Manuscritos de Qumran ou
do Mar Morto
Frei
Ildo Perondi
(ildo@sercomtel.com.br)
Na
primavera de 1947 foram descobertos os primeiros Manuscritos de Qumran. Esta foi considerada a maior descoberta de
manuscritos da época moderna e a mais importante na região da Terra Santa. É
certo que foi uma riqueza, mas também provocou muitas polêmicas e certa
confusão.
No
segundo semestre de 2004, alguns destes manuscritos e objetos estiveram
expostos no Rio de Janeiro e depois
Neste
artigo procuraremos apresentar de forma resumida o que são os Manuscritos de Qumran ou do Mar Morto, a sua história, as polêmicas e a
ajuda que trouxeram para a tradução e interpretação dos livros do AT, e também
para uma melhor compreensão de muitos elementos que ajudaram na formação do NT
e do Cristianismo.
1. Qumran
É
o nome do lugar onde foram encontrados os primeiros manuscritos numa gruta.
Situa-se perto do Mar Morto,
No
ano 70 os romanos destruíram o Templo de Jerusalém, destruindo também a cidade
e Israel deixou de existir como estado judaico (até 1948). Em seguida, os
romanos conquistaram e destruíram a comunidade de Qumran
e depois tomaram a fortaleza de Massada, localizada
próximo a Qumran. E em 135 dC foi vencida a última resistência judaica.
Na
época em que se descobriram os primeiros Manuscritos a região estava sob
dominação inglesa, em seguida o território passou a fazer parte da Jordânia. Em
1948 Israel tornou-se um estado independente, porém somente em 1967, com a
guerra dos seis dias, é que a região de Qumran e do
Mar Morto passou a fazer parte do território de Israel.
2. O que
são os Manuscritos?
Os manuscritos
são escritos, em couro ou papiros, em sua maioria na língua hebraica, e alguns
poucos em aramaico e grego, que foram encontrados nas 11 grutas. Alguns estavam
em bom estado e outros estavam bastante deteriorados com o tempo e as condições
onde foram guardados. Ao todo foram encontrados em torno de 800 documentos.
Alguns estudiosos sugerem que alguns manuscritos sejam cópias de livros
sagrados que os judeus do Templo esconderam aí, quando pressentiram que os
romanos destruiriam Jerusalém. Alguns são apenas fragmentos (pedaços) de
textos.
Em
geral podemos dizer que os Manuscritos encontrados se classificam assim:
1) Manuscritos bíblicos: estes textos
são cópias fiéis que os habitantes da região de Qumran
(escribas) transcreveram dos livros do Antigo Testamento (cerca
de 225 manuscritos). O Livro dos Salmos é que foi encontrado maior
número de cópias, o segundo é o Deuteronômio; o terceiro é Isaías (curiosamente
são também estes os três livros mais citados pelo NT). Somente dos livros de
Ester e Neemias não foi encontrada nenhuma cópia
(veja relação no final).
2) Apócrifos: Foram encontradas cópias
de diversos livros que não entraram no cânon da Bíblia Hebraica, exemplo:
apócrifo do Gênesis, de Henoc, de Noé,
de Lamec, do Livro dos Jubileus, etc. É bom lembrar
que na época em que foram escritos os Manuscritos a lista (cânon) dos livros do
AT ainda não tinha sido concluída, embora já houvesse um
certo consenso.
3) Comentários bíblicos: Foram
encontrados muitos textos que eram comentários e interpretações que a
comunidade escreveu sobre os livros do AT. Estes comentários são importantes
para percebermos como uma comunidade judaica daquele tempo interpretava os
textos sagrados. Além disso encontramos muitas cópias
de targums e midraxes rabínicos
(estudos e interpretações).
4) Livros da Comunidade: A comunidade
também escreveu livros sobre a sua vida. São textos legais sobre a organização
da comunidade, livros e textos litúrgicos, poéticos, apocalípticos,
escatológicos, comerciais, etc. Os mais famosos são a Regra da Comunidade, o
Rolo do Templo, o Documento de Damasco, a Carta Halákica,
a Regra da Guerra, etc. Foi encontrado também um famoso Rolo de Cobre, um livro
escrito em cobre. É um enigma, pois contém o mapa onde estão escondidos cerca
de 60 tesouros (mais de 200 toneladas de ouro e prata), mas parece ser uma
fantasia e jamais se encontrou qualquer coisa.
Além
dos Manuscritos foi encontrada uma grande quantidade de outros materiais,
importantes para o conhecimento da comunidade, como: cerâmicas, moedas, objetos
de trabalho, vestuários, calçados, utensílios de cozinha e de trabalho, etc.
A
data em que foram escritos os Manuscritos gerou muita controvérsia. A hipótese
de que sejam uma farsa hoje está descartada. Os mesmos foram submetidos à
análise com os métodos mais modernos, como o Carbono 14, e hoje cientificamente
se pode afirmar que os mais antigos sejam do século III aC e os mais tardios não sejam depois do ano 68 dC.
3. Como
foi a descoberta dos Manuscritos:
Na
primavera de 1947 três beduínos da tribo Ta’amireh, que cuidavam do seu rebanho, na
região de Qumran, se divertiam jogando pedras dentro
das grutas. Um deles, porém, sentiu um som estranho. Voltou sozinho de
madrugada e descobriu entre outras coisas, um vaso contendo manuscritos
antigos. Os beduínos tentaram vendê-los, quase sem sucesso. (Outra versão
indica que foi um beduíno que foi em busca de uma cabra perdida que se havia
refugiado em uma das grutas e fez as primeiras descobertas). O certo é que os
beduínos chegaram a um senhor chamado Kando, que se converteu no intermediário para passar
adiante os materiais descobertos. Como pensavam que eram escritos em siríaco, os beduínos foram encaminhados ao metropolita Mar Athanasius em
Jerusalém, da Igreja Siro-jacobita (interessante que
o porteiro vendo aqueles beduínos mal vestidos quase colocou tudo a perder,
mandando-os embora!). O metropolita comprou os manuscritos
por cerca de 100 dólares (tempos depois os vendeu nos USA por 250.000 dólares).
O
metropolita consultou Sukenik,
um professor da Universidade Hebraica de Jerusalém. A partir disso, iniciou-se
uma longa história em que a descoberta foi levada a sério, os beduínos
conseguiram novos manuscritos, porém devido à situação de conflito na região,
alguns desses manuscritos foram levados aos Estados Unidos. Iniciaram-se também
as escavações e novas buscas na região, coordenadas por G. L. Harding (jordaniano) e pelo Pe.
Roland de Vaux, da Escola Bíblica de Jerusalém, que
escavaram e estudaram o local, fazendo estudo da comunidade e em várias
expedições fizeram novas descobertas. Porém, os beduínos lembrando que seus
avós contavam a história de um caçador que havia seguido uma lebre numa gruta,
foram de novo os protagonistas e descobriam duas grutas (chamadas Gruta 4) onde foi encontrado o maior e melhor número de material
(era o resto da Biblioteca central da comunidade de Qumran).
Foi
construído em Jerusalém um local especial para colocar e proteger todo este
material, o chamado “Santuário do Livro”, em forma da tampa de uma jara, semelhante àquela em que foram encontrados os
primeiros manuscritos. É onde hoje se encontra todo o material e está sob a
custódia do Museu de Jerusalém, hoje administrado pelo Estado de Israel.
Segundo J. Strugnell, cerca de quatro rolos devem
estar desaparecidos ou se perderam para sempre.
R. de Vaux e sua equipe tentaram
estudar quem foi esta comunidade que viveu ali e produziu todo este material.
Baseados nas escavações e também em historiadores da época como Plínio, o
Velho, Fílon e Flavio Josefo,
chegou-se à conclusão que a comunidade começou a ser povoada cerca de 700 anos
antes de Cristo. Porém, somente uns 200 anos aC. é que teve a organização
como grupo essênico separado. Esta sofreu uma forte
destruição com o terremoto de
a)
Tinham uma forte vida comunitária, com normas para a admissão, formação e
vivência interna. Seguiam uma disciplina rígida, rezavam e faziam penitência,
tinham os bens praticamente
b)
A princípio parece que era uma comunidade constituída somente de homens, porém
nos cemitérios foram descobertas ossadas também de mulheres (que podiam ser de
visitantes ou familiares que vivam nas proximidades);
c)
Uma figura importante na comunidade era o Mestre da Justiça;
d)
Tinham uma forte expectativa messiânica, porém eram dois os Messias esperados:
um de linha mais política, seria o descendente de
David e o segundo seria o Messias Sacerdote, descendente de Aarão;
e)
Seguiam um calendário de 364 dias.
O
mais provável é que esta comunidade fosse um grupo de essênios, em uma
comunidade de mais ou menos 200 pessoas. Alguns poucos sugerem que poderiam ser
saduceus, zelotes, etc.
5. O Novo
Testamento e Qumran
Surgiram várias
hipóteses indicando que alguns dos personagens do NT seriam provenientes de Qumran ou tiveram contatos com esta comunidade. De fato,
quem visita hoje Qumran na recepção vê um filme que
informa sobre um personagem que esteve na comunidade, mas que foi expulso por
não se adaptar à comunidade. Este personagem é identificado como o Profeta João
Batista. E se lermos os evangelhos sinóticos vemos que os traços de João
Batista (a radicalidade da sua proposta) têm muito a
ver com a comunidade de Qumran. Outros sugerem que
Tiago “irmão do Senhor” (cf. At 12,17; 15,13; Gl 1,19, etc.) pudesse ter
ligações com a comunidade e Robert Eisenman até
chegou a afirmar que este Tiago seria o Mestre da Justiça da comunidade. Nesses
textos, segundo Eisenman, se falaria dos primeiros
cristãos e em particular emergiria na sua plena luz o contraste que dividia a
corrente de Tiago e aquela de Paulo. Encontramos também alguns que até chegaram
a sugerir que o Apóstolo Paulo viesse desta Comunidade (é bom lembrar que o
próprio Apóstolo Paulo várias vezes afirma seu passado como fariseu e nunca
como essênio).
É
interessante ver o paralelismo de certos termos com os escritos do NT. Um dos
vocábulos que mais chamou a atenção é “os muitos” ou “maioria” que encontramos
em At 15,12 e em 2Cor 2,5-6 e no relato da Eucaristia
de Mt 26,27-28; Mc 14,23-24; Lc
22,20. Em Qumran encontramos o mesmo termo seja em
relatos jurídicos e celebrativos. Encontramos também
outras expressões como: “justiça de Deus”, “pobres em espírito”, “obras da
lei”, “Igreja / Assembléia de Deus”, “a sorte dos santos”, “o Senhor do céu e
da terra”, etc. que não são encontrados nos textos rabínicos da época.
Textos
como 2Ts 2,7 “o mistério da iniqüidade”; o tema paulino da “justificação pela fé” (cf. Rm 3,21-24; Gl 2,16), a figura de Melquisedek
lembrada na Carta aos Hebreus, a expressão “ele será chamado Filho de Deus” de Lc 1,35-37, entre outros, também são encontrados nos
escritos Qumrannicos.
No
entanto, se existem paralelos, encontramos também divergências. E. Stauffer enumera pelo menos oito pontos diferentes entre a
comunidade de Qumran e as primeiras comunidades
cristãs: 1) um clericalismo maior em Qumran; 2) mais
ritualismo e cerimônias; 3) o preceito de amar os filhos da luz e odiar os
filhos das trevas; 4) o militarismo e a preparação para a guerra
“apocalíptica”; 5) a supervalorização do calendário; 6) o caráter esotérico; 7)
a expectativa dos dois Messias; 8) o relacionamento diverso com o Templo, com
os sacerdotes de Jerusalém e com a Lei.
6.
Problemas com a publicação dos Manuscritos
No início a
Equipe responsável pelo cuidado dos Manuscritos e pela sua divulgação e
publicação era constituída de um pequeno grupo, chefiada pelo Pe. de Vaux,
da Escola Bíblica de Jerusalém. Devemos recordar que muitos fatores
atrapalharam o trabalho. Basta lembrar que o território passou por mudanças
políticas importantes: Inglaterra, Jordânia e depois Israel. Houve dificuldade
de recursos econômicos e mesmo humanos (pessoas capazes de traduzir e
interpretar os documentos). Falta de recursos para a aquisição dos Manuscritos.
Tudo isso fez com que, passados 40 anos das primeiras descobertas, muitos
textos ainda não eram de conhecimento público. Surgiram suspeitas sobre as
descobertas e sobre os seus conteúdos, falou-se até
É
certo que devido à falta de recursos, financeiros e humanos, a morte de R. de Vaux (que foi substituído
por J. Strugnell – inglês, presbiteriano e depois
católico – já velho), houve atraso nas traduções e publicações. Além disso, a
Equipe queria publicar os textos com uma interpretação que fosse unânime entre
os diversos membros. Tudo isso deu margem a inúmeras especulações.
Por
isso na década de 90 houve uma mudança na Equipe, mais recursos e pessoas foram
colocados à disposição e assim hoje todos os Manuscritos já foram divulgados,
pelo menos através de fotografias. Hoje faltam somente uns poucos textos para serem
publicados e traduzidos. Em português temos a excelente obra publicada pela Vozes: Textos de Qumran, de Florentino Garcia Martinez, que traz
praticamente todos os textos já publicados.
7.
Questões e polêmicas com o Cristianismo
É certo que
documentos dessa importância e que têm algo a dizer sobre a própria comunidade
de Qumran, mas também sobre o judaísmo, o
cristianismo e a própria cultura mundial, tendem a causar polêmicas e
divergências. Vejamos as principais:
a) John Allegro:
Entre os membros da equipe havia um pesquisador chamado John Allegro, inglês agnóstico. Devido a divergências com o
grupo, ele se retirou fazendo fortes acusações dizendo que a equipe estava
escondendo documentos da Gruta 4. Segundo ele, haviam
manuscritos que poderiam prejudicar o Cristianismo e que havia uma conspiração
do Vaticano para impedir a divulgação dos mesmos. Ele mesmo se pôs a publicar
manuscritos por conta (e que depois se revelaram de péssima qualidade. Strugnell fez cem páginas de notas de correções ao seu livro).
Allegro atribui as origens do Cristianismo aos
efeitos de um alucinógeno. Quase na mesma direção, está a interpretação de
Bárbara A. Thiering que vê João Batista como o Mestre
da Justiça e Jesus como o Sacerdote Ímpio.
b) Textos do NT em Qumran?
J.O’Callaghan, jesuíta
espanhol, insistiu nos anos 70 que havia descoberto partes de textos do NT em Qumran na gruta 7 (nesta gruta foram descobertos também
textos escritos em grego). Segundo ele, seriam textos de Marcos, Atos dos
Apóstolos, Romanos, 1Timóteo, Tiago e 2Pedro. Esta hipótese foi assumida também
pelo alemão C. Thiede e fez sucesso, mas também logo
foi contestada. Primeiro, porque a grafia não é tão igual; segundo porque a
2Pedro é colocada pela maioria dos biblistas como o
último escrito do NT (portanto foi escrita depois da destruição de Qumran); terceiro porque não foi encontrado nenhum livro do
NT, mas somente alguns fragmentos com textos parecidos; quarto porque o
material é muito fragmentado e não permite nenhuma hipótese segura. O texto encontrado
(7Q5) e que O’Callaghan supõe seja de Mc 6,52-53, e pode ser traduzido assim: “porque [não] haviam compreendido o fato dos pães estando o seu
coração endurecido. Terminada a travessia chegaram ao território de Genesaré e chegaram à terra.
Apenas desceram...” O texto não fala de Jesus e poderia muito bem se referir
a um outro fato, com outro grupo, ainda que se pareça com o texto de Marcos.
Por isso, hoje se exclui a possibilidade que qualquer uma das 11 grutas
contenha algum texto da literatura cristã primitiva.
c) Jesus era de origem essênia?
Alguns autores procuram comparar as práticas, os costumes, as
propostas entre Jesus e as primeiras comunidades cristãs com os essênios
e descobrem muitas semelhanças. Por isso, afirmam que o cristianismo seria de
origem essênia. Esta hipótese também é fraca, pois
temos todos os textos do NT que comprovam a origem judaica de Jesus na Galiléia. Embora com isso não se negue que alguns membros
do grupo de Jesus possam ter tido ligações com a comunidade de Qumran (João Batista e outros).
d) O caso do Messias assassinado ou
que assassinou: Um dos textos que mais causou polêmicas foi 4Q285. O
fragmento estava em certa parte corrompido e foi passível de várias
interpretações, por isso não foi logo divulgado. Isso ajudou a aumentar as
suspeitas. Os estudiosos sugerem várias traduções: “E esses assassinaram (ou: assassinarão) o príncipe da
comunidade, o reben[to de Davi]”. O texto pode ser interpretado tanto no passado
como no futuro. Outros preferem: “O
príncipe da comunidade o matará (ou: o matou)”. Poderia também ser: “O príncipe da comunidade, o rebento de
Davi, o matará” ou: “matará o ímpio”.
Tudo isso traz um certo paralelo com o NT. Em 1991 R. Eisenman publicou um livro (à
revelia do comitê e desrespeitando até os direitos autorais) onde diz revelar
textos inéditos, um dos quais que falava da execução capital de um Messias e
insiste que este Messias seja Jesus e que por isso o texto não havia sido
tornado público. Poucos são os que aceitam esta hipótese, já que Eisenman optou pela tradução menos segura. Em 1992, ele
publica outro livro juntamente com M. Wise. Porém, em
seguida, Wise se retratou das interpretações feitas
(cf. se pode ver na apresentação da edição italiana feita por E. Jucci). No entanto, estas publicações tiveram o mérito de
tornar públicos muitos dos manuscritos que demoravam para
serem publicados..
Sobre
os pontos acima, é bom lembrar que eminentes estudiosos encarregados da
publicação dos manuscritos sempre afirmaram que, embora se encontrem muitos paralelos,
não existe nada nos textos que tenha ligação direta com o nascimento do
Cristianismo na Galiléia. Também em nenhum dos textos
se encontra o nome de Jesus. Segundo F. G. Martinez, as últimas análises dos
Manuscritos feitas com carbono 14, comprovam que os mesmos são anteriores ao
cristianismo e portanto, “excluem definitivamente as teorias de uma origem zelota
ou judeu-cristã dos manuscritos”.
O
que percebemos é que alguns (como O’Callaghan)
gostariam de ver em Qumran e no Mar Morto indícios de
Jesus e dos textos do Novo Testamento. Não precisamos disso para a
credibilidade da nossa fé. Outros, em outro extremo, querem fazer “provocações”
e sugerir que Jesus e o cristianismo tenham origens essênias.
Nem isso está nos Manuscritos. Jesus continua sendo de origem judaica e o
cristianismo continua com sua origem na Galiléia.
Embora
seja verdade que o pensamento de Jesus algumas vezes se aproximasse das idéias
dos essênios, porém a prática de Jesus e das primeiras comunidades se
distanciava muito do extremismo deles.
Os
manuscritos de Qumran e do Mar Morto foram, sem
dúvida, a maior descoberta do milênio passado para a crítica literária e para o
estudo da Bíblia, pois voltamos a ter acesso a cópias de textos bíblicos da
época de Cristo e alguns até dos séculos II-III aC. Tanto a religião judaica, como o cristianismo,
foram duas religiões muito perseguidas na história, por isso foi difícil
preservar os originais ou cópias antigas dos textos sagrados. Para se ter uma idéia, antes desta descoberta, tínhamos a Bíblia Hebraica de Soncino
do ano 1477; a Bíblia Rabínica (com massora, isto é,
anotações que os escribas faziam nas margens das páginas copiadas) de 1518, já
impressa com a descoberta de Gutenberg e a obra de Jacob Ben Chayyion, o famoso textus recceptus de 1524/1525. Em 1929 surgiu a BHS, a Bíblia Hebraica de Kittel e P. Kahle, baseada no Código de Leningrado
de 1008. Então, estes manuscritos de Qumran e do Mar
Morto nos forneceram cópias com cerca de mil anos mais antigas dos livros do
AT. Tudo isso ajudou a corrigir e melhorar as traduções da Bíblia.
Para
o mundo judaico, além da contribuição bíblica, a descoberta abriu o caminho
para o acesso a manuscritos e materiais de dois mil anos, bem como as
escavações e o conhecimento de uma comunidade de um grupo judaico (os
essênios), que contribuem também para entender melhor a história dos últimos
anos da existência do estado de Israel (antes de ser destruído pelos romanos).
E proporcionou um grande conhecimento da literatura hebraica pré-cristã.
Para
o cristianismo, também a maior importância está nas descobertas bíblicas, mas
também em poder conhecer melhor o ambiente, as estruturas, idéias do mundo
judaico da época de Jesus e de uma comunidade que tinha pontos em comum e
pontos divergentes com o cristianismo.
Porém, com J. C. Vanderkam
podemos afirmar: “Sustentando que o Jesus
histórico era o Messias, no itinerário que conduziu à época escatológica, os
cristãos se colocaram muito além em comparação com os essênios de Qumran, os quais esperavam que os seus Messias viriam em um futuro imediato”.
Concluindo,
podemos dizer que tinha razão a afirmação do exegeta
bíblico W. F. Albright quando soube da descoberta dos
Manuscritos: “Parabéns pela maior
descoberta de manuscritos dos tempos modernos”. E em outra ocasião: “É fácil de perceber que esta nova descoberta
revolucionará os estudos neotestamentários e logo
renderá superados os manuais que tratam do ambiente do NT e da crítica textual
e da interpretação do AT”.
Relação
dos Manuscritos bíblicos encontrados:
Gênesis 15 Salmos 36
Êxodo 17 Provérbios 2
Levítico 13 Jó
4
Números 8 Cântico
dos Cânticos 4
Deuteronômio
29 Rute 4
Josué 2 Lamentações 4
Juízes 3 Eclesiastes 3
1-2
Samuel 4 Ester
0
1-2
Reis 3
Daniel 8
Isaías 21 Esdras 1
Jeremias 6 Neemias 0
Ezequiel 6 1-2 Crônicas 1
12
Profetas 8
Também
foram encontradas cópias de alguns livros deuterocanônicos
que não vieram a fazer parte da Bíblia Hebraica: Tobias (4
cópias em aramaico e uma em hebraico); Eclesiástico (alguns fragmentos); Carta
de Jeremias = Baruc 6 (foi
encontrada uma cópia em grego); Salmo 151, que se encontra na LXX (uma cópia).
Bibliografia
Donnini, D. Cristo e Qumran. La chiave di un rapporto controverso.
In: http://www.etanali.it/mar_morto/files/qumran.htm
Eisenman, R. – Wise, M. Manoscritti segreti
di Qumran. Edizione italiana a cura di Elio Jucci (Piemme, Asti 21994).
Jucci, E. I manoscritti ebraici di Qumran: A che punto siamo? in: http://dobc.unipv.it/SETH/achepunt.htm
Jucci, E. Qumran. A cinquant’anni dalla ricorrenza della
scoperta dei manoscritti, in:
http://dobc.unipv.it/SETH/qumran50.htm
Mackenzie, J. L.. Dicionário Bíblico. Verbete: “Qumran” (Paulus, São Paulo 72002).
Martinez, F.
G. Textos de Qumran.
Tradução de Valmor da Silva (Vozes, Petrópolis 1995)
Molina, C. As relíquias que o Mar Morto conservou por mais de 2 mil anos. (O Estado de S. Paulo, 25/11/2004,
Caderno 2, pg. D3).
Vanderkam, J. C. Manoscritti del Mar Morto. Il dibattito recente oltre le polemiche (Città Nuova, Roma 21997).