Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil

2003 a 2006

 

Assembléia dos Bispos – comunhão e discernimento pastoral

Anualmente, os Bispos da Igreja Católica no Brasil realizam a Assembléia da Instituição que os congrega: a Conferência Nacional dos  Bispos do Brasil, que no ano passado celebrou seu jubileu de ouro. Durante dez dias, vivem experiência renovadora de comunhão, cultivam momentos intensos de oração, analisam os principais desafios de sua missão de pastores do povo de Deus e buscam juntos, na docilidade ao Espírito Santo, como realizar a evangelização, tarefa principal de seu ministério.

De quatro em quatro anos, a Assembléia dos Bispos realiza a eleição dos responsáveis para os diversos serviços da CNBB (Presidente, Vice, Secretário-Geral, Conselho Episcopal de Pastoral – atualmente constituído pela Presidência e os Presidentes das dez Comissões Episcopais de Pastoral, Delegado para o Conselho Episcopal Latino-Americano, CELAM e seu suplente [1]). Na mesma Assembléia, são revistas as Diretrizes implementadas no quadriênio anterior e promulgadas as Diretrizes para um novo período de igual tempo.

De 30 de abril a 09 de maio, os Bispos realizaram a 41ª Assembléia Geral da CNBB. Além das eleições e da aprovação das Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil para 2003 a 2006, os Bispos trataram dos seguintes assuntos: Vida e Ministério dos Presbíteros; Ano Vocacional; Estatuto Civil da CNBB; Relatório Econômico; 4ª Semana Social Brasileira; Análise de Conjuntura; Mensagem para o Dia do Trabalhador; Mutirão para a Superação da Miséria e da Fome; Igreja Católica, Igrejas Evangélicas e Política e o Posicionamento sobre os novos movimentos eclesiais (novas comunidades). Receberam também a visita do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, acompanhado de alguns Ministros e Assessores.

 

Planejamento pastoral, um processo de 40 anos

João XXIII (Papa de novembro de 1958 a junho de 1963), que convocou o Concílio Vaticano II e realizou sua primeira fase, em outubro e novembro de 1962, em carta aos Bispos da América Latina, datada de 08/12/1961, pediu "uma ação imediata, para eliminar os perigos iminentes à fé católica”. Em novembro de 1958, em audiência à Presidência do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM), ele havia pedido um “plano de ação realista, previdente quanto aos fins, racional quanto aos meios, aglutinador das forças, no respeito às legítimas liberdades”.

Atendendo à urgência de João XXIII, a Assembléia da CNBB em abril de 1962, aprovou um conjunto de medidas pastorais que foi chamado Plano de Emergência.

Com a experiência do Plano de Emergência, a Igreja no  Brasil pôde integrar a riqueza do Concílio no seu Plano de Pastoral de Conjunto (PPC, de 1966 a 1970). Ele tinha duas partes: Diretrizes e programação. As Diretrizes eram expressas em um objetivo geral e em seis grandes linhas de ação. O plano tinha programas com prioridades, objetivos específicos e projetos.

Essas Diretrizes foram prorrogadas em 1970 e reformuladas em 1975. De 1975 em diante, houve também uma reformulação na metodologia de planejamento pastoral. Não foram mais traçados planos de pastoral, com uma parte de Diretrizes e outra de programas e projetos para a Igreja no Brasil, mas só Diretrizes Gerais da Ação Pastoral da Igreja no Brasil, ficando os planos para os níveis regional, diocesano e paroquial. Em 1995, as Diretrizes tiveram uma alteração no nome. Passaram a ser Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil. A peculiaridade acentua a preocupação de tornar a pastoral mais evangelizadora.

Podem ser identificados três períodos no planejamento pastoral da Igreja no Brasil de 1962 até o momento: O primeiro, de 1962 a 1979, em que se expressa bem a nova consciência de comunhão que a Igreja tinha de si a partir do Concílio - tempo de renovação. O segundo período, de 1980 a 1991, em que se acentua a inserção da Igreja na realidade brasileira. O terceiro período de 1991 em diante, no qual recebem destaque as dimensões fundamentais da Igreja de comunhão e missão.

Em vista da preparação e celebração do grande Jubileu do ano 2000, os Bispos do Brasil, em sua Assembléia Geral de 1996 (17 a 26 de abril) aprovaram por unanimidade o Projeto de Evangelização da Igreja no Brasil Rumo ao Novo Milênio, PRNM. Por ser um projeto, oferecia mais do que orientações. Propunha atividades concretas e uma programação definida. E teve depois do Jubileu um novo projeto, Ser Igreja no Novo Milênio – SINM, para os anos 2001 e 2002. Seu eixo: o livro dos Atos dos Apóstolos, para discernir a missão da Igreja na realidade atual. O Projeto de Evangelização Rumo ao Novo Milênio (PRNM) teve como fundamento mais remoto o Concílio Vaticano II e como bases mais recentes a Carta Apostólica de João Paulo II “O Advento do Terceiro Milênio”, as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 1995-1998 e as Conclusões e Compromissos do V Congresso Missionário Latino-americano (COMLA 5), realizado em Belo Horizonte, em 1995. O projeto Ser Igreja no Novo Milênio, teve as mesmas bases, mais toda a rica preparação e celebração do Jubileu. Se desde algum tempo, a Igreja no Brasil não tivera um plano de nível nacional, teve dois projetos amplos e abrangentes de 1996 a 2002.

Entre outros, três aspectos são indicações recolhidas deste processo e mantidas a cada nova reformulação de Diretrizes: as dimensões, as exigências e a inculturação da evangelização. As dimensões da evangelização, seis, vêm desde 1966 e foram formuladas à luz dos grandes documentos do Concílio Vaticano II: - dimensão comunitário-participativa Ù Lumem Gentium (sobre a Igreja); - dimensão missionária Ù Ad Gentes (sobre a atividade missionária da Igreja); - dimensão bíblico-catequética Ù Dei Verbum (sobre a revelação divina); - dimensão litúrgica Ù Sacrosanctum Concilium (sobre a liturgia); - dimensão ecumênica e de diálogo inter-religioso Ù Unitatis Redintegratio (sobre o ecumenismo) e Nostra Aetate (sobre as relações da Igreja com as outras religiões); - dimensão sócio-transformadora Ù Gaudium et spes (sobre a Igreja no mundo de hoje).

De 1995 em diante, a Igreja no Brasil deu novo enfoque às suas Diretrizes: Diretrizes Gerais para a Ação Evangelizadora. Ação evangelizadora inculturada (nas culturas indígena, afro-brasileira e pós-moderna) e articulada nas quatro exigências fundamentais: serviço, diálogo, anúncio e testemunho de comunhão eclesial. Correspondem fundamentalmente às seis linhas de ação ou dimensões adotadas anteriormente [2]. A inculturação é o critério fundamental, a contextualização da evangelização: a aproximação às situações concretas, aos contextos de todos e de cada um dos seres humanos; processo amplo e complexo que possibilita a penetração do Evangelho no quotidiano de um povo, de tal forma que ele possa expressar sua experiência de fé em sua própria cultura. As exigências intrínsecas da evangelização são aspectos ou passos distintos e complementares da evangelização que aparecem claramente no Novo Testamento. São quatro: O SERVIÇO E PARTICIPAÇÃO NA TRANSFORMAÇÃO DA SOCIEDADE PELO BEM DOS POBRES - testemunho do amor gratuito de Deus para com cada pessoa, imagem de Deus. Abertura ao DIÁLOGO COM AS CULTURAS E OUTRAS RELIGIÕES, com reconhecimento do outro como pessoa, na maturidade da fé. ANÚNCIO DO EVANGELHO que se torna salvífico para os ouvintes já despertados para a esperança do Reino. VIVÊNCIA COMUNITÁRIA DA FÉ, que torna as comunidades sinal da presença divina no mundo, espaço privilegiado para o encontro com  Cristo.

 

Objetivo e esquema das Diretrizes para 2003-2006

O objetivo geral da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil é assim formulado: EVANGELIZAR proclamando a Boa Nova de Jesus Cristo, caminho para a santidade, por meio do serviço, diálogo, anúncio e testemunho de comunhão, à luz da evangélica opção pelos pobres, promovendo a dignidade da pessoa, renovando a comunidade, formando o povo de Deus e participando da construção de uma sociedade justa e solidária, a caminho do Reino definitivo.

As Diretrizes têm três capítulos. O primeiro, mais breve, aprofunda a natureza da evangelização, razão de ser da Igreja. O segundo, analisa os novos desafios para a Igreja neste início do novo milênio. O terceiro, indica pistas de ação em três âmbitos prioritários: pessoa, comunidade e sociedade, nas quatro exigências intrínsecas da evangelização.

Elas dão continuidade à preciosa herança acumulada no tempo mencionado acima e se inspiram no documento do Papa para o início do novo milênio (Novo Millenio Ineunte). Nesse documento, que teve seu coroamento mariano com a Carta Apostólica sobre o Rosário e eucarístico com a encíclica sobre a Eucaristia, o Papa propõe avançar em águas mais profundas, contemplando o rosto de Cristo, com Maria, de modo especial onde Ele mais e melhor se encontra, a Eucaristia. Lembra também a dupla fidelidade da Igreja: às origens, à tradição recebida e à tarefa missionária. 

 

A missão da Igreja: evangelizar

Na sinagoga de Nazaré, Jesus declarou que fora enviado pelo Pai para anunciar a boa nova da salvação aos pobres. Em seu “testamento”, na última Ceia, ordenou aos discípulos que testemunhassem seu amor, pelo serviço generoso, e fizessem, em sua memória, o que Ele fizera. Missionário do Pai, na Ascensão, enviou a Igreja a anunciar o Evangelho a todos os povos, fazendo-os discípulos seus, batizando-os em nome da Trindade.

O anúncio do Evangelho, segundo Paulo VI (Evangelii Nuntiandi 19-20), deve atingir e como que transformar os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade...

Em sua missão primordial, a Igreja parte da realidade concreta das pessoas – inculturação – e segue as quatro exigências  intrínsecas da evangelização: “serviço – diálogo – anúncio – comunhão”, que correspondem às dimensões adotadas em Diretrizes anteriores. Cultiva também “sincera abertura de espírito e solidariedade diante das aspirações, angústias e interrogações da nossa época”. Assim, pode “oferecer em cada época, o acesso à Palavra de Deus, à celebração da Eucaristia e aos demais sacramentos, e cuidar da caridade fraterna e do serviço aos pobres”. É o comumente chamado tríplice múnus: ministério da Palavra, ministério da liturgia, ministério da caridade.

Ministério da Palavra: O Concílio Vaticano II o colocou em primeiro lugar. Ele se desenvolve pela proclamação da Palavra na liturgia, leitura pessoal e orante da Bíblia, catequese, de modo especial com adultos e na família, iniciativas de formação bíblica, Ensino Religioso Escolar...

Ministério da liturgia: Acontece nas diversas celebrações, fonte e ápice da vida da Igreja, momento mais visível da comunidade eclesial. Todos os cristãos têm direito e obrigação de participar da liturgia. Nela, formam uma assembléia celebrante, presidida por ministro ordenado ou leigo. A liturgia tem seu momento privilegiado no domingo, do qual a Eucaristia é o coração. A celebração da Eucaristia e dos outros sacramentos exige pastoral específica, não só para os já praticantes, mas para todos os que os procuram. O acolhimento aos que mantém algum vínculo com a Igreja, apenas em certas ocasiões, deve ser sempre atencioso e cativante.

Ministério da caridade: “Se as fontes da vida da Igreja são a Palavra e o Sacramento, a essência da vida cristã é o ‘amor’, o amor-doação.” Ele tem duas faces: a comunhão fraterna (koinonia) entre os que acolhem o Evangelho e o serviço aos pobres, o cuidado com os necessitados. O amor urge o empenho pela superação das desigualdades sociais, grande escândalo de nosso tempo, o atendimento às novas formas de pobreza; inclui a defesa dos direitos humanos e a participação na vida política.

 

Novos desafios no início do novo milênio

A sociedade se apresenta sempre mais complexa. Nela atuam sistemas autônomos: ciência, tecnologia, economia, política, comunicação, ideologia, religião... A crescente globalização provoca crescimento econômico desigual, priorizando o capital especulativo. Embora tenha aspectos positivos (maior produção e circulação de bens, facilidade de comunicação, progressos tecnológicos), ela é vista com crescente desencanto. Provocou aumento sensível de riscos: catástrofes climáticas e ecológicas, químicas e atômicas, o terrorismo...

Diante da complexidade da sociedade e das incertezas sobre o futuro, as pessoas buscam a satisfação imediata, amplia-se a mentalidade de que cada um decide por conta própria sem considerar critérios éticos. Há um progressivo enfraquecimento da política, com descrédito dos políticos. Aumenta o desemprego. As comunidades rurais tradicionais ficam reduzidas ou quase desaparecem com concentração desordenada na cidade (urbanização). Há busca individualista também na religião. A experiência religiosa, muitas vezes, deixa de ser reconhecimento, adoração e entrega ao Criador, para tornar-se busca de utilidade individual. A mídia banaliza a religião ou a torna mais um meio de entretenimento do público. Diminuiu o número de católicos, aumentou o dos evangélicos e o dos que se declaram sem religião.

 

Diretrizes de ação

São indicados três âmbitos de ação: pessoa, comunidade e sociedade. Em cada um, as Diretrizes apresentam o desafio principal, uma reflexão cristã e pistas de ação em cada uma das quatro exigências intrínsecas da evangelização.  Assim, são abundantes as sugestões de serviço, de diálogo, de anúncio e de testemunho de comunhão para a promoção da dignidade da pessoa, a renovação da comunidade e a construção da sociedade solidária.

Promover a dignidade da pessoa

- O DESAFIO: a construção da identidade pessoal e da liberdade autêntica numa sociedade consumista. Há um desejo grande de participação na definição dos rumos da sociedade, de garantia dos direitos individuais e de liberdade nas decisões da própria pessoa. A busca de realização da pessoa é ameaçada pela situação cultural de individualismo, de consumo insaciável e por diversas formas de desrespeito à vida: a manipulação genética, o aborto, a eutanásia, a esterilização, a comercialização do sexo e do corpo, bem como as diversas formas de violência.

- A FÉ CRISTÃ: a dignidade absoluta da pessoa – “filhos de Deus, nós o somos” (I Jo 3,2). Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança, dotado de liberdade e chamado à criatividade, à responsabilidade e ao amor de doação. Deus criou a pessoa humana capaz de Deus e para ser feliz. Por isso, o próprio Deus não é insensível diante do sofrimento humano. Enviou seu Filho que se fez solidário com toda pessoa que sofre e fez do sofrimento o caminho da redenção.

- PISTAS DE AÇÃO: são inspiradas na visão de pessoa humana apontada acima e decorrente da Revelação. São apresentadas para cada exigência intrínseca da evangelização.

a) Serviço: acolhida e orientação à pessoa na busca de solução de sua necessidade; atenção às necessidades básicas da pessoa; educação fundamental, superior e profissional, com apoio às iniciativas existentes e ao acesso a elas; centros ou cursos de formação; formação do espírito crítico diante da mídia; serviços de terapia ou de aconselhamento e serviços especiais em favor dos idosos, migrantes, jovens e crianças em situação de risco.

b) Diálogo: tornar possível a união e o entendimento entre todos, educar para o diálogo integral, aberto e desinteressado, diálogo ecumênico, inter-religioso e intercultural.

c) Anúncio: do Evangelho de Jesus Cristo, de sua pessoa, vida, morte e ressurreição, com grande atenção às pessoas, com um atendimento personalizado, sem imposição, mas com motivação pelo testemunho de vida e argumentação sincera e rigorosa. O anúncio exige adequada e permanente formação dos evangelizadores, espírito missionário e utilização dos meios de comunicação.

d) Testemunho de comunhão: Ele supõe a valorização e participação dos fiéis leigos. É necessário superar o clericalismo subjacente na mentalidade de parte dos leigos e de parte do clero. Cuidar para que na liturgia e nas estruturas visíveis a Igreja se manifeste verdadeiramente comunidade fraterna; estimular comunidades menores; promover a integração, na paróquia e na diocese, de comunidades eclesiais, grupos, organismos e movimentos particulares; garantir a participação de todos não só na execução mas também no planejamento e nas decisões relativas à vida eclesial e ação pastoral; proporcionar maior acesso da mulher nas responsabilidades de direção e nas decisões da vida da Igreja; tornar as comunidades autênticas escolas de oração; desenvolver a formação litúrgica dos fiéis para que sua participação nos ritos seja ativa, consciente e frutuosa.

Renovar a comunidade

- O DESAFIO: a fragmentação da vida e a busca de relações mais humanas. A sociedade provoca a pessoa ao isolamento pelo enfraquecimento da família, pela quebra dos laços comunitários e pela violência. A modernidade tende a submeter a sociedade ao mercado e ao poder, levando-a a perder muitos valores. Neste contexto,  a partir de valores da cultura brasileira, como o sentido da festa, a alegria da convivência, a mistura de raças e povos, criar condições de relações de solidariedade e fraternidade.

- A FÉ CRISTÃ: da dignidade de filhos à realização da fraternidade – vós todos sois irmãos (Mt 23,8). Porque o Pai é um só, todos devem viver como irmãos. A fraternidade cristã acolhe a todos e não faz discriminação. A fraternidade é característica essencial da vida cristã.

- PISTAS DE AÇÃO: à luz da visão da comunidade humana e da vida de comunhão eclesial indicada acima, toda ação evangelizadora e pastoral deve promover relações humanas sadias e fraternas e construir a comunidade eclesial, a serviço da promoção integral da pessoa humana.

a) Serviço: educação ao relacionamento não apenas correto e respeitoso, mas solidário e fraterno das pessoas entre si; atenção especial às famílias; defesa dos direitos das famílias e das pequenas comunidades; atenção aos núcleos de convivência; serviço de prevenção de HIV e assistência a soropositivos; atenção ao problema da violência e da droga; educação crítica para o uso dos meios de comunicação; acompanhamento aos desempregados, migrantes; pescadores, turistas.

b) Diálogo: empenho especial pela superação de toda forma de discriminação; continuidade da busca de reaproximação com outras Igrejas ou comunidades cristãs; aproximação com seguidores de outras religiões e com todos os que buscam a justiça e a construção da fraternidade universal; esforço para assegurar a subsistência das diversas culturas indígenas; superação de todos os preconceitos em relação à população de origem africana; fazer do diálogo a regra permanente para a boa convivência e o aprofundamento da comunhão na comunidade eclesial.

c) Anúncio: a própria comunidade cristã deve ser anúncio de fraternidade, mas deve também realizar o anúncio explícito. Formas recomendadas deste anúncio explícito: as missões populares, a pastoral bíblica... Realizar o anúncio aos grupos que têm pouco vínculo com a Igreja.

d) Testemunho de comunhão: continuar a incentivar formas associativas e comunitárias que ofereçam experiência de convivência, solidariedade, participação ativa e co-responsável; buscar novas estruturas para a evangelização. Especial esforço de testemunho de comunhão devem empreender as comunidades de religiosos e religiosas; responsabilidade particular na comunhão eclesial cabe ao bispo e ao presbitério. As comunidades eclesiais são desafiadas a ser fermento de uma nova sociedade.

Construir uma sociedade solidária

- O DESAFIO: o escândalo da exclusão e da violência na sociedade consumista. A sociedade brasileira é uma das mais desiguais do mundo.

- PROPOSTA CRISTÃ: a realização da solidariedade – “Não havia necessitados entre eles” (At 4, 34). Faz parte do objetivo da ação evangelizadora da Igreja no Brasil a construção de uma sociedade justa e solidária. A amplitude dos desafios a enfrentar impõe três linhas de ação: iniciativas e práticas solidárias, reivindicação de políticas públicas; participação política e reflexões prospectivas.

Iniciativas e práticas solidárias: como Igreja samaritana, empreender ações solidárias imediatas para aliviar os sofrimentos dos excluídos; na luta contra a miséria e a exclusão social, colaboração com outras instituições da sociedade civil e parceria com instituições públicas municipais, estaduais e federais; valorização do voluntariado e aprofundamento do conhecimento da realidade.

Reivindicação de políticas públicas: Entre os desafios mais urgentes, estão: garantir condições mínimas de subsistência, promover a justa distribuição da renda, garantir a segurança alimentar e nutricional, combater a corrupção e a impunidade, garantir a segurança e combater a criminalidade, promover uma sociedade que respeite as diferenças, preservar o meio-ambiente.

Participação política: É indispensável  incentivar a participação política de todos. A dos católicos se inspira na fidelidade à própria natureza da política e à própria vocação cristã. No ideal de uma democracia plena ou de uma democracia participativa, novos avanços são possíveis e desejáveis: inclusão de um maior número de cidadãos nos processos de decisão política; democratização da informação; descentralização do poder quanto possível; maior participação popular na administração pública. Além da busca de uma participação democrática intensa e qualificada, é necessário pensar mais radicalmente nossa sociedade. Sua reorganização tem dimensão mundial, global. Deve-se contribuir para um mundo solidário e justo, sem guerra preventiva, justificada em nome da religião.

- PISTAS DE AÇÃO:

a) Serviço: luta contra a miséria, a exclusão e a violência; continuidade do mutirão para a superação da miséria e da fome; pesquisas e levantamentos periódicos sobre a fome e a miséria; participação nas iniciativas da sociedade civil em vista da superação das desigualdades, miséria, exclusão e violência; incentivo à participação social e política em todos os níveis; acompanhamento ao trabalho do Legislativo e Executivo municipal, estadual e federal para garantir o bem comum e evitar a corrupção e tudo que vai contra a vida e a lei natural; iniciativas para garantir a informação a todos; mudança de mentalidade para maior desapego dos bens e do consumismo; solicitude com os migrantes em busca de trabalho e moradia.

b) Diálogo: participação com outros grupos religiosos ou da sociedade civil na busca de uma sociedade justa e solidária; apoio à iniciativa ecumênica “Década para a superação da violência”; apoio às propostas e políticas de inclusão social; ação ecumênica na promoção de valores e ações positivas na sociedade humana (desarmamento, socorro a refugiados, famintos, vítimas de catástrofes...); diálogo sobre grandes questões éticas.

c) Anúncio: na coerência de vida, condição básica da eficácia da evangelização, explicitar as razões da esperança; vigilância para evitar a tentação de transformar a religião em mercadoria, evitando toda aparência ou semelhança de práticas religiosas com práticas comerciais; correto e competente uso dos meios de comunicação para a proclamação e inculturação do Evangelho; atenção especial à pastoral urbana; valorização da religiosidade popular; cuidado particular aos jovens.

d) Testemunho de comunhão: interesse autêntico e sincero pelos problemas da sociedade seja manifestação comunitária, não apenas de algum grupo ou alguma pastoral; esforço para o conhecimento da Doutrina Social da Igreja como decorrência ética imprescindível da fé cristã; a educação dos católicos à solidariedade e ao engajamento social pode ser adquirida pela formação na ação; solidariedade entre as próprias comunidades eclesiais para superar as desigualdades econômicas e sociais no interior da própria Igreja.

 

Erexim, 18 de junho de 2003.

 

 

Pe. Antonio Valentini Neto - Pároco da Catedral São José.

 

[1] Os eleitos, conforme já apareceu na edição anterior de Comunicação Diocesana, foram: Presidente: Dom Geraldo Majella Cardeal Agnelo, Arcebispo de São Salvador da Bahia (BA); Vice-presidente: Dom Antonio Celso de Queirós, Bispo de Catanduva (SP); Secretário Geral: Dom Odilo Pedro Scherer, Bispo Auxiliar de São Paulo (SP); Comissão para os Ministérios ordenados e a Vida Consagrada: Dom Anuar Battisti - Bispo de Toledo (PR); Comissão para o Laicato: Dom Mauro Montagnoli - Bispo de Ilhéus (BA); Comissão para a Ação Missionária e Cooperação Intereclesial: Dom Sérgio Eduardo Castriani - Bispo prelado de Tefé (AM); Comissão para a Animação Bíblico-catequética: Dom Eugène Lambert Adrian Rixen - Bispo de Goiás (GO); Comissão para a Doutrina da Fé: Dom Walmor Azevedo de Oliveira - Bispo auxiliar de Salvador (BA): Comissão para a Liturgia: Dom Manoel João Francisco - Bispo de Chapecó (SC): Comissão para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso: Dom João Oneres Marchiori - Bispo de Lages (SC); Comissão para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz: Dom Aldo Di Cillo Pagotto - Bispo de Sobral (CE): Comissão para a Cultura, Educação e Comunicação Social: Dom Orani João Tempesta - Bispo de São José do Rio Preto (SP): Comissão para a Vida e a Família: Dom Rafael Llano Cifuentes - Bispo auxiliar do Rio de Janeiro (RJ); Delegado junto ao CELAM: Dom Jayme Henrique Chemello – Bispo de Pelotas (RS); Suplente: Dom Raymundo Damasceno Assis – Bispo Auxiliar de Brasília (DF).

[2] O serviço se concretiza especialmente na dimensão sócio-transformadora (linha 6); o diálogo se concretiza na dimensão ecumênica e do diálogo religioso (linha 5); o anúncio se concretiza na dimensão missionária (linha 2); o testemunho da comunhão se concretiza na dimensão comunitário-participativa (linha 1), que se alimenta nas fontes da Palavra (dimensão bíblico-catequética - linha 3) e da liturgia (dimensão litúrgica - linha 4).