O Código da Vinci – muito dinheiro e pouca ética

 

Carlos Alberto Di Franco

 

 

“Este livro é, sem dúvida, o mais tolo, inexato, mal-informado, estereotipado, desarrumado e popularesco exemplar de pulp-fiction que eu já li.” O cortante comentário do crítico do The Times, Peter Millar,  ao  livro “O Código da Vinci”, não foi uma nota dissonante no conjunto das avaliações do best seller do norte -americano Dom Brown. Outros críticos espalhados pelo mundo corroboraram o Times e acrescentaram epítetos semelhantes: “Um livro oportunista e pueril” (El Mundo); “Um insulto à inteligência” (The New York Times); “Uma estória disfarçada de História” (Catholic News Service); “De um estilo espantosamente banal, pretensiosa, fanático” (Our Sunday Visitor); “Uma mixórdia de narrativas imaginosas” (Weekly Standart); “Erros crassos que só não chocam um leitor muito ingênuo” (New York Daily News); e assim por diante.

 

Há um consenso de que o livro é ruim, de uma ruindade aflitiva e embaraçosa, porque se apresenta com pretensões de seriedade e de cultura. De fato,  logo no início o autor enumera uma respeitável série de bibliotecas, museus e outras instituições, onde teria efetuado suas pesquisas, para depois, no corpo do livro, afirmar mediocridades e erros históricos que fariam qualquer membro dessas instituições corar de vergonha. Em que biblioteca séria do mundo o autor poderia encontrar base para afirmações como “no Renascimento, ciência era sinônimo de heresia”, ou que Godofredo de Buillon, um dos líderes da Primeira Cruzada, era “um rei da França”, ou  que a Bíblia é o resultado de uma colagem de textos, feita por Constantino para dominar o mundo, ou ainda que os Evangelhos atuais são o resultado do expurgo de mais de 80 Evangelhos anteriores, que foram propositalmente destruídos?  Como corroborar a afirmação de que a Igreja, durante a Idade Média, “matou mais de cinco milhões de mulheres”, e organizou as Cruzadas para destruir documentos secretos que havia no Oriente, “comprovando”  que o Santo Graal é na verdade Maria Madalena, casada com Jesus, e  fundadora do autêntico cristianismo? Que engenheiro ou arquiteto avalizaria a tese cerebrina de que as catedrais da Idade Média foram construídas pelos Templários, e  representam o interior do corpo feminino? Que lingüista, gramático, ou estudante de literatura apoiaria a afirmação de que a língua inglesa é a única língua pura, pois não tem raízes latinas – “a língua do Vaticano”, e portanto está “lingüisticamente afastada da máquina de propaganda de Roma”? Que historiador da arte endossaria a puerilidade de que “da Vinci” era o sobrenome de Leonardo, ou que sua  Santa Ceia é um “afresco”, ou ainda que o discípulo São João, ali representado, é na verdade Maria Madalena, vestida como um homem? Browm comenta que a união de Jesus com Maria Madalena é um tema “mais que explorado pelos historiadores modernos”. Seria interessante que ele citasse o nome de pelo menos um historiador de verdade. Certamente esse historiador o aconselharia a não afirmar que os  Manuscritos do Mar Morto, “descobertos na década de 50”,  “contam a verdadeira história do Graal”, ou que o Vaticano “mantendo sua tradição de enganar os fiéis, tentou com todas as forças evitar que esses manuscritos fossem divulgados”. Um historiador moderno o lembraria, sem dúvida,  que os Manuscritos do Mar Morto foram descobertos em 1947, não falam absolutamente nada do Graal, que estão muito bem custodiados pelo Estado de Israel, que pesquisadores de todos os credos trabalham livremente com eles, e que todos os estudos até agora feitos apenas corroboram aquilo que a Bíblia sempre ensinou.

 

O enredo é inteiramente condizente com a “seriedade histórica anunciada. A Igreja Católica precisa impedir a divulgação de um grande segredo: Jesus foi casado com Maria Madalena, de quem teve uma filha. Os documentos que confirmam esse segredo são o verdadeiro Santo Graal, e estão sob a guarda de uma sociedade secreta chamada O Priorado de Sião, da qual foram grão-mestres homens famosos como Sandro Boticelli, Leonardo da Vinci, Robert Boyle, Isaac Newton, Victor Hugo, Claude Debussy, Jean Cocteau. Essa sociedade espera o momento propício (o fim da era de Peixes e o início da era de Aquário) para tornar públicos os documentos. Sentindo que esse momento se aproxima, o Vaticano resolve eliminar todos os líderes do Priorado que conhecem a localização do Graal, e o encarregado desses assassinatos é um monstruoso  gigante albino, “monge do Opus Dei”. As fontes de pesquisa que o autor afirma ter consultado não lhe revelaram o fato sobejamente conhecido de que o Opus Dei não tem e nunca teve monges. O gigante consegue executar três dos detentores do segredo. Mas o quarto, o curador do Museu do Louvre, sobrevive alguns minutos, tempo suficiente para deixar uma mensagem em código revelando – para quem souber ler – o esconderijo do Graal. É aí que entra o herói, um “professor de simbologia” de Harvard, uma espécie de Indiana Jones de terno, que acompanhado pela neta do curador, irá decifrando todas as charadas, fugindo do monstro albino e da polícia, até descobrir que o Graal está enterrado no centro de Paris, debaixo da Pirâmide de vidro do Museu do Louvre.  O mocinho se enamora da mocinha, os homens maus são castigados, e a história termina.  Ao final, o leitor ingênuo e desavisado fica com uma má impressão difusa e amarga da Igreja Católica, apresentada como uma monstruosa organização empenhada em  enganar a humanidade, “demonizar o sexo”, e rebaixar a mulher. Infelizmente, os leitores desavisados são muitos. Para milhares de jovens e adultos, esta novela será seu primeiro, e talvez único contato com a história antiga da Igreja, uma história regada pelo sangue dos mártires, pelo exemplo dos santos, pela palavra dos evangelistas, apologetas, filósofos e Padres.

 

Resta saber como um livro desses vendeu mais de dez milhões de exemplares, conforme anunciado na capa da edição brasileira. A primeira e mais óbvia explicação está na propaganda: a editora norte-americana investiu uma fortuna na divulgação, e distribuiu 10 mil cópias à mídia. O crítico do jornal The Guardian sugere que os norte-americanos devoram livros desse estilo para compensar o vazio que anteriormente era preenchido pela paranóia da guerra fria: “Teologia, ideologia, qual a diferença”?  Amy Welborn, do Our Sunday Visitor, atribui o interesse pelo livro à grande influência do catolicismo na cultura norte-americana. Cynthia Grenier, da UPI, comenta que o mundo atual tem sede de espiritualidade e que qualquer coisa que pareça saciar essa sede mesmo sendo água salobra, é buscada com avidez. Mas talvez a melhor explicação esteja no próprio livro.  Na página 181 o autor comenta: “todo mundo adora uma conspiração”.  Em outras palavras: uma conspiração vende fácil, mesmo sendo inverossímil, mesmo sendo caluniosa. Em outra passagem do livro, o editor do “herói” o adverte: “você é historiador de Harvard, e não um autor de literatura de consumo procurando um tema polêmico para faturar uma grana”. Acredito que a frase, invertida, se aplica exatamente ao livro e a seu autor: “você é um autor de literatura de consumo procurando um tema polêmico para faturar uma grana, e não um historiador de Harvard”. Deixe, por favor, a verdade histórica em paz.

 

 

Carlos Alberto Di Franco é jornalista e professor de Ética da Comunicação