, discorreu
sobre algo fundamental à nossa Igreja, no cumprimento de sua missão: o
relacionamento do bispo com o seu presbitério.
Inscreveram-se 136, entre Cardeais, Arcebispos e
Bispos. Pareceu-me oportuno trazer ao conhecimento público alguns tópicos desse
rico material. Eles interessam a toda a comunidade e aos homens de boa vontade.
O clima de grande alegria e fraternidade indicava a
oportunidade da iniciativa, que se repete com regularidade, em favor de nosso
Episcopado.
A 5 de junho do ano passado, o Pontifício Conselho para
a Promoção da Unidade dos Cristãos comemorou 40 anos de existência. Foi instituído
em 1960, como comissão preparatória ao Concílio. O Papa João XXIII, no Discurso
de Abertura do Vaticano II, a 11 de outubro de 1962, afirmou "que começava
a surgir na Igreja um dia precursor de luz esplendorosa". Para se avaliar
o longo caminho já percorrido, basta recordar o que seria absolutamente
impensável até então: a 18 de janeiro do ano 2000, cerca de 40 irmãos, vindos
de outras igrejas e comunidades eclesiais, entraram, com o Bispo de Roma, em
procissão, na Basílica de São Paulo Fora-dos-Muros. Nunca, até então, um evento
foi assinalado por tão numerosa participação de outros cristãos não-católicos.
A Porta Santa foi aberta pelo Santo Padre, acompanhado de dois enviados que
representavam o Oriente e o Ocidente cristão. Ajoelharam-se com João Paulo II
diante da Porta, isto é, de Cristo, nosso Redentor. A troca do sinal da paz foi
uma marca profética e alegre do objetivo dessa peregrinação em busca da plena
comunhão. Esse é apenas um episódio do recente Ano Santo.
Toda a Eclesiologia parte da resposta a uma pergunta:
"Quem é a Igreja?" É a comunhão de pessoas, enxertadas em Cristo,
comunhão essa que atravessa a História, tendo como ponto de partida a missão
livremente conferida e aceita. A dimensão missionária é, pois, essencial. E ao
mesmo tempo, no seu exercício, deve ser absolutamente fiel à doutrina de Jesus.
Pregar a todo mundo, tudo e somente o que veio de Cristo e foi por Ele
ensinado. Como exemplo, na obediência às raízes, não lhe é permitido admitir
mulheres à Ordem sagrada. Incumbe à Igreja preservar a pureza do que foi
comunicado pelo Senhor Jesus e transmitido através dos séculos.
A terceira parte do curso versou sobre o relacionamento
do Bispo com o seu presbitério e o dever do Pastor em cumprir seu ministério
junto a seus próvidos colaboradores, os sacerdotes, na expressão do Concílio.
Deus proporciona a seu Povo, ainda hoje, a presença eficaz de Pastores que o
congreguem, que o guiem segundo o Seu Coração que se revelou a nós plenamente
em Cristo, Bom Pastor (Exortação Apostólica "Pastores dabo vobis" nº
28). Ele nada possui para si mesmo (Lc 9,59), não persegue os próprios
interesses (Jo 13,14-16), oferece-se em resgate por nós, para livrar-nos da
morte e fazer-nos participantes da vida eterna (Jo 10,10ss). Os padres
representam seu Pastor nas comunidades dos fiéis, tomando sobre si uma parte
importante do cargo e da solicitude pastoral, exercendo-a no trabalho
cotidiano, sob a autoridade do Bispo (Ef 4,12; "Lumen Gentium", nº
28). Devemos reconhecer que Bispos e Presbíteros são homens de hoje: filhos de
uma cultura decadente, que sonha com ilusões de bem-estar, distantes de Deus,
que é o verdadeiro Bem. Daí serem as exigências da formação bem maiores para
superarem a força do ambiente malsão que os rodeia. E de uma formação continuada
que preserve a identidade do sacerdócio ministerial. Urge defender o caráter
sobrenatural e sagrado do sacerdócio.
Eis um rápido bosquejo dos temas do Curso para os
Bispos sobre "Igreja e Ecumenismo", com o objetivo de integrar os
fiéis e pessoas de boa vontade nessa iniciativa da Arquidiocese do Rio. O texto
integral das aulas virá a lume no próximo número da revista
"Communio", edição em português.
O Cardeal Dario Castrillon concluiu sua reflexão sobre
o Sacerdócio com a seguinte oração de João Paulo II (Exortação Apostólica
"Ecclesia in America" nº 76): "Protege a tua Igreja e o Sucessor
de Pedro, a quem Tu, Bom Pastor, confiaste a missão de apascentar todo o teu
rebanho (...) Ensina-nos a amar tua Mãe, Maria, como Tu mesmo a amaste. Dá-nos
força para anunciar com valentia a tua Palavra na empresa da Nova Evangelização
para corroborar a esperança do mundo".
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VOZ DO PASTOR
D. Eugênio de Araújo Sales
16/03/2001
Conferência Episcopal
A Assembléia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos
de 1985 expressou o desejo de que as Conferências Episcopais procedessem
oportunamente a uma revisão de seus estatutos. Dando andamento a essa decisão
do Sínodo, o Santo Padre João Paulo II publicou, com data de 21 de maio de
1998, a Carta Apostólica sob forma de "Motu proprio", "Apostolos
Suos", acerca da natureza teológica e jurídica das Conferências dos
Bispos. Entre as indicações do Sínodo acolhidas por "Apostolos Suos"
está o estudo aprofundado do "status" teológico e, conseqüentemente,
jurídico das Conferências Episcopais e, sobretudo, o problema de sua autoridade
doutrinal" (nº 7). Desde então, muitas Conferências em atitude de comunhão
afetiva e efetiva entre seus membros e com o Sucessor de Pedro, já fizeram a
oportuna revisão e adequação de seus estatutos, como foi indicado na Carta
Apostólica de 1998. Nossa Conferência Episcopal (CNBB) se prepara a cumprir
essa determinação e espero que consiga efetuá-lo, na próxima Assembléia Geral,
no mês de julho, com a aprovação de novos estatutos. Isso virá assegurar que a
direção das atividades da Conferência Episcopal esteja real e diretamente nas
mãos dos Bispos. Esse passo seria, sem dúvida, um imenso benefício haurido no
Grande Jubileu e no 500º aniversário da evangelização do País. Em conseqüência,
o Episcopado do Brasil poderá efetivar, com maior clareza e eficácia, a sua
missão evangelizadora e pastoral, para o bem dos fiéis e da sociedade.
Reconheço que se trata de um assunto complexo, pois na
Igreja, o elemento constitutivo, essencialmente divino, coexiste com o contexto
histórico, cujas formas humanas são revestidas de um conteúdo revelado. Diante
desta relativa complexidade do assunto, não é de admirar que pessoas retas
optem por um modelo de conferência episcopal diverso do apresentado por Cristo,
através de seu Vigário. Por exemplo, tentar exercer autoridade superior à que
Jesus concedeu a cada Bispo, legitimamente ordenado, e em comunhão com o
Sucessor de Pedro. Ou ver nas Conferências um lugar de competição entre
diversas correntes do pensamento reinante. No entanto, seu sagrado dever é
cumprir o mandato de Jesus, contribuir para a pregação do Evangelho em todo o
mundo.
O Santo Padre, em sua Carta Apostólica, deixa clara a
natureza teológica e jurídica dessas instituições. Proclama a grande utilidade
das Conferências Episcopais, ao lado da exaltação de sua importância,
especialmente em nossos dias. Aborda o árduo problema que é a relação da
Conferência com a jurisdição de cada Bispo e destes com o Sucessor de Pedro.
Jesus instituiu, como autoridade suprema na Igreja, o
Colégio Universal dos Bispos com o Papa e sob Pedro e seus Sucessores. Elegeu
doze homens e os constituiu "um colégio ou grupo estável e deu-lhes como
chefe Pedro, escolhido entre eles" ("Apostolos Suos", nº 1). A
autoridade dos Doze não é fruto de uma soma, mas expressão da unidade da Igreja
de Cristo. Assim, dois ou três dentre eles não agiriam em nome do Colégio, mas
apenas por sua própria responsabilidade. Por isso Paulo e os seus julgam
necessário ir até Jerusalém, para se encontrarem com o Colégio dos Apóstolos e
Pedro. (Atos, 15,2).
O documento "Apostolos Suos" (12,2) nos diz:
"A Igreja universal não pode ser concebida como a soma das Igrejas
particulares, nem como uma federação das mesmas (...) De igual modo, também, o
Colégio Episcopal não há de ser considerado como a soma dos Bispos postos à
frente das Igrejas particulares (...) mas enquanto constituiu elemento
essencial da Igreja universal, é uma realidade prévia ao múnus de presidência
da Igreja particular (AS, idem). Com efeito, o poder do Colégio Episcopal sobre
toda a Igreja não é constituído pela soma dos poderes que os diversos Bispos
detêm sobre suas Igrejas particulares" (AS idem).
Dessa forma, a Conferência dos Bispos, por mais
importante que possa ser no plano pastoral, disciplinar e também doutrinal, de
per si, não tem autoridade colegial, parcela do único Colégio Episcopal com o
Papa. Ela age apenas como poder individual de cada um dos Bispos participantes.
Só se suas decisões tiverem o consenso unânime de todo o Episcopado
participante, os fiéis da respectiva região estarão obrigados a obedecer, por
uma opção de fé, seguindo as orientações de seu próprio Bispo, se ele vive em
comunhão com o Santo Padre.
A Conferência não é nem uma instância superior a cada
Bispo, nem uma instância intermediária entre cada Bispo e o Papa ou o Colégio
Universal. Por isso, diz o Papa: "Não existe uma ação colegial igual a
nível de cada Igreja particular, nem dos seus agrupamentos (AS 10,1). O Bispo
diocesano apascenta, em nome do Senhor, o rebanho que lhe está confiado como
seu Pastor próprio, ordinário, imediato e sua ação é estritamente pessoal, não
colegial, embora animado pelo espírito de comunhão’ (AS 10,1). Continua o Papa,
com a mesma clareza: "A nível de agrupamento de Igrejas particulares por
zonas geográficas (nação, região), os Bispos que as presidem, ao exercerem
conjuntamente o seu serviço pastoral, não o fazem com atos colegiais iguais aos
do Colégio Episcopal" (AS 10.2).
Essas precisões doutrinárias não diminuem o valor
insubstituível, até certo ponto, das Conferências Episcopais, que é fortemente
acentuada pelo Papa.
O aperfeiçoamento dos estatutos, adaptados segundo as
diretrizes do Sínodo de 1985 e de "Apostolos suos", será de grande
importância para a vida católica em nosso País. Todos nós, Bispos, somos
convocados para, à luz da Fé, contribuir para esse dever com a Igreja no
Brasil.