GLOBALIZAÇÃO, RELIGIÕES E IGREJA
(esquema de palestra para seminaristas,
2004)
por Pe.
Francisco Faus
1. Que há por trás do ataque à "Paixão de Cristo"?
1.1 Os inúmeros ataques – inconsistentes – alegavam
protestar contra o anti-semitismo e a violência do filme:
– O anti-semitismo: na
realidade, o que havia na crítica era a tentativa, já antiga, de pôr um véu à
História, de toldar a Verdade, e dizer que tudo fizeram os romanos. Todo o
Evangelho e toda a História desmentem essa falsificação dos fatos;
– A violência: a que aparece no filme é até
menor do que a que descrevem fontes pagãs anteriores, contemporâneas e
posteriores a Cristo (Cícero, Tácito, etc.) sobre os tormentos da flagelação, a
crucifixão, etc. Leiam-se, por exemplo, as Vidas de Cristo de Fillion e
Ricciotti. Por outro lado, já foi dito e repetido que ninguém reclama de
inúmeros filmes dez vezes mais violentos que esse
1. 2 Esses são os pretextos, os "motivos aparentes" da rejeição do filme, os disfarces
hipócritas do ódio inegável, desencadeado no mundo contra o filme de Mel
Gibson.
Chega-se ao extremo do ridículo e do
sectarismo, por ex., no caso o de um jornal de grande circulação da capital
paulista, que deu ao filme a qualificação de uma só estrela (sobre cinco)! O público, consultado pelo mesmo jornal,
deu-lhe quatro estrelas (contando a média entre os que gostaram e os que o
denegriram). Na realidade, os autênticos críticos, especialistas em cinema,
falaram todos do filme como de uma obra prima, um filme antológico, quer pela
categoria da filmagem, quer pela representação dos atores, o primor da
montagem, da música, de plástica, etc; em suma e sem exagero, um dos filmes de
maior categoria cinematográfica de todos os tempos.
1. 3 Pois bem, perante isso tudo, surge a grande questão. Por que
esse sectarismo, por que esse ódio e essa mentira apaixonados? Não é nem
por motivos de repúdio de um inexistente anti-semitismo nem de repúdio da
violência (não nos cansaríamos de repetir que a mídia serve-nos violência
diária em fotos de jornais e revistas ou em reportagens ou programas
televisivos, que revolvem o estômago, ...e tudo em nome da
"objetividade", do jornalismo-verdade, do dever de cingir-se aos
fatos).
Eis o autêntico PORQUÊ, de que
ninguém fala: – O filme apresenta a
verdade da Paixão e Morte de Cristo: Foi ele que tomou sobre si as
nossas enfermidades e carregou com as nossas dores [as que nós devíamos
padecer!]; e nós o reputávamos como um leproso, ferido por Deus e humilhado.
Mas por nossas iniqüidades é que foi ferido, por nossos pecados é que
foi torturado. O castigo que nos havia de trazer a paz caiu sobre ele, e por
suas chagas fomos curados (Is 53, 4-5). O fato de – desde que filme se inicia – pôr em primeiro plano a realidade do pecado – a sua gravidade e as suas conseqüências – ,
e a necessidade da Salvação, a clareza
com que se patenteia o sentido expiatório e redentor da Morte de Cristo, tudo
isso é algo que arrepia os ânimos do hedonista pós-moderno, para quem o pecado
não existe, "não pode existir", não faz sentido, pois somos
absolutamente livres, de modo que tudo é lícito – "é proibido
proibir" –, dentro do equilíbrio
de egoísmos concertados, ou seja, desde que dê prazer a qualquer custo e por
qualquer meio, sempre que não incomode o mesmo tipo de prazeres do vizinho
(ainda que, para isso, seja preciso matar milhões de inocentes que não se podem
defender!)
Mas o que ninguém que conheça a
Sagrada Escritura pode negar, a não ser mentindo descaradamente [ou seja,
"ideologicamente!"], é que o Novo Testamento revela sem ambigüidades,
com evidências incontestáveis, é que Cristo morreu pelos nossos pecados.
É uma verdade da fé cristã que São Paulo considerava tão básica, tão
fundamental, que dizia aos de Corinto: Transmiti-vos, em primeiro lugar,
o que eu mesmo havia recebido: que Cristo morreu pelos nossos
pecados... (1 Cor 15,1).
É
inegável. Esta verdade é proclamada constantemente no Novo Testamento, desde o
cap. 1º de São Mateus (o Anjo a José: Ela dará a luz um filho, a quem porás
o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados: Mt 1, 21),
até o Apocalipse (Jesus Cristo..., aquele que nos ama, que nos lavou dos
nossos pecados no seu sangue: Apoc 1, 5), passando pelo testemunho do
Batista (Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo: Jo 1, 29) e
pelo testemunho reiterado do próprio Cristo (o Filho do homem veio... dar a
sua vida em resgate por uma multidão: Mt 20, 28; Isto é o meu sangue, o
sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens em remissão dos pecados:
Mt 26,28); é uma verdade que perpassa, com inúmeras referências, os Atos e
todas as Epístolas, até o máximo aprofundamento na Carta aos Hebreus [que os
"exegetas" deveriam lembrar que é texto inspirado, "Palavra de
Deus", e não "elaboração teológica" – como alguns gostam de
dizer, para virar a folha – meramente
circunstancial ou humana]. Portanto, negar essa verdade primária, básica,
sabida e crida desde sempre pela
Igreja, por todos os cristãos, ao longo de dois mil anos, e atestada sem cessar
por toda a Tradição e o Magistério, equivale a negar a fé cristã, a apostatar
da fé cristã. Aqui não cabem interpretações válidas que anulem esse sentido ou
o mitiguem. Neste mesmo sentido, dá muita pena a exasperação que produziu a Encíclica
"Ecclesia de Eucharistia", entre alguns "teólogos" e
"pastores", porque realça a essência da Missa como re-apresentação
incruenta do sacrifício expiatório de Cristo.
1.4 Eis, pois, o que o mundo não pode
suportar, e o que bom número de cristãos que dobram diariamente o joelho
diante do Baal-do-mundo preferem esquecer. Prestando seu tributo servil ao
mundanismo atual, desejam apagar as verdades da fé e da moral cristã, e
reinterpretá-las com ideologias aparentemente "sábias", até as
esvaziarem.
1.5 Todos sabemos que as Encíclicas Veritatis
Splendor e Evangelium Vitae, a Exortação Apostólica Reconciliatio
et Paenitentia, a Instrução Donum Vitae, o Catecismo da Igreja
Católica, na sua Terceira Parte, etc, revelam a grande preocupação de João
Paulo II por defender a verdade da lei divina natural e da lei evangélica,
em matéria moral, em todo o seu esplendor, grandeza e beleza, pois dessa
"verdade sobre o homem", inseparável da "verdade sobre
Deus", depende – sem exagero algum – o bem presente e futuro da
humanidade.
1.6 Essa preocupação do Papa, que deve ser
também a nossa, prende-se ultimamente, com especial força a uma questão que
envolve doutrina – difusão de erros doutrinais – , mas sobretudo
envolve uma questão de fato, um fato que representa um autêntico perigo
para o mundo e para a Igreja: trata-se de uma campanha mundial,
poderosíssima, dirigida especificamente contra a verdade moral natural e cristã
e, a fim de atingi-la melhor, contra a fé católica . Vamos começar por essa
campanha, e perceberemos que não estamos caindo ingenuamente em nenhuma
"teoria da conspiração" um tanto neurótica e obsessiva, mas
simplesmente abrindo os olhos a uma realidade palpável.
2. O
globalismo e a religião
2.1
Até agora, a ONU e os organismos internacionais só se referiam à
religião para falar do respeito devido ao princípio de liberdade religiosa,
que figura como um dos "direitos fundamentais" na Declaração dos
Direitos Humanos de 1948. De uns decênios para cá, este ângulo está mudando
substancialmente, e a religião passa a ser vista como uma
"preocupação", um "perigo", tanto pela a ONU como pelos
organismos a ela ligados.
2.2
É interessante conhecer, neste sentido, a conferência pronunciada no ano
2000 pelo Pe. Michel Schooyans, membro da Pontifícia Academia das Ciências
Sociais e Consultor do Pontifício Conselho para a Família, como parte de um
Colóquio sobre a Globalização, promovido no Vaticano pelo Pontifício Conselho
para a Família, de 27 a 29 de novembro de 2000. Um resumo da conferência foi
publicado no n. 469 (Junho 2001), págs. 277 a 286, da revista Pergunte e
Responderemos (www.osb.org.br).
2.3 O autor denuncia a ONU pelo seu
projeto de globalização, que pretende chegar a instaurar, num futuro próximo,
um Super-Estado com seu governo mundial e suas leis. Estas, ao invés de seguir
os princípios da lei natural (pressupostos tacitamente na Declaração dos
Direitos Humanos promulgada pela ONU em 1948), se baseariam exclusivamente na
vontade dos legisladores, no simples e mero consenso, sem nenhum
princípio moral básico inviolável, que possa servir de fundamento, orientação
ou limite. Além do mais, esse Super-Estado teria direito de ingerência em
cada nação do mundo, fazendo de tudo para impor as suas novas "normas
éticas", pelo sistema de forçar os Estados – alegando exigências e praxe do direito internacional: mediante
sanções, ou exercendo coação com ameaças comerciais, etc.– a assinar acordos, a subscrever declarações
de princípios, a aceitar "Cartas de princípios" diversas, que
sacramentem os novos "valores".
"A globalização – diz o Pe.
Schooyans, expondo essa nova posição da ONU – deve ser reinterpretada à luz de
uma nova visão do mundo e do lugar do homem no mundo". Essa nova visão
apresenta uma perspectiva totalmente materialista do ser humano, que seria
apenas "um avatar da evolução da matéria" [o que significa que fica
eliminado um Deus Criador, que tenha querido e criado o homem, que lhe tenha
dado um sentido e uma finalidade, uma missão na terra, e uma Lei pela qual se
guiar para um destino eterno]; a vida humana não passaria de uma conjunção cega
de acasos da matéria, que veio a se tornar consciente sobre si mesma e sobre a
sua caducidade, pois seria apenas destinada a "desaparecer na Mãe-Terra,
de onde nasceu". [prestem atenção: "Terra"="Gaia": uma
palavra-chave da nova divindade da New Age]
2.4
Expressão deste pensamento dos que manipulam os cordéis da ONU e de seus
organismos é a Carta da Terra, que a ONU vem preparando há tempo (pode
ser achada na Internet), com o intuito de que suplante a antiga Declaração dos
Direitos do Homem e jogue no cesto do lixo, como obsoleto, o próprio Decálogo,
os Dez Mandamentos: "Formaremos uma sociedade global para cuidarmos da
Terra e cuidarmos uns dos outros... Precisamos com urgência de uma visão
compartilhada a respeito dos valores de base" .Gravem bem que hoje
essas pessoas estão mudando radicalmente o sentido da palavra
"valor": nenhum "valor" é considerado permanente,
"valor" só significaria o que "a maioria valoriza" (vejam a
passagem de algo objetivo – um valor ou princípio permanentemente válido – ao
puro subjetivismo do que "agora" a maioria deseja, e por isso lhe dá
"valor"): se o novo valor é a maconha, será a maconha; se é o aborto,
o aborto; se é o casamento homossexual, o casamento homossexual, etc; e, então,
seria um "contra-valor"
condenável tudo o que se opusesse à mentalidade dominante em certo momento
histórico: por exemplo, seria um crime "moral" intolerável valorizar
a família, se os novos "valores" a desprezam e substituem pelas
uniões mais bizarras. Querem criar, pois, chegando a um acordo de interesses,
novos "valores de base", que – como dizem – ofereçam um fundamento ético (?!) à comunidade mundial
emergente...".
2.5
Comenta ainda Schooyans que, para alcançar essa visão holística
[totalitária] do globalismo, alguns "obstáculos" devem ser
aplainados. "As religiões em geral, em primeiro lugar a religião
católica, figuram entre os obstáculos que se devem neutralizar". Com este
objetivo, em setembro de 2000 foi organizada a Cúpula de líderes espirituais
e religiosos, a fim de lançar a "Iniciativa Unida das Religiões",
fortemente influenciada pela New Age, e que visa, em último termo, a
criação de uma nova religião mundial única, o que implicaria imediatamente a
proibição de que qualquer outra religião fosse missionária, fizesse
proselitismo. (Poucos sabem que foi por ocasião dessa reunião que a Congregação
para a Doutrina da Fé publicou a Instrução Dominus Iesus: e é significativo
que os mesmos "teólogos" que aderiram há anos de corpo e alma ao
marxismo, quando o comunismo estava na crista histórica da onda, agora estejam
aderindo à New Age e a toda essa mentalidade de pseudoecumenismo nebuloso e
antidogmático, crivando de críticas ásperas o Papa, o Card. Ratzinger, etc.,
por ter publicado esse documento).
2.6. Ainda em 2000, Kofi Annan
propugnava um Pacto Mundial ("Global Compact"), que angariaria o
apoio moral e financeiro de entidades privadas (já o recebeu da Shell, CNN,
Bill Gates, etc.). Tudo isso se encaminha para desativar e substituir a
Declaração de 1948. Em 1948 desejava-se que a ordem mundial se fundasse
sobre verdades, sobre princípios indiscutíveis, reconhecidos por
todos e promovidos pelas legislações dos estados (na realidade, eram os
princípios básicos imutáveis da lei natural); agora – como já víamos – só se fala em valores, absolutamente
relativos, e dominados pelo egoísmo de um mundo agnóstico, relativista e
hedonista.
2.7
Segundo essa nova visão da ONU, "o homem – comenta Schooyans –
, por ser pura matéria, é
definitivamente incapaz de dizer seja lá o que for de verdadeiro sobre
ele mesmo ou sobre o sentido da vida. Fica, assim, reduzido ao agnosticismo
de princípios, ao ceticismo e ao relativismo moral. Os porquês
não tem sentido; só importam os como". O que "se pode
fazer" em matéria ética ("posso", "não posso"), sempre
significou o que era lícito ou não perante a lei de Deus, perante os princípios
morais intocáveis; agora, pelo contrário, quer dizer "o que se pode
fazer tecnicamente" (p.e., clonar, manipular embriões humanos para
obter soluções para terceiros, abortar filhos que exigiriam sacrifício dos
pais, etc.), ou seja, que se "podem fazer" as maiores aberrações,
porque "já há técnica" para isso, bastando para cohonestar essas
aberrações que se consiga o consenso dos que manipulam como
proprietários – pelo poder da mídia, da política e, sobretuso, do dinheiro – os
organismos internacionais e a opinião pública.
Dentro dessa visão, é natural que se propugne que, de agora
em diante, os direitos do homem sejam apenas o resultado de procedimentos
consensuais. Não sendo capazes de verdades, devemos só entrar em acordos
e decidir. Será justo o que for aprovado por maioria. Esses
procedimentos consensuais serão, logicamente, mutáveis, poderão ser mudados e
redefinidos ilimitadamente. Daqui em
diante, qualquer coisa poderá ser apresentada [e imposta, até coercitivamente,
como exigência do direito internacional] como "novo direito" do
homem: direito a uniões sexuais diversas, ao repúdio, aos lares monoparentais,
à eutanásia, ao infanticídio, à eliminação dos deficientes físicos, às
manipulações genéticas com fetos ou inválidos, etc. Estamos presenciando a
tentativa de fazer triunfar a "vontade de poder" de Nietsche; e
parece que ninguém repara que essa multidão "neo-liberal" e
"iluminista" [que faz "paradas" enormes] tem como
"precursor" – eu diria, já, como "padroeiro", nada menos
que Adolf Hitler.
2.8
Nas assembléias internacionais, os funcionários da ONU tudo fazem para
chegar ao "consenso" que já foi definido previamente por eles nos
documentos preparatórios. Uma vez conseguido esse consenso (mesmo que seja,
como já aconteceu mais de uma vez, "modificando" depois nos gabinetes
as conclusões aprovadas), ele é invocado para fazer com que se adotem convenções
internacionais, que deverão adquirir força de lei nos Estados que as
ratifiquem (e se não o fazem, serão mal vistos na comunidade internacional,
além de sofrer as sanções de que falávamos). Todos, indivíduos ou Estados,
deverão obedecer à norma fundamental surgida da vontade daqueles
que definem o direito internacional. Esse direito internacional puramente
positivo, livre de toda a referência à Declaração de 1948, será (já está
sendo) o instrumento utilizado pela ONU para impor ao mundo a visão da
globalização que lhe permita colocar-se como Super-Estado". É parente que
por esse caminho já está andando a União Européia. Assim, a própria ONU
"entronizaria o pensamento único, holístico" (uma autêntica ditadura
ideológica, que eliminaria o pluralismo e a tão badalada tolerância dos
neo-liberais..., e qualificaria de "intolerantes inaceitáveis", que
devem ser banidos da vida publica – como já está acontecendo – os que, simplesmente, tivessem convicções diferentes
dos "valores" deles). Este é o resumo, glosado, do artigo de
Schooyans.
Depois disso, por favor, caros
seminaristas, não leiam superficialmente as notícias, artigos, editoriais e
ensaios de jornais e revistas, e as opiniões de filósofos, sociólogos ou
teólogos "holísticos" sobre problemas éticos de candente atualidade.
A partir de agora, prestem mais atenção ao noticiário internacional, às
referências a congressos vinculados à ONU, a algumas declarações ou documentos
muito badalados de organismos internacionais, etc. Vocês vão começar a
"ver", surpreendidos, muitas coisas que antes não percebiam, e vão
calibrar a carga destrutiva da fé e da moral cristã que idéias ou programas
aparentemente inocentes e até poéticos (temas ecológicos, p.e.) carregam muitas
vezes no seu bojo.
3. A coragem e
a fidelidade do Magistério autêntico da Igreja
3.1
Lembremo-nos de que essa problemática moral – com idéias relativistas
análogas às que acabamos de considerar – já existia nos tempos da crise do pós-Concílio,
e que explodiu após a Humanae Vitae, com o bombardeio de críticas e
revisões de teólogos inconformados, e continua a ser pensamento dominante em
muitos ambientes eclesiásticos (unido ao falso ecumenismo, às tentativas de
acabar com o verdadeiro sentido das "Missões", à revolução
"permanente" da teologia moral, à visão relativista e historicista do
mundo e da Igreja próprias da teologia da libertação, às novas escolas de
teologia moral, como o conseqüencialismo, o proporcionalismo, a doutrina da
opção fundamental, etc.).
3.2
À vista dessa realidade, ganha especial relevo o esforço ingente, lúcido
e corajoso, do Santo Padre e dos seus colaboradores mais fiéis, por defender,
aprofundar, insistir, expor com a máxima clareza as verdades da fé e da moral
cristã, ainda que suscitem críticas, ódios e hostilidades nos ambientes
laicistas e em muitos ambientes eclesiásticos.
3.3
Mas o Sucessor de Pedro não pode fechar os olhos para uma realidade: o relativismo,
o subjetivismo e, em boa parte o hedonismo, passaram a dominar
amplos setores da teologia moral católica (que de católica já só prece
conservar o nome), e faz anos que estão causando enorme desorientação e dano
moral e espiritual no clero – mal formado –
e nos fiéis.
3.4
Não é possível, nesta palestra –
que já está longa demais –
deter-nos no estudo detalhado desta problemática, que é abordada em
profundidade na Parte III do Catecismo da Igreja Católica e, especialmente, nas
Encíclicas Veritatis Splendor e Evangelium Vitae. Baste, por ora,
frisar a valente insistência do Magistério pontifício no tema dos atos
"intrinsecamente maus", que nenhuma finalidade boa, nenhum
"teleologismo", nenhum cálculo de valores positivos e negativos,
feito nos parâmetros do "proporcionalismo" e do "conseqüencialismo"
ou da "opção fundamental" podem justificar e tornar bons ou
moralmente inócuos.
"Os
preceitos morais negativos (da Lei de Deus) – lemos na Encíclica Evangelium
Vitae, n. 75 –, isto é, aqueles que declaram moralmente inaceitável a
escolha de determinada ação, têm um valor absoluto para a liberdade humana: valem sempre e em todas as circunstâncias sem
exceção. Indicam que a escolha de determinado comportamento é radicalmente
incompatível com o amor de Deus e com a dignidade da pessoa humana, criada à
sua imagem [...]". “Já neste
sentido, os preceitos morais negativos têm uma função positiva importantíssima:
o «não» que exigem incondicionalmente aponta o limite intransponível abaixo do
qual o homem livre não pode descer, e simultaneamente indica o mínimo que ele
deve respeitar e do qual deve partir para pronunciar inumeráveis «sins»,
capazes de cobrir progressivamente todo o horizonte do bem, em cada um
dos seus âmbitos”.
3.5
Há atos que a tradição da Igreja chama "intrinsecamente maus",
que,como diz também a Veritatis Splendor (n. 80), "são maus sempre
e por si mesmos, ou seja, pelo próprio objeto, independentemente das
posteriores intenções de quem age e das circunstâncias". A Encíclica cita, a seguir, o Concílio
Vaticano II que, na Gaudium et spes (n. 27) exemplifica, e fala que são
atos desse tipo "tudo quanto se opõe à vida , como seja toda a espécie de
homicídio, genocídio, aborto, eutanásia e suicídio voluntário; tudo o que viola
a integridade da pessoa humana... ; as condições degradantes de trabalho...
Todas estas coisas ofendem gravemente o Criador".
3.6
A moral proporcionalista, conseqüencialista, de atitudes, de opção
fundamental, etc, admite que muitos desses atos possam ser lícitos num
contexto determinado, em que – no balanço
de "bens" – prevaleçam
valores julgados superiores (quase sempre com critérios racionais apenas
técnicos, utilitarista e humano, não sobrenaturais). Isto, por mais sutis e
complicados que sejam esses autores ao defender-se das críticas, é a porta escancarada
ao relativismo total, e não estranha que leve a posições análogas, se não
iguais, às posições dos organismos materialistas da ONU de que acima falávamos.
Sem pretendê-lo (é preciso pensar assim), esses teólogos e professores de
seminário se alinham nas mesmas fileiras dos que se propõem acabar com a Igreja
Católica.
3.7
Por isso, impõe-se, como um dever grave, aos seminaristas e aos padres
(e, logicamente, aos bispos, aos teólogos, aos reitores e professores de
seminários, etc.) procurar os fundamentos e as respostas às questões morais
contemporâneas nas fontes da Verdade, e concretamente:
3.8 A) na
Sagrada Escritura, especialmente no Novo Testamento, tendo presentes as
palavras claríssimas de Cristo:
"Não penseis que vim revogar a lei e os profetas. Não vim
revogá-los, mas dar-lhes pleno cumprimento" (Mt 5, 17). Não é por acaso
que, tanto o Catecismo da Igreja, como a Veritatis Splendor, para
focalizar a Moral com ótica plenamente cristã, tomem como ponto de partida o
diálogo de Cristo com o jovem rico: –
"Que devo fazer de bom para alcançar a vida eterna?". E
a resposta de Cristo: "...se queres entrar na vida eterna, cumpre os
mandamentos". – "Quais?" . A resposta imediata de
Jesus é uma remissão aos Dez Mandamentos, válidos em toda a época e em
todo o lugar – "Não matarás; não
cometerás adultério; não roubarás; não levantarás falso testemunho; honra teu
pai e tua mãe; e ainda, amarás a teu próximo como a ti mesmo" (Mt 19, 16
ss).
Esse ensinamento, taxativo e básico – a primeira
exigência moral que Cristo indica (pois o cume é a caridade) – , prova que outras palavras de Cristo e dos
Apóstolos sobre pecados diretamente relacionados com os Dez Mandamentos não são
circunstanciais, nem "pré-morais", nem relativas a uma determinada
cultura, a um ambiente histórico ou a uma mentalidade de outras eras, mas verdades
permanentes, que exprimem a Vontade de Deus, que é o bem e a salvação do homem.
Exemplos: è"O que sai do homem, é isso que o torna impuro. Com
efeito, é de dentro, do coração dos homens,
que saem as intenções malignas: imoralidade sexual, roubos, homicídios,
adultérios, ambições desmedidas, perversidades, fraude, devassidão, inveja,
calúnia, orgulho, insensatez. Todas essas coisas saem de dentro do homem e o
tornam impuro" (Mc 7, 21-23).
è "Não vos iludais: nem os impudicos [excelentes exegetas
incluem entre esses pecados a masturbação], nem os idólatras, nem os adúlteros,
nem os depravados, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os
avarentos, nem os bêbados, nem os injuriosos possuirão o Reino de Deus" (1
Cor 6, 9-10).
è Ver também, Rom 1, 24-32, talvez as palavras mais enérgicas
e fortes do Novo Testamento sobre a Moral.
É natural que, de acordo com a Revelação
divina, a Igreja (fiel ao Evangelho, e imunizada pelo Espírito Santo contra a
falsidade das ideologias), diga, no n. 1968 do Catecismo da Igreja Católica:
"A Lei evangélica dá pleno cumprimento aos mandamentos da Lei. O
Sermão do Senhor [Sermão da montanha], longe de abolir ou desvalorizar as
prescrições morais da Lei Antiga, delas haure virtualidades ocultas, faz surgir
novas exigências e revela sua verdade divina e humana".
3.9 B) Junto da Sagrada Escritura, temos no Magistério
autêntico e universal da Igreja, da verdadeira "Igreja de Deus vivo,
coluna e fundamento da Verdade" (1 Tim 3, 15), a outra fonte da Verdade
moral, haurida do Evangelho.
èNão é por acaso que o Magistério insiste tanto, nos seus
documentos, em que "Deus, que é o único bom(cf Mt 19, 17), conhece
perfeitamente o que é bom para o homem e, devido, ao seu mesmo amor, o propõe
nos mandamentos" (Veritatis Splendor, n. 35).
è Não é por acaso a afirmação rotunda do Catecismo da
Igreja, n. 1958: " A lei natural [que se resume e expressa nos Dez
Mandamentos] é imutável e permanente através das variações da história;
ela subsiste sob o fluxo das idéias e dos costumes e constitui a base para o
seu progresso". E, no n. 1859: ..." a lei natural fornece os
fundamentos sólidos sobre os quais pode o homem construir o edifício das regras
morais que orientarão as suas opções. Ela assenta igualmente a base moral
indispensável para a construção da comunidade dos homens. Proporciona, enfim, a
base necessária à lei civil que se relaciona com ela...".
è E ainda esclarece, como o faz São Paulo (cf Rom 8, 2-4),
que o Decálogo, assumido plenamente e "completado até à perfeição"
por Cristo, "é um caminho de vida" (Cat. Ig. Cat., n. 2057), que
agora é também denominado lei de amor, porque leva a agir pelo amor
infundido pelo Espírito Santo, e não pelo temor (Cat. Ig. Cat., n. 1972). Cf.
Mt 22,37-40 e Rom 13, 9-10.
3.10 Em suma, depois dessas considerações,
parece-me que vale a pena que gravemos na nossa alma a imensa responsabilidade
que os seminaristas (e os sacerdotes, na sua formação permanente) têm – temos – de aprofundar incansavelmente nos
ensinamentos do Magistério autêntico e universal da Igreja. Num mundo confuso,
em que parece dominar cada vez mais o "Pai da mentira" (releia-se Jo 8, 44 ss.), numa época histórica em que
são tão extensos os âmbitos eclesiais confusos, desgarrados da comunhão
doutrinal com a Cabeça visível da Igreja e difusores de erros; num mundo,
enfim, materializado e doente de
hedonismo e consumismo, em que é tão fácil "dobrar o joelho diante de
Baal" (da opinião pública, das ideologias e "valores" da moda,
dos erros "prestigiados" pela mídia), os que têm o privilégio divino
de serem chamados para servir como "instrumentos vivos" a Cristo e à
Igreja, sendo "luz do mundo" e espelho do Evangelho, têm que se
esforçar (heroicamente, se for preciso) para manter um estudo contínuo, cada
vez mais profundo, da Verdade, bebendo-a abundantemente nas suas fontes limpas,
garantidas pela chancela do Magistério autêntico e universal, e, por isso, pelo
"selo de garantia" do Espírito Santo. Convençamo-nos de que disso,
sem exagero, depende em boa parte o bem do mundo, o bem futuro da Igreja e da
humanidade.
*****