DECLARAÇÃO DA CNBB SOBRE O PROJETO DE LEI DE
BIOSSEGURANÇA
Reunidos em Brasília, de 24 a 26 de agosto de 2004, a Presidência e os membros do
Conselho Episcopal de Pastoral da CNBB refletiram sobre a realidade do País.
Avaliamos alguns dos Projetos em
tramitação no Congresso Nacional. Constatamos que os avanços da ciência exigem
reflexões responsáveis diante de conflitos éticos que podem ser suscitados no
uso da ciência. Entendemos que as decisões responsáveis correspondem àquelas
que cuidadosamente avaliam suas conseqüências.
No Brasil, essas
responsabilidades evidenciam uma situação peculiar: o nosso povo vivencia
problemas pertinentes ao subdesenvolvimento social e, ao mesmo tempo, acompanha
os modernos avanços científicos. Por um lado, a fome é aviltante, por outro,
devemos enfrentar as implicações dos alimentos transgênicos;
temos doenças facilmente preveníveis e devemos,
também, enfrentar as perspectivas terapêuticas de fronteira para doenças raras.
É neste contexto de realidade brasileira que a reflexão amadurecida deve criar
seu próprio espaço.
Dedicamos maior atenção ao
Projeto de Lei de Biossegurança, que, em texto único,
discute a questão dos transgênicos e a utilização de
embriões humanos para pesquisa científica. Não é aceitável que duas grandes
questões de interesse nacional mascarem uma a outra sua real importância, ao
serem tratadas conjuntamente.Tanto a questão dos transgênicos
como a dos embriões humanos exigem conhecimentos
científicos para a melhor avaliação de suas implicações éticas. A votação, em
conjunto, dos transgênicos e dos embriões humanos
deixará sempre um marco de inaceitável açodamento legislativo para assuntos tão
sérios.
Se existe a urgência de uma
decisão legal em vista da próxima safra, nela se concentre o debate, para ela
se canalizem as atenções e sobre ela o Congresso exerça suas responsabilidades.
Em relação ao uso de embriões humanos, a sociedade já aprendeu que a pesquisa com células-tronco
embrionárias está carregada de interpelações éticas e cheia de
incertezas científicas. Será difícil entender que foram os reais interesses da
sociedade brasileira que juntaram temas tão diferentes, com urgências tão
desiguais, para serem votados em um mesmo Projeto de Lei.
As perspectivas
técnico-científicas e as implicações éticas devem ser avaliadas amplamente, de
tal modo que possamos ter a segurança de que as decisões foram suficientemente
amadurecidas pela sociedade e pela comunidade científica,
orientadas pelos valores éticos próprios da nossa cultura. O debate não
pode ficar restrito ao campo de alguns cientistas.
É necessário, então, e mais
apropriado separar o atual Projeto de Lei em dois, possibilitando maior
identidade a ambos e, conseqüentemente, exigindo maior aprofundamento.
Temos consciência da nobre e
delicada missão dos nossos Legisladores. Por isso, expressamos a confiança nos
seus critérios éticos para que temas de tão grande importância para o futuro da
sociedade brasileira sejam considerados da forma digna que merecem.
Card. Geraldo Majella Agnelo
Presidente da CNBB
D. Antônio Celso de
Queirós
Vice Presidente da
CNBB
D. Odilo Pedro Scherer
Secretário Geral da
CNBB