O impacto de João Paulo II
Um de seus biógrafos
explica o impacto deste Papa
Entrevista com George
Weigel
NOVA YORK, segunda-feira, 11 de abril de 2005 (ZENIT.org).- O mundo pôde ver que João Paulo II foi a «maior
testemunha cristã» do século XX, disse o biógrafo do Papa, George Weigel.
Nesta entrevista a Zenit, Weigel, autor de «Testemunho de Esperança: Biografia do
Papa João Paulo II», traça um panorama da vida do pontífice.
O que João Paulo II fez pela Igreja no panorama
internacional?
--Weigel: O papado defendeu
sempre sua dimensão universal. João Paulo II deu a esta proposta um significado
real, convertendo-se em uma referência moral unipessoal para o mundo inteiro.
E, fazendo isto, recordou ao mundo que «os assuntos mundiais» não podem
eximir-se de um atento exame do ponto de vista do juízo moral.
Contrariamente ao que ensinam os realistas especialistas
em assuntos exteriores, a política internacional não é um âmbito «amoral»; nada
humano fica fora dos limites da razão moral, nem
sequer os assuntos políticos entre Estados. Duvido que o mundo tenha captado
ainda este aspecto em sua totalidade, mas João Paulo II insistia muito nisto.
Qual foi seu maior sucesso em geopolítica, doutrina
social, teologia e eclesiologia?
--Weigel: O papel crucial de
João Paulo II no colapso do comunismo europeu --com a centelha que incendiou
uma revolução de consciência que provocou a revolução política não-violenta de
1989-- foi uma conquista impressionante.
Mas não deveríamos esquecer o papel do Papa na resolução
da disputa entre a Argentina e o Chile pelo canal de Beagle,
que ameaçava converter-se em guerra aberta; nem deveríamos esquecer seu papel
para preparar o caminho à democracia na América Latina, nem seu apoio às
transições democráticas em Filipinas e Coréia do Sul.
A defesa da universalidade dos direitos humanos, em seu
discurso de 1995 às Nações Unidas, foi uma contribuição muito importante, em um
momento no qual a idéia de «direitos humanos universais» estava sendo negada ou
ridicularizada por pós-modernos, islamitas, comunistas tardios, e partidários
do autoritarismo no Leste Asiático.
A encíclica de 1991, «Centesimus
Annus», deu uma nova sensibilidade empírica à
doutrina social, especialmente quanto às questões econômicas.
Alguns católicos do campo da ação social mantiveram desde
há tempo a possibilidade de construir uma «terceira via» que não fosse nem
comunista nem capitalista; a «Centesimus Annus» reconhecia que uma economia centrada no mercado, regulada pela lei, era de fato esta «terceira via». Ainda
que, de novo, não estou certo que quem crê em uma utópica «terceira via» a
tenha aceitado.
A «teologia do corpo» parece-me ao contrário que foi a
maior conquista criativa, teologicamente falando, de João Paulo II, e há uma
enorme riqueza de material teológico à disposição do estudo da Igreja nas
encíclicas, cartas apostólicas, exortações pós-sinodais
e discursos de audiências de João Paulo II.
Sua teologia da divina misericórdia, por exemplo, deve ser
ainda explorada, assim como sua mariologia e sua
doutrina de que o «perfil mariano» na Igreja, o discipulado, é a realidade mais
fundamental na Igreja --inclusive mais constitutiva da própria Igreja que seu
perfil «petrino»-- e que a estrutura como comunidade
com autoridade moral.
Quanto à eclesiologia, penso que
é importante que João Paulo II tenha «reequilibrado»
a Igreja, em um momento no qual as conferências
nacionais de bispos podiam ter desembocado em sínodos virtualmente autônomos,
segundo o modelo ortodoxo. Isto, supostamente, é justamente o oposto do que os
críticos o tachavam durante mais de vinte anos.
--Qual pensa ter sido a maior «tarefa não concluída» deste
pontificado?
--Weigel: Certamente não queria
que se pensasse que falo pelo Papa falecido, mas como seu biógrafo parece-me
que a grande «tarefa não concluída» do pontificado inclui as iniciativas
ecumênicas de João Paulo II, especialmente com a Ortodoxia.
Realmente parecia que ele cria, em 1978, que a brecha do
segundo milênio entre Roma e o Oriente Cristão, que se abriu oficialmente em
1054, podia aproximar-se ao limiar do terceiro milênio. Obviamente isto não
sucedeu.
E porque, em minha opinião, tem muito a ver com o fato de
que a Ortodoxia não está nas mesmas condições teológicas e psicológicas de
1054. «Não estar em comunhão com o Bispo de Roma» converteu-se, para muitos
ortodoxos, em parte de sua verdadeira autodefinição.
Até que isto não mude, e até que os cristãos ortodoxos não
sintam a mesma paixão que sentiu João Paulo II pela Ortodoxia, de ser um com Roma
no banquete eucarístico, não haverá um grande progresso no diálogo ecumênico
entre o Oriente cristão e Roma. É muito triste. Mas este é um exemplo de que
João Paulo II talvez quis acelerar demasiadamente a
história, mais do que a história pode suportar em um determinado momento.
--O mundo foi capaz de apreciar este extraordinário
pontificado?
--Weilgel: Foi apreciado como um
homem de cultura, de grandes simpatias humanas, de grande coragem, integridade
e compaixão. Pergunto-me, contudo: Foi apreciado pelo que na realidade era, o maior testemunho cristão do século passado? Tudo o
que o Papa realizou brotava de um fato fundamental: era um homem que acreditava
com cada uma das fibras de seu ser
--Que João Paulo II desempenhou um papel na queda do
comunismo na Europa do Leste; que contribuiu a aprofundar na teologia do
matrimônio e da sexualidade; que levou novo vigor pastoral e intelectual à
cátedra de Pedro são grandes legados de seu pontificado. Certamente, após um
pontificado de 26 anos, a cultura da morte avançou, com o aborto, a pesquisa
com células estaminais embrionárias, o aumento da eutanásia, etc. é demasiado esperar que um Papa possa mudar tudo isto, ao
menos no curso de sua vida?
--Weigel: Sim. E deveríamos
recordar sempre, como o fez João Paulo II, que a Igreja não é somente o Papa.
Os fracassos na hora de superar a cultura da morte são os
fracassos de todo o povo eclesial que tem em suas mãos a possibilidade de construir
ou não uma cultura de vida.
--O Espírito Santo inspirou os cardeais em 1978 que
elegeram um Papa da Polônia. Quais foram as
conseqüências da ruptura da tradição secular de papas italianos?
--Weigel: Espero que o que se
fez foi criar um conjunto de candidatos cuja nacionalidade e procedência
étnica contêm muito pouco. Espero que a grande pergunta que se façam os
cardeais sobre cada candidato seja esta: é este um homem de Deus que pode inspirar nos demais a profundidade de sua fé?
--Como biógrafo papal, o que é
que mais lhe impressionou de sua figura?
--Weigel: Sua extraordinária
energia e que sempre olhava para adiante, perguntando-se «o que é que
deveríamos fazer agora?». Certamente esta energia não era a de um homem
frenético ou agitado. Era uma energia serena, firme, que nascia de uma notável
e rica vida interior, sua vida de oração.
--Agora que nos deixou, o mundo está preparado para
escutar realmente a mensagem de João Paulo II?
--Weigel: Esperamos. Há muito
que escutar.
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