Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora

da Igreja no Brasil

 

 

Texto aprovado no dia 08/05/2003

 

 

 

 

OBJETIVO GERAL

 

 

EVANGELIZAR

proclamando a Boa Nova de Jesus Cristo,

caminho para a santidade,

por meio do serviço, diálogo, anúncio

e testemunho de comunhão,

à luz da evangélica opção pelos pobres,

promovendo a dignidade da pessoa,

renovando a comunidade,

formando o povo de Deus e

participando da construção de uma sociedade

justa e solidária,

a caminho do Reino definitivo.

 

 

 

INTRODUÇÃO

 

 

A Igreja se compreende como imagem viva da Trindade Santa, povo de Deus, corpo de Cristo, templo do Espírito Santo[1]. Nela, todos agem coordenadamente para o objetivo comum da evangelização[2]. Inserida na história e atenta à realidade, mantendo sua identidade, procura discernir nos desafios os sinais dos tempos[3].

Para que a Igreja no Brasil possa agir de maneira articulada, eficiente, fiel à sua missão e atenta aos novos desafios, apresentamos agora as “Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora”, como orientação para o planejamento pastoral no período 2003-2006.

Elas são a continuação de um esforço que vem desde a época do Concílio Vaticano II. O Plano de Pastoral de Conjunto (1966-1970) já desdobrava o objetivo geral em seis linhas de trabalho, hoje chamadas “dimensões”. Estas dimensões não são ações isoladas, mas diferentes aspectos que devem estar presentes em toda ação pastoral, construindo um trabalho coordenado, orgânico, como convém a um corpo, onde cada órgão precisa dos outros. Assim, em todo trabalho da Igreja, temos em vista as dimensões: 1. comunitário-participativa; 2. missionária; 3. bíblico-catequética; 4. litúrgica; 5. ecumênica e de diálogo inter-religioso; 6. sócio-transformadora.

Além do esquema das seis linhas ou dimensões, existe a possibilidade de novos enfoques, que não se afastam do Concílio Vaticano II, mas contribuem para realizar melhor suas orientações. A Igreja no Brasil aprendeu muito com o próprio processo de planejamento, que há tanto tempo vem desenvolvendo. Ele trouxe um contínuo esforço de análise da realidade e de acompanhamento das mudanças sócio-econômicas, culturais e religiosas, junto com o progresso da reflexão teológica, em sintonia com a Igreja latino-americana e universal.

Até 1994 tivemos, a cada 4 anos, Diretrizes Gerais da Ação Pastoral. A partir de 1995, o documento orientador do planejamento passou a se chamar Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora. Dava-se uma nova ênfase à evangelização, na qual se destacavam os seguintes aspectos[4]:

a) Inculturação: processo global e complexo, que tem analogia com a Encarnação e visa a comunicar a fé de modo mais ligado ao contexto em que se desenvolve a evangelização;

b) Exigências intrínsecas da evangelização: serviço, diálogo, anúncio e testemunho de comunhão;

c) Proposta de uma nova evangelização: um novo contexto, de pluralismo e secularismo, exige uma nova evangelização mesmo em países já evangelizados há séculos.

 

 

 

Formulando agora as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, para os anos 2003-2006, percebemos a necessidade de dar continuidade à rica herança de experiência e reflexão pastoral acumulada nas últimas décadas e, ao mesmo tempo, discernir as respostas pastorais aos novos desafios, que estão emergindo e que deverão marcar os próximos anos.

Especial inspiração e empenho nos vêm da Carta apostólica Novo millenio ineunte (No início do novo Milênio). “Contemplar o rosto de Cristo e contemplá-lo com Maria” é a proposta do Papa à Igreja na aurora do terceiro milênio, “convidando-a a avançar para águas mais profundas da história, lançando-se com entusiasmo na nova evangelização”[5]. Enfim, é o próprio Cristo o programa expresso no Evangelho e na Tradição viva. Este programa não é novo. “É necessário, no entanto, traduzi-lo em orientações pastorais ajustadas às condições de cada comunidade”[6].

Estas Diretrizes Gerais são nossa proposta de evangelização para o Brasil no próximo quadriênio. Deverão inspirar Dioceses, Paróquias e Comunidades, na elaboração de seus planos ou programas pastorais, no espírito de uma recepção criativa[7].

Conforme lembra a Novo millennio ineunte, a Igreja deve viver uma dupla fidelidade a Cristo: por um lado, fidelidade às origens, à Tradição recebida, ao que o Espírito já fez germinar sobre a base dos apóstolos e profetas da primeira geração cristã[8]; por outro lado, fidelidade à tarefa missionária, de anunciar o evangelho a novas gerações e enfrentar novos desafios.

Estas duas fidelidades não estão, na realidade, separadas. São dois esforços em tensão, que se alimentam e estimulam reciprocamente. A fidelidade à Palavra e à Tradição impulsiona para a missão, para novos avanços, descobertas e criações. A fidelidade à missão e o encontro com os novos desafios estimula a Igreja a interrogar-se novamente, com maior abertura e sensibilidade, sobre sua herança, seu patrimônio: as insondáveis riquezas de Cristo[9]. Por isso, com a assistência do Espírito, a Igreja toma consciência sempre mais ampla da vontade de Deus e das exigências da fé.

Os discursos de Paulo mostram que, desde o início da pregação apostólica, o Cristo morto e ressuscitado é anunciado de forma diferente e adequada à compreensão e cultura de cada povo. O discurso aos judeus (At 13,16-43) supõe o conhecimento da história de Israel; o discurso aos camponeses da Licâonia (At 14,15-18) supõe o conhecimento das estações climáticas e dos rudimentos da agricultura; o discurso aos intelectuais atenienses (At 17,16-31) cita filósofos e poetas.

Estas novas Diretrizes procuram sempre conjugar os dois aspectos: o da fidelidade à missão permanente da Igreja (capítulo I), e o da apreciação da realidade e discernimento dos novos desafios (capítulo II). Com base nestes fundamentos, propomos pistas de ação para os próximos anos (capítulo III).

 

 


CAPÍTULO I

MISSÃO DA IGREJA: EVANGELIZAR

 

Nos últimos tempos, cresceu a consciência de que o encontro do Evangelho com as pessoas, sem perder seu caráter individual e único, acontece no contexto da cultura. A tarefa da evangelização foi descrita por Paulo VI com estas palavras: “Para a Igreja não se trata tanto de pregar o Evangelho a espaços geográficos cada vez mais vastos ou populações maiores, mas de chegar a atingir e como que a transformar pela força do Evangelho os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade... É preciso evangelizar – não de maneira decorativa, como que aplicando um verniz superficial, mas de maneira vital, em profundidade e isto até às suas raízes – a cultura e as culturas humanas, no sentido pleno e amplo que estes termos têm na Constituição Gaudium et Spes (n. 53), a partir sempre da pessoa e fazendo continuamente apelo para as relações das pessoas entre si e com Deus”[10].

Desde então se tornou comum o uso na Igreja do termo “inculturação”, para indicar uma dimensão intrínseca da evangelização. A inculturação é uma perspectiva que acompanha permanentemente a evangelização e não se reduz a uma etapa prévia. A inculturação, na verdade, deve ser compreendida em analogia com a encarnação[11]. Na encarnação, o Filho de Deus vem de junto do Pai e se insere na história humana, partilhando da sua fragilidade, marcada pelo sofrimento, pelo pecado e pela morte, assumindo-a para redimi-la. A comunicação do Evangelho também quer se inserir na história dos povos e pessoas a que se destina, num diálogo respeitoso. Esse diálogo beneficia tanto o evangelizador quanto o evangelizado, num intercâmbio e numa interação enriquecedora. A própria cultura que acolhe o Evangelho também se transforma, abrindo-se a novas perspectivas e purificando-se de seus aspectos negativos. O ponto de partida é a certeza de que Deus está presente e atua em cada cultura.

Estas novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora continuam ressaltando quatro “exigências intrínsecas da evangelização”: o serviço, o diálogo, o anúncio, o testemunho de comunhão. O evangelizador ou a evangelizadora – fazendo-se presente num ambiente ou numa cultura não evangelizada – deverá, em primeiro lugar, buscar reconhecer seus valores e se fazer acolher, mostrando a disposição de serviço e a solidariedade para com aquela cultura e aquele povo. Isso já é um sinal do Cristo que vem “não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida”[12]. Na medida em que o evangelizador ou evangelizadora se inserir numa cultura ou numa comunidade humana, comunicar-se-á com ela e iniciará um diálogo, para refletir com os outros sobre o sentido da vida, a fé em Deus, a oração, o motivo da missão. Esse diálogo tornará possível um anúncio do Evangelho que possa ser retamente entendido e acolhido, suscitando a fé em Cristo. Unida pela fé, nascerá uma nova comunidade cristã, chamada a dar testemunho dos valores em que crê, celebra e vive na fraternidade e na fidelidade ao Evangelho[13].

A ordem “serviço – diálogo – anúncio – comunhão” expressa, portanto, uma seqüência pedagógica das exigências – todas elas essenciais – da evangelização. Do ponto de vista das finalidades ou dos valores, porém, o anúncio do Evangelho deve ter primado ou prioridade permanente. É para ele que se volta a evangelização ou missão: “A evangelização conterá sempre – como base, centro e, ao mesmo tempo, vértice do seu dinamismo – uma proclamação clara de que em Jesus Cristo a salvação é oferecida a cada homem, como dom de graça e de misericórdia do próprio Deus”[14].

Anúncio e testemunho são duas formas, complementares e conexas, da missão cristã. O anúncio indica mais propriamente a “proclamação explícita” da mensagem do Evangelho. O testemunho pode ser dado pela palavra, mas é principalmente uma atitude de vida, muitas vezes silenciosa. O mundo de hoje “escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres, ou então, se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas”[15]. O testemunho pode assumir diversos aspectos. Um ato de solidariedade ou de serviço, uma atitude de diálogo, uma declaração franca da própria fé, o exemplo de uma vida fraterna e inspirada pelo amor: tudo isso é testemunho, que pode chegar à máxima expressão na doação da própria vida[16].

Expressão privilegiada de testemunho é a comunhão eclesial, condição para que o mundo creia. “Fazer da Igreja a casa e a escola da comunhão: eis o grande desafio que nos espera.... Antes de planejar iniciativas concretas, é preciso promover uma espiritualidade da comunhão[17]. “Espiritualidade de comunhão significa ter o coração voltado para o mistério da Trindade.... Significa a capacidade de sentir o irmão de fé como «um que faz parte de mim»... É ainda a capacidade de ver, acima de tudo, o que há de positivo no outro... Por fim, espiritualidade da comunhão é saber «criar espaço» para o irmão, levando «os fardos uns dos outros»[18] e rejeitando as tentações egoístas que sempre nos insidiam e geram competição, arrivismo, suspeitas, ciúmes”[19].

A evangelização exige muita atenção à situação em que vivemos, sincera abertura de espírito e solidariedade diante das aspirações, angústias, interrogações da nossa época[20]. Mas, ao mesmo tempo, por fidelidade ao próprio Cristo e à missão que dele recebeu, a Igreja tem a estrita responsabilidade de oferecer, em cada época, o acesso à Palavra de Deus[21], à celebração da Eucaristia e aos demais sacramentos, e de cuidar da caridade fraterna e do serviço aos pobres. Uma antiga tradição, que se inspira na Palavra de Deus e que foi diversamente retomada na história da Igreja, descreve essa responsabilidade segundo um tríplice múnus: ministério da Palavra, ministério da Liturgia, ministério da Caridade[22].

 

Ministério da Palavra

 

O Concílio Vaticano II colocou conscientemente o ministério da Palavra de Deus em primeiro lugar. Paulo louvava os cristãos de Tessalônica que a tinham recebido “não como palavra humana, mas como o que ela de fato é: palavra de Deus, que age em vós que acreditais”[23]. A escuta e a acolhida da Palavra – desde que traduzidas coerentemente em atos[24] - são fundamento da vida e da missão da Igreja. “Alimentar-nos da Palavra para sermos «servos da Palavra» no trabalho da evangelização: tal é, sem dúvida, uma prioridade da Igreja ao início do novo milênio”[25].

A proclamação e a escuta da Palavra ocupam um lugar central na Liturgia. Nela Cristo “está presente na sua palavra, pois é ele quem fala quando se lêem as Sagradas Escrituras”.[26] Assim a proclamação da Palavra na Liturgia torna-se para os fiéis a primeira e fundamental escola da fé. Por isso, é essencial que pastores e fiéis se empenhem para que a Palavra seja claramente anunciada nas celebrações ao longo do ano litúrgico, seja comentada e refletida com homilias cuidadosamente preparadas, seja encarnada na vida[27].

Seja também incentivada e reforçada a prática da leitura pessoal e orante da Bíblia conforme as orientações do Concílio[28] e, especialmente, a prática dos “círculos bíblicos” ou das reuniões de grupo, para a leitura da Bíblia e a reflexão sobre a vida hoje, com o decorrente compromisso cristão. Também dioceses e paróquias incentivem as formas mais adequadas e acessíveis de formação bíblica, inclusive para multiplicar o número dos animadores do apostolado bíblico.

O ministério da Palavra exige o ministério da catequese. Hoje, na cultura marcadamente pluralista, os ambientes da escola, do trabalho e da vida social de modo geral não comunicam os valores cristãos. A própria família está incapacitada para assumir sozinha a responsabilidade da educação da fé. Neste contexto, a catequese, em processo de renovação, adquire uma nova importância. Sem reduzir seu dinamismo em relação às crianças e aos jovens, coloca sua prioridade na “catequese adulta com adultos”, na verdade modelo para todas as formas de catequese. Também é oportuno incentivar e orientar a catequese em família, com a participação dos pais, apoiando-os na educação religiosa dos filhos, desde a primeira idade. Haja, por isso, um cuidadoso preparo dos catequistas e dos pais.

Aos fiéis leigos, sejam oferecidas oportunidades de formação bíblica e teológica e de uma “formação integral”, hoje indispensável para uma atuação cristã mais consciente na sociedade[29]. Escolas e Universidades Católicas colaborem na educação cristã de jovens e adultos, por meio de uma catequese em harmonia com as paróquias. As Dioceses, colaborando entre si e com o Estado, apóiem o ensino religioso nas escolas públicas e particulares e cuidem da formação de professores competentes. Embora este não se situe mais na perspectiva da catequese, é um importante instrumento para responder à dimensão religiosa da pessoa humana. Nas escolas católicas, e onde for possível, apresentem-se os conteúdos fundamentais do cristianismo e da doutrina da Igreja. Além disso, é preciso dar apoio decidido à Pastoral de Juventude e à Pastoral de Adolescentes, inseridas na Pastoral de Conjunto.

É pela “pregação da palavra”[30] que todos podem ter acesso à fé e à salvação, chegando a conhecer o Deus único e verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que o Pai enviou[31]. As comunidades eclesiais tenham viva consciência de que “aquilo que uma vez foi pregado pelo Senhor” deve ser proclamado e espalhado até os confins da terra, de modo que “tudo quanto foi feito uma vez por todas, pela salvação dos homens, alcance o seu efeito em todos, no decurso do tempo”[32]. A Palavra é escutada e acolhida pelos fiéis também para que Deus se valha deles para difundir sua mensagem entre todos os povos[33].

 

Ministério da Liturgia

 

A celebração litúrgica é o momento mais visível da comunidade eclesial, o momento em que ela se reúne, convocada pelo Espírito de Deus e pela Palavra, para louvar o Senhor, alimentar a fé e celebrar a vida. A Liturgia é fonte e vértice da vida da Igreja[34]. Isso é especialmente válido para a celebração eucarística. “A Eucaristia edifica a Igreja, e a Igreja faz a Eucaristia”[35]

Pela graça do Batismo, os cristãos têm o direito e a obrigação de participar, de forma plena, consciente e ativa, das celebrações litúrgicas[36]. Toda comunidade eclesial deve empenhar-se para que a Liturgia seja celebrada no espírito e segundo as orientações da Igreja. Isso exige que nas ações litúrgicas não se esqueça a centralidade do mistério pascal e o caráter celebrativo da Liturgia. Deve-se realizar uma sábia “mistagogia”, ou seja, uma introdução ao mistério celebrado, um itinerário de fé que conduza ao encontro com Deus e à plena vivência eclesial e, na sociedade, ao testemunho da justiça e da caridade.

Procure-se conscientizar – pela própria prática e atitudes corretas – a assembléia de que é ela que celebra, sob a presidência do ministro ordenado ou do ministro leigo. A Liturgia é essencialmente comunitária. Ritos e símbolos litúrgicos devem ser, quanto possível, sóbrios e compreensíveis por si mesmos. Mas a longa tradição bíblica e eclesial, em que se inserem as formas atuais da Liturgia, exige uma formação dos fiéis, uma educação litúrgica, que não só ajude a compreender a Liturgia, mas a inseri-la no coração da própria vida cristã. Especial cuidado merece a formação das pessoas que exercem diversos ministérios (leitores, acólitos, “equipes litúrgicas”, animadores...), sem as quais não será possível uma celebração comunitária viva e ordenada[37].

“A participação na Eucaristia seja verdadeiramente, para cada batizado, o coração do domingo: um compromisso irrenunciável, assumido não só para obedecer a um preceito, mas como necessidade para uma vida cristã verdadeiramente consciente e coerente”[38]. Em muitas das nossas comunidades, no meio rural e na periferia das metrópoles, não é possível a celebração regular ou assídua da Eucaristia dominical. Valorizamos o empenho das comunidades que se reúnem para Celebrações da Palavra de Deus, com distribuição da Comunhão, quando possível, alimentando o desejo da Celebração Eucarística. Seja valorizada também a Celebração Eucarística em dias de semana, especialmente nas comunidades que não contam com a Eucaristia dominical.

A reforma litúrgica do Concílio trouxe maior clareza e riqueza espiritual na celebração do ano litúrgico. Com isso, o mistério de Cristo vai sendo celebrado no decorrer do ano, tendo como ponto culminante a Páscoa. A Igreja inclui, também, no ciclo anual a memória da bem-aventurada Virgem Maria, dos mártires e dos santos e as comunidades devem celebrar suas festas populares no espírito da Igreja. As comunidades valorizem a celebração dos tempos litúrgicos, ressaltando a espiritualidade e as atitudes próprias de cada tempo, sempre na perspectiva do mistério pascal.

Os Sacramentos são sinais da comunhão com Deus em Cristo, que marcam com sua graça momentos fortes da vida. A Igreja acolhe pelo Batismo os filhos das famílias cristãs e todos os que querem aderir à comunidade eclesial. Confere o vigor do Espírito na Crisma, para uma vida cristã madura e o compromisso missionário. Celebra a Eucaristia, comunhão com Cristo, que se oferece em sacrifício ao Pai por nós, alimentando-nos com seu próprio Corpo, e nos convida à partilha fraterna. Na Reconciliação, celebra o perdão, o reencontro com o Pai, o dom da paz e um recomeço apoiado na graça. Aos doentes e idosos leva, pela Unção, o conforto do perdão e o alívio no sofrimento. Com o sacramento da Ordem, constitui os ministros que, de modo especial e único, fazem as vezes do Cristo Bom Pastor. Abençoa em Cristo o Matrimônio, que faz do amor do casal um sinal da aliança com Deus[39].

A celebração dos Sacramentos favoreça a evangelização e a catequese do Povo de Deus, superando o ritualismo e os hábitos apenas devocionais e jurídicos de sua recepção.

A pastoral sacramental, de fato, não se dirige apenas aos católicos “praticantes”, que têm um bom conhecimento da doutrina da Igreja e participam assiduamente da Liturgia e mesmo, em muitos casos, dão uma contribuição ativa à evangelização e ao trabalho pastoral. A pastoral sacramental deve, também, cuidar do grande número de católicos, que desejam manter algum vínculo com a Igreja, especialmente em certas ocasiões: matrimônio, batismo e primeira comunhão dos filhos, exéquias ou missas pelos defuntos da família....

Muitos desses católicos pouco praticantes, por razões diferentes, não conhecem, não aceitam ou não se sentem motivados para abraçar formas mais completas da vida da Igreja. Entretanto, pedem os sacramentos, mesmo com motivações que, hoje, parecem incompletas ou insatisfatórias, às vezes fruto de antigos esforços de evangelização e catequese. Isso torna estas pessoas dispostas a algum diálogo pastoral, mesmo se pouco disponíveis a um empenho maior. Estas ocasiões de encontro e de diálogo não devem ser desprezadas ou subestimadas. Toda pessoa que procura a Igreja deve ser acolhida com simpatia. Particular atenção deve ser dada aos jovens e adultos que pedem o batismo, para o qual devem ser preparados segundo as indicações do Rito próprio[40].

Não devemos impor a todos, de forma indiscriminada, idênticas exigências, quando na realidade as pessoas são diversas e os graus de proximidade com a vida eclesial são muito diferentes. Também “não se pode exigir dos adultos de boa vontade aquilo para o que não lhes foi dada adequada motivação”.[41] Por isso, os pastores, com a ajuda de ministros leigos e equipes pastorais, devem procurar o diálogo pessoal, considerando cada caso segundo suas exigências específicas[42]. Mesmo se o diálogo levar à conclusão de que a pessoa não tem condições de ser admitida ao sacramento, ela deve sair do encontro sentindo que foi acolhida e escutada e que poderá voltar, quando mais disposta a assumir os compromissos da fé cristã.

A comunidade eclesial deve sentir-se responsável pela evangelização de todos. Para isto a participação nas celebrações litúrgicas e na vida sacramental é muito importante. Deve, também, acolher com atenção e discernimento a religiosidade popular. A veneração de Maria Santíssima, modelo dos discípulos e discípulas, e dos santos e santas, seguidores de Jesus, nos aproxima também de Cristo e mantém aberta no coração das pessoas, especialmente das mais pobres, a procura do Deus verdadeiro, Deus-conosco.

 

Ministério da Caridade

 

Se as fontes da vida da Igreja são a Palavra e o Sacramento, a essência da vida cristã é o “amor”, o amor-doação, o amor que vem de Deus mesmo, a “caridade”, que o apóstolo Paulo aponta como o mais alto dos dons[43]. Não poderia ser diversamente, se o próprio Jesus faz do amor o distintivo dos cristãos: “Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois os meus discípulos: se vos amardes uns aos outros”[44].

O amor cristão tem duas faces inseparáveis: faz brotar e crescer a comunhão fraterna entre os que acolheram a Palavra do evangelho (a “koinonia”, a partilha dos bens, a solidariedade, “um só coração e uma só alma”) e leva ao serviço dos pobres, ao cuidado para com os sofredores, ao socorro de todos os que precisam, sem discriminação[45]. O Papa nos exorta ao “compromisso dum amor ativo e concreto a cada ser humano”. Além disso, ele reafirma a opção preferencial pelos pobres: “Se verdadeiramente partimos da contemplação de Cristo, devemos saber vê-lo no rosto daqueles com quem Ele mesmo quis identificar-se: “Pois eu estava com fome, e me destes de comer...” (Mt 25,35-46)”[46].

O amor é atento às necessidades reais das pessoas, especialmente das mais pobres de nosso tempo, os excluídos da sociedade. O grande escândalo da nossa época[47] é que, apesar da disponibilidade de grandes recursos econômicos e tecnológicos, persistam a concentração de uma enorme riqueza nas mãos de poucos e a insensibilidade ética e a falta de vontade política de nossa sociedade de acabar com a fome, de prevenir as doenças comuns, de alfabetizar e educar a todos! As nossas comunidades, que geralmente promovem uma ampla variedade de atividades caritativas e obras sociais, tenham o cuidado de não atender apenas às antigas formas de pobreza, mas também às novas, que surgem em conseqüência das numerosas mudanças econômicas e sociais dos últimos anos e atingem novos segmentos da população.

Ainda mais, tenham o cuidado de não deixar decair a verdadeira caridade em assistencialismo paternalista. Não somente devemos partilhar da consciência democrática, que exige o respeito pela dignidade de cada pessoa e a promoção efetiva de seus direitos, mas também ver na prática da caridade uma oportunidade de doar e doar-se, de aprender e crescer na troca mútua dos bens materiais e dons espirituais[48].

O testemunho cristão se estende também à defesa dos direitos humanos – ao respeito pela vida de cada ser humano, desde a concepção até à morte. “A caridade tomará então, necessariamente, a forma de serviço à cultura, à política, à economia, à família, para que em toda a parte sejam respeitados os princípios fundamentais de que depende o destino do ser humano e o futuro da civilização”[49]. Nunca é demais lembrar que o nosso serviço da caridade deve envolver aqueles a quem servimos não como objetos, mas como sujeitos da conquista de seus direitos como pessoas, criadas à imagem de Deus.

Levados pela caridade, os cristãos são também impulsionados pelo Espírito a participar da vida política, para que a própria organização da sociedade seja cada vez mais impregnada de valores evangélicos. Esta participação política, motivada pela fé, pode assumir diferentes formas, desde o interesse pelos problemas sociais, que é compromisso de todo cidadão, até a filiação a partidos e a aceitação de cargos eletivos. Os cristãos poderão, assim, dar sua contribuição para o aprimoramento da cidadania.

A vivência da tríplice dimensão – escuta da Palavra, comunhão fraterna e compromisso com a justiça – alimenta e expressa a espiritualidade “batismal”, que configura o cristão com Cristo e o faz viver como filho, irmão e servidor.

 

 

CAPÍTULO II

NOVOS DESAFIOS NO INÍCIO DO NOVO MILÊNIO

 

A sociedade brasileira, inserida na sociedade mundial, que se encontra numa fase de globalização, está atravessando mudanças profundas. A primeira delas é a complexidade. A sociedade é “complexa” porque nela funcionam muitos sistemas autônomos: ciência, tecnologia, economia, política, comunicação, ideologia, religião... Isso torna difícil compreender o que vai acontecer e alimenta as incertezas. Podemos, porém, apontar movimentos e tendências que marcam – às vezes, contraditoriamente – o nosso presente e futuro próximo.

A “globalização” de nossa sociedade é um fenômeno recente, embora tenha tido antecedentes. Os últimos 15-20 anos viram um crescimento muito intenso das comunicações entre pessoas, empresas e países[50], um expressivo fluxo de migração entre os diversos países e o aumento do peso das relações internacionais, financeiras e políticas. A globalização recente provoca crescimento econômico muito desigual, favorável para alguns países, fraco ou até negativo para outros. Particularmente prejudicial aos Países em desenvolvimento tem sido a circulação de capitais especulativos, sempre em busca do maior lucro, que repentinamente abandonam esses Países e os condenam a crises profundas. Não se vê uma clara tendência à diminuição das desigualdades; antes, elas parecem ter aumentado, tanto no interior do mesmo País, como entre as diversas nações[51].

Apesar de aspectos positivos da globalização (maior produção e circulação de bens, facilidade de comunicação, progressos tecnológicos), a impressão que prevalece na opinião pública, inclusive nos países ricos, os mais beneficiados pela globalização, é de desencanto[52]. Em nossa sociedade, em lugar da segurança e do progresso prometidos, a globalização provocou um aumento sensível dos riscos. Muitos temem sobretudo as catástrofes climáticas e ecológicas, conseqüências da intervenção humana sem limites, agressiva ao meio ambiente, as catástrofes químicas e atômicas, o terrorismo. Mesmo quem não se preocupa com esses fenômenos mundiais, teme pelo seu posto de trabalho, pela insegurança do seu futuro e pela violência cotidiana, inclusive dentro de casa.

Diante da incerteza e do risco, a reação das pessoas é a busca do imediato, da satisfação aqui e agora. A atual sociedade de consumo mantém aceso o desejo de adquirir mais, criando artificialmente novas necessidades, e procura dar a impressão de que cada um pode escolher e comprar o que quiser. Na esfera da vida privada, difunde-se uma mentalidade pela qual cada um se julga absolutamente dono de suas decisões e sempre menos aceita orientações da sociedade, às vezes mesmo os imperativos éticos mais elementares, levando a um permissivismo, acirrando o ambiente de sensualidade. A busca da felicidade, da realização pessoal, da satisfação do indivíduo, que em si são aspirações legítimas, tomadas porém como absolutas, têm conseqüências negativas sobre as relações sociais, as instituições, os compromissos duradouros, que se tornam frágeis e facilmente descartáveis.

Um aspecto importante dessa mudança de mentalidade é o enfraquecimento da política. Isso decorre das mudanças culturais como a difusão do individualismo e, principalmente, do crescimento do poder dos grandes grupos econômicos multinacionais, que pretendem impor suas decisões à sociedade e substituir as instâncias políticas. Daí o risco de esvaziamento da democracia, que a opinião pública procura corrigir com uma maior vigilância sobre as decisões políticas e com o exercício de pressões populares, diretas, em favor das causas que lhe parecem essenciais: contra a guerra, contra a exploração econômica, contra a corrupção, inclusive a eleitoral, em defesa dos direitos humanos e da soberania popular. Houve desencanto e diminuição da confiança do povo nos políticos e nas instituições públicas; em contrapartida, há novos sinais de esperança e empenho político. Surgem organizações alternativas, não governamentais. Muitas pessoas, inclusive muitos jovens, se reúnem em movimentos sociais, sem vinculação partidária, para defender com energia os direitos individuais e para expressar a esperança de que um outro mundo é possível.

Há também uma mudança sócio-econômica, que se caracteriza pela diminuição da mão-de-obra empregada na indústria, pela fragmentação do processo produtivo e pela flexibilização das relações de trabalho. Neste contexto de luta pela sobrevivência, o “salve-se quem puder” ameaça a união dos trabalhadores e seu empenho nas lutas coletivas. O fenômeno do desemprego é particularmente grave, pela amplitude que alcançou e porque atinge muito diretamente a vida e a dignidade de milhões de pessoas, a começar pelos jovens.

A sociedade contemporânea enfraqueceu, às vezes eliminou, as “comunidades” tradicionais. A passagem da agricultura para a indústria provocou uma rápida urbanização e concentrou nas cidades a população antes dispersa nos campos.[53] Mais recentemente essa concentração produziu as chamadas “megalópoles”. O aumento das comunicações de massa levou a cidade a exercer uma influência ainda mais extensa, difundindo seus padrões culturais também em regiões rurais. A grande cidade moderna favorece o contato com uma pluralidade de experiências e expressões culturais, multiplicando as possibilidades de escolha do indivíduo. Ao mesmo tempo, priva-o da solidariedade - mas também do controle - que encontrava nas comunidades menores. A violência urbana e a criminalidade criam um clima de medo. A enorme expansão das comunicações sociais torna o indivíduo muito menos preso ao seu território. Variadas atividades humanas se conectam com uma rede de contatos e trocas que cobre o mundo inteiro.

O mundo atual aprecia a novidade e tende a desprezar a tradição e a sabedoria dos antigos. Em geral, a sociedade tem substituído os papéis atribuídos pelo nascimento por papéis escolhidos pelo indivíduo. Não se herda mais da família a profissão, a religião, a cultura, o partido político... Escolhe-se a partir da própria experiência de vida. O indivíduo constrói a própria identidade. Por outro lado, muitos correm o risco de não ter mais uma identidade estável e bem definida. A aceleração das mudanças contribui para deixar as pessoas estressadas ou desnorteadas.

Diante do perigo da massificação, o indivíduo tem ainda na família um apoio fundamental, embora ela também esteja menor, reduzida ao seu núcleo, mais frágil e exposta a rupturas. Contribuem para fragilizá-la o trabalho fora de casa de pai e mãe, a entrega da educação dos filhos a outros, a influência da televisão na vida das crianças e adolescentes etc. Além da família, o indivíduo procura sempre mais relações a partir de sua escolha, por afinidade de interesses. Entre as novas experiências comunitárias – fundadas em afetos e afinidades emocionais – estão também as experiências de novas comunidades e movimentos religiosos, unidos ao redor de uma causa, de um carisma, de um líder e sobretudo de uma acolhida recíproca, cheia de calor humano, que atrai e une os membros do grupo.

Apesar do individualismo, há movimentos sociais que se articulam em favor de causas mais amplas que a classe ou o interesse local. Assim, a luta contra as discriminações, a promoção dos direitos das mulheres, a preservação do meio ambiente, a defesa dos direitos de culturas e etnias específicas têm-se revelado como causas capazes de mobilizar grande número de pessoas. A busca da justiça social e de um “outro mundo possível” reúne uma extraordinária e variada adesão de grupos e movimentos. Este fenômeno manifesta uma consciência planetária e a percepção de que fazemos parte de uma única família universal.

A tendência individualista se alastrou também no campo religioso. O indivíduo sempre mais escolhe sua religião num contexto pluralista. Mesmo aderindo a uma tradição ou instituição religiosa, escolhe crenças, ritos e normas que lhe agradam subjetivamente ou se refugia numa “adesão parcial”. Ou, ainda, procura construir, numa espécie de mosaico, sua religião pessoal com fragmentos de doutrinas e práticas de várias religiões. Finalmente, aumenta o número dos que recusam a adesão a qualquer instituição religiosa e fazem de suas convicções uma “religião invisível”, com pouca ou nenhuma prática exterior[54]. Alastra-se também o fenômeno da Nova Era, com aspectos também religiosos e diversas vertentes, afetando negativamente a fé cristã[55]. Ao mesmo tempo, cresce a atração pelas práticas esotéricas.

Outra tendência é a inversão de sentido da experiência religiosa. A religião deixa de ser pensada e vivida como uma forma de reconhecimento, adoração e entrega ao Criador, obediência na fé, serviço a Deus. Torna-se busca de utilidade para o indivíduo, seja ela um sentido para a vida, paz interior, terapia ou cura de males, sucesso na vida e nos negócios, como prometido pela assim chamada “teologia da prosperidade”. Dessa forma, a religião, longe de desaparecer, é intensa e difusamente procurada, inclusive na mídia, como não se via há anos. A mídia pode banalizar a religião, reduzi-la a mais um espetáculo para “entreter” o público. Há também, em novas expressões religiosas, uma tendência difusa e generalizada, inclusive por influência de certa psicologia, a afirmar a inocência dos indivíduos. Segundo elas, ninguém deve se sentir pecador ou culpado. Outros grupos religiosos atribuem toda a culpa a demônios ou espíritos malignos. Conseqüentemente, ninguém se sente responsável por corrigir o que está errado na sociedade, na qual convivem estranhamente muita religiosidade e muita criminalidade, busca de Deus e injustiça.

Essas tendências, no Brasil, aparecem nos dados do Censo 2000, que evidenciam também a diversidade das situações regionais: metrópoles e mundo rural, litoral e interior, Nordeste e outras grandes áreas.

Os principais dados relativos à questão “religião” são três:

- a diminuição da porcentagem dos cristãos católicos, de 83,3% (1991) para 73,9% (2000)[56]; esta diminuiç