EVANGELHO DE SÃO MARCOS

 

Frei Ildo Perondi - ildo.perondi@pucpr.br

 

            1. Antecedentes (um pouco de memória):

            No Antigo Testamento, Deus escolheu o seu povo. Foi uma escolha feita com amor (Dt 7,7-8). Fez uma Promessa: “terra, descendência e bênção”. Ele firmou uma Aliança com o seu povo: “Eu serei o vosso Deus e vocês serão meu povo!”. Deus libertou seu povo da escravidão do Egito (Ex 3,7-10) e o conduziu à Terra Prometida, veio habitar no meio do seu povo e fazer caminhada com ele. “Todas as Promessas que o Senhor fez ao povo de Deus, nenhuma falhou: todas se cumpriram!” (Js 21,45). Mas o AT termina num clima de espera. Pela boca dos Profetas, o Senhor fez mais uma Promessa: enviar o Messias esperado, o “novo Moisés” (cf. Dt 18,18). O AT termina com a Promessa do envio de “Elias”, que antecederá o Dia do Senhor! (cf. Ml 3,1.22-23).

            O Evangelho de Marcos surgiu entre os anos 60-70. Jesus já tinha vindo: passou pelo mundo fazendo o bem e ensinando a Boa Notícia do Reino de Deus. Foi morto e no terceiro dia Deus o Ressuscitou. Depois disso, seus seguidores e seguidoras formaram comunidades para viver aquilo que Jesus ensinou. Mas Ele não deixou nada por escrito. Havia a tradição oral daquilo que Jesus fez e disse. Passavam os anos e muitos dos que viram e ouviram Jesus (as testemunhas oculares) já haviam morrido, algumas heresias começavam a surgir. Então surgiu a necessidade de deixar por escrito a mensagem de Jesus! Apareceram muitos escritos. Mas só quatro é que foram considerados inspirados e aceitos pela Igreja. São os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João.

            Neste ano de 2006, ano B, na liturgia dos domingos do tempo comum, estamos proclamando e celebrando o Evangelho de Marcos. Vamos conhecer um pouco mais!

 

            2. Quem é o Evangelista Marcos?

            - João Marcos (o primeiro nome é hebraico e o segundo romano) era primo de Barnabé (Cl 4,10), de família levita (At 4,36). Acompanhou o Apóstolo Paulo e Barnabé (At 12,25; 13,5) e depois separou-se deles (At 13,13) e  isso parece ter irritado Paulo, então Marcos e Barnabé foram para Chipre (At 15,36-39). Mas na prisão de Paulo está com ele novamente (Cl 4,10), que o cita entre os “seus colaboradores” (Fm 14) e o Apóstolo pede sua ajuda antes de morrer (2Tm 4,11). Foi também companheiro de Pedro, que o chamava de “meu filho” (1Pd 5,13). Alguns afirmam que o Evangelho de Marcos é o resumo da Catequese de Pedro.

            - Há dúvidas se Marcos conheceu Jesus pessoalmente. Alguns pensam que seria Marcos o jovem que “fugiu nu” de Mc 14,52 (pois só Marcos narra este episódio). Existe também a hipótese que tenha sido na casa da mãe de João Marcos, em Jerusalém, que Jesus celebrou a Última Ceia (14,12-31), já que era um local de oração e acolhida, pois foi para esta casa que Pedro se dirigiu ao ser libertado da prisão (At 12,12).

           

            3. Data, local e comunidade onde surgiu

            - Quase todos os biblistas concordam que o Marcos foi o primeiro dos quatro evangelistas a concluir o seu Evangelho. Deve ter sido escrito entre os anos 60 e 75 dC.

            - Quanto ao local, há duas hipóteses. Alguns afirmam que foi escrito na Galiléia e no sul da Síria. Mas a possibilidade mais aceita é que tenha sido escrito em Roma. Esta hipótese é mais aceita e conta com o apoio de Clemente de Alexandria, São Jerônimo, Eusébio, Santo Agostinho... e outros escritores antigos.

            - Embora o autor seja Marcos, é certo que o Evangelho nasceu em uma comunidade concreta. É uma comunidade que busca, que caminha, que já sente a perseguição, que quer saber quem é Jesus e como segui-lo, mas sobretudo é uma comunidade que quer receber o ensinamento de Jesus.

            - Marcos não escreve aos judeus (como Mateus), mas aos pagãos, por isso explica muitos termos e práticas dos judeus. Mateus ressalta mais a figura do Pai; Lucas a ação do Espírito Santo e Marcos a missão do Filho Jesus Cristo. Mas os três Evangelhos são trinitários.

            - Marcos não quer escrever uma história de Jesus, mas quer transmitir a Mensagem de Jesus. Não é uma biografia, mas uma coleção de testemunhos de fé.

 

            4. Marcos e os outros Evangelhos:

            - É o mais curto dos quatro Evangelho. Mas não é um resumo de Mateus como muitas vezes se afirmou. É um Evangelho onde todas as palavras são importantes. Marcos é preciso e muito objetivo.

            - Encontramos também algumas ausências. Em Mc não temos a genealogia e a infância de Jesus, nem o Pai Nosso e as Bem-aventuranças. As tentações estão resumidas.

            - Marcos relata duas multiplicações dos pães. A primeira (6,30-44) é para os judeus e sobram  “doze cestos”. Doze é o número das tribos de Israel e dos Doze Apóstolos. A segunda (8,1-10) é para os pagãos e sobram “sete cestos”. Sete é o número do Diáconos gregos de At 6,1-6 e o número das nações pagãs (At 13,19).

            - Marcos é mais universalista. A seção de 7,1 a 8,10 é um chamado aos pagãos à salvação.

            - Só Marcos usa a palavra “Evangelho” que é uma Boa Notícia da parte de Jesus Cristo e da parte de Deus! A palavra “Evangelho” aparece 7 vezes (1,1.14.15; 8,35; 10,29; 13,10; 14,9).

            5. Algumas características do segundo Evangelho:

            - Início: O Evangelho inicia com a palavra “princípio”. É o começo, assim como foi o início da Bíblia. E termina com o retorno à Galiléia (16,7). Portanto, nós também devemos sempre começar, partir do início...

            - O Reino de Deus: A mensagem de Jesus é o anúncio do Reino. As primeiras palavras de Jesus, neste Evangelho, são: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo!” (1,15).

            - A multidão: é impressionante ver como a “multidão” ou as “multidões” vão ao encontro de Jesus, elas seguem Jesus, estão presentes nos momentos importantes. Quem são? Os pobres, excluídos, doentes, endemoninhados, cegos, surdos-mudos... todos os excluídos da época de Jesus.

            - Reação diante de Jesus: Marcos faz questão de informar qual o sentimento que as pessoas têm com o que Jesus faz e diz: espantar-se, admirar-se, maravilhar-se, ficar com medo, calar-se... Marcos usa vários verbos para isso, difíceis de serem bem traduzidos para a nossa língua...

            - Movimento: Quase todas as ações narradas no Evangelho começam com um movimento. Ver os verbos usados no início da frase de cada narração: entrar, sair, caminhar, ir, retirar-se, começar, chegar, dizer...

            - O Caminho: Esta palavra aparece várias vezes. É o Profeta que prepara o caminho (1,2) e clama para o povo preparar o caminho (1,3). Jesus está quase sempre caminhando (1,16). Vai com os discípulos “a caminho do mar” (3,7) e também descreve o que acontece pelo caminho (8,3.27; 9,33-34; 10,32.52). Da mesma forma, quem aceita Jesus deve segui-lo. Ver quantas vezes encontramos o verbo “seguir” em Marcos (1,17.18.20; 2,14.15; 8,33-34; 10,21.28.32.52...). Os primeiros cristãos pertenciam ao Caminho (At 9,2; 18,25-26; 19,9-23).

            - Conflitos: A proposta de Jesus é exclusiva e por isso, são freqüentes os contrastes. Ou se está do lado de Jesus ou contra Ele. Várias vezes aparece o verbo “discutir (1,27; 8,11; 9,10; 14,16; 12,28).

            - Dois banquetes: Marcos coloca em seguida dois fatos importantes: o banquete da morte (festa de Herodes, cf.  6,14-29) e o banquete da vida (multiplicação dos pães, cf. 6,30-44).

            - O “Segredo Messiânico”: É importante para Marcos (1,25.34; 3,11-12; 9,9; 1,44; 5,43; 7,36; 8,26...) Jesus quase proíbe que se espalhe a notícia de que Ele é o Messias.

            - Jesus em Jerusalém: A entrada em Jerusalém e sua atividade no Templo é muito bem estruturada, com ações precisas, uma visita breve, pausa para descanso, e ação decisiva, com passagens no meio (11,1ss). Jesus aqui não espera a restauração ou purificação do Templo, mas o seu fim (14,58). Quem e onde é o novo Templo? O “deserto” e o “caminho” parecem ser os novos lugares do encontro com Deus.

            - Olhar ao redor: Em Mc 11,11, encontramos a expressão de Jesus que entrando no Templo não faz outra coisa senão “olhar tudo ao redor”. Este verbo (peri-blepomai) é um verbo típico de Marcos. Aparece 5 vezes no Evangelho (3,5; 3,34; 5,32; 9,8; 10,23; 11). Fora de Marcos só é encontrado uma única vez (Lc 6,10).

 

            6. Quem é Jesus?        

            - Jesus é o “Filho de Deus” = 7 vezes (1,1; 1,14; 1,15; 8,35; 10,29; 13,10 e 14,9).

            - Jesus é o “Cristo” (Messiah, em hebraico) o Messias Prometido por Deus, através dos Profetas, no AT e esperado pelo povo de Deus. Também aparece 7 vezes (1,1; 8,29; 9,41; 12,35; 13,21; 14,61 e 15,32).

            - Jesus é o “Filho do Homem” = 14 vezes (2,10.28; 8,31.38; 9,9.12.31; 10,33.45; 13,26; 14,21[2].62).

            - O Pai revela que Jesus “é o seu Filho Amado” no Batismo (1,11) e também na Transfiguração (9,7).

            - Jesus é o “Mestre” (4,38; 5,35; 9,17.38; 10,17.20.35; 12,14.19.32; 13,1; 14,14); o “Rabi” (9,5; 11,21; 14,45) ou “Rabbúni” (10,51). São 16 citações em que Jesus é chamado assim. Portanto, é Ele quem ensina!

            - Pedro confessa: “Tu és o Cristo!” (8,28). Esta frase é como que o centro do Evangelho.

            - Outra afirmação importante é do centurião romano (um pagão) que confessa: “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus!” (15,39). É um convite a todos os pagãos: reconhecer Jesus como Enviado de Deus!

            - Jesus é o “Servo” profetizado por Isaías (40-55), que veio para “servir e não para ser servido” (10,45).

            - Jesus é o Libertador: passou fazendo o bem e ensinando, enfrentando os “demônios”, isto é, todas as forças contrárias à vida e ao projeto de Deus, libertando as pessoas dos seus males e integrando-as na sociedade.

            - É “senhor do Sábado” (2,28); quem perdoa pecados (2,10); quem revela os Mistérios do Reino (cap. 4).

            - É o Ressuscitado (16,6). A fé em Jesus Ressuscitado deu início e impulso às primeiras comunidades!

 

            7. Atualização do Evangelho

            - A resposta do centurião (15,39) é a conclusão que todos devem ter ao caminhar com Jesus até o fim. Ele (um pagão) representa todos aqueles que estão à procura de Jesus. Ele acreditou. E nós: quem dizemos que é Jesus? Estamos dispostos a tomar a nossa cruz e segui-lo pelo caminho? Aceitamos seu ensinamento?

            - Jesus quase proíbe que se espalhe a notícia de que Ele é o Messias. O evangelista quer nos fazer entender que nós mesmos é que devemos descobrir quem é Jesus e não pelo que os outros andam dizendo.

            - A resposta ao chamado será “seguir Jesus” (8,34-38) e colocar-se a serviço do Reino de Deus hoje. Diante de um mundo injusto, violento e destas “multidões” excluídas, qual é a nossa resposta?

            - Fica o convite: Vamos ler todo o Evangelho (pessoalmente, mas sobretudo em grupos de estudo) e atualizá-lo em nossa vida e comunidade!