Mártires
beatificados
VOZ
DO PASTOR D. Eugênio de Araújo Sales 17/12/1999
O martírio é de grande importância na Igreja. Ele
apresenta ao mundo alguém que testemunha a Fé católica, com a imolação da
própria vida. Esse termo começou a assumir o significado usual em nossos dias,
a partir do ano 155, com o "Martyrium Policarpi". Ele "não
somente foi mestre insigne mas também mártir excelso (...) cujo martírio todos
aspiram a imitar, porque aconteceu à semelhança de Cristo, como narrado no
Evangelho". Indubitavelmente, esse sinal da credibilidade à revelação
cristã diante de um mundo incrédulo anuncia a vivência dos valores evangélicos
até o sacrifício do maior dom, que é a nossa existência. Em uma humanidade que
busca a qualquer preço o bem-estar pessoal, o lucro, o gozo, ouve-se a
expressão do Mestre: "Eu ofereço minha vida para depois retomá-la de
novo" (Jo 10,7 e 18). Hoje registra-se um enriquecimento do conceito.
Santo Tomás (in Epistola ad Romanos, 8,7)amplia, mas também marca limites ao
uso da expressão: "Constitui o martírio, não só a proclamação da Fé mas
toda e qualquer outra virtude não política, de inspiração sobrenatural, que
tenha Cristo como objetivo".
No próximo dia 5 de março, na Praça de São `Pedro,
em Roma, serão oficialmente reconhecidos como mártires um grupo de brasileiros
massacrados no Rio Grande do Norte, em 16 de julho e 3 de outubro de 1645. A
Arquidiocese do Rio de Janeiro far-se-á presente pelo seu Pastor e duas
peregrinações: a oficial e a das religiosas.
O mais antigo relato dessas ocorrências foi feito
vinte dias após o morticínio de Uruaçu, na "Breve, Verdadeira e Autêntica
Relação das Últimas Tiranias e Crueldades que os Pérfidos Holandeses Usaram com
os Moradores do Rio Grande" no "O Valeroso Lucideno" (1679) pags
277-280. O autor: Lopo Curado Garro. Inúmeros outros documentos foram
consultados pelo Postulador da Causa, Monsenhor Francisco de Assis Pereira, em
diversos arquivos de Natal, Recife, Roma, Holanda e Lisboa. Alguns nomes falam
por si, da importância: Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Arquivo Secreto do
Vaticano, Arquivo Geral do Reino, Antiga Companhia das Índias Ocidentais,
especialmente "Nótulas Diárias" e "Cartas e Papéis do
Brasil" (em Haia).
A memória desses acontecimentos chegou a nossos
dias. Quando eu exercia o ministério eclesiástico na Arquidiocese de Natal,
cuidei de preservar a memória dos fatos junto aos fiéis, dando seguidamente o
nome desses heróis da Fé às obras sociais que iam surgindo, fruto do trabalho
pastoral. Assim, foram criados juridicamente e funcionam ainda hoje a Escola
Ambulatório Matias Moreira, o Centro Social Padre Ambrósio Ferro, o Instituto
João Loustau Navarro.
Das ocorrências até nossos dias, a lembrança do
martírio se manteve viva. Uma frase do General Fernando Távora, em artigo no
"Diário de Natal" a 30 de agosto de 1950, resume essa constância:
"Sem embargo, há mais de 300 anos as almas de Cunhaú atraem e acendem a devoção
persistente da gente do agreste potiguar, que ali vão, em romaria, acendendo
velas e rezando de joelhos por sobre ruínas que o tempo envelheceu".
A palavra do Santo Padre na manhã de 3 de outubro
de 1991 em Natal, na homilia da Missa de encerramento do XII Congresso
Eucarístico Nacional é um coroamento do período que vai da ocorrência dos fatos
até à beatificação: "É uma circunstância feliz que o Congresso esteja
sendo realizado em Natal. Precisamente aqui, em 1645, um homem simples,
profundamente religioso, Matias Moreira, deu com os seus companheiros na região
conhecida por Cunhaú e Uruaçu, um belo exemplo, que lembra o dos mártires da
Igreja. Quando insultado – ferido pelos hereges, por sua recusa em renegar a Fé
na Eucaristia e a fidelidade à Igreja do Papa, - exclamou, quando lhe abriam o
peito para arrancar-lhe o coração: "Louvado seja o Santíssimo
Sacramento!".
O processo diocesano teve início a 7 de maio de
1989 (Ascensão do Senhor), por Decreto do então Arcebispo, Dom Alair Vilar
Fernandes de Melo e o "Nihil obstat" da Santa Sé foi outorgado a 16
de junho do mesmo ano. A última etapa da investigação em nível local foi a
instauração, pelo novo Arcebispo, Dom ?Heitor de Araujo Sales, do Tribunal
Arquidiocesano para a Causa dos Mártires. O processo diocesano foi concluído a
31 de maio de 1994 e a 14 de junho do mesmo ano, foi feita a entrega da
documentação à Congregação das Causas dos Santos.
Em 21 de dezembro de 1998, o Papa João Paulo II
assinou o Decreto reconhecendo o martírio dos que puderam ser identificados
entre os cruelmente assassinados em Cunhaú, sacrificados na Matriz de Nossa
Senhora das Candeias, a 70 Km de Natal; e em Uruaçu, nas imediações do Porto do
Flamengo, distante 50 Km do Forte dos Reis Magos, também em Natal; dois
sacerdotes e vinte e oito leigos – casais, crianças, jovens, adultos.
Às vésperas do Grande Jubileu do Nascimento de
Jesus e dos 500 anos da Descoberta do Brasil, se insere essa extraordinária
solenidade da beatificação dos primeiros mártires brasileiros. O Prefeito da
Congregação das Causas dos Santos , Dom José Saraiva Martins, chamou-os de
Protomártires do Brasil. Será a 5 de março, na Praça de São Pedro, em Roma.
Neste período que nos resta para a glorificação
desses heróis da Fé diante do mundo, pensemos em suas lições, tão importantes
para a vida cristã, na atualidade: a fidelidade à Igreja e à sua Cabeça
visível, o Vigário de Cristo, o Santo Padre. Uma viva consciência de estar no
mundo sem ser do mundo e cumprir o dever de levar a todos os quadrantes do
universo a mensagem de nosso Salvador, o Cristo Jesus.