O que foi a matança dos inocentes? É um
fato histórico?
Vicente Balaguer
www.opusdei.org
A matança dos inocentes pertence, como o episódio da estrela dos Reis Magos, ao
evangelho da infância de São Mateus. Os Magos haviam perguntado pelo rei dos
judeus (Mt 2, 1) e Herodes – que ocupava o posto de rei dos judeus na época –
inventa um estratagema para averiguar quem poderia ser aquele que considerava
um potencial usurpador, pedindo aos Magos que o informassem ao seu regresso.
Quando sabe que voltaram por outro caminho, “ficou muito irado e mandou
massacrar, em Belém e nos seus arredores, todos os meninos de dois anos para
baixo, conforme o tempo exato que havia indagado aos Magos” (Mt 2,16).
A passagem evoca outros episódios
do Antigo Testamento: também o Faraó havia mandado matar todos os recém
nascidos dos hebreus, como conta o livro do Êxodo, mas salvou-se Moisés, que
depois libertou o povo (Ex 1,8 – 2,10).
São Mateus também diz na passagem
que, com o martírio dessas crianças, cumpriu-se um oráculo de Jeremias (Jr 31,15): o povo de
Israel foi para o desterro, mas dali o tirou o Senhor que, em um novo êxodo, o
levou à terra prometendo-lhe uma nova aliança (Jr 31,31). Portanto, o sentido da passagem parece claro:
por muito que se empenhem os fortes da terra, não podem opor-se aos planos de
Deus para salvar os homens.
Nesse contexto deve-se examinar a
historicidade do martírio das crianças inocentes, do qual só São Mateus nos dá
notícia. Na lógica da investigação histórica moderna, diz-se que “testis unus testis
nullus”, somente um testemunho não serve. Porém, é
fácil pensar que a matança dos meninos em Belém, uma aldeia de poucos
habitantes, não foi numerosa e, por isso, não passou aos anais.
O que é certo é que a crueldade
manifesta é coerente com as brutalidades que Flávio Josefo
conta-nos de Herodes: mandou asfixiar seu cunhado Aristóbulo quando este
alcançou grande popularidade (Antiguidades Judaicas, 15 & 54-56),
assassinou seu sogro Hircano II (15 & 174-178),
outro cunhado, Costobar (15 & 247-251), sua
mulher Marianne (15 & 222-239); nos últimos anos de sua vida, mandou assassinar
seus filhos Alexandre e Aristóbulo (16 & 130-135), e cinco dias antes de
sua própria morte, outro filho, Antipatro (17 &
145); finalmente, ordenou que, na iminência da sua morte, fossem executados uns
notáveis do reino para que o povo da Judéia, querendo ou não, chorassem a morte
de Herodes (17 & 173-175).
BIBLIOGRAFIA
DANIELOU, J. Los evangelios de la
infancia, Herder, Barcelona 1969.
MUÑOZ IGLESIAS, S. Los evangelios de la infancia IV, Herder,
Barcelona 1969.
PUIG, A. Jesús. Una biografía, Destino, Barcelona 2005.