Mártires
Brasileiros
VOZ DO PASTOR
D. Eugênio de Araújo Sales 11/12/1998
Ainda repercutem os ecos dos aplausos pela elevação
à honra dos altares do Bem-aventurado Frei Galvão. Eis que chega ao fim, na
Congregação para a Causa dos Santos, o processo oriundo da Arquidiocese de
Natal, de "Beatificação ou declaração do martírio dos servos de Deus André
de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, sacerdotes diocesanos e seus
companheiros, mortos "in odium fidei" ( por ódio à fé ) em 1645.
Serão os proto-mártires brasileiros. O Pe. André de Soveral veio ao mundo em
São Vicente em 1572. Muitos outros também nasceram em nossa Pátria. O último de
um grupo de jovens companheiro de João Martins que então perderam a vida,
responde com ânimo alegre à proposta de renunciar à Fé, dizendo: "Deus não
me abandona". Crianças, com suas mães, foram cruelmente massacradas.
Famílias martirizadas!
Com a invasão holandesa, embora fosse afirmada
haver liberdade de culto, ocorria uma crescente perseguição religiosa aos
católicos. Os invasores eram, em parte ponderável, calvinistas. O período de
1637 a 1644, com Maurício de Nassau, vigorou uma tolerância, apesar dos
protestos do Sínodo da Igreja reformada .
Os fatos aqui narrados sucederam na capitania do
Rio Grande, tomada pelos bátavos em dezembro de 1633. Na localidade de Cunhaú
havia uma capela, hoje restaurada. Funcionava importante engenho de açúcar. A
quinze de julho de 1645 chega o enviado do governo holandês, o alemão Jacó
Rabi. Vinha acompanhado de soldados e índios. Trazia ordens para serem
comunicadas no dia seguinte, festividade de Nossa Senhora do Carmo. Por ocasião
da consagração, fechadas as portas da igreja cuja patrona é Nossa Senhora da
Candelária, começou a carnificina. Não houve resistência por parte dos fiéis,
exortados pelo pároco, Padre Antônio Ferro. Esse sacerdote entrara na Companhia
de Jesus a seis de agosto de 1593 na Bahia, exercia seu ministério junto aos
índios (conhecia profundamente sua língua), no território que dependia do
Colégio de Olinda. De janeiro de 1600 até fins de 1607, integrou o elenco dos
padres e irmãos da província da Companhia de Jesus no Brasil. Deduz-se que
depois passou ao clero secular, pois na época de sua morte exercia função de
pároco em Cunhaú. Ao ser martirizado devia ter 73 anos. Na igreja calculam que
estivessem 69 pessoas. Outros permaneceram em um imóvel vizinho, mas foram em
grande número também massacrados. O processo de Beatificação não os inclui.
Eles lutaram, embora, o fizessem em defesa da própria vida. Uma forte chuva e o
receio do aparato militar levaram-nos a não participar da Missa. Resistiram,
muitos conseguiram fugir, mas a maioria foi trucidada .
Os cronistas holandeses e portugueses divergem
quanto ao número de vítimas entre 39 e 69.
Espalhou-se a dolorosa notícia. Em Natal alguns se
refugiaram na Fortaleza dos Reis Magos, que tivera o nome substituído por Van
Ceulen. Eram pessoas influentes na Província. Não foi possível abrigar maior
número. Um outro grupo subiu o Rio Potengi e construiu precária defesa no lugar
denominado ainda hoje de Uruaçu. No interior da paliçada estavam recolhidas
cerca de 70 pessoas. Reagiram ao assédio dos bátavos e índios mas terminaram
por capitular. Uma comissão foi conduzida ao Forte e depois levados rio Potengi
acima até o porto de Uruaçu. Esperavam-nos duzentos índios tapuias comandados
pelo terrível Antonio Paraupeba, convertido ao calvinismo. Foram mutilados e
mortos. Após o trucidamento trouxeram da paliçada 52 homens e um número
impreciso de mulheres e filhos. Depararam-se com os corpos dos cinco que haviam
sido enviados como prisioneiros ao Forte. Todos haviam sido assassinados com
extrema ferocidade. Aceitaram, no entanto, piamente o sofrimento e a morte. A
crueldade levou Diogo Lopes Santiago a comparar os carrascos aos "tigres e
leões ferozes".
Há fatos curiosos: "Uma jovem foi poupada por
algozes que já haviam sacrificado suas duas irmãs pois era uma donzela elegante
e a negociaram com os índios em troca de um cão de caça".
O mais emocionante nesse martírio ocorreu com
Matias (ou Mateus) Moreira. Cortaram-lhe braços, pernas, perfuraram os olhos,
retaliaram o corpo. Ao lhe arrancarem o coração pelas costas, suas últimas
palavras foram "Louvado seja o Santíssimo Sacramento". O documento
mais antigo que relata esse massacre, hoje ainda tão pouco conhecido, é a
relação de Lupo Curado Garro, capitão e governador militar da Paraíba, redigido
vinte dias após os acontecimentos. No século XVII Frei Manuel Calado do
Salvador, religioso da Ordem de São Paulo Eremita, escreveu "O Valeroso
Lucideno". A "História da Guerra de Pernambuco", foi elaborado
entre 1661 e 1675 por Diogo Lopes Santiago, testemunha ocular da guerra contra
os holandeses. Em 1675 é publicada, em Lisboa, pelo beneditino Rafael de Jesus,
"O Castrioto Lusitano". Mais recentemente veio a lume, em 1904, um
documento de 1757, redigido pelo também beneditino Dom Domingos Loureto Couto
intitulado "Desagravos do Brasil e glórias de Pernambuco". O
historiador Francisco Adorno de Varnhagem em 1872 editou "A História das
lutas contra os holandeses no Brasil". Em nossos dias diversas obras têm
sido publicadas. O Padre Arlindo Rubert em "A Igreja no Brasil",
volume II, (págs. 121-125), trata das "vicissitudes da Igreja na invasão
holandesa e perseguições religiosas". Na realidade, Cunhaú e Uruaçu não
são casos isolados.
Em Natal, por ocasião do XII Congresso Eucarístico
Nacional, o Papa João Paulo II, na homilia de Encerramento, a 13 de outubro de
1991 assim se expressou sobre Matias Moreira: "Quando insultado e ferido
pelos hereges por sua recusa a renegar a fé na Eucaristia e fidelidade à Igreja
do Papa, exclama enquanto lhe abriam o peito para lhe arrancar o coração
"Louvado seja o Santíssimo Sacramento".