Evangelhos: e a credibilidade dos evangelhos?
(Revista Pergunte e Responderemos, PR
318/1988)
(Dom Estevão Tavares Bettencourt,
OSB)
Em síntese: Os mais recentes estudos sobre a
origem dos Evangelhos permitem dizer que o texto escrito de Mateus, Marcos,
Lucas e João remonta até Jesus, sua fonte,... mediante três etapas. Com efeito;
a mensagem passou do Senhor aos Apóstolos; estes a transmitira às antigas
comunidades cristãs por eles fundadas (Tessalônica, Corinto, Filipos, Roma...)
e, finalmente, estas (ou a Igreja) a entregaram aos Evangelistas. O texto
sagrado data da segunda metade do século I, mas sem hiato entre Jesus e Mateus,
Marcos, Lucas e João; ao contrário, a pregação oral da Boa-Nova começou com
Jesus, continuou com os Apóstolos e discípulos até chegar aos Evangelistas.
Essa tramitação permitiu um desdobramento homogêneo da mensagem apregoada por
Jesus sob forma seminal; o Espírito prometido pelo Senhor (cf. Jo 14,26;
16,12s) assegurou a fidelidade do desenvolvimento da Boa-Nova. Além disto,
verifica-se que os Apóstolos eram ciosos de guardar a verdade dos fatos
ocorridos com Jesus, distinguindo nitidamente entre mythos (mito,
fábula) e logos (palavra da verdade ou da fé). As tentativas de deturpar
o Evangelho ou "inventar" mensagens ocorreram, sem dúvida, como é
compreensível, mas foram relegadas para a literatura apócrifa, cujo estilo é
evidentemente fantasioso e diverso do estilo sóbrio dos Evangelhos canônicos.
Os Apóstolos, longe de criar suas proposições de fé, não queriam ser senão
testemunhas, como provam numerosas citações do corpo deste artigo.
São estas algumas ponderações que podem ser feitas
frente a artigos da imprensa profana que negam a veracidade dos Evangelhos.
***
Os debates sobre o filme "A Última Tentação de
Cristo" levantaram a questão da credibilidade dos Evangelhos... Em mais de
um órgão da imprensa foi divulgada a tese de que não são narrações históricas,
mas, antes, a expressão da criatividade das primeiras gerações cristãs, que
imaginaram o Jesus descrito por Mateus, Marcos, Lucas e João. Ora, a bem da
verdade, tais afirmações sugerem um atento exame da questão. Consideraremos os
dados do problema, e lhes acrescentaremos as ponderações da crítica objetiva e
fundamentada.
1. O problema
Eis, por exemplo, o que se lê sob a pena de Richard
Outling na página 80 de Manchete n° 899,10/09188:
“Do ponto de vista de muitos acadêmicos, os autores
anônimos dos quatro Evangelhos (mais tarde, convencionalmente chamados de
Mateus,
Marcos, Lucas e João) trabalhavam com material de segunda e terceira mãos,
transmitido verbalmente durante algumas décadas antes de ser registrado por
escrito.
Conseqüentemente, os Evangelhos não podem ser
aceitos como verdade pura; isto é, não podem, em todos os casos,
ser considerados como a descrição de acontecimentos indiscutíveis '0 Novo
Testamento é o testemunho de homens crentes’, disse o teólogo católico liberal
Edward Schillebeeckx, da Holanda, '0 que dizem não é a história, mas expressões
de sua fé em Jesus como Cristo'.
A tentativa dos estudiosos modernos de descobrir o
Nazareno real e histórico dos relatos supostamente enfeitados da Bíblia - um
processo conhecido como o método histórico-critico ou 'alta crítica'- produziu
alguns resultados não ortodoxos. Alguns exemplos:
- Jesus não afirmou ser o Messias. Essas
declarações representam a crença posterior da Igreja, que os autores dos
Evangelhos inseriram mais tarde na vida de Cristo.
- Quando Jesus disse que era 'filho de Deus’, não
quis ser entendido ao
pé da letra. A linguagem dessa natureza no
Novo Testamento - referir-se a Jesus como o 'Cordeiro' ou o 'Verbo' de Deus - é
metafórica”
No "Jornal do Brasil", caderno B, p. 2,
de 8/8/88, lê-se o comentário de John Dart:
“Quando um trabalho de ficção se afasta dos relatos
dos Evangelhos, muitos cristãos alegam que desviar-se do 'registro histórico'
sobre a vida de Cristo é uma ofensa e, pior, uma blasfêmia. Mas o fato é que o
consenso entre os especialistas - aqueles que aplicam os
métodos críticos e históricos contemporâneos ao estudo do Bíblia - é de que os
textos de Marcos, Mateus, Lucas e João não são registros históricos na
acepção moderna da palavra, muito menos testemunhos oculares. Os Evangelhos,
segundo eles, são o produto de mentes criativas no terço final do século I -
bem depois da morte de Jesus por volta do ano 30...
Elaborações criativas sobre a história bíblica de
Jesus fazem parte, há muito tempo, da tradição cultural do Ocidente. As Igrejas
dos primeiros tempos da era cristã produziram muitos textos apócrifos como o Evangelho da
Infância de Tomé, que conta os milagres feitos pelo Menino Jesus. Especular
sobre os laços afetivos entre Cristo e Maria Madalena não é exclusividade A
última Tentação. O Evangelho de Maria, um texto agnóstico cristão
do século II, e o Evangelho de Felipe, de origem semelhante,
possivelmente do século III, estão cheios de especulações a
respeito".
Um leitor não iniciado em tais assuntos poderá, na
verdade, julgar que se acha diante de conclusões seguras e bem arquitetadas da
pesquisa bíblica, sem desconfiar de leviandade ou superficialidade do
noticiário. Eis por que passamos a expor o que a crítica séria e fidedigna hoje
em dia propõe sobre a origem dos Evangelhos.
2. Origem e historicidade dos Evangelhos
Os estudos modernos recorrem ao chamado Método da
História das Formas, citado pela imprensa como "método histórico
crítico" ou "alta crítica" (ver. p. 490 deste fascículo). Em que
consiste?
2.1. 0 Método da História das Formas
Jesus nada deixou escrito nem mandou que seus
Apóstolos escrevessem, visto que a escrita era difícil e rara na antigüidade.
Por isto o Evangelho foi sendo pregado de viva voz na Palestina e fora desta.
Aos poucos, porém, para facilitar o uso da memória, os pregadores foram
redigindo seções avulsas (uma série de parábolas que ilustrassem o Reino de
Deus, a misericórdia do Pai, . . . uma série de milagres de Jesus, ou de
altercações com os fariseus...). Essas pequenas unidades (folhas volantes)
foram sendo colecionadas, de modo a dar uma síntese dos ensinamentos e dos
principais feitos de Jesus. Quatro dessas sínteses foram reconhecidas pela
Igreja como canônicas ou autêntica Palavra de Deus; tais são os Evangelhos
segundo Mateus, Marcos, Lucas e João.
A compilação e a redação finais devem ter ocorrido
entre os anos de 60 e 100. Todavia é de notar que foram feitas em continuidade
com a pregação anterior, que procedia do próprio Jesus; não houve hiato entre
Jesus e os evangelistas ou entre o ano 30 (Ascensão do Senhor) e as últimas
décadas do século I: a palavra do Senhor foi sendo transmitida
ininterruptamente. Ora o Método da História das Formas estuda esse intervalo
entre Jesus e os Evangelistas (ou estuda a pré-história do texto escrito
definitivo), procurando reconstituir o ambiente e os fatores que podem ter
influído na redação oral e escrita da pregação dos Apóstolos.
A Igreja Católica reconheceu a validade desse
estudo mediante a Instrução Sancta Mater Ecclesia da Pontifícia Comissão
Bíblica, de 21/04/1964. Tal documento apresenta três fases na confecção do
texto escrito do Evangelho:
1) A pregação de Jesus aos Apóstolos. Jesus,
portanto, está na origem do texto que hoje circula (e não apenas a fé dos
cristãos do fim do século I, como disse Edward Schillebeeckx). A palavra do
Senhor foi entendida com dificuldade pelos Apóstolos antes da Páscoa (pois
ainda estavam impregnados de conceitos nacionalistas (cf. Mc 4,13; 6,51s;
8,16-20; 9,10...). - Todavia depois da Páscoa e Pentecostes os Apóstolos
compreenderam o sentido dos dizeres e feitos do Mestre; entenderam que o Jesus,
companheiro de viagens pelas estradas da Palestina, é o Kyrios, o Senhor
Ressuscitado, o Messias ou o Cristo (ver Jo 2,22; 12,16...); aliás, o próprio
Senhor lhes havia prometido que o Espírito Santo lhes recordaria tudo o que Ele
lhes dissera e os levaria à plenitude da verdade (cf. Jo 14,26; 16,12-14;
7,37-39).
Assim a imagem de Jesus cresceu na mente dos
Apóstolos; foi aprofundada e meditada homogeneamente sob a guia do Espírito
Santo. O "Jesus da história" tornou-se o "Jesus da fé"; é o
mesmo Jesus, outrora percebido com hesitações e mal-entendidos, mas finalmente
penetrado autenticamente pela fé e pela experiência dos seus primeiros
seguidores.
Ainda se têm nos Evangelhos vestígios ou ecos
diretos da pregação de Cristo ou ipsissima verba Christi (as mesmíssimas
palavras de Cristo); vejam-se por exemplo,
- a secção de Mt 16,16-19, em que se encontram
numerosos aramaísmos, inclusive o trocadilho "Pedro-Pedra", que só poderia
ocorrer em aramaico com a palavra Kepha, e não em grego (Petros-Petra);
- as disputas de Jesus com os fariseus a respeito
de textos bíblicos utilizados segundo o método (pesher) dos rabinos
antigos: Mt 22,34-40. 41-46; Lc 11,29-32;
- as disputas com os saduceus, que também versavam
sobre textos bíblicos interpretados segundo as escolas dos mestres de Israel:
Mt 22,23-33...
2) Dos Apóstolos às primeiras comunidades
cristãs. Tendo recebido a ordem de pregar ao mundo inteiro (cf. Mt
28,18-20), os Apóstolos
disseminaram a Boa-Nova.
O primeiro tema da pregação dos Apóstolos devia ser
a Páscoa, ou seja, a Paixão, a Morte e o triunfo final do Senhor Jesus. Quem
aceitasse esse primeiro anúncio
(querigma), era levado à catequese ou ao estudo da
doutrina e dos feitos de Jesus que durante a vida pública haviam provocado a
condenação do Senhor. A pregação dos Apóstolos podia limitar-se a esses dois
momentos; compreendia as ocorrências entre o Batismo e a Ascensão do Senhor,
sem retroceder até a infância e a vida de Jesus na casa de Nazaré; cf. At
1,21.[1] Foi precisamente o que fez São Marcos no seu Evangelho; São Mateus e
São Lucas acrescentaram episódios avulsos da infância de Jesus (cf. Mt 1-2; Lc
1-2) sem ter a intenção de fazer uma biografia ou uma narrativa completa da
vida do Senhor.[2]
Ao transmitir a Boa-Nova, os Apóstolos e discípulos
tinham sempre em vista as circunstâncias e particularidades características dos
seus ouvintes.[3] Procuravam dar à Palavra de Deus o Sitz im Leben, o lugar, a
ressonância na vida dos ouvintes. Assim foram redigindo formas literárias
adaptadas à finalidade da pregação:
- a forma da catequese sistemática (Mt 5-7; Lc
15...);
- a forma do sermão litúrgico (cf. as narrativas da
Paixão e Ressurreição em Mt 26-28; Mc 14-16; Lc 22-24; Jo 13-20);
- a forma de hinos (cf. FI 2,5-11; CI 1,15-20; Ef
1,3-14; 2Tm 2,11-13), doxologias (Rm 16,25s; Jd 24s);
- a forma de apologia: havia textos do Antigo
Testamento devidamente selecionados para provar a messianidade de Jesus; Is
7,14 (cf. Mt 1,23); Mq 5,1 (cf. Mt 2,6); Os 11,1 (cf. Mt 2,15); Jr 31,15 (cf.
Mt 2,18); Is 40,3 e MI 3,1 (cf. Mc 1,2s); Is 8,23-9,1 (cf. Mt 4,15s)...;
- a forma de controvérsia destinada a responder às
objeções levantadas pelos ouvintes; os Apóstolos tiravam do repertório das
respostas de Jesus as palavras adequadas às necessidades dos seus
interlocutores: assim devia haver dúvidas a respeito do sábado (Mc 2,23-3,6),
de casamento e divórcio (Mt 5,31s; 19,3-12), do jejum (Mc 2,18-22; Mt 6,16-18),
da volta do Senhor (Mt 24,36; 24,42-25,13; Mc 13,32)...
Assim se foi desenvolvendo homogeneamente a
mensagem deixada por Jesus sob forma seminal. Todo este trabalho foi assistido
pelo Espírito Santo para que não houvesse desvio nem perversão, como o próprio
Senhor o predisse; cf. Jo 14, 26; 16,12s. Esta afirmação é essencial para o
cristão; não somente a fé a sugere, mas também argumentos de ordem racional,
que adiante serão apresentados. 0 cristão crê que o texto escrito dos
Evangelhos, embora tenha passado pelas fases preliminares que uma mensagem
possa atravessar, é o eco fiel da doutrina de Jesus, desdobrada organicamente
pelos Apóstolos e discípulos a fim de a encarnar nas diversas comunidades por
eles fundadas.
3) Das primeiras comunidades aos Evangelistas.
Aos poucos foi tomando vulto nas comunidades cristãs o desejo de possuir por
escrito o ensinamento de Jesus. Devem ter sido redigidos então pequenos blocos
literários avulsos portadores ou de parábolas ou de milagres ou de altercações
ou de traços biográficos de Jesus.
Essas peças independentes foram sendo aos poucos
agrupadas a fim de se ter o ensinamento completo de Jesus. Dos muitos ensaios
resultantes dessa tarefa (cf. Lc 1,1), quatro foram reconhecidos pela Igreja
como autêntica Palavra de Deus ou como canônicos: os de Mateus, Marcos, Lucas e
João.
O agrupamento foi colocado dentro do quadro da vida
terrestre de Jesus. Os mensageiros da Boa-Nova conceberam um esquema simples da
vida pública do Senhor, composto de quatro partes:
1) preparação do ministério de Jesus (João Batista,
Batismo do Senhor, tentações...);
2) a pregação na Galiléia, com centro em Cafarnaum,
à margem do lago de Genesaré;
Mt grego 80
João grego, 100
3) a subida a Jerusalém;
4) os acontecimentos da última semana na Cidade
Santa e a glorificação do Senhor Jesus.
Dentro deste esquema biográfico foram sendo
enquadrados os blocos que a pregação anterior transmitia independentemente uns
dos outros.
Está claro que cada Evangelista, tendo recebido da
Igreja a mensagem de Jesus formulada pelos Apóstolos, lhe deu o seu cunho
próprio,
enfatizando mais este ou aquele aspecto da Boa-Nova
e da figura do Senhor (Mateus; por exemplo, é o Evangelista dos judeo-cristãos,
Lucas o dos pagãos convertidos ao Cristianismo).
A cronologia da origem dos Evangelhos pode ser
assim concebida:
As datas acima são aproximadas, mas muito
prováveis. A primeira redação do Evangelho deu-se por obra de Mateus na terra
de Israel e, por isto, em aramaico. Esta redação serviu de modelo para Marcos e
Lucas, que utilizaram o esquema de Mateus, acrescentando-lhe características
pessoais. O texto de Mateus foi traduzido para o grego, visto que o aramaico
entrou em desuso quando Jerusalém caiu em poder dos romanos no ano de 70; o
tradutor, desconhecido a nós, retocou e ampliou o texto aramaico, servindo-se
de Mc. Isto quer dizer que o texto grego de Mateus (único existente, porque o
aramaico se perdeu) é, segundo alguns aspectos, o mais arcaico e, segundo
outros aspectos, o mais recente dentre os sinóticos.
Pergunta-se agora:
2.2. Pode-se crer nos Evangelhos?
Há quem julgue que a mensagem de Jesus, tendo
passado por várias instâncias intermediárias, foi sendo aos poucos desfigurada,
de modo que o texto escrito já não refere a verdade histórica. - Em resposta
observaremos o seguinte:
2.2.1. Testemunhas
Os Apóstolos eram muito ciosos da fidelidade a
Jesus e à realidade histórica. Tinham consciência de que a Revelação de Deus
aos homens passou pela trama da história do Antigo Testamento e da vida de
Jesus; os acontecimentos da história da salvação são portadores de mensagem;
ligam-se a
verdades, como também as verdades da Revelação se
prendem a fatos históricos. São Paulo chega ao ponto de dizer: "Se Cristo
não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia também é a vossa fé... Se
Cristo não ressuscitou, ilusória é a vossa fé" (1Cor 15,14.17). Isto quer
dizer que toda a sublimidade da sabedoria cristã se retira de campo ou renuncia
a se apresentar se não está ligada ao fato concreto histórico da Ressurreição
corporal de Jesus. Por conseguinte, em perspectiva cristã não se pode, sem
mais, negar a história bíblica e, apesar disto, afirmar a doutrina religiosa do
Cristianismo. Isto se evidencia, entre outras coisas, pelo fato de que os
Apóstolos não queriam ser senão testemunhas. . . Com efeito; os conceitos de
"testemunho", "testemunha" e "testemunhar"
ocorrem mais de 150 vezes nos escritos do Novo Testamento. Ora
"testemunha" é a pessoa que está habilitada a fazer afirmações
verídicas, pois tem o conhecimento de causa mais seguro, que é a própria
experiência pessoal.
É interessante notar a insistência com que os
Apóstolos se apresentam como testemunhas de Jesus; afirmam não transmitir senão
o que viram e ouviram. Parece, de certo, que a regra de "testemunhar
apenas", sem nada acrescentar de falso, marcava profundamente a vida e a
profissão de fé das antigas comunidades cristãs. Tenham-se em vista as
seguintes passagens:
Quando entre a Ascensão e Pentecostes os Apóstolos
trataram de substituir Judas, o traidor, estipularam, como qualidade própria do
novo Apóstolo, a de testemunha, e... testemunha principalmente da ressurreição
do Senhor. Tais foram então as palavras de São Pedro:
"Convém que, dentre esses homens que têm
estado em nossa companhia todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu entre nós, a
começar do batismo de João até o dia em que de nosso meio foi arrebatado, um
deles seja incluído em nosso número, como testemunha da sua ressurreição" (At
1,21s).
No dia de Pentecostes, afirmava São Pedro: "A
esse Jesus, Deus
ressuscitou. Disto todos nós somos
testemunhas" (At 2,32).
No seu segundo sermão, voltava a dizer São Pedro:
"Matastes o príncipe da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos. Disto nós
somos testemunhas" (At 3,15).
Diante do sinédrio, Pedro e os Apóstolos
responderam:
"Foi Deus quem, com a sua destra, elevou (a
Jesus) como Príncipe e Salvador para dar a Israel o arrependimento e a remissão
dos pecados. E nós somos testemunhas dessas coisas, nós
e o Espírito Santo, que Deus deu a todos os que lhe obedecem" (At 5,3ls).
Em casa de Cornélio, dizia S. Pedro: "E nós somos
testemunhas de tudo que (Jesus) fez no país dos judeus e em Jerusalém. Eles
O mataram, suspendendo-O a um madeiro. Deus, porém, O ressuscitou ao terceiro
dia, e permitiu-Lhe aparecer de modo visível, não a todo o povo, mas às testemunhas
antes escolhidas por Deus: a nós, que comemos e bebemos com Ele, depois que
ressuscitou dos mortos" (At 10,39-41).
Palavras de São Paulo:”:.. Mas Deus O (Jesus)
ressuscitou dos mortos. Por muitos dias apareceu àqueles que com Ele tinham
subido da Galiléia para Jerusalém e que são agora suas testemunhas
perante o povo" (At 13, 30s).
São Paulo, ao contar sua conversão, refere a
seguinte ordem de Deus:
"Levanta-te e põe-te em pé, pois eu te apareci
para te constituir ministro e testemunha das coisas que viste, e de outras para
as quais hei de me manifestar a ti" (At 26,16).
São Paulo fazia questão de lembrar aos coríntios as
principais testemunhas da ressurreição:
"Cristo morreu por nossos pecados, conforme as
Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, conforme as mesmas
Escrituras; apareceu a Cefas e depois aos doze. Posteriormente, apareceu, de
uma vez, a mais de quinhentos irmãos, dos quais a maior parte
vive até hoje, tendo alguns falecidos. Depois apareceu a Tiago e, em seguida, a
todos os apóstolos. Por fim, depois de todos, apareceu também a mim, como a um
abortivo" (1 Cor 15,3-8).
Por fim, São Pedro escrevia aos fiéis da Ásia
Menor:
"Eu, presbítero... e testemunha dos
sofrimentos de Cristo..." (1Pd 5,1).
Aliás, ao acentuar o seu papel de testemunhas, os
Apóstolos não faziam senão cumprir os dizeres do Mestre: "Sereis minhas
testemunhas" (At 1,8; cf. Lc 24,48).
Intencionando, pois, passar por testemunhas, os
Apóstolos terão tomado o devido cuidado para ser fiéis à mensagem de Cristo.
2.2.2 Os mitos e o Evangelho
Não há dúvida, na Igreja nascente houve tentativas
de deteriorar a mensagem evangélica. São Paulo se refere a fábulas, erros
gnósticos, dualistas, docetistas..., que ele compreendia sob a palavra grega
mythoi, mitos, e cuidou zelosamente de que tais mitos não se mesclassem com a
autêntica doutrina do Cristianismo, chamada logos.
Observemos como os Apóstolos tinham consciência de
que os mitos não fazem parte da mensagem evangélica e, por isto, devem ser
banidos da pregação:
1 Tm 1,3s: Ao partir para a Macedônia, pedi-te
(ó Timóteo) que permanecesses em Éfeso a fim de admoestares certas pessoas a
não ensinarem doutrina diferente nem se apegarem a fábulas (mythois) e
genealogias intermináveis'
São Paulo tinha em vista lendas inventadas no
século I d.C. para esclarecer fatos do Antigo Testamento; visava também a
pesquisas que correspondiam ao gosto dos doutores judaicos e dos homens
ecléticos da época.
Mais adiante volta o Apóstolo a exortar:
"Rejeita as fábulas (mythous) profanas,
verdadeiros contos de velhas. Exercita-te na piedade" (1 Tm 4,7).
Na segunda carta a Timóteo lê-se ainda:
"Os homens afastarão os ouvidos da verdade e
os aplicarão às fábulas (mythous)" (2Tm 4,4).
Mais:
Tt 1,13s: 'Sede sãos na fé e não deis ouvidos a
fábulas (mythois) judaicas ou mandamentos de homens desviados da
verdade':
2Pd 1,16: 'Não foi seguindo fábulas (mythois)
sutis, mas por termos sido testemunhas oculares da sua majestade que vos
demos a conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo'
Do mythos se distingue o logos, a
palavra, que São Paulo muito recomenda:
Rm 10,8: 'Ao teu alcance está a palavra da fé
que nós pregamos':
1Ts 2,13: 'Sem cessar agradecemos a Deus por
terdes acolhido a sua Palavra, que vos pregamos não como palavra humana,
mas como na verdade é, a Palavra de Deus, que está produzindo efeito em
vós':
2Tm 2,9: 'Pelo Evangelho sofro até as cadeias...
Mas a Palavra de Deus não está algemada'.
2Tm 2,15: 'Procura apresentar-te... como um
trabalhador... que dispensa com retidão a palavra da verdade’.
Ver ainda Tt 2,5, Tg 1,22s; 1Jo 1,1; At 13,26.
Donde se vê que não se deve admitir tenha sido a mensagem
cristã penetrada por mitos e confundida com estes, como se os primeiros
pregadores da mesma fossem simplórios e destituídos de discernimento.
De resto, os mitos todos têm estilo vago, do ponto
de vista da cronologia e da topografia; não podem propor quadro histórico e
geográfico preciso; é o que os isenta de controle. Ora dá-se o contrário nos
Evangelhos: a topografia da Palestina é por estes minuciosamente mencionada;
também a cronologia respectiva é relacionada com a cronologia profana, como se
depreende de Lc 2,1 (referência a César Augusto) e Lc 3,1s (referência a
Tibério César, Pôncio Pilatos, Herodes, Filipe, Lisânias...).
Mais ainda: nenhum criador de mitos teria inventado
o "mito" do Evangelho, cujos traços são desafiadores e exigentes para
a mente humana: a mensagem de Deus feito homem e, mais, ... crucificado era
escândalo para os judeus e loucura para os gregos (1Cor 1,23). A promessa de
ressurreição ou de reunião da alma com o corpo era contrária ao pensamento
grego; a Moral cristã, que valorizava a mulher, a criança mesmo indesejada, a
família, o trabalho manual, o escravo (cf. a epístola a Filemon...), a estrita
monogamia sem divórcio..., só podia encontrar oposição da parte da Filosofia
greco-romana. Nada disso tinha condições de partir da mente dos homens do
século I da nossa era.
2.2.3. Os apócrifos
Era natural que a fantasia humana elaborasse lendas
e estórias a respeito de Jesus, visando a completar, de algum modo, o logos ou
a Palavra da pregação dos Apóstolos. Acontece, porém, que a Igreja, sabiamente
guiada pelo Espírito Santo, soube discernir da história real essas ficções,
relegando-as para a literatura apócrifa. Esta é caracterizada por estilo
evidentemente imaginoso e fictício, bem diferente do dos Evangelhos canônicos,
como se pode perceber através de simples amostragem:
"O menino Jesus tinha cinco anos quando um dia
se encontrava a brincar sobre a passarela de um riacho depois da chuva.
Recolhendo a água em pequenas vasilhas, tornava-a cristalina no mesmo instante
e a dominava apenas com a sua palavra.
Depois fez uma massa de barro e com ela plasmou
doze passarinhos. Era então sábado e havia outros meninos a brincar com Jesus.
Certo judeu, vendo o que Jesus acabara de fazer em
dia de festa, foi ter correndo com seu pai José e lhe contou tudo: 'Olha, teu
filho está no riacho e, tomando um pouco de barro, fez doze pássaros,
profanando assim o sábado
José foi ter com Jesus e, ao vê-lo, censurou-o
dizendo: Por que fazes no sábado o que não é lícito fazer?' Jesus então bateu
palmas e se dirigiu aos passarinhos de barro, dizendo-lhes: Ide-vos!' E os
passarinhos todos se puseram a voar e cantar.
Ao ver isto, os judeus se encheram de admiração e
foram contar a seus chefes o que tinham visto Jesus fazer" (Evangelho do
Pseudo-Tomé //).
'Aconteceu que um jovem, ao cortar lenha, deixou
cair o machado, que lhe cortou a planta do pé. O infeliz ia morrendo aos poucos
por causa da hemorragia. Houve então grande alvoroço e tumulto de muita gente.
Jesus também se fez presente; depois de abrir passagem, pela força, entre a
multidão, chegou perto do rapaz ferido, e com sua mão apertou o pé danificado
do jovem, e este imediatamente ficou curado. Disse então Jesus ao moço:
'Levanta-te já; continua a cortar lenha e lembra-te de mim'. A multidão, ao ver
o ocorrido, adorou o menino, exclamando: 'Realmente neste menino habita o
Espírito de Deus!' " (ib. no X).
"Quando Jesus tinha seis anos, sua mãe deu-lhe
um jarro para que o fosse encher de água e o levasse para casa. Mas Jesus
tropeçou no caminho e o cântaro se quebrou. Então ele estendeu o manto que o
cobria, encheu-o de água e levou-o a sua mãe. Esta, ao ver tal maravilha,
pôs-se a beijar Jesus. E conservava em seu coração todos os mistérios que ela o
via realizar" (ib. n? XI).
Ao contrário do que se dá nos apócrifos, quem lê os
Evangelhos canônicos, observa aí notável sobriedade de estilo, sintoma de que
os Evangelistas tinham consciência de que a sua mensagem narrada com
simplicidade tinha em seu favor o fascínio e poder da verdade e, por isto, não
precisava de ser "embelezada" artificialmente para encontrar a
aceitação do público.
Pode-se, pois, concluir que a mensagem do Evangelho
é de origem transcendente e não terá sido produto do ficcionismo de judeus ou
de pagãos da antigüidade. - É isto que mais uma vez nos compete afirmar diante
das notícias sensacionalistas de certa imprensa.
A propósito:
GUITTONJEAN, Jesus. Ed. Itatiaia, Belo
Horizonte.
LAMBIASI, F., Autenticidade histórica dos
Evangelhos. Ed. Paulinas.
MESSORI, VITTORIO, Hipóteses sobre
Jesus. Ed. Paulinas.
TERRA, JOAO EVANGELISTA MARTINS, Jesus. Ed.
Loyola.
PR 219/1978, pp. 95-108 (panorama da moderna
crítica dos Evangelhos).
____
NOTAS:
[1] Foi São Pedro mesmo quem fixou os termos da pregação
dos Apóstolos: ia desde o Batismo ministrado por João até a Ascensão do Senhor,
sendo que a ressurreição era o primeiro e mais importante. Tenhamos em vista as
palavras de Pedro antes da escolha de Matias: "E necessário que, dentre os
homens que nos acompanharam todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu em nosso
meio, a começar do Batismo de João até o dia em que dentre nós foi arrebatado,
um destes se tome conosco testemunha da sua ressurreição" (At 1,21s).
[2] É isto que explica a lacuna existente, nos
Evangelhos, entre os 12 e os 27/30 anos de Jesus. - Há quem diga que ela se
deve a uma hipotética viagem do Senhor pelo Oriente remoto, de modo que os
evangelistas nada sabiam a respeito de Jesus nesse período. Tal hipótese é
falsa, pois os
Evangelistas sabiam que Jesus fora carpinteiro (cf.
Mc 6,3, Mt 13,55). Nada ou quase nada escreveram a respeito de tal período,
porque este escapava ao âmbito da pregação que os Apóstolos tinham em vista.
Cf. PR 206/1977, pp. 61-76.
[3] Comparem-se entre si A t 13,16-41 e A t
17,22-31. No primeiro caso, São Paulo em Antioquia da Pisídia prega a judeus
recorrendo aos textos e feitos do Antigo Testamento, familiar aos ouvintes. No
segundo caso, o Apóstolo em Atenas prega aos filósofos pagãos gregos utilizando
não o Livro Sagrado, mas argumentos filosóficos e testemunhos da tradição do
povo ateniense