O pensamento do Papa Bento XVI,
segundo o cardeal Ratzinger
Encontro com alguns
jornalistas da Agência Zenit
CIDADE DO VATICANO, terça-feira, 19 de abril de 2005
(ZENIT.org).- O anúncio de Cristo e seu Evangelho em
um mundo relativista é para o novo Papa, Bento XVI, um dos desafios centrais da
Igreja.
Foi o que explicou o cardeal Joseph Ratzinger,
prefeito da Congregação vaticana para a Doutrina da Fé, neste encontro com
jornalistas, entre os quais se encontravam vários redatores de Zenit, em 30 de novembro de 2002, ocorrido na Universidade
Católica Santo Antonio de Múrcia, ao participar no
Congresso Internacional de Cristologia.
Oferecemos esta longa entrevista na qual se refletem
alguns dos traços característicos daquele que é considerado um dos maiores
teólogos contemporâneos.
--Alguns interpretam em muitas ocasiões o fato de anunciar
a Cristo como uma ruptura no diálogo com as demais
religiões. Como é possível anunciar a Cristo e
dialogar ao mesmo tempo?
--Cardeal Ratzinger: Diria que
hoje realmente se dá um domínio do relativismo. Quem não é relativista parece
que é alguém intolerante. Pensar que se pode compreender a verdade essencial é
visto já como algo intolerante. Mas na realidade esta exclusão da verdade é um
tipo de intolerância muito grave e reduz as coisas essenciais da vida humana ao
subjetivismo. Deste modo, nas coisas essenciais já não teremos uma visão comum.
Cada um poderá e deverá decidir como pode. Perdemos assim os fundamentos éticos
de nossa vida comum.
Cristo é totalmente diferente a todos os fundadores de
outras religiões, e não pode ser reduzido a um Buda, ou a um Sócrates, ou um
Confúcio. É realmente a ponte entre o céu e a terra, a luz da verdade que se
apresentou a nós. O dom de conhecer Jesus não significa que não tenha
fragmentos importantes de verdade em outras religiões. À luz de Cristo, podemos
instaurar um diálogo fecundo com um ponto de referência no qual podemos ver
como todos estes fragmentos de verdade contribuem a um aprofundamento de nossa
própria fé e a uma autêntica comunhão espiritual da humanidade.
--O que o senhor diria a um jovem teólogo? Que aspectos da
cristologia lhe aconselharia estudar?
--Cardeal Ratzinger: É
importante, antes de tudo, conhecer a Sagrada Escritura, o testemunho vivo dos
Evangelhos, tanto dos sinóticos como do Evangelho de São João, para escutar a
autêntica voz. Em segundo lugar, são muito importantes os grandes concílios,
sobretudo o Concílio de Calcedônia, assim como os sucessivos Concílios que
declararam o significado dessa grande fórmula sobre Cristo, verdadeiro Deus e
verdadeiro homem. A novidade de que realmente é Filho de Deus, e realmente
homem, não é uma aparência, pelo contrário, une Deus ao homem. Em terceiro
lugar, sugiro aprofundar no mistério pascal: conhecer este mistério do
sofrimento e da ressurreição do Senhor e deste modo conhecer o que é a
Redenção. A novidade de que Deus, na pessoa de Jesus, sofre, leva nossos
sofrimentos, compartilha nossa vida, e deste modo cria o passo à autêntica vida
na Ressurreição. Trata-se de todo o problema da libertação da vida humana, que
hoje está compreendida no mistério pascal, por uma parte se relaciona com a
vida concreta de nosso tempo e, por outra, representa-se na liturgia. Parece-me
central precisamente este nexo entre liturgia e vida, ambas fundadas no mistério
pascal.
--O que o cardeal Ratzinger
aprendeu que não sabia já o teólogo Ratzinger?
--Cardeal Ratzinger: A
substância de minha fé em Cristo seguiu sendo sempre a mesma: conhecer este
homem que é Deus que me conhece, que --como diz São Paulo-- se entregou por
mim. Está presente para ajudar-me e guiar-me. Esta substância continuou sendo
sempre igual. No transcurso de minha vida li os Padres da Igreja, os grandes
teólogos, assim como a teologia presente. Quando eu era jovem, era determinante
na Alemanha a teologia de Bultmann, a teologia
existencialista; depois foi mais determinante a teologia de Moltmann,
teologia de influência marxista, por assim dizer. Diria que no momento atual o
diálogo com as demais religiões é o ponto mais importante: compreender como por
uma parte Cristo é único, e por outra parte como responde a todos os demais,
que são precursores de Cristo, e que estão em diálogo com Cristo.
--Que deve fazer uma Universidade católica, portadora da
verdade de Cristo, para fazer presente a missão
evangelizadora do cristianismo?
--Cardeal Ratzinger: É
importante que
Por este motivo, na escola católica, tem de se dar uma
formação fundamental nas questões da fé e sobretudo um
diálogo interdisciplinar entre professores e estudantes para que juntos possam
compreender a missão de um intelectual católico em nosso mundo.
--Ante a busca atual de espiritualidade, muita gente
recorre à meditação transcendental. Que diferença há entre a meditação
transcendental e a meditação cristã?
--Cardeal Ratzinger: Em poucas
palavras, diria que o essencial da meditação transcendental é que o homem se
expropria do próprio eu, une-se com a universal essência do mundo; portanto,
fica um pouco despersonalizado. Pelo contrário, na meditação cristã, não perco
minha personalidade, entro em uma relação pessoal com a pessoa de Cristo, entro
em relação com o «Tu» de Cristo, e deste modo este «eu» não se perde, mantém
sua identidade e responsabilidade. Ao mesmo tempo abre-se, entra em uma unidade
mais profunda, que é a unidade do amor que não destrói. Portanto, diria em
poucas palavras, simplificando um pouco, que a meditação transcendental é
impessoal, e neste sentido «despersonalizante».
Enquanto que a meditação cristã «é personalizante» e
abre a uma unidade profunda que nasce do amor e não da dissolução do eu.
--O senhor é prefeito para a Congregação para a Doutrina
da Fé, o que antes se chamava a Inquisição. Muita gente desconhece os dicastérios vaticanos. Crêem que é um lugar de condenação.
Em que consiste seu trabalho?
--Cardeal Ratzinger: É difícil
responder a isto em duas palavras: temos duas seções principais: uma
disciplinar e outra doutrinal.
A disciplinar tem de se ocupar de problemas de delitos de
sacerdotes, que, infelizmente, existem na Igreja. Agora temos o grande problema
da pedofilia, como sabeis. Neste caso, devemos sobretudo
ajudar os bispos a encontrar os procedimentos adequados e somos uma espécie de
tribunal de apelação: se alguém se sente tratado injustamente pelo bispo, pode
recorrer a nós.
A outra seção, mais conhecida, é doutrinal. Neste sentido,
Paulo VI definiu nossa tarefa como «promover» e «defender» a fé. Promover, ou
seja, ajudar o diálogo na família dos teólogos do mundo, seguir este diálogo, e
alentar as correntes positivas, assim como ajudar as tendências menos positivas
a conformar-se com as tendências mais positivas. A outra dimensão é defender:
no contexto do mundo de hoje, com seu relativismo, com uma oposição profunda à
fé da Igreja em muitas partes do mundo, com ideologia agnóstica, atéia, etc., a
perda da identidade da fé acontece com facilidade. Temos de ajudar a distinguir
autênticas novidades, autênticos progressos, de outros passos que implicam uma
perda de identidade da fé.
Temos à disposição dois instrumentos muito importantes
para este trabalho, a Comissão Teológica Internacional, com 30 teólogos
propostos por cinco anos com indicação dos bispos; a Comissão Bíblica, com 30
exegetas, também eles propostos pelos bispos. São foros de discussão para os
teólogos para encontrar, por assim dizer, um entendimento internacional
inclusive entre as diferentes escolas de teologia, e um diálogo com o
Magistério.
Para nós é fundamental a colaboração com os bispos. Se for
possível, devem resolver os problemas os bispos. Mas, com freqüência, trata-se
de teólogos que têm fama internacional e, portanto, o problema supera as
possibilidades de um bispo, de modo que é levado à Congregação. Aqui promovemos
o diálogo com estes teólogos para chegar, se for possível, a uma solução
pacífica. Só em pouquíssimos casos dá-se uma solução negativa.
--Este último ano foi difícil para os católicos pelo
espaço que tiveram nos meios de comunicação os escândalos atribuídos a
sacerdotes. Alguns falaram de campanha contra a Igreja. O senhor, o que pensa?
--Cardeal Ratzinger: Também na
Igreja os sacerdotes são pecadores, mas estou pessoalmente convencido de que a
permanente presença de pecados de sacerdotes católicos na imprensa, sobretudo
nos Estados Unidos, é uma campanha construída, pois a porcentagem destes
delitos entre sacerdotes não é mais elevada que em outras categorias, ou talvez
seja mais baixa. Nos Estados Unidos, vemos continuamente notícias sobre este
tema, mas menos de 1% dos sacerdotes são culpados de atos deste tipo. A
permanente presença destas notícias não corresponde à objetividade da
informação nem à objetividade estatística dos fatos. Portanto, chega-se à
conclusão de que é manipulada, que se quer desacreditar a Igreja. É uma
conclusão muito lógica e fundada.
--Debate-se o que fato de que nos preâmbulos da futura
Constituição européia apareça a palavra de Deus e referencias ao passado
cristão da Europa. O senhor pensa que pode ter uma Europa unida de costas a seu
passado cristão?
--Cardeal Ratzinger: Estou
convencido de que a Europa não deve ser só algo econômico, político, mas que
tem necessidade de fundamentos espirituais. É um fato histórico que a Europa é
cristã, e que cresceu sobre o fundamento da fé cristã, que segue sendo o
fundamento dos valores para este continente, que por sua vez influiu em outros
continentes. Parece-me indispensável ter um fundamento de valores e, se nos
perguntamos qual é este fundamento, damo-nos conta de que não há outro fora dos
grandes valores da fé cristã, por cima das confissões, e por isso para mim é
indispensável que nesta Constituição futura da Europa fale-se dos fundamentos
cristãos desta Europa.
Não quero cair no erro de construir um catolicismo
político. A fé não indica imediatamente receitas políticas, mas indica os
fundamentos. Por uma parte, a política tem sua autonomia, mas por outra parte
não há uma separação total entre política e fé. Existem fundamentos da fé que
criam depois um espaço livre para a razão política. Portanto, a pergunta é o
que é que pertence a estes fundamentos para que possa funcionar a política.
Quais são os aspectos que devem ser deixados livres?
Em primeiro lugar, é fundamental ter uma visão moral antropológica
e aqui a fé nos dá a luz. Para ter esta visão antropológica, que garante a
liberdade da razão política, é necessária a pessoa de Deus? Estou convencido de
que uma moral que não conhece Deus se fragmenta e, portanto, ao menos a grande
intuição de que há um Deus que nos conhece e nos indica a figura do homem, como
imagem de Deus, pertence a estes fundamentos. Também [citar a Deus] não é um
ato de violência contra ninguém, não destrói a liberdade de ninguém, mas abre a
todos o espaço livre para poder construir uma vida
realmente humana, moral.
--Há professores de seminário do País Basco que chegam a
justificar o terrorismo do ETA ou não o condena taxativamente. Parece que há
conexões entre estes sacerdotes e a teologia da libertação. Fala-se inclusive
de uma Igreja indígena basca. Que decisões se podem tomar contra isso?
--Cardeal Ratzinger: Neste caso
se aplica simplesmente o que a Congregação para a Doutrina da Fé disse entre os
anos 1984 [instrução «Libertatis nuntius»]
e 1986 [instrução «Libertatis conscientia»]
sobre a teologia da libertação. Certamente o cristianismo se relaciona com a
liberdade, mas a verdadeira liberdade não é uma liberdade política. A política
tem sua autonomia, isto foi sublinhado sobretudo pelo
Concílio Vaticano II e não deve ser construída pela fé como tal, deve ter sua
racionalidade. Da Sagrada Escritura não se podem deduzir
receitas políticas e muitos menos justificações do terrorismo. Parece-me que
pelo que se refere a este caso específico, já está dito tudo nas duas instruções
de nossa Congregação para a teologia da libertação. A novidade do messianismo
cristão consiste
--Se fizermos um balanço da atividade inaudita do Papa
João Paulo II, qual será a contribuição mais
importante este papado? Como recordará o cristianismo a este Papa?
--Cardeal Ratzinger: Não sou
profeta, por isso não me atrevo a dizer o que dirão em cinqüenta anos, mas
creio que será sumamente importante o fato de que o Santo Padre tenha estado
presente em todas as partes da Igreja. Deste modo, criou uma experiência
sumamente viva da catolicidade e da unidade da
Igreja. A síntese entre catolicidade e unidade é uma
sinfonia, não é uniformidade. Disseram isso os Padres da Igreja. Babilônia era
uniformidade, e a técnica cria uniformidade. A fé, como se vê em Pentecostes,
onde os apóstolos falam todos os idiomas, é sinfonia, é pluralidade na unidade.
Isto aparece com grande clareza no pontificado do Santo Padre com suas visitas
pastorais, seus encontros.
Penso que alguns documentos serão importantes para sempre:
quero mencionar as encíclicas «Redemptoris missio», a «Veritatis splendor», a «Evangelium vitae» e também «Fides et ratio». São quatro documentos
que serão realmente monumentos para o futuro.
Por último, parece-me que se
recordará sua abertura às demais comunidades cristãs, às demais religiões do
mundo, ao mundo profano, às ciências, ao mundo político. Nisto, ele fez sempre
referência à fé e a seus valores, mas ao mesmo tempo mostrou também que a fé é
capaz de entrar em diálogo com todos.
--Qual é a contribuição de João Paulo II ao diálogo
inter-religioso?
--Cardeal Ratzinger: O Santo
Padre vê sua missão própria uma missão de conciliação no mundo, uma missão de
paz. Enquanto no passado infelizmente se davam guerras de religião, o Santo
Padre quer mostrar que a justa relação entre as religiões não é a guerra, não é
a violência, é o diálogo e o intento de compreender os elementos de verdade que
se dão nas demais religiões. O Santo Padre não pretende relativizar
a unicidade de Cristo, que é o Caminho, a Verdade e a Vida, mas quer mostrar
que esta verdade sobre Cristo não pode anunciar-se com violência ou com o poder
humano, mas só com a força da verdade. E para isso requer-se um contato humano
de diálogo e de amor, como fizeram os apóstolos na grande missão da Igreja
antiga: sem servir-se do poder mundano, utilizando a força da convicção. O
testemunho do sofrimento, o testemunho da caridade e do diálogo convenceu o
mundo antigo. O Santo Padre trata simplesmente de renovar esta força de diálogo
e de amor dos primeiros séculos na relação com as religiões.
--Foi dito que é necessário convocar um Concílio Vaticano
III para que a Igreja vá se adaptando aos novos tempos. O que o senhor acha?
--Cardeal Ratzinger: Antes de
tudo, eu diria que é um problema prático. Não realizamos suficientemente a
herança do Vaticano II, estamos trabalhando ainda para assimilar e interpretar
bem esta herança, pois os processos vitais requerem tempo. Uma medida técnica
se pode aplicar rapidamente, mas a vida tem caminhos muito mais longos.
Requer-se tempo para que cresça um bosque, requer-se tempo para que cresça um
homem... Deste modo, estes caminhos espirituais, como o da assimilação de um
Concílio, são caminhos de vida, que têm necessidade de uma
certa duração, e que não se podem percorrer de um dia para outro. Por
isso, creio que não chegou o momento de um novo Concílio. Este não é o problema
primário, mas seria também um problema prático. No Vaticano II tivemos dois mil
bispos e era já sumamente difícil poder ter uma reunião de diálogo; agora
teríamos quatro mil bispos e creio que haveria que inventar técnicas para o
diálogo.
Quero recordar algo que sucedeu no século IV, século de
grandes concílios. Quando convidaram, dez anos depois de um concílio, São
Gregório Nazianzeno a participar em um novo concílio,
disse: «Não! Eu não vou. Agora temos de seguir trabalhando sobre o outro. Temos
tantos problemas. Para que quereis convocar
imediatamente outro?». Creio que esta voz um pouco emotiva mostra-nos que se
requer tempo para assimilar um concílio.
No tempo intermediário entre dois grandes concílios, são
necessárias, sobretudo, outras formas de contato entre os episcopados: os
Sínodos em Roma, por exemplo. É necessário sem dúvida melhorar o procedimento,
pois há muitos monólogos. Temos de encontrar realmente um processo sinodal, de um caminho
--Como manter a fidelidade à Igreja e favorecer a
comunhão, estando abertos a que o Espírito nos leve até a verdade completa. Ou
seja, como é possível não cair no extremo de rigidez e ruptura?
--Cardeal Ratzinger: Creio que é
uma questão sobretudo da maturidade da fé pessoal.
Aparentemente, fidelidade e abertura parecem excluir-se. Mas eu creio que a
autêntica fidelidade ao Senhor Jesus, e a sua Igreja, que é seu Corpo, é uma
fidelidade dinâmica. A verdade é para todos e todos estão criados para chegar
ao Senhor. Seus braços abertos na cruz simbolizam para os Padres da Igreja ao
mesmo tempo a máxima fidelidade --o Senhor cravado na cruz-- e o abraço ao
mundo, para atrair o mundo para si, e deixar espaço a todos. Portanto, uma
autêntica fidelidade ao Senhor participa no dinamismo da pessoa de Cristo, que
pode abrir-se aos diferentes desafios da realidade, do outro, do mundo, etc.
Mas, ao mesmo tempo, encontra aí sua identidade profunda, que não exclui nada
que seja verdadeiro, só exclui a mentira. Na medida em que entramos em comunhão
com Cristo, em seu amor que nos aceita a todos e nos purifica a todos, na
medida em que participamos na comunhão com Cristo, podemos ser fiéis e abertos.
--Em que situação se encontra atualmente a comunicação
ecumênica do conceito de Igreja? Depois da instrução «Dominus
Iesus» (6 de agosto de
2000), da Congregação para a Doutrina da Fé, deram-se críticas entre
representantes das Igrejas evangélicas, pois não aceitaram ou não entenderam
bem declarações suas, pois o senhor dizia que mais que Igrejas deviam ser
consideradas como comunidades cristãs.
--Cardeal Ratzinger: O tema
exigirá uma discussão longa. Em primeiro lugar, foi nos dito que, se na «Dominus Iesus» só tivéssemos
falado do caráter único de Cristo, toda a cristandade teria ficado encantada
com este documento, todos teriam se unido em um aplauso à Congregação. «Por que
haveis acrescentado o problema eclesiológico que
suscitou críticas?», perguntaram-nos.
Contudo, era necessário falar também da Igreja, pois Jesus
criou este Corpo, e Ele está presente através dos séculos através de seu
Cristo, que é a Igreja. A Igreja não é um espírito que revoa. Estou convencido
de que [na «Dominus Iesus»]
interpretamos de maneira totalmente fiel a «Lumen Gentium» do Vaticano II, enquanto que nestes últimos trinta
anos fomos atenuando o texto. De fato, nossos críticos nos disseram que ficamos
na letra do Concílio, mas que não entendemos o Concílio. Ao menos reconhecem
que somos fiéis à letra.
A Igreja de Cristo não é uma utopia ecumênica, não é algo
que fazemos nós, não seria a Igreja de Cristo. Por isso, estamos convencidos de
que a Igreja é um Corpo, não é só uma idéia, mas isto não exclui diferentes
modos de uma certa presença da Igreja inclusive fora
da Igreja Católica que são especificados pelo Concílio. Parece-me evidente que
existem, portanto, matizes, e é compreensível que isto gere debates dentro da
Igreja.
--Pensa que a Igreja, especialmente no mundo ocidental,
está preparada para enfrentar a descristiananização e
o vazio da fé tão grande que há? Ou ainda se dá entre os homens da Igreja uma
visão de cristandade, e não de uma Igreja missionária?
--Cardeal Ratzinger: Creio que
neste sentido temos muito que aprender. Ocupamo-nos muito de nós mesmos, das
questões estruturais, do celibato, da ordenação das mulheres, dos conselhos
pastorais, dos direitos destes conselhos, dos sínodos... Trabalhamos sempre
sobre nossos problemas internos e não nos damos conta de que o mundo tem
necessidade de respostas, não sabe como viver. Esta incapacidade de viver do
mundo se vê na droga, no terrorismo, etc. portanto, o
mundo tem sede de respostas, e nós ficamos em nossos problemas. Estou
convencido de que se saímos ao encontro dos demais e apresentamos aos demais de
maneira apropriada o Evangelho, se relativizarão e
resolverão os problemas internos. Para mim, este é um ponto fundamental: temos
de fazer o Evangelho acessível ao mundo secularizado de hoje.
--Qual crê que possa ser o ponto de partida para coordenar
o crescimento do poder técnico e científico da humanidade com a fé e a moral?
--Cardeal Ratzinger: É algo que
há que descobrir de novo, pois os paradigmas científicos mudam, e deste modo a
situação do diálogo entre ciência e fé se encontra ante novos
desafios. Um instrumento importante, por exemplo, é a Academia Pontifícia das
Ciências, da qual agora sou também membro, e de fato há pouco participei pela
primeira vez em uma de suas reuniões. Até agora era somente uma assembléia de
cientistas: físicos, biólogos, etc; agora entraram
também filósofos e teólogos. Vimos que é difícil o diálogo entre as ciências e
a filosofia e a teologia, pois são modos totalmente diferentes de enfrentar a
realidade, com métodos diferentes, etc. Um destes acadêmicos --era especialista
na investigação do cérebro humano-- disse: existem dois mundos inconciliáveis,
por uma parte temos a ciência exata, para a qual --em seu campo-- não há
liberdade, não há uma presença do espírito, e por outra parte, dou-me conta de
que sou um homem e sei que sou livre. Portanto, segundo ele, são dois mundos
diferentes e não temos a possibilidade de conciliar estas
duas percepções do mundo. Ele mesmo reconhecia que acreditava nos dois mundos:
na ciência que nega a liberdade e em sua experiência de homem livre. Mas deste
modo não podemos viver, seria uma esquizofrenia permanente. Nesta situação
atual de uma aguda especialização metodológica por parte de ambas
partes devemos buscar a maneira na qual se descubra a racionalidade do outro e
encontrar um autêntico diálogo. Pelo momento, não existe uma fórmula. Por isso,
é sumamente importante que se encontrem expoentes das duas partes do pensamento
humano: as ciências, e a filosofia e a teologia. Assim podem descobrir que
ambas são expressões da razão autêntica, mas devem compreender que a realidade
é uma e que o homem é um. Por isso, é muito importante que, nas Universidades,
as faculdades não estejam uma junto à outra, mas que estejam em um contato
permanente, no qual aprendemos a pensar com os demais e a encontrar a unidade
da realidade.
ZP05041902