Islã, Cristandade e pensamento moderno
Dr. Rafael Vitola
Brodbeck - advogado
O radicalismo islâmico é considerado, hodiernamente, o capital
inimigo da modernidade, por considerá-la herança e conseqüência da civilização
cristã, quando, entretanto, esta, cujo apogeu encontra-se no Medievo, é exatamente
o oposto daquela.
Antepõem-se os ícones da modernidade aos valores da Cristandade.
Os modernos, sabe-se bem, cultuam o igualitarismo,
em seus variados matizes, o laicismo, a técnica, a fraternidade sem referência
a Deus, a moral relativizada por uma falsa antropologia,
o mercado desvinculado da ética, o nacionalismo, o Estado ora liberal oral
totalitário, o dogma racionalista, o positivismo jurídico, o historicismo. Na mente dos pensadores católicos, por sua vez,
desde a contra-revolução da Vendéia, passando pelos
cristeros do México, pelos mártires da Guerra Civil
Espanhola, e pelos intelectuais do calibre de um Joseph de Maistre, de um Donoso Cortés e de
um Gustavo Corção, estão uma concepção sacral de mundo, a desigualdade harmônica - contrária ao igualitarismo
e à desigualdade injusta -, o progresso aliado à tradição, o Estado subsidiário,
a solidariedade evangélica, o patriotismo temperado pelo universalismo medieval,
o jusnaturalismo escolástico, a fé unida à razão,
a verdade absoluta cognoscível, a economia responsável.
Colocar-se contra o radicalismo islâmico não é referendar
os pressupostos da modernidade. Por outro lado, rejeitar a modernidade, e
a filosofia liberal que a sustenta, não significa, tampouco, defender o radicalismo
islâmico ou as ideologias totalitárias que a ela aparentemente se opuseram
no século XX - nazismo e comunismo. Esses últimos, aliás, mais do que inimigos
da modernidade, foram seus herdeiros: em uma análise mais profunda, nazismo,
fascismo, comunismo e socialismo, ainda que lutando entre si e contra alguns
pontos do pensamento moderno, deste tornaram-se os
grandes realizadores em sua premissa maior, qual a seja relativização da moral
e a construção da verdade subjetiva. Conforme Paul Hazard
e Ortega y Gasset, os totalitarismos não atacaram
a modernidade em si - até porque, como vemos, dela parte a matriz filosófica
de suas doutrinas -, mas o que nela ainda não tinha sido destruído de cultura
cristã. O alvo dos comunistas e nazistas, como dos fanáticos muçulmanos, não
é a modernidade, e sim os poucos valores cristãos que nela subsistem. Totalitários
e terroristas, na verdade, almejam aniquilar não a modernidade pela modernidade,
mas esta por causa dos resquícios de cristianismo; pretendem executor o ethos cristão
ocidental, aquilo que a própria modernidade queria, mas não conseguiu fazer,
o que gerou a incorporação de traços da Cristandade por esta.
O Estado e a cultura modernos começam a delinear-se com os
filósofos racionalistas. Penetrando as idéias igualitárias e liberais na mente
dos governantes, pela ação dos inimigos da Igreja, uma primeira providência
para destruir a ordem social cristã foi a redescoberta de alguns contra-valores, já tempos felizmente sepultados, presentes
na cultura greco-romana, por ocasião da Renascença.
Com efeito, apresentou-se como pretexto para o Renascimento
a revalorização da cultura clássica. Note-se que o motivo é descaradamente mentiroso. Muitos de boa-fé, concedemos, estavam
realmente interessados na promoção das artes. Todavia, a cultura clássica
nunca esteve morta na Idade Média, como falsamente alardeavam os renascentistas.
Pelo contrário, a filosofia, a arte, a literatura, o Direito, a estética do
Medievo foram moldadas no classicismo - iluminado pela fé cristã. De Roma
e da Grécia mantiveram os bárbaros invasores costumes e instituições, e os
medievais não cessaram de promovê-los.
O que, realmente, da Hélade e da
România, não permaneceu foram certos institutos e hábitos incoerentes em face
do cristianismo que triunfou e sabiamente governou a Idade Média. Podemos
dizer que os valores positivos greco-romanos permaneceram, ao passo em que
os negativos foram logicamente postos de lado, por sua evidente incompatibilidade
com a doutrina de Cristo.
Em nome da ressurreição da cultura clássica - que, vimos,
não morreu na Idade Média, o que torna absurdo qualquer "renascimento"
(só renasce quem morreu) -, a Renascença fez voltar, isso sim, os contra-valores.
O que era bom no classicismo não pereceu no Medievo, ao contrário do que alegam
os renascentistas. Tal perecimento inexistente foi criado por mentes perversas
para, sob esta mentirosa alegação, revitalizar o que de ruim já tinha sido
morto pelo cristianismo. Percebe-se, nisso, a "coincidência" histórica:
no Renascimento apareceram idéias típicas da Antigüidade, como o despotismo
dos monarcas, o centralismo estatal, a escravidão, o racismo, o nacionalismo
exagerado, o mercantilismo. Todos esses pontos da cultura clássica, tremendamente
imorais, negativos, não existiam na Idade Média, justamente pela ação da Igreja,
que soube separar o bom do mau dentre as manifestações da Antigüidade.[1] No período medieval, os valores clássicos positivos
foram preservados. A partir da Renascença somam-se a estes os negativos, trazidos
pelo antropocentrismo e pelo nascente racionalismo.
Da Renascença ao absolutismo monárquico foi um passo. Idéia
clássica, ausente na Idade Média - essencialmente descentralizadora e fiel
à subsidiariedade, haja vista o sistema o feudal
-, o poder absoluto dos reis é um pensamento que obviamente foi gerado pela
intelectualidade renascentista. E quando, descontentes com essa imoralidade
que fazia do rei uma espécie de dono da sociedade, e do Estado uma extensão
da propriedade privada, alguns iniciaram suas justas críticas a esse status
quo, não permitiram os liberais que se voltasse ao regime
da Cristandade[2], que tantos benefícios patrocinara.
A contrário senso, conduziram tudo para que a sociedade desse outro passo em direção ao abismo: e venceu a Revolução Francesa,
a qual não apenas removeu o nefasto absolutismo, senão, com ele, muitos traços
da ordem social católica que ainda persistiam, teimosamente, a despeito de
todos os malefícios renascentistas que se lhe infligiam.
Para a Igreja, a Idade Moderna, caracterizada sobretudo pelo Renascimento e pela Reforma Protestante, foi
uma época de crise[3], pela qual, à semelhança de uma ponte, o mundo caminhou
ao Iluminismo e à vitória dos liberais na Revolução de 1789. É bem verdade
que a Idade Moderna ainda conservaria traços de cristianismo bem vivos, como
se nota na evangelização da América, nas grandes espiritualidades que se desenvolveram
no período - os jesuítas de Santo Inácio de Loyola, a reforma do Carmelo por
Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz, a popularização da devoção ao Coração
de Jesus por São Cláudio de
Todavia, tais traços de fé cristã iam pouco a pouco se apagando
nos ambientes temporais, ao mesmo tempo em que os verdadeiros católicos a
eles se apegavam para explicitar sua adesão plena à Igreja, em um combate
que será travado amplamente no século XIX. "O novo espírito que inicia
a descristianização moderna da Europa traz também consigo uma admiração nova
pela Antigüidade pagã greco-romana. A Idade Média, evidentemente, conhecia
e apreciava a Antigüidade, porém, ainda que a assumisse em boa parte, considerava-a
superada pelas grandes sínteses da Cristandade posterior. O Renascimento,
pelo contrário, estima a Antigüidade como uma era de ouro, ao mesmo em que
desvaloriza a Idade Média."[4] Daí surge a lenda
negra, tão bem explicada pelo conceituado jornalista italiano Vittorio Messori[5],
tentativa anticatólica de falsificação da Idade
Média, e de considerar eventuais abusos em tal período cometidos como normais
e corriqueiros - e mesmo como aceitos. Tempo tão pleno do Evangelho, que,
segundo os Papas, governava os Estados[6], precisava
ser alvo de campanhas difamatórias e mentirosas por parte dos que odiavam
a Igreja, se quisessem estes ver seus planos vitoriosos.
O antropocentrismo renascentista[7]
é que faz a passagem da Idade Média católica para o Iluminismo laicista dos liberais, o que vai necessariamente refletir-se
nas relações entre Estado e Igreja. O que, na Idade Moderna, era uma crise,
na Idade Contemporânea, a partir da queda da Bastilha e do Ancién Régime - o qual, vimos, conservava, ainda que por vezes timidamente,
aspectos do cristianismo -, vai se transformar no que a Igreja classificou
como secularização, mundanização, descristianização
das Nações do Ocidente, destruição da Cristandade, autêntica apostasia. Favorecida
pela Reforma Protestante, que, além de sustentar o liberalismo espiritual
- livre-exame das Escrituras - e o igualitarismo eclesiástico - negava a autoridade
do Papa e o caráter sacramental da ordenação dos ministros -, rompeu aquela
saudável unidade moral da Europa Ocidental, a crise inaugurada pela Renascença
não é de imediato vencedora, em face da força da herança medieval católica.
Inspira, entretanto, o liberalismo dos novos filósofos. Na Idade Moderna,
lança-se o grito: "Cristo sim, Igreja não." A partir do Iluminismo
o mote é outro, de sabor bem maçônico: "Deus sim, Cristo não." Como
se esses dois lemas já não fossem demoníacos o suficiente, prepara-se o terreno
para o ateísmo contemporâneo: "O homem sim, a terra sim, a fraternidade
sim, a paz sim, o amor sim; Deus não."
"Primeiro se alça um grande clamor crítico; reprovam
seus ancestrais por não lhes ter transmitido mais que uma sociedade mal feita,
toda de ilusões e sofrimento.[8] (...) Rapidamente
aparece o acusado: Cristo. O século XVIII não se contentou com uma Reforma;
o que quis abater foi a cruz; o que quis apagar foi a idéia de uma comunicação
de Deus com o homem, de uma Revelação; o que quis destruir foi uma concepção
religiosa da vida.
Estes audazes também reconstruíam: a luz de sua razão dissiparia
as grandes massas de sombras de que estava coberta a terra; voltariam a encontrar
o plano da natureza e só teriam de segui-lo para recobrar a felicidade perdida.
Instituíram um novo Direito, que já não teria nada que ver com o Direito divino;
uma nova moral, independente de toda teologia; uma nova política, que transformaria
os súditos
Pelos frutos, vemos o resultado danoso de tal filosofia.
Mentindo sobre uma suposta Idade Média obscurantista e supersticiosa, arrogaram-se
os filósofos liberais em iluminadores, e, destruindo tudo o que para eles
eram erro e sombras - a fé, a concórdia entre Estado e Igreja, a sacralização das estruturas temporais -, inventaram novo Direito,
nova sociedade, nova moral, onde Cristo não mais reinaria, onde a doutrina
revelada por Deus - esse conceito tão antagônico à sua falsa concepção de
livre-pensamento e autonomia da razão - não teria vez.
"Entre 1680 e 1715 produz-se, com efeito, um grande
assalto - religioso, intelectual, artístico e político - contra essa Cristandade,
que ainda perdura em grande parte durante o classicismo[11]
do século XVII. Partido de Descartes (+1650), homens como o panteísta Spinoza,
ou como Malebranohe, Locke, Leibniz, Bayle, radicalizam a autonomia do pensamento[12] e da moral,
desvinculando-as da Igreja de Cristo."[13]
Podemos enumerar, neste ponto de nosso estudo, as fases dessa
autêntica revolução cultural de caráter gnóstico
e anticatólico: o Renascimento, ajudado pela Reforma
Protestante, conduz a um estado de coisas liberal e pagão; desarmado o Ocidente
pela ruptura de sua unidade, em face da protestantização
de algumas Nações, abre-se espaço para o pensamento cartesiano, totalmente
oposto ao sistema de Aristóteles e Santo Tomás; tal mudança, somada aos costumes
pagãos ressuscitados pelo Renascimento - escravidão, mercantilismo, luxúria,
vida de sentidos, deturpação das artes, culto à vaidade, comportamento desregrado
e sem disciplina, despotismo e tirania dos reis - e às pretensões dos novos
filósofos, constitui terreno fértil para o advento do Iluminismo; as idéias desse movimento obtém vitória política com a Revolução
Francesa de 1789[14]; daí em diante, avança o secularismo até as novas correntes
de pensamento: laicismo, naturalismo liberal, socialismo, fascismo. Contra
tal ação, orquestrada e conduzida soretudo pela
maçonaria, como seus membros sempre fizeram questão de anunciar, bateu-se
a Igreja Católica, a Esposa de Cristo.
"Os assaltantes triunfavam pouco a pouco. A heresia
não era já solitária e oculta; ganhava discípulos, tornava-se insolente e
jactanciosa. A razão não era mais um juízo equilibrado, senão uma audaciosa
crítica. As noções mais comumente aceitas, a do consentimento
universal que provava Deus, a dos milagres, punham-se
Ganhava força o Estado Moderno: separado radicalmente da
Moral por Deus revelada, arrogando-se supremacia sobre a Igreja de Cristo,
defensor de falsos conceitos de liberdade, de igualdade e de fraternidade,
relativista. Em suma, liberal.[16]
Sobre as diferenças entre as concepções liberais do lema
"liberdade, igualdade, fraternidade" e a verdadeira definição dessas
expressões segundo a doutrina católica, resume o
Papa Leão XIII, principal incentivador do pensamento social da Igreja: "(...)
o grande benefício de voltar as mentes dos homens à liberdade, fraternidade
e igualdade de direito; não tais como os maçons absurdamente imaginam, mas
tais como Jesus Cristo obteve para o gênero humano e aos quais São Francisco
aspirou: a liberdade, nós queremos dizer, de filhos de Deus, através da qual
podemos ser livres da escravidão a Satanás ou a nossas paixões, ambos os mais
perversos mestres; a fraternidade cuja origem está em Deus, o Criador comum
e Pai de todos; a igualdade a qual, fundada na justiça e caridade, não remove
todas as distinções entre os homens, mas, das variedades da vida, dos deveres,
e das ocupações, forma aquela união e aquela harmonia que naturalmente tende
ao benefício e dignidade da sociedade."[17]
Com o advento do liberalismo ganhou força igualmente aquela sofismática proposição segundo
a qual a cada Nação deve corresponder obrigatoriamente um Estado soberano
e independente. Ora, sabemos que isso não é necessário, e muitas vezes, sobretudo
na Idade Média - que os liberais tanto odeiam! -, nem sempre isso ocorreu.
Em determinados momentos, um só Estado era soberano sobre várias Nações, v.g.,
o Sacro Império Romano Germânico e o Império Austro-Húngaro. Em outros, uma
mesma Nação estava politicamente presente e dividida
O conceito de Nação, a valorização da cultura nacional, um certo nacionalismo, são bons e necessários na mentalidade
católica. O que não deve ocorrer é uma desregrada acentuação nacionalista,
raiz de totalitarismos - outro argumento acerca da origem
liberal do Estado totalitário -, e geradora de guerras injustas. Durante
o Medievo, os sentimentos nacionais foram profundamente valorizados. A existência,
porém, de outro conceito, o universalismo cristão, desenvolvido pela pertença
à única e católica Igreja e pela liderança, se não política ao menos moral,
de um único Imperador do Ocidente, temperou o nacionalismo para que não se
transformasse em orgulho racial. Some-se ao universalismo a ausência de identificação
necessária entre Nação e Estado. Removido pelos liberais o universalismo -
a Igreja, no liberalismo, não seria detentora da verdade universal; aliás,
nem haveria tal verdade, em face do relativismo e livre-pensamento -, e criado
o mito de que a cada Nação deve corresponder um Estado, prepara-se o terreno
para as grandes guerras mundiais do século XX. Foi um nacionalismo exagerado
- produto direto das idéias liberais, e totalmente avesso
ao sadio patriotismo de inspiração tão cristã -, que desencadeou a I e a II
Guerras.
O Estado Moderno, nacional, encontra-se em crise, todavia.
Ruma o mundo para a unificação em um só Estado. Entretanto, tal unificação
opera-se de modo diferente daquela efetuada sob Carlos Magno, sob Otão I, ou sob os Habsburgo. Desejam os condutores do atual estágio do liberalismo não uma
unidade na qual existam várias Nações. Por não terem conseguido remover a
vinculação entre Nação e Estado, caminham em direção a um Estado único com
uma Nação única. Constatamos facilmente a verossimilhança da tese ao assistirmos
como os elementos nacionais saudáveis estão sendo removidos gradativamente
no processo de unificação da Europa. A moeda única - o euro
- foi o grande passo do Estado nacional ao ainda mais tenebroso Super Estado nacional. E a raiz de tudo é a gnose revolucionária,
igualitária e maniqueísta, monstro que se agigantou com a escola filosófica
liberal do século XVIII.
No embate, já clássico, entre os Estados Unidos e os totalitarismos
- primeiro contra o III Reich, depois contra os alinhados à União Soviética
-, ou, em sua versão contemporânea, George W. Bush e a Al Qaeda ou Saddam Hussein, não se defende a América por seus
princípios liberais e modernos. Tanto quanto o nazismo, comunismo e radicalismo
islâmico, o Iluminismo da modernidade é pernicioso, perigosíssimo para a visão
cristã de mundo! Defender os EUA só é legítimo pelos valores cristãos que
nela foram preservados.
A modernidade tentou acabar com Cristo. Não o conseguindo,
tal papel foi reservado aos seus aparentes inimigos. Quem quer que hoje pretenda salvar a civilização cristã ocidental, a moral tradicional,
os valores do Reinado Social de Jesus Cristo, deve colocar-se contra o terrorismo
muçulmano e as reedições do comunismo e do nazismo (Michael Moore,
Noam Chomsky, Fórum Social Mundial, Foro de São Paulo, PT, Hugo Chávez,
Fidel Castro, pró-aborto, pró-gay, ecologismo radical
etc), não por amor à modernidade, eis que também
ela é incompatível com a teoria e a práxis eclesiais, mas para dela salvar
os poucos pontos de uma cultura cristã sobrevivente, de uma noção não de todo
apagada de que há um bem e um mal, de que a razão deve harmonizar-se à fé,
de que Deus não é inimigo de um saudável humanismo.
Falando de duas óticas modernas acerca do Direito, já me
pronunciei em texto jurídico anteriormente publicado: "Os dois sistemas
são filhos da Renascença, que tomou impulso em seu falso humanismo, terrivelmente
antropocêntrico, com as idéias liberais universalizadas após a Revolução Francesa
de 1789. Correto é afirmar que o humanismo renascentista e a filosofia liberal
iluminista constituíram duas etapas do mesmo processo revolucionário, o qual,
temendo a realidade - que contrariava os interesses egoístas de muitos -,
a distorceu para implantar a ideologia. Daí, o Terror da era das guilhotinas,
a fúria de Napoleão, as lutas fratricidas pelas unificações nacionais - a
união necessária entre Estado e Nação é produto do liberalismo -, o pan-eslavismo
da Sérvia e dos czares ocidentalizados, o pan-germanismo de Kaiser e de Bismark,
a substituição da Civilização Cristã pela modernidade e o culto ingenuamente
otimista no progresso, o contratualismo romântico
de Rousseau, o socialismo utópico de Proudhon, sua
versão pseudo-científica marxista, o ódio de Lênin e Stálin, o racismo político
e doutrinário de Hitler, a adoração fascista pelo Estado, os defensores de
pretensos 'direitos' dos animais, o pensamento politicamente correto, todas
as espécies de igualitarismos e totalitarismos[18],
a liberdade do erro, os movimentos pró-aborto, as gnoses dos conservadores
e falsamente aristocráticos, as reações esquerdistas, um democratismo irracional
etc."[19]
Quando se pensa em contrapor à modernidade liberal os discursos
totalitários, o que ocorre é uma luta "familiar" dos filhos contra
os pais. Não há dúvida de que o nazismo e o comunismo do século XX têm idêntica
matriz filosófica, e o têm no liberalismo do século XIX, na Ilustração do
século XVIII, no despotismo esclarecido do século XVII, e no Renascimento
gnóstico e antropocêntrico dos séculos XV e XVI.
Igual operação deve ser feita na comparação entre o radicalismo
do Islã e a modernidade. A bem da verdade, ainda que a jihad seja um conceito antigo e intrínseco ao islamismo, sua
revitalização - que parece esquecer até mesmo a rica contribuição cultural
do mundo árabe à humanidade -, na forma de guerrilhas e atentados terroristas
- financiados por uma complexa séria de investimentos no Ocidente -, é produto
típico da modernidade. Se contra ela, Osama Bin Laden e sua turma parecem dirigir
suas ofensivas, o motivo é que, longe de acabar com a modernidade mesma, o
que intentam é remover os vestígios de cristianismo que nela existem - veja-se
as ameaças ao Vaticano, que de moderno nada tem!
A modernidade não é cristã. Pelo contrário, sustenta teses
anticristãs, e a religiosidade dos terroristas, sob um ponto de vista, é um
elo com o cristianismo. Muito embora esse detalhe, ainda que seja radicalmente
contra a cultura cristã, o pensamento moderno não conseguiu de todo apagar
certos traços do cristianismo, persistindo este em um campo minado, mas vivo.
O Islã não é inimigo da modernidade. É inimigo da Cristandade
que sobrevive na modernidade, mesmo que esta seja sua grande inimiga. Presta
assim o radicalismo islâmico enorme contribuição ao liberalismo, atacando
o cristianismo em suas bases culturais mais profundas, como o tentaram o nazismo
e o comunismo.
Não é simplório nem maniqueísta o quadro atual: radicalismo
X modernidade. Bem mais complexo, o combate é do radicalismo muçulmano contra
retalhos de cristianismo presentes na modernidade. Daí a imperiosa necessidade
de, ainda que condenando os valores modernos anticristãos,
tentar salvar o Ocidente das ameaças terroristas, não para perpetuar a modernidade
e o Iluminismo, senão para defender o que resta neles do nome cristão, e,
sob seus escombros, escrever um futuro decente, sem mentiras e subterfúgios,
certamente com uma Europa e uma América que não se envergonhem de seu glorioso
passado.
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NOTAS
[1] Assim, em vez de despotismo, havia, em geral, a consciência
da monarquia como serviço; ao centralismo opôs-se a subsidiariedade no seu modelo máximo: o feudalismo; à escravidão
a sociedade hierárquica mas harmônica; ao racismo
a fraternidade cristã em sua igualdade essencial (embora desigual nos acidentes,
no que se baseia a hierarquia); ao nacionalismo o universalismo europeu; ao
mercantilismo a idéia de solidariedade. Claro que isso tudo num plano ideal,
eis que, como em qualquer agrupamento humano, houve abusos - em número muito
menor, diga-se de passagem, do que os propalados pelos detratores da Idade
Média.
[2] "O regime da Cristandade, com todos os seus problemas,
provenientes da fragilidade e ambição humanas, aponta para um grande ideal.
Não é possível a concretização do bem comum sem uma harmonia fundamental entre
a política e a religião, entre o pai e a mãe e ambos com seus filhos. Ou seja,
onde o poder religioso e o civil estão firmemente ancorados no serviço do
povo, necessariamente devem andar de acordo. (...) A autoridade política com
a autoridade religiosa, cada um no seu setor específico, promovem juntas o
bem-estar geral do povo" (GRINGS, D. Dadeus.
Dialética da Política. História Dialética do Cristianismo, Porto Alegre: EDIPUCRS,
1994,, pp. 128-129), os direitos de Deus e do homem,
a soberania de Cristo Rei.
[3] O grande pensador espanhol Ortega y Gasset faz lúcida análise da crise que se abateu sobre a Cristandade,
a qual se estende até os dias de hoje com a imoralidade e o ateísmo prático.
No seu "Em Torno a Galileu" demonstra a referida crise como situada
concretamente no Renascimento, a partir do qual "à figura do mundo vigente
em uma geração, sucede uma outra figura do mundo algo diferente. Ao sistema
de convicções para agir, sucede um outro." (ORTEGA Y GASSET, J. Obras
Completas, tomo V, Madri: Revista de Occidente, 1962, p. 69)
[4] IRABURU, Pe. José Maria. Hechos de los Apóstoles
de América, 3ª ed., Pamplona: Fundación Gratis Date, 2003, p. 101
[5] cf. MESSORI, Vittorio. Legendas Negras de
[6] Demos farta citação pontifícia do tema em outros artigos
constantes desta obra.
[7] O antropocentrismo, característica hodierna, que tomou
grande impulso com o Iluminismo, teve seu berço, nos moldes atuais, no Renascimento.
"Com a modernidade começa a gastar-se no mundo ocidental a cosmovisão antropocêntrica que, há mais de dois séculos, vem
configurando uma cultura de tipo prometeico, cujo
objeto é a autolibertação absoluta do homem frente
à natureza e Deus. A cosmovisão antropocêntrica
absolutiza a totalidade do homem enquanto realidade criadora
do mundo e se apóia na primazia do progresso técnico-científico, que, por
sua vez, se impõe como único critério do processo cultural." (CHEUICHE,
D. Fr. Antônio do Carmo, OCD. Cultura e Evangelização, Porto Alegre: EDIPUCRS,
1995, p. 122) O carmelita descalço, Bispo Auxiliar Emérito de Porto Alegre,
indica, logo após, como essa canonização do ser humano sem qualquer referência
a Deus vai desembocar no mais extremado individualismo na pós-modernidade,
que é justamente a "quarta etapa da Revolução" segundo Plínio Corrêa
de Oliveira.
[8] Quando, em verdade, tal sociedade não foi a Idade Média,
tão injustamente acusada, senão a Moderna, gérmen do próprio liberalismo.
[9] Pois para os liberais, o pensamento católico é um erro.
[10] HAZARD,
Paul. El Pensamiento Europeo del Siglo XVIII, Madrid: Alianza Universidad, 1991, p. 10
[11] O Renascimento.
[12] Já defendida, em sua correta acepção, por Santo Tomás
de Aquino, o qual, entretanto, sustentava sua ligação com a fé.
[13] IRABURU, Pe. José María. op. cit.,
pp. 129-130
[14] "Na Idade Média os Papas haviam realizado a unidade
da Europa sob o regime da Cristandade. No final do século XVIII, a França
reúne os homens em torno de um novo tripé fantástico: liberdade, igualdade
e fraternidade. É o triunfo da burguesia. A declaração dos direitos do homem,
emanada aos 26 de agosto de 1789, condena os velhos abusos e institui o catecismo
filosófico da nova ordem. A sociedade se declara oficialmente não-cristã.
Começa-se, a partir deste momento, a falar em época pós-cristã." (GRINGS,
D. Dadeus. op. cit., p. 226)
[15] HAZARD, Paul.
[16] Não é por ser o liberalismo um mal que a Igreja aprova
absolutismo. Em termos filosóficos, ambos os sistemas são etapas da mesma
Revolução. A contradição entre os dois se dá nos acidentes, uma vez que a
essência, embora aparentemente diversa, é a mesma: para o liberalismo, a verdade
é criada pela maioria ou pelo povo; para o absolutismo, é criada pelo rei;
nas duas há a rejeição de que a verdade seja absoluta e
posta por Deus na natureza e na Revelação. O próprio "direito
divino dos reis" absolutistas é uma deturpação do autêntico sentido da
expressão. Os liberais, querendo criticar o abuso - feito em nome de Deus
-, acabam atacando a própria emanação da autoridade como vinda de Deus. Para
o absolutismo, o poder vinha de Deus e isso legitimaria a corrupção, o abuso
e o trato da coisa pública como propriedade do rei. Para o liberalismo, o
poder vinha do povo sem qualquer referência a Deus. Para a Igreja - e disto
foi testemunha a Idade Média e, mesmo na modernidade, os Estados
autenticamente católicos -, o poder vinha, como no absolutismo, de Deus, mas,
e isso da tirania se diferencia, por essa mesma razão deveria ser exercido
para o bem de todos, com responsabilidade. Ao criticar o erro absolutista
- criação da Renascença, ausente no Medievo -, o católico não adere ao liberalismo
- até porque são "irmãos" -; crê no direito divino do rei, mas por
isso mesmo sustenta que o monarca, porque ministro de Deus, deve ser bom,
honesto e competente. Ainda assim, no Antigo Regime absolutista existiam mais
elementos cristãos do que no liberalismo, assim como neste há aqueles em maior
profusão do que no socialismo: progressivamente, Deus vai sendo expulso da
política. Melhor seria, talvez, dizer que não é no Antigo Regime que existiam
tais elementos cristãos, mas na mesma época em que vigorou: os traços da Cristandade
não permaneceram por causa do absolutismo - antes, pelo contrário, por causa
dele são apenas traços -, senão apesar do referido sistema. A Idade Média
é caracterizada pela subsidiariedade, a Moderna - absolutista -, pela centralização
excessiva - fruto das idéias nacionalistas e imperialistas da Renascença -;
ainda assim, muitos reis verdadeiramente cristãos do período moderno, como
Isabel, a Católica, de Espanha, souberam testemunhar Jesus na vida pública
desse tempo de crise. O erro da crítica ao absolutismo foi forçar a queda
do Antigo Regime através das idéias liberais da Revolução Francesa - que manteve,
aliás, o centralismo, o imperialismo (vide Napoleão) e o nacionalismo exacerbado,
tão típicos do absolutismo que combateram. Melhor faria se propugnassem a
conversão do Antigo Regime à Cristandade plena, como no Medievo, estancando
o processo revolucionário... Última palavra: os Papas, ao defenderem o Antigo
Regime contra os liberais, não justificaram o absolutismo nem seus erros,
mas queriam, isso sim, salvar o resto de Cristandade
que ainda havia, prestes a ser demolido pelo liberalismo.
[17] Sua Santidade, o Papa Leão XIII. Encíclica Humanum Genus, de 20 de abril de
1884, nº 34
[18] "O totalitarismo nasce da negação da verdade em
sentido objetivo: se não existe uma verdade transcendente, na obediência à
qual o homem adquire a sua plena identidade, então não há qualquer princípio
seguro que garanta relações justas entre os homens. Com efeito, o seu interesse
de classe, de grupo, de Nação contrapõe-nos inevitavelmente uns aos outros.
Se não se reconhece a verdade transcendente, triunfa
a força do poder, e cada um tende a aproveitar-se ao máximo dos meios à sua
disposição para impor o próprio interesse ou opinião, sem atender aos direitos
do outro." (Sua Santidade, o Papa João Paulo II. Encíclica Centesimus Annus, em 1º de maio
de 1991, nº 24) O mesmo Romano Pontífice, gloriosamente
reinante, indica o risco semelhante ao totalitarismo, do liberalismo que é
sua matriz: "o risco da aliança entre democracia e relativismo ético,
que tira à convivência civil qualquer ponto seguro de referência moral, e,
mais radicalmente, priva-a da verificação da verdade." (Sua Santidade,
o Papa João Paulo II. Encíclica Veritatis Splendor, em 6 de agosto
de 1993, nº 101) É a crítica, transportando para
o mundo do Direito, do juspositivismo e do jusalternativismo, por suas concepções errôneas da verdade.
[19] BRODBECK, Rafael Vitola. A
concepção do Direito no juspositivismo, no jusalternativismo e nas diferentes escolas jusnaturalistas. Jus Navigandi:
Teresina, nº 420, 31 de agosto de 2004, p. 3