ORIGEM E FORMAÇÃO DA BÍBLIA
(José Augusto)
1. Indícios e evidências
históricas
O período histórico da formação da Bíblia situa-se
entre 1100 a. C. ou 1200 a. C. a 100 d. C. Provavelmente, a mais antiga parte
escrita da Bíblia é o Cântico de Débora, que se encontra no livro dos Juízes
(Jz, 5). Quando os hebreus chegaram a Canaã, já havia na terra um certo
desenvolvimento literário, como por exemplo, o alfabeto fenício (do qual se
derivou o hebraico), que já existia no século XIV a.C. Os judeus chegaram lá
por volta do século XIII a.C.
Outro
documento desta época é o calendário de Gezér, que data mais ou menos do ano
1000 a.C. É uma indicação de datas para uso dos agricultores. É o documento
mais antigo encontrado na Palestina. Outro documento também muito antigo é o
sarcófago do Rei Airam, que contém uma inscrição e foi encontrado nos séculos
XIV ou XV a. C., em Biblos. Há ainda umas tabuletas encontradas em Ugarit (em
1929), onde estão escritos uns poemas semelhantes aos salmos, datando dos séculos
XIV ou XV a. C. Além destes, há outros documentos provando que já havia uma
escrita na Palestina, antes dos hebreus chegarem lá. A inscrição do túmulo de
Siloé (700 a.C.), explicando como foi feito; os "óstracon", de
Samaria, onde há uma espécie de carta diplomática, são documentos que provam a
continuidade de uma atividade literária. Em Juizes 8,14, o autor descreve um
acontecimento ocorrido mais ou menos em 1100 a.C. E em que língua foi escrito
este fato pela primeira vez, na época em que aconteceu? Provavelmente no
alfabeto fenício (pré-hebraico).
2. A tradição oral e a
tradição escrita
A parte mais
antiga da Bíblia remonta justamente deste tempo (1100 a.C.), quando a escrita
ainda não estava bem definida, e é oral. Desde este tempo já se fora criando
uma tradição, que existia oralmente e era transmitida aos novos pelos mais
velhos nas reuniões que havia nos santuários. Por este tempo, só eram relatados
os acontecimentos do deserto, do Sinai, da aliança de Deus com o povo. Mas os
jovens queriam saber o que havia acontecido antes disto. Então foram sendo
compostas as histórias dos Patriarcas. Mas, e antes deles, antes de Abraão?
Passaram à história da criação do mundo. Por isso, se afirma que a parte mais
antiga da Bíblia é o Cântico de Débora, no livro dos Juizes. A partir daí,
fez-se um retrospecto didático-histórico. Como dissemos, estas histórias iam
sendo passadas oralmente de pai a filho, nos santuários. Acontece que nem todos
iam para os mesmos santuários, o que motivou a existência de pequenas diferenças
na catequese do norte e na do sul.
A tradição do
sul foi chamada de JAVISTA (J), pois Deus era tratado sempre por Javé; a do
norte se chamou ELOISTA (E), porque Deus era tratado como Eloi. A tradição oral
existiu até os tempos de Daví, quando foi escrita a tradição javista; meio
século depois, foi escrita também a eloista. Por volta de 721 a.C., na época,
da divisão dos reinos, quando Samaria foi destruída pelos assírios, muitos
sacerdotes do norte fugiram para o sul e levaram consigo a sua tradição. A
partir de então, as duas foram compiladas num só escrito. Falamos das duas
tradições: uma do norte e outra do sul. Mas não existiam apenas estas duas, que
são as principais. Há ainda a DEUTERONOMICA (D), encontrada casualmente em 622
a. C. por pedreiros, que trabalhavam num templo. Corresponde ao livro
Deuteronômio da Bíblia atual. Após esta, surgiu a SACERDOTAL (P), nova
compilação das catequeses antigas de Israel, datada do século VI a.C. Ao fim,
estas quatro tradições foram combinadas entre si e compiladas em 5 volumes,
dando origem ao Pentateuco da Bíblia atual. Na tradição Javista, Deus é
antropomórfico. Na Sacerdotal, Deus é poderoso, está acima do tempo, o que
significa um progresso no conceito de Deus que o povo tinha. A redação do
Pentateuco se deu pelo ano 398 a.C. e compreendia a primeira parte da Bíblia
judaica. A partir de Josué, a tradição continuou oral, para ser escrita somente
por volta de 550 a.C. E foram escritas do modo como o povo contava. Por isso
não se pode dar a mesma importância histórica aos fatos descritos nestes livros
em relação a outros posteriores, pois alguns fatos narrados foram baseados na
tradição popular, enquanto que outros foram baseados em documentos de arquivos
(anais do Reino). Este é um grande desafio para os estudiosos e também uma
fonte de divergências.
3. Os Intérpretes - Profetas e
Sábios
Durante muito
tempo, os profetas foram os orientadores do povo de Deus. Os livros proféticos
resumem os seus ensinamentos, e na sua maioria foram escritos só mais tarde,
por seus seguidores. Somente por volta do ano 200 a.C. é que foram redigidos os
livros proféticos. Os livros Sapienciais foram o resultado de um estilo
literário que esteve em moda durante muito tempo, na época posterior ao exílio.
São umas reflexões humanistico-religiosas.
Passados os
profetas, surgiram os sábios que raciocinavam sobre as coisas da natureza,
tirando delas ensinamentos para a vida. Foram acrescentados aos livros sagrados
nos últimos séculos a.C., sendo os mais recentes livros do AT. 4. A nova
tradição da era cristã O NT não foi escrito com a finalidade de ser
acrescentado à Bíblia. No tempo de Cristo e dos Apóstolos, o livro sagrado era
apenas o AT. O próprio Jesus Cristo se baseava nele em suas pregações. E Ele
mandou apenas pregar, e não escrever. Foi quando uma nova tradição oral foi se
formando. E após a morte de Cristo, os apóstolos saíram pregando.Mas veio a
necessidade de congregar outras pessoas para o anúncio, em vista do grande
número de comunidades existentes. Então, começaram a escrever. Mais tarde, com
a aceitação também de cidadãos estrangeiros nas comunidades, a mensagem
precisou ser traduzida e adaptada. Além disso, o próprio povo necessitava de
uma escrita (doutrina escrita) para se conservar una, após a morte dos Apóstolos.
Esta redação, no início, era apenas de alguns escritos esparsos, que só depois
de algum tempo foram juntos em livros. Exemplo disso está em Mc 2, uma série de
disputas de JC com os Judeus, onde se vê claramente que foi recolhida de
escritos separados.Também em João se lê: "Muitas outras coisas Jesus fez
que não foram escritas..." (Jo 21,24) Isto significa que só foram escritas
aquelas mensagens que teriam utilidade, conforme as necessidades momentâneas.
O evangelho
de Marcos, o primeiro a ser escrito, data dos anos 60 ou 70 d.C.; os de Lucas e
Mateus, são de 70 ou 80, o que significa que somente após uns 40 anos da morte
de JC sua palavra começou a ser escrita. 0 Evangelho de João só foi escrito em
torno do ano 100 d.C. Antigamente, se acreditava ser Mateus o autor do primeiro
Evangelho. Mas a critica histórica mostra que o de Marcos foi anterior. Aliás,
a respeito deste evangelho de Mateus, não se sabe ao certo quem é o seu autor.
Foi atribuído a Mateus, apenas por uma tradição e também por uma praxe da época
de se atribuir um escrito a alguém mais conhecido e famoso, para que a obra
tivesse mais autoridade.
4. Entendendo algumas
dificuldades concretas
Durante o
tempo anterior á escrita dos Evangelhos, havia apenas a pregação dos Apóstolos,
recordando os fatos da vida de Cristo, todavia eram fatos esparsos, sem nenhuma
preocupação com seqüência ou unidade. Por isso os Evangelhos, que foram esta
pregação escrita, se contradizem em algumas datas, o que mostra a pouca
importância dada à cronologia. Os fatos eram recordados e aplicados, conforme
as necessidades. Assim, até entre os Evangelhos sinóticos, que seguiram a mesma
fonte, há diversificações. Por exemplo, no Sermão da Montanha, em Lucas fala
"bem aventurados os pobres"; e em Mateus, "bem aventurados os
pobres de espírito". A diferença consiste no seguinte: Lucas deu um
sentido social, mais importante para as comunidades gregas, para as quais
escrevia. Mas o de Mateus destinava-se às comunidades judias e queria combater
uma doutrina dos judeus que tinham uma idéia falsa de pobreza. Para eles, o
próprio fato de a pessoa ser pobre, já lhe garantia a salvação, enquanto outra
pessoa, pelo simples fato de ser rica, já estava condenada. Por causa disso ele
escreveu "pobres de espírito". Outro ponto de discordância é o caso
da cura de um cego. Mateus diz "um cego, na saída de Jericó"; e Lucas
"dois cegos, na entrada de Jericó". 0 fato da 'entrada' e 'saída'
pode ser explicado pela existência de duas cidades chamadas Jericó.
0 fato de
serem um ou mais cegos explica-se pelo seguinte: era comum naquele tempo os
cegos formarem grupos em torno de um cego-lider; e o nome deste geralmente era
o do grupo. No entanto, estes detalhes pouco importam ao evangelho. 0 seu
interesse é a apresentação da mensagem (evangélion = boa nova).
5. A fonte comum
Os
Evangelistas sinóticos se basearam no Evangelho de Marcos e noutra fonte,
convencionada por fonte "Q", simbolizando os inúmeros escritos
esparsos de que já tratamos. Espalharam cópias destes por outras partes do mundo.
Lucas, Mateus, cada um em lugares diferentes, se inspiraram nos escritos
disponíveis e inclusive no evangelho de Marcos, que na época já havia sido
escrito. O fato do primeiro Evangelho ser atribuído anteriormente a Mateus se
deve a uma afirmação de Eusébio de que Mateus escrevera a "logia" do
Senhor em aramaico. Mas a crítica histórica provou que o Evangelho que
conhecemos não traz apenas a "logia" do Senhor e não foi escrito em
aramaico, e sim em grego. Portanto a noticia de Eusébio se refere a outro
escrito, e não a este evangelho. Nada impede, porém, que tenha sido escrito por
discípulos de Mateus e atribuído ao Mestre. Aliás, a respeito de
"Evangelho", o primeiro a usar esta palavra para indicar as memórias
dos Apóstolos foi S. Justino, em 130 d.C.
6. As Cartas
As cartas de
Paulo foram enviadas para serem lidas em público. Em I Tes 5, 27 há uma alusão
a isto. Havia também o intercâmbio das cartas, como se lê em Col 4,16:
"mostrem esta carta para Laodicéia e tragam a de lá para vocês". Aos
poucos as cartas foram colecionadas, e no fim do I século já se tem notícia
delas, quando em II Ped 3,15 se lê: "...nosso irmão Paulo vos escreveu
conforme o dom que lhe foi dado... " As cartas de Paulo foram os primeiros
escritos do NT. Não se sabe quando os Evangelhos e elas foram acoplados, mas já
no fim do I século estavam reunidos num só livro. As Epistolas Católicas
(universais) são chamadas assim por se destinarem à Igreja em geral, e não a
tal ou qual comunidade, como fizera Paulo. Elas também se originaram da
necessidade pastoral, e já no começo do II século estavam incorporadas aos
outros escritos do NT.
Os Atos dos
Apóstolos podem ser considerados a continuação do terceiro Evangelho, pois
também foi escrito por Lucas. E o Apocalipse de S.João, livro profético, foi
acrescentado por último. Nos escritos do NT, freqüentemente se encontram
citações do AT. É que muitas vezes os Apóstolos queriam tirar dúvidas sobre
certas passagens, que tinham falsa interpretação. Nas assembléias, eram lidos
escritos do AT e do NT, para explicá-los. Exemplo disto temos em I Tes 4,15; I
Cor 7,10.25.40; At 15, 28; I Tim 5,18; Lc 10,7. 8.
O Cânon Sagrado No século III, a
Igreja se reuniu em Concilio em Hipona, e uma das tarefas era organizar o
"cânon", ou a lista de livros sagrados considerados autênticos. Neste
Concilio, os livros foram estudados e se investigou quais os que sempre foram
lidos nos cultos e sempre foram considerados legítimos. E se estabeleceu a
ordem ainda hoje conservada. O motivo pelo qual alguns livros foram postos em
dúvida era a grande quantidade de livros apócrifos, que fazia com que se
duvidasse dos verdadeiros. Havia muitos livros que os judeus não aceitavam.
Então os Ss. Padres ponderaram os prós e contras e definiram a lista que foi
aprovada.