Sem verdade, a liberdade fica
encarcerada
Dom Vitaliano Mattioli fala de seu
último livro
ROMA, sexta-feira, 12 de novembro
de 2004 (ZENIT.org).- Quando a liberdade não leva em conta a verdade, acaba
encarcerando-se, alerta um reconhecido teólogo.
É a idéia apresentada em
«Liberdade encarcerada» («Liberta imprigionata») (ed.
Segno, 2004), o último livro de dom Vitaliano Mattioli, professor da
Pontifícia Universidade Urbaniana e vice-presidente
do Pontifício Instituto S. Apollinare.
Nesta entrevista concedida a Zenit, explica o tema central de seu livro, no qual
enfrenta com clareza a relação entre verdade e liberdade.
--Por que elegeu este título para
seu livro?
--Mattioli:
Há alguns anos que desejava escrever algo sobre este tema. Estou notando uma
tendência nas pessoas a fazer eleições negativas que lhes encarceram. Ao
considerar a liberdade humana como «anarquia», a pessoa não se liberta, mas se auto encarcera: aprisiona sua liberdade.
O homem não é já o «senhor» de si
mesmo, mas que sua concepção errada da vida e da existência o conduz a sua
destruição. Na parte central do livro, analiso algumas destas cadeias
simbólicas que, ao final, provêm todas de uma postura não nova que, de vez em
quando, reaparece através dos séculos: propor a vida como se Deus não
existisse.
Daí o subtítulo: «Ensaio sobre a
autodestruição humana». Como evitar esta catástrofe? Nesse momento emerge a
figura de Cristo, o único que é capaz de devolver ao homem sua liberdade
originária.
--O Santo Padre na «Veritatis Splendor» sublinha que
não existe liberdade sem verdade. Afirmação que o Magistério da Igreja repete
continuamente. O que nos pode dizer a este respeito?
--Mattioli:
O homem quebrou o binômio «liberdade/verdade». Quis
ofuscar a verdade sobre Deus, não considerando já o Criador e a origem de todo
bem, o princípio do ser e o doador de toda existência.
Ao destituir um Deus
transcendente, emerge o homem prometéico. Eis aí outra
verdade negada: a verdade sobre o homem. Sendo criatura, sente-se criador. Ao
negar um Deus criador, pôs-se a fabricar o homem; negado um Deus legislador,
converteu-se em sua própria lei. Daí o Estado ético.
Negando estas verdades, negou-se
também a liberdade. Não só desde o ponto de vista individual, mas também
político: quando uma pessoa humana se põe no pedestal, após ter destronado a
divindade, considera-se deus, mas não um Deus pai, mas um deus patrão, o
ditador. Os direitos humanos já não são levados em conta; o homem se reduz a
viver em uma grande prisão. Desta maneira, perde também sua liberdade
existencial.
Ao negar a Deus, considera-se
absoluto e então se abandona a suas próprias paixões. Já não atua ele mesmo,
mas são seus caprichos e impulsos que o dominam e controlam. Chegado a este
ponto, o homem é capaz de realizar qualquer aberração.
O motivo pelo qual o Magistério
da Igreja insiste muito na defesa deste binômio não é só porque deseja indicar
uma visão cristã da vida, mas impedir o homem, qualquer homem, que se autodestrua.
--A atual situação da Europa é um
exemplo da contradição entre verdade e liberdade. Em nome de um maior respeito
ao Estado leigo e à liberdade religiosa, não se quis introduzir a referência às
raízes cristãs da Europa. O que pensa?
--Mattioli:
Em meu livro, ao falar de uma terceira cadeia, a «mentalidade
laicista», analiso a diferença entre Estado
leigo e Estado laicista. Já Pio XII não temia aceitar
sem reservas «uma sã laicidade do Estado». A laicidade aceita o pluralismo religioso e o vê como um
enriquecimento.
O presidente do Senado italiano, Marcello Pera, em um discurso em
Assis (15 de outubro de 2004) disse que «a laicidade
é um princípio de autonomia, de tolerância, de respeito ante
confissões, credos e filosofias».
Ao contrário, é laicista o Estado que nega a realidade religiosa ou
considera que pertence só à esfera da subjetividade. Daí que a vida religiosa
não tenha cidadania no Estado laicista, que se
transforma necessariamente em Estado ético.
A Europa queria se considerar
leiga ainda que de fato esteja se transformando em laicista.
Este é o motivo pelo qual se obstinou em um não reconhecer no preâmbulo
constitucional suas raízes cristãs.
Segundo Marcello
Pera, «o laicismo é o contrário: uma ideologia, às
vezes se converte em uma religião e inclusive pode chegar a ser uma religião cega, obtusa, dogmática». «Talvez
--acrescenta--, esta religião laicista explica, mais
que todo o resto, o esquecimento das raízes cristãs da Europa no preâmbulo do
Tratado». A Europa, sobre este ponto, está começando a ter uma intolerância que
preocupa.
--Em nome de um conceito mais
livre de família, assiste-se à vontade de estender esta última também aos pares
homossexuais, permitindo-lhes inclusive a adoção de crianças. Qual é sua
opinião?
--Mattioli:
Uma premissa: absoluto respeito para com as pessoas que se encontram nestas
situações. Uma vez dito isto, o reconhecimento dos pares homossexuais é uma das
conseqüências de ter elegido um Estado laicista.
Quando a anarquia substitui a
liberdade (possibilidade de atuar em conformidade com a reta razão), tudo é
lícito. Eu sou lei para mim mesmo e devo conseguir que o Estado justifique, legislativamente, meus desejos.
Desde sempre, a família foi
considerada uma união entre uma pessoa de sexo masculino e uma de sexo
feminino, reconhecida pela sociedade. Não se objeta sobre a opção individual de
duas pessoas, mas sobre a pressão para com as instituições legislativas para
fazer natural e, portanto, legítima esta eleição.
Ainda mais se se
trata da adoção de crianças por parte destes pares. Toda a psicologia não faz
outra coisa que confirmar a urgência da figura masculina e feminina na educação
da criança. Aqui, ao contrário, trata-se de obrigar o legislador em uma direção
que vai contra todos os sãos princípios da natureza e as conclusões mais óbvias
da ciência, no que se refere ao desenvolvimento equilibrado do ser humano.
Também aqui prevalece o capricho:
a satisfação incondicionada de qualquer desejo fruto do egoísmo e da falta de
busca do bem do outro.
ZP04111201