São José casou-se uma segunda vez?
Gonzalo Aranda
(www.opusdei.org)
Segundo São Mateus, quando a
Santíssima Virgem concebeu virginalmente Jesus, estava desposada
com São José, apesar de não viverem juntos (Mt 1, 18). Tratava-se de uma
situação anterior ao casamento que, entre os judeus, supunha um compromisso tão
forte e real que os comprometidos já podiam ser chamados de esposo e esposa, e
que só podia ser anulado mediante repúdio.
Do texto de São Mateus, deduz-se
que depois da aparição do anjo a José, explicando-lhe que Maria havia concebido
por obra do Espírito Santo (Mt 1,20), os dois casaram-se e passaram a viver
juntos. A narração da fuga e retorno do Egito, o estabelecimento em Nazaré (Mt
2, 13-23) ou mesmo o episódio da perda do menino no Templo quando tinha doze
anos, apontam nessa direção. São Lucas, além disso, ao narrar a anunciação do anjo a Maria, apresenta-a como “uma virgem
desposada com José da casa de Davi” (Lc 1, 27). Portanto, segundo os
evangelhos, São José casou-se com a Santíssima Virgem. Esse dado, com certeza,
pertence à tradição histórica recolhida nos evangelhos.
Se essas foram as
segundas núpcias de São José, ou se ele, já ancião e viúvo, não chegou a
desposar a Virgem Maria, mas apenas cuidou dela como de uma virgem que teria a
seu encargo, são temas que caem no terreno das lendas. Não oferecem garantia
alguma de historicidade.
A primeira menção dessas lendas
encontra-se no chamado “Protoevangelho de São Tiago”, do século II. Relata que
Maria permanecia no Templo desde os três anos e que, ao completar doze, os
sacerdotes procuraram alguém que se encarregasse dela. Reuniram todos os viúvos
do povo, e, depois de um sinal prodigioso – do cajado de José saiu uma pomba –
entregaram-lhe a guarda da Virgem. Segundo esta lenda, contudo, José não tomou
Maria por esposa. De fato, quando o anjo lhe aparece em sonhos, não diz a José
como em Mt 1, 20 “não temas receber Maria por esposa”, mas “não temas por esta
donzela” (XIV, 2). Outro apócrifo mais tardio, que
re-elabora esse relato, o chamado “Pseudo-Mateus”, talvez do século VI, dá a
entender que Maria foi desposada por José, pois o sacerdote diz a ela: “deves
saber que não pode contrair matrimônio com nenhum outro” (VIII,
4); mas, em geral, fala de São José como protetor da Virgem. Por outro
lado, o “Livro da Natividade de Maria - uma espécie de resumo do “Pseudo-Mateus”- e a “História de José, o carpinteiro” (IV, 4-5) dizem
claramente que José desposou Maria.
Portanto, não há dados históricos
que permitam afirmar que São José era casado anteriormente. O mais lógico é
pensar que fosse um homem jovem quando desposou a Santíssima Virgem e que só se
casou uma vez.
BIBLIOGRAFIA
DANIELOU, J. Los evangelios de la
infancia, Herder, Barcelona 1969.
MUÑOZ IGLESIAS, S. Los evangelios de la infancia. IV, BAC, Madrid
1990.
DE SANTOS, A. Los evangelios apócrifos. BAC, Madrid 1993 (8ª ed.)