“Não te deixes vencer pelo mal, vence antes o mal com o bem” (Rm 12,21)
Cardeal Dom Cláudio Hummes, OFM
Arcebispo Metropolitano de São Paulo
(O São Paulo, 05/01/2005)

 

Irmãos e irmãs!

Como todos os anos, o Papa enviou uma mensagem para o dia 1º. de janeiro de 2005, data em que se celebra o DIA MUNDIAL DA PAZ. Suas mensagens nos anos anteriores foram mostrando aspectos necessários a serem considerados na construção da paz no mundo, que mais respondiam às circunstâncias mundiais de cada ano, mas que ao mesmo tempo foram elaborando paulatinamente uma verdadeira doutrina da paz.

A mensagem deste ano tem como tema uma frase do apóstolo Paulo na Carta aos Romanos: “Não te deixes vencer pelo mal, vence antes o mal com o bem” (Rm 12,21). Logo no início da mensagem o Papa já indica como esta frase tem a ver com a paz, dizendo: “A paz é o resultado de uma longa e árdua batalha, vencida quando o mal é derrotado com o bem. A paz “é um bem que deve ser conservado e cultivado mediante opções e obras de bem” (n.1). São Paulo, na mesma Carta aos Romanos, escreveu também: “A ninguém pagueis o mal com o mal; seja vossa preocupação fazer o que é bom para todos os homens” (Rm 12,17).

Diante das tragédias causadas pelo terrorismo, pelas guerras e violências que o mundo está a sofrer nos últimos tempos, o Papa escreve, dizendo: “À vista dos dramáticos cenários de violentos combates fratricidas que têm lugar em várias partes do mundo, diante dos indescritíveis sofrimentos e injustiças que deles derivam, a única opção realmente construtiva é – como sugere ainda São Paulo – detestar o mal e aderir ao bem” (cf. Rm. 12,9).

Vencer o mal com o bem, fazer opções que promovam o bem e realizar obras de bem constituem caminhos para vencer o mal e construir a paz. Não se constrói a paz pagando o mal com o mal, respondendo à violência com violência, com vingança, com represália. A constante tentação do homem é enfrentar a violência com violência. Na verdade, esta forma de agir acaba por tornar-se um círculo vicioso, haja vista situações como no Iraque e em Israel. A única forma de romper o círculo é não responder com violência, conforme a norma de Jesus: “Não resistais ao homem mau, antes, àquele que te fere na face direita oferece-lhe também a esquerda”(Mt 5,39).

Vê-se logo que a construção da paz no mundo começa na vida pessoal de cada um. Tu, portanto, resiste à tentação da violência na vida quotidiana. Se alguém se mostrar mau e violento contigo, faze-lhe o bem. “Se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber. Agindo desta forma, estarás acumulando brasas em sua cabeça (isto é, estarás acendendo o remorso em sua cabeça)”, escreveu São Paulo na já citada Carta aos Romanos.

Se os países mais ricos do mundo se empenhassem realmente em ajudar os países pobres a sair de suas misérias, doenças, fomes e isolamentos, promovessem verdadeira justiça social e prosperidade integral, com certeza haveria menos guerras e terrorismos. Fazer o bem, previne muitos males. Mas uma vez desencadeado o mal, ainda o caminho mais eficaz de vencê-lo será combatê-lo com obras que realizam o bem. Essa é a sabedoria que o Papa oferece ao mundo que tem tanta dificuldade de libertar-se de guerras e vio-lências.

Tudo isso parece tão óbvio, tão básico, que nos admiramos por não vê-lo realizado. Sabedoria antiga, baseada até mesmo na experiência mais secular. Vencer o mal com o bem, sempre foi o caminho ideal. O Papa, no alto de sua idade e maturidade, nos recorda esta sabedoria antiga e sempre atual. Como trilhar este caminho no mundo de hoje, como hoje vencer o mal com o bem, esta é a novidade do tema. O Papa nesta mensagem quer ajudar o mundo atual a encontrar as formas de promover o bem diante das guerras, violências, massacres, seqüestros, assassinatos, torturas, terrorismos, que atemorizam a humanidade.

Na próxima semana voltarei a esta mensagem do Papa.