Muito Obrigado, Santo Padre
Gazeta do Povo (Curitiba)
Nas imagens
do Papa que os meios de comunicação nos oferecem nestes últimos anos, parece-me
que há um elemento permanente e um outro que muda: por um lado, as imagens
refletem o corpo de um homem que se consome inexoravelmente com o passar do
tempo; por outro, mostram com igual clareza, e com mais força ainda, um fenômeno
invariável: em todos os lugares do mundo, multidões se apertam ao redor da
sua pessoa com idêntico fervor.
Muitas
explicações foram dadas a este fato. Em geral, tentou-se responder ao mistério
desse magnetismo de João Paulo II indagando as expectativas que movem tantas
pessoas a dirigirem-se a ele. Por exemplo, o difundido
desejo de paz: João Paulo II se interpõe em todos os conflitos que cobrem
o mundo de sangue e, com uma perseverança mais forte que as divisões, invariavelmente
invoca o perdão como caminho necessário para uma paz verdadeira. Outros sustentam
que o que move as multidões a dirigir o olhar ao Papa é a sede de verdade,
tão viva numa sociedade cansada de mentiras e de modas efêmeras: a voz do
Papa proclama sem temor uma verdade perene, uma moral insubornável, que se ergue em defesa da dignidade do homem.
Para
entender a extraordinária atração de João Paulo II, penso que é preciso aprofundar
mais. Impõe-se escrutar o que a teologia chama sensus
fidei: essa espécie de instinto da fé que palpita
na mente e no coração dos cristãos.
Deste
ponto de vista, observa-se uma Igreja apinhada em torno do Papa, uma Igreja
que não pode se afastar do seu Pastor supremo porque se sabe incapaz de conceber
a si mesma sem ele. Mostra também um Papa que existe para a Igreja e no qual
a Igreja procura o rosto de Cristo.
Quem
o escuta sente que ele fala com uma autoridade que procede do alto: desse
Evangelho que não passará “enquanto durarem o céu e a terra” (Mt 5, 18). Junto
do Sucessor de Pedro percebe-se a presença de um vínculo de comunhão mais
forte que qualquer outro baseado em motivos históricos ou culturais. Toca-se
o mistério que faz da Igreja a família de Deus e de cada homem um filho de
Deus.
À medida
que a idade e o sofrimento físico debilitam as suas forças, a vontade do Papa se robustece na união com a Cruz de Cristo,
que – como é patente– ele ama com generosidade exemplar.
Contemplar
o rosto de Cristo: é o objetivo que João Paulo II indicou para que a Igreja
possa “assumir com novo impulso a sua missão evangelizadora” (Carta apost. Novo millenio ineunte, 2), no umbral do terceiro milênio. E não podemos
deixar de pensar no Papa, na sua missão de Pastor da Igreja universal, ao
ler estas outras palavras suas: “Os homens do nosso tempo, talvez sem se darem
conta, pedem aos crentes de hoje não só que lhes ‘falem’ de Cristo, mas também
que de certa forma lho façam ‘ver’. E não é porventura a missão da Igreja
refletir a luz de Cristo em cada época da história, e por conseguinte fazer
resplandecer seu rosto também diante das gerações do novo milênio?” (ibidem,
16).
Este
“contato” com o Senhor se produz também e muito especialmente na dor: “A Igreja
é continuamente convidada por Cristo a tocar as suas
chagas, ou seja, a reconhecer a sua plena humanidade, assumida de Maria, entregue
à morte, transfigurada pela ressurreição: ‘Põe aqui o teu dedo e vê as minhas
mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado’ (Jo,
20, 27). Como Tomé, a Igreja prostra-se em adoração diante do Ressuscitado,
na plenitude do seu esplendor divino, e perenemente exclama: ‘Meu Senhor e
meu Deus!’ (Jo 20, 28)” (ibidem, 21).
Na união
do Sucessor de Pedro com Jesus Cristo, que cada um intui com maior ou menor
profundidade, encontra-se, a meu modo de ver, a explicação última da misteriosa
sintonia que existe entre o Papa e os homens e mulheres de hoje. O natural
sentimento de afeto e gratidão que todos os cristãos manifestamos para com
João Paulo II nestes momentos é, no fundo, o reconhecimento de que o Papa
nos fez redescobrir o que há de melhor em nós mesmos: a nossa relação pessoal
com o Deus que nos criou e nos salvou no seu Amor.
Já na
sua primeira encíclica lemos que o homem “é o primeiro caminho que a Igreja
deve percorrer no cumprimento da sua missão”. A razão última do seu contato
imediato com o coração dos crentes estriba em que a paixão do Papa pelo homem
lança as suas raízes em Deus feito Homem. João Paulo II mostra-se-nos
próximo, porque nos recorda que Cristo está muito perto de nós, vive conosco
e dá sentido à nossa vida. Uma certeza tão firme não necessita de mais provas
que a Cruz: esta Cruz na qual todos contemplamos também o Papa.
É muito
lógico que, neste aniversário de João Paulo II, consideremos a importância
da sua figura, a profundidade dos seus ensinamentos, as conseqüências das
suas decisões. E de modo também natural sentimos a necessidade de expressar
o nosso agradecimento, de todo o coração. Secundando o que nos acaba de pedir
em Pompéia, no dia de Nossa Senhora do Rosário, queremos rezar sempre por
ele, como demonstração de afeto filial e de profundo e sincero agradecimento.
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Javier Echevarría
Bispo Prelado do Opus Dei