DOM CLÁUDIO CARDEAL HUMMES, OFM
Arcebispo Metropolitano de São Paulo


Quaresma e Campanha da Fraternidade

JOSP, 26/02/04

Irmãos e irmãs!

Iniciamos o tempo da Quaresma e abrimos a Campanha da Fraternidade deste ano. As duas se desenvolverão no mesmo período, que vai da Quarta feira de Cinzas até a Páscoa. Já é tradicional no Brasil. Desde que foi criada, a Campanha da Fraternidade é celebrada na Quaresma, por tratar-se de uma forma de tornar prática nossa fé, a qual por sua vez deve renovar-se pela conversão mais aprofundada a Jesus Cristo, morto e ressuscitado, durante Quaresma.

1. Quaresma
Ela nos prepara para celebrar a Páscoa de Jesus Cristo, sua morte e ressurreição. Trata-se do momento culminante do ano litúrgico da Igreja. A Páscoa, realmente, constitui-se na festa mais importante da Igreja, pois nela se celebra a realização da redenção do gênero humano. Jesus realiza a redenção, por sua morte e ressurreição. Ele é o Redentor, o único redentor da humanidade. Pois, como proclama Pedro, nos Atos dos Apóstolos: “Em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos” (At 4,12).
Cada ano, a Igreja celebra com fervor e gratidão esse mistério da Páscoa de Jesus. Por Ele, nós fomos salvos. Nada existe de mais importante e decisivo na nossa vida do que a nossa salvação eterna. Por essa razão, Jesus disse: “Com efeito, o que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua vida? Ou o que dará o homem em troca de sua vida?” (Mc 8,36-37). De que vida se trata? Santo Irineu, bispo e mártir do século 2º explica, dizendo: “A gloria de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus” (Ad Haer IV 20,7). Trata-se da vida humana, que inicia em condições terrenas e históricas neste mundo, mas que perdura para além desse mundo, na imortalidade e na possibilidade da visão de Deus, depois de terminar seu curso terreno. É esta vida que é preciosa e não pode ser dada em troca de nada neste mundo, nem do mundo inteiro. Para esta vida definitiva fomos chamados por Deus desde a criação, mas o pecado havia truncado o caminho e introduzido a morte e a perdição longe de Deus. Jesus Cristo, por sua morte e ressurreição, reabriu definitivamente este caminho, redimindo-nos da morte e da perdição.
Participar da Quaresma, exige, pois, uma renovada adesão a Jesus Cristo, que nos salva. Um re-encontro forte, pessoal e comunitário com Ele. Desse encontro nasce a adesão e esta adesão nos faz seus discípulos, que ouvem e acolhem sua palavra. O encontro, a adesão, a escuta e o acolhimento produzem a fé, que deve tornar-se prática na caridade e na solidariedade. Por esse motivo, realiza-se a Campanha da Fraternidade na Quaresma.

2. Campanha da Fraternidade
Neste ano, a Campanha nos fala da ÁGUA. O tema é: FRATERNIDADE E ÁGUA. O lema: Água, fonte de vida. A Igreja, portanto, nos chama a atenção de que a água tem tudo a ver com a fraternidade cristã. A água é um bem para todos e deve estar à disposição de todos, pois sem ela ninguém vive neste mundo. É uma necessidade vital. Se todos temos direito à vida, então temos direito a água necessária, essencial para poder sobreviver.
Mas na forma em que a sociedade humana foi organizada pelos homens, hoje, a disponibilidade de água suficiente e adequada para todos tornou-se problemática. Tudo indica que esse problema crescerá, tornando-se aos poucos um dos maiores problemas do novo milênio que iniciamos. Na verdade, não se trata tanto de escassez de água, mas da boa ou má gestão das águas.
A Igreja no Brasil, com esta Campanha, quer despertar mais a população e as autoridades para o crescente problema. Quer colaborar e contribuir na discussão e na conscientização de todos.
Vamos, então, participar ativamente, com disposição, desta Campanha, em nossas paróquias, comunidades, grupos de rua, CEBs, pastorais, movimentos, escolas e em tantos outros possíveis ambientes, refletir sobre esta questão e propor políticas públicas que encaminhem soluções, bem como uma nova mentalidade em cada cidadão/ã para preservar as águas, não desperdiçar, não poluir, economizar, não jogar lixo ou resíduos industriais nos rios e nos mananciais em geral, e, quem sabe, construir cisternas nas casas para captar as águas da chuva e assim ter mais água à disposição e diminuir as enchentes.