ÉTICA: PESSOA E
SOCIEDADE
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL
31ª Assembléia
Geral
Itaici-SP, 28 de
abril a 7 de maio de 1993
APRESENTAÇÃO
O documento "Ética: Pessoa e Sociedade", objeto de sucessivas
redações, foi discutido e aprovado pela 31ª Assembléia Geral da CNBB como
inadiável tomada de posição e proposta de diálogo. Ele expressa posicionamentos
fundamentais da Igreja Católica no amplo debate que vai hoje tomando corpo no
sentido de resgatar os valores éticos em todos os níveis da vida nacional.
O tema da ética, na vida pessoal e na sociedade, pertence a todos. Sua
importância e amplidão questionam todos os cristãos e pessoas de boa vontade,
bem como as instituições e organizações da sociedade civil.
A Assembléia Geral da CNBB oferece sua reflexão e permanece aberta a toda
colaboração que lhe possibilite precisar melhor ou enriquecer o presente texto.
Itaici, 6 de maio de 1993
† Luciano Mendes de Almeida
† Serafim Fernandes de Araújo
† Antônio Celso de Queiroz
1. Nós, Bispos da Igreja Católica do
Brasil, reunidos na 31ª Assembléia Geral, queremos manifestar nossa
solidariedade com tantas pessoas que "têm fome e sede de justiça" (Mt
5,6) e procuram corajosamente ser fiéis aos valores humanos e evangélicos, mas
sofrem pela crise ética da nossa sociedade. Os sinais desta crise são
evidentes, e a opinião pública os aponta. Falta honradez na vida política,
profissional e particular. Impressionantes são os níveis de violência,
discriminação social, abuso do poder, corrupção, permissivismo, cinismo e
impunidade. Chega-se à deformação das consciências, que aceitam como
"normal" ou "inevitável" o que não tem nenhuma
justificativa ética.
2. Em nosso nome de pastores e em nome de
todos que se angustiam com a crise ética atual, apresentamos este documento
para incentivar a busca de novos padrões éticos, que levem a comportamentos
moralmente corretos e socialmente construtivos, e para trazer a contribuição da
ética cristã, em consonância com o Magistério da Igreja universal, para uma
renovação da consciência pessoal e pública.
3. Sem a superação da crise ética, as
atuais mudanças sociais e culturais não poderão conduzir a uma sociedade justa
e digna. Ao contrário, poderá haver uma ulterior degradação das relações
sociais e um aumento da injustiça, da violência e da insensatez.
4. Por isso, esta reflexão, sem fugir de
um posicionamento sobre alguns problemas mais urgentes (parte IV), pretende
abordar a questão com amplitude, buscando indicar, após uma introdução (I), as
raízes da crise (II) e os caminhos de sua superação (III).
I
- CAMINHOS DA ÉTICA
1.
A origem
5. O termo ética, com o qual indicamos a reflexão ou o saber sobre o
"ethos", tem origem grega. Aristóteles, que o introduziu na filosofia
ocidental, julgava desnecessário demonstrar a existência do "ethos".
Ela é evidente. O ser se manifesta não apenas na natureza, mas também na ação ou práxis humana: no ethos — hábitos, costumes, instituições
— produzidos pela sociedade. O "ethos" se refere à "morada" e à organização de um
povo ou de toda a sociedade.
6. Diferentemente da natureza,
caracterizada pela necessidade e pela repetição do mesmo, o "ethos" é
espaço de liberdade, de diferença. Na concepção clássica, depois assumida pelo
cristianismo, a liberdade não é meramente subjetiva. Toda pessoa humana busca
sua felicidade. Não apenas Aristóteles e outros pensadores antigos, mas também
o Salmista o reconheciam:
"Qual o homem que
não ama sua vida, procurando ser feliz todos os dias ?" (Sl 34,13).
7. A felicidade não consiste apenas em
fazer o próprio gosto, arbitrariamente, mas em buscar a própria realização;
logo, o que é bom, o que é conforme à natureza humana. Como o indivíduo pode
discernir o que é bom, o que o tornará verdadeiramente feliz? Num primeiro
momento, é o próprio "ethos" da sociedade em que vive (seus costumes,
suas leis, suas instituições) que aponta o que é "bom".
8. Isto é verdade especialmente da cidade
grega, que pensava suas leis como expressão da natureza e da ordem cósmica;
portanto, como encarnação da justiça. Também o antigo Israel estava convencido
de que suas leis e instituições eram justas por essência, pois tinham como
fundamento a santidade de Deus. Na Idade Média cristã, pensamento grego e
pensamento bíblico convergem na convicção de que o Criador do mundo é também
Aquele que ordena, mediante as leis morais, a convivência humana. Em muitas
outras civilizações e tradições religiosas, predomina uma concepção semelhante,
que dá fundamento religioso ao "ethos" e às instituições sociais e
políticas que o exprimem.
9. Por outro lado, não
escapa a ninguém que as instituições humanas podem evoluir ou decair. Podem
expressar uma visão insuficiente ou falha da realização humana; podem ser
reformadas em nome de uma nova "ética", ou seja, de valores mais
elevados e dos direitos/deveres correspondentes.
10. Já os gregos tinham
consciência de que, para além dos costumes da sociedade e de suas leis
escritas, havia uma "lei" não escrita, eterna, ideal, que poderia
exigir a transgressão ou a reforma das leis humanas. Antígona, na tragédia do mesmo nome, rejeita a ordem do rei Creon:
"Não pensei que tua proibição fosse suficientemente forte para permitir
que um mortal transgredisse as leis não escritas, inabaláveis, dos deuses.
Essas não são datáveis, nem de hoje, nem de ontem, e ninguém sabe quando
apareceram....". Os cristãos afirmaram ainda com mais vigor a mesma
convicção: "É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens" (At
5,29). E por ela resistiram até ao
martírio.
11. Mas como discernir
esta "lei" divina? Por que resistir à opinião comum e às leis do
Estado? O próprio Sócrates recusara fugir da prisão por respeito às leis da sua
cidade, as quais lhe tinham dado a vida (cf. Platão, Críton). A pessoa humana é
dotada de razão e consciência. É isto que lhe permite discernir o que é
verdadeiramente bom e justo. A filosofia antiga e a tradição cristã ensinam que
a consciência distingue o justo e o injusto e
que a pessoa só se realiza na
"pólis", na ordem social.
12. A questão, porém,
não é tão simples. Entre a concepção grega e a visão cristã já existe uma
tensão. Para os gregos, se a pessoa humana conhece o bem, tende a fazê-lo. Um
forte realismo domina o pensamento cristão sobre a natureza humana, desde Paulo
(cf. Rm 7,19: "não faço o bem que quero, mas pratico o mal que não
quero"). O mal não é, contudo, a última palavra, pois prevalecem a graça e a liberdade dos filhos de Deus
(cf. Rm 5,20; Gl 5,1).
2.
Os avanços
13. O caminho da ética
na civilização ocidental e nos primeiros séculos cristãos conheceu desdobramentos
que convém ressaltar:
a) O primeiro é que a
dimensão ética é a dimensão propriamente humana da existência. A pessoa humana
não vive sem a natureza, nem sem o trabalho e a técnica, com que configura a
seus fins a matéria. Mas é no agir livre, em busca de sua realização pessoal e
social, que o ser humano expressa o que lhe é próprio e exclusivo, o que
constitui sua dignidade e o sentido de
sua vida.
14. b) Toda cultura é
permeada pela dimensão ética. Disso resulta evidente que a práxis humana não se
limita a reproduzir a natureza, ou a produzir obras e comportamentos
"naturais", mas cria valores e símbolos. Neles a humanidade expressa
não apenas o que é, mas o que deve ser.
15. c) A dimensão ética
da cultura, sempre presente, tem sido explicitada e formulada de várias
maneiras. Entre as mais antigas expressões da ética estão o mito e a crença.
Recolhem as evidências éticas de um povo, sua tradição e sabedoria de vida, e
as recobrem do prestígio do sagrado, de um poder divino legislador e julgador,
que garante a objetividade e a força das normas. Todos os povos expressam, de
alguma forma, sua concepção ética e é certamente a religião a forma mais comum
e de maior autoridade, que legitima e conserva o "ethos".
16. d) A ética, contudo,
caminhou para a autonomia, distinguindo-se do religioso e do sagrado,
especialmente na época moderna. Este processo de secularização representou uma
grave crise da ética tradicional, ainda não resolvida.
17. e) Este esforço de
reflexão crítica vai esbarrar, desde cedo, com o conflito entre a exigência da
universalidade da razão e a descoberta da diversidade e relatividade das
culturas e instituições. Como reconduzir costumes diferentes aos mesmos
princípios racionais e universais?
18. f) O problema
torna-se ainda mais visível se considerarmos a distinção de dois aspectos da
ética. Considerando a ética como ciência da ação (ou práxis) individual, o
problema maior é o da razão que deve iluminar a liberdade do indivíduo e
levá-lo à sua realização plena, à sua perfeição ou felicidade. Este primeiro
aspecto da ética é designado por alguns como "moral" ou como problema
da "moralidade". Num segundo aspecto, considerando a ética como
ciência da ação comunitária, ou da ação política, o problema maior é o de
mostrar racionalmente a lei ou a ordem social que possa ser aceita livremente e
reconhecida por todos como justa.
II
- CRISE OU REARTICULAÇÃO
DA ÉTICA?
19. Não há dúvida de que
vivemos hoje numa crise ética e da ética. O problema é, antes de tudo,
compreender as raízes da crise (1), que afeta a sociedade moderna em geral (2)
e, especificamente, a sociedade brasileira (3). Nessa situação, contudo, é
possível reconhecer também os sinais de uma nova busca da ética (4).
1.
As raízes de crise
1.1 A crise dos princípios
éticos
20. A crise da ética, no
mundo ocidental, está ligada a um longo processo histórico. Sem seguir
rigorosamente a ordem cronológica, podemos indicar momentos deste processo, os quais muitas vezes se sobrepõem. Eles
manifestam, porém, os problemas reais que a ética encontra na época moderna.
21. Na Idade Média,
ética e religião estão estreitamente associadas e a Igreja se torna guardiã da
moral, exercendo um controle rigoroso sobre a conduta dos cidadãos, associada
ao poder civil. As guerras de religião dos séculos XVI e XVII, acentuando as
divergências entre as Igrejas cristãs, contribuem para despertar a busca de uma
moral "natural" ou "puramente racional", que estivesse
acima das diferenças confessionais.
22. A ética não saiu
reforçada dessa separação: a ela se segue uma crise, especialmente da convicção
iluminista e idealista da universalidade
da razão. As descobertas da etnologia e da antropologia põem em relevo a
existência de culturas diversas. O relativismo se afirma, ao menos no nível
teórico. A própria filosofia parece renunciar a uma reflexão ética para deixar
lugar a uma "sociologia dos costumes", a uma mera descrição dos comportamentos éticos,
sem valor normativo.
23. Contemporaneamente
surge uma crítica vigorosa das instituições sociais. Aos olhos de muitos
críticos elas aparecem como expressão de interesses
das classes dominantes, justificados por ideologias, as quais encobrem a
verdadeira natureza das instituições.
24. Mais recentemente, a
própria consciência é posta em dúvida.
Enquanto na visão tradicional ela é o lugar onde a exigência ética se manifesta
com mais evidência e vigor, indicando o que é bom e exigindo uma ação coerente,
para alguns pensadores contemporâneos ela nada mais é do que uma forma de
censura da liberdade.
25. As críticas modernas à
ética tradicional não são meramente negativas. Elas carregam o anseio de uma
ética nova, que contribua para uma mais efetiva emancipação do ser humano.
1.2. A mudança da sociedade
26. Enquanto se
desenrolava a crítica dos princípios éticos, amadurecia uma outra
transformação, conexa com a evolução da economia moderna, o capitalismo, e
particularmente com o peso crescente que ela adquiriu na sociedade.
27. Ao longo do processo
histórico, as esferas da sociedade, como a política, a religião, a arte, a
ciência, vão adquirindo sua própria autonomia. Já nesta fase a ética e a
religião perdem a hegemonia, que exerciam sobre a sociedade tradicional. Mais
radicalmente, com o avançar do processo, a economia assume papel dominante e
subordina a seus interesses as outras esferas sociais, inclusive a ética.
28. A única regra é a
procura do "melhor" produto, no sentido do mais eficiente do ponto de
vista estritamente econômico; em resumo: o que dá mais lucro. Não o
"melhor" produto com relação a valores humanos (logo, éticos) ou com
relação a um tipo de sociedade. É a supressão prática da ética.
29. Em síntese, a
tendência inscrita nessa sociedade é a de organizar e administrar a vida social
segundo regras meramente técnicas, de acordo com os interesses do sistema
econômico, reduzindo o ser humano a algo "fabricado" por esse mesmo
sistema. A pessoa, muitas vezes, não percebe claramente o controle exercido
sobre ela, enquanto o sistema lhe garante bem-estar e uma "liberdade"
aparente no âmbito privado.
30. Hoje, na grande
maioria dos Países, nem mesmo um mínimo de bem-estar é garantido e o sistema
econômico mundial lhes reserva um papel subalterno ou simplesmente a exclusão e
a miséria para grande parte de suas populações. Assim aparecem ainda mais
claras as trágicas contradições da civilização técnico-científica, nesta forma
de sua realização.
Ela enfrenta o extremo
perigo que, paradoxalmente, nasce de suas próprias conquistas: imagina ter
chegado perto do domínio da História, mas arrisca ser dominada por um processo
totalitário, que ameaça eliminar toda e qualquer ação do ser humano, que se
tornaria apenas objeto e produto do sistema. O mais grave é que todo este
avanço tecnológico possui as condições reais de eliminar a fome e a miséria, e
não o faz.
2.
Pluralismo e conflitos éticos da sociedade atual
31. A sociedade
técnico-científica pretende impor a lógica da economia e da técnica como
sucedâneo da ética e da religião. Em oposição, manifesta-se a resistência de
pessoas, comunidades e movimentos sociais, que continuam mantendo viva a
exigência ética, seja propondo novos valores a partir de uma nova
sensibilidade, seja redescobrindo a tradição cristã e valorizando tradições
não-ocidentais.
32. A situação da ética,
nas sociedades "modernas", difere, porém, profundamente daquela das
sociedades tradicionais, nas quais as instituições, ao menos em certa medida,
representavam e reforçavam o "ethos" predominante. A situação é
caracterizada pelo pluralismo dos comportamentos e dos valores. Não há mais um
"ethos", mas vários; não uma ética e sim muitas. Nesse contexto, duas
atitudes predominantes tendem a se firmar, ambas moralmente criticáveis.
33. A primeira é a atitude do apego à ética
tradicional, mesmo nos aspectos que se revelam claramente inadequados ou
anacrônicos. Esta atitude é geralmente denominada tradicionalismo ou
fundamentalismo.
A segunda atitude é a do individualismo. É certamente a mais
difundida, porque estimulada pela dinâmica da sociedade atual. Individualismo
significa colocar o acento sobre as opções ou decisões do indivíduo ("você
decide!"). Diante do pluralismo de comportamentos e de teorias éticas que
pretendem legitimá-los, cada um é solicitado a fazer sua escolha, segundo um
critério ou um "gosto" pessoal. Desacreditando na possibilidade de
discernir normas éticas objetivas ou valores universais, muitos tendem a
realizar suas ações e a construir seus valores única ou predominantemente a
partir da experiência individual. O fato é mais evidente na esfera da vida
privada ou particular, onde a sociedade moderna tende a conceder uma liberdade
ilimitada em troca da sujeição ao sistema econômico e político.
34. Esta liberdade
individual é apoiada por uma ideologia que sustenta o direito de o homem e de a
mulher disporem arbitrariamente do próprio corpo e do próprio "tempo
livre" e decidirem, com critérios meramente pessoais, sobre o consumo dos
bens e o relacionamento pessoal. Mesmo na relação com o outro (por exemplo no
relacionamento amoroso no casamento), muitos pensam que tudo é lícito, se o
outro, companheiro ou cônjuge, estiver de acordo.
Embora se reconheça que
deve ser respeitado no outro o mesmo direito que alguém reivindica para si, de
fato muitas vezes um comportamento resvala para um individualismo tão acentuado
que tudo é pensado pelo indivíduo em função de si mesmo, numa atitude que não
deixa espaço a uma verdadeira relação de intercâmbio, comunhão, fraternidade
com o outro.
35. Mesmo onde se
procura uma ética pública mais coerente, reconhecida efetivamente pelo conjunto
dos cidadãos, muitas vezes o problema da ética ou moralidade individual é
esquecido ou colocado entre parênteses, como se fosse possível construir uma
ética social sólida sem uma ética pessoal adequada. Não faltam interpretações da
democracia, como forma de organização da sociedade, em que todos aceitam regras
convencionais de convivência em troca do máximo de "liberdade".
36. Entre as formas de
subjetivismo ético, a mentalidade técnico-científica acentua a "ética do
projeto", como extensão a toda a existência humana da atitude que
caracteriza a tecnologia moderna. Nela o ser humano impõe sua vontade à
natureza, às coisas, às pessoas; procura tudo transformar e moldar segundo um
projeto bem definido. Mais ainda: o homem da era tecnológica transforma-se a si
mesmo num projeto a ser realizado a partir das próprias escolhas.
O político forja a
sociedade, não a partir de utopias ideais, mas pela força de suas próprias
decisões; o empresário tudo orienta para a afirmação de seus próprios produtos;
a pessoa tudo investe na criação do próprio prestígio e na exaltação do próprio
nome. Estas atitudes buscam uma justificação teórica no
"pragmatismo".
37. Há pessoas, porém,
que longe de assumirem e de manterem, de forma duradoura, uma atitude coerente,
tendem a modificar freqüentemente seu comportamento. Tendo perdido as raízes,
são facilmente expostas às pressões contraditórias da sociedade. Não chegam a
formular um "projeto" e buscam constantemente novas experiências.
Misturam ou alternam atitudes inspiradas em éticas diferentes, em concepções
até opostas. Não raro, tendências radicais defendem formas de vida
infra-humanas, mas incoerentemente aceitam a supressão do feto ou o aborto. Não
raro, donos de jornais e emissoras televisivas defendem a verdade e a
honestidade na política, mas permitem a pornografia e, mais grave, incentivam o
relativismo e o subjetivismo no plano da moral pessoal.
Assim o homem moderno,
que para certos ideólogos seria o ser humano autônomo e maduro, liberto de preconceitos
e submissões, na realidade aparece — aos observadores perspicazes — como um ser
inseguro e inconstante, com uma identidade fraca, com atitudes narcisistas ou
egocêntricas, características de uma psique mais infantil do que adulta.
3.
A crise ética da sociedade brasileira
3.1
Raízes da crise
38. A modernização do
Brasil é relativamente recente, mas foi realizada de um modo muito acelerado.
São significativas as mudanças dos últimos 40 anos, quando se passou de uma
sociedade quase esclusivamente rural para uma sociedade industrializada e
urbana. Fase intensa nesta modernização se deu sem participação popular,
aumentando, assim, a distância entre a cultura do povo e os novos modelos
culturais impostos e, freqüentemente, importados (1964-1985).
39. O rápido crescimento
da população urbana (de pouco mais de dez milhões, em 1950, para cerca de cento
e dez milhões hoje) fez com que grande parte de uma geração nascida no campo
entrasse em contacto com o mundo urbano, com o conseqüente impacto quanto a
antigos valores e padrões éticos da população. Hoje a influência da cidade
atinge, através dos diversos meios de comunicação, também o interior e difunde
a concepção "moderna" da vida, atraindo especialmente a juventude.
40. A sociedade
brasileira ficou decididamente marcada pela desigualdade e por diversidade
étnica, geradoras de um dualismo ético. Há uma elite dominante, que explora o
trabalho, usa da violência, ostenta luxo, despreza e oprime as culturas
indígena e africana. Há os dominados, com sua ética popular, com seu jeito
próprio de sobrevivência e conservando a alegria, mesmo nas mais duras
condições de vida.
41. A economia
escravagista deixou como herança um "ethos" da Casa-Grande, com sua
"arrogância do poder". Esse "ethos" atribui aos poderosos
privilégios e mordomias. Ignora o princípio moderno da "igualdade perante
a lei". "Quem pode, pode". É a constatação resignada ou
complacente do povo. "Quem pode" no plano econômico ou politico,
"pode" também no plano moral. O poderoso teria direito a tirar
proveito do seu poder, independentemente de critérios da lei e da justiça,
mesmo se isto comportar que a coisa pública seja reduzida a propriedade quase
privada, subordinada aos interesses particulares. Infelizmente, esta
privatização do público continua hoje particularmente forte.
42. De outro lado, entre
o povo, há aqueles que praticam a ética da esperteza, do "jeitinho" e
mesmo da malandragem. Para muitos, a contravenção se torna coisa normal.
Valoriza-se por demais a sorte como caminho para a riqueza (jogos de azar e
loterias). Outro caminho muito procurado é o pistolão e, também, o
apadrinhamento por parte de ricos, poderosos e políticos, com benefícios — em
troca de favores, num sistema de clientelismo.
43. Estas breves
afirmações não querem desconhecer outros fatos e tendências. Não podemos, por
exemplo, esquecer que, entre os dois extremos, foram se introduzindo novos
comportamentos, com o suporte de novas condições sociais. Assim, por exemplo, a
colonização baseada em pequenas propriedades conservou uma forte marca
religiosa, regendo o comportamento ético. Mais recentemente, a formação de
novas classes médias leva, repetidas vezes, a manifestações de indignação e de
protesto por parte destas contra o comportamento dos poderosos.
44. Deveriam também ser
lembradas aqui as relações entre ética e religião na sociedade brasileira.
Especialmente nos tempos da Colônia e do Império, o catolicismo procurou
afirmar os princípios de uma ética de inspiração cristã, fortemente marcada,
contudo, pelo contexto histórico. Legitimou-se uma ordem hierárquica na
sociedade desigual, que atribuía direitos e deveres diferentes a senhores e
escravos, ricos e pobres, homens e mulheres.
45. Nas últimas décadas,
com a maior difusão do pluralismo religioso, é possível observar, além da moral
católica, duas correntes nitidamente distintas no plano ético. Uma difunde uma
ética de tipo puritano, que tem como pressupostos a rigorosa observância da
lei, tanto eclesiástica quanto civil, considerada expressão da vontade de Deus,
e a promessa do prêmio, nesta e na outra vida, ao comportamento eticamente
correto. Outra procura o bem do indivíduo. Seu pressuposto não é Deus que rege
o universo, mas a existência de forças em competição, contra as quais é
necessário assegurar a proteção. Note-se que hoje há ressurgimento da magia e
do esoterismo, manifestando desconfiança na ciência e na razão.
3.2
A situação atual: diversas faces da mesma crise
46. Os fatores da crise
ética da nossa sociedade têm gerado a falta de honestidade, a corrupção, o
abuso do poder, a exploração institucionalizada e a violência, mas também a
deformação e a incerteza das consciências.
47. Há, na verdade, uma
ruptura entre o indivíduo, que se fecha sobre si mesmo, e a vida pública e os
valores comuns, sobre os quais se ergue a sociedade. A dimensão comunitária é
enfraquecida, e prevalece a visão do ser humano como "indivíduo
consumista". Hoje, a consciência das pessoas se sente, muitas vezes,
confusa, fragmentada, manipulada e submetida aos impulsos do momento, por falta
de uma visão mais consistente e objetiva de uma ética partilhada pela sociedade
toda ou, ao menos, por uma comunidade definida.
A sociedade parece não
apenas pluralista, mas desagregada, marcada por formas extremas de segregação
("apartheid") social, descrédito da ação política, falta de
solidariedade.
48. Evitando
generalizações na análise de uma situação tão complexa, deve-se notar,
especialmente, a contradição que marcou a história do País e que a modernidade
vem reforçar.
49. De um lado, temos
uma parcela da população que se beneficiou com o desenvolvimento e as
transformações recentes e cujo poder e riqueza não cessam de aumentar,
acentuando ainda mais as desigualdades. Esta faixa mais avantajada da população
tende a agir de acordo com interesses individuais, guiada por valores
utilitários, a partir de uma concepção que justifica a desigualdade. Esta não
inclui a preocupação com o bem-estar dos outros cidadãos. Prevalecem os
princípios "cada um por si e Deus por todos" e "levar vantagem
em tudo". Por isso, um sociólogo brasileiro propôs defini-la como
sociedade "pós-ética". Ela se situa além da ética que deixou para
trás.
50. De outro lado, temos
a parcela da população (a maioria!) que foi excluída do processo de modernização
ou foi prejudicada por ele. Não lhe foram dadas vantagens materiais, nem
efetivas possibilidades de participação política. Sente-se, de fato,
"fora" da sociedade moderna. Para boa parte dela vale o
"salve-se quem puder". Está numa situação "pré-ética", que
a leva a recorrer mais à magia e ao maravilhoso do que às formas religiosas com
claro conteúdo ético.
Ela também não consegue
reconhecer o que é "público", pois não se sente vinculada à sociedade
como um todo, mas está em busca da sobrevivência, da solução de problemas
imediatos e inadiáveis. Daí também, muitas vezes, descuido e até vandalismo da
parte da população com os bens públicos.
51. A tendência
crescente à concentração da renda, de um lado, e ao empobrecimento da maioria,
de outro, foi constatada, mais uma vez, num recente documento do IPEA (Brasil: Indicadores Sociais, 1992):
"O segmento do 1% mais rico mantinha, em 1981, 13% da renda total, parcela
pouco inferior ao total apropriado pela metade mais pobre da população (13,4%).
Em 1990, o segmento 1% mais rico aumentou a sua participação para 14,6%, e os
50% mais pobres tiveram a sua cota de renda diminuída para 11,2%, aprofundando
a diferença entre a maioria pobre e a minoria rica".
52. Entre essas duas
faixas de população, existe uma terceira faixa, onde é mais nítida a reação a
essas tendências e se manifestam os sinais do reencontro com a ética e da
consequente promoção do bem comum. Não se trata de uma área homogênea, nem
social nem culturalmente. Ela é caracterizada pela presença tanto de motivações
intelectuais, que têm como suporte setores ligados à modernização e que mantêm
vivo o ideal democrático de uma sociedade aberta à participação de todos,
quanto de motivações religiosas, particularmente do catolicismo que acentua a
"doutrina social", e a necessidade de não reduzir a prática religiosa
ao emocionalismo e ao intimismo, em detrimento da solidariedade e da
participação política.
Nesta área também se
encontra a aspiração a conciliar valores fundamentais da ética tradicional,
desvestidos de formulações históricas de outras épocas, com as exigências
modernas de racionalidade e liberdade, numa abertura ao diálogo com todos os
que buscam a edificação de uma sociedade mais justa. Dessas aspirações
participam também as massas pobres conscientizadas e organizadas.
4.
Em busca de uma rearticulação
53. Os historiadores têm
observado que as épocas de crise da civilização têm despertado uma reflexão
mais ampla e vivaz sobre ética. Algo semelhante parece acontecer hoje, em
muitas sociedades e no Brasil.
54. Entre os sinais
dessa reflexão e, ainda antes, de uma reação da opinião pública — intelectuais,
classes médias, jovens e, em muitos casos, de movimentos populares —, podemos
citar:
55. — o questionamento
do comportamento de políticos profissionais que distanciam seus interesses das
aspirações dos eleitores, mostram pouca transparência no seu agir e se envolvem
sistematicamente na corrupção e no abuso de poder;
56. — os questionamentos
levantados ao redor da formulação de novas leis, regulamentando problemas de
forte relevância ética, como as leis sobre família, aborto, experimentação
biológica e genética, eutanásia, drogas...;
57. — a discussão sobre
ética e economia, seja em termos mais amplos (a que está conduzindo a economia
atual, com suas rápidas mudanças, geradoras de vantagens para poucos e de
infelicidade e penúria para as grandes massas?), seja em termos mais restritos
e específicos (ética dos negócios ou ética da empresa);
58. — as pesquisas de
bioética, que, há vários anos, acompanham o impressionante avanço da biologia e
da genética e de suas efetivas ou possíveis aplicações às pessoas humanas,
inclusive com o risco da manipulação do patrimônio genético da humanidade.
Deve-se prestar atenção à pressão que a mentalidade científica e técnica exerce
sobre a reflexão, às vezes desconsiderando as razões éticas em favor de uma
ilimitada ânsia de pesquisa e experimentação;
59. — os questionamentos
mais amplos surgidos de certas aplicações ou conseqüências do progresso
técnico-científico, que são percebidas como ameaça para a própria existência da
humanidade. A questão se pôs, antes de tudo, em face do multiplicar-se de armas
atômicas ou nucleares, capazes de destruir muitas vezes a vida no planeta
Terra, e, depois, de armas químicas e biológicas, de controle incerto; mais
recentemente, cresce a consciência das ameaças ao equilíbrio ecológico, pela
crescente poluição de ar, água e terra, pela destruição da camada de ozônio,
pelo "efeito estufa" etc.
60. — o interrogativo
ético que surge do contraste entre a abundância de recursos econômicos e
técnicos, de uma parte, e a fome e a miséria, que destroem vidas humanas, de
outra. As interrogações se aprofundam na medida em que se percebe que fome e
miséria são fruto de injusta distribuição, desorganização e corrupção dos
órgãos governamentais, guerras etc.
61. Para essa reflexão,
a Igreja Católica tem contribuído muito ativamente, por meio de pronunciamentos
pontifícios e episcopais, especialmente no campo da ética social e em defesa da
vida, assumindo uma abordagem sempre mais indutiva e concreta (Paulo VI, Octogesima Adveniens, 1971; João Paulo
II, Laborem Exercens, 1981; Sollicitudo Rei Socialis, 1987; Centesimus Annus, 1991; CNBB, Exigências cristãs de uma ordem política,
1977; Por uma nova ordem constitucional,
1986; Exigências éticas da ordem
democrática, 1989).
62. Não é exagerado
concluir que nunca a humanidade teve tanta responsabilidade para com o seu
próprio futuro! Nunca precisou tanto de uma ética que ultrapasse os interesses
imediatos dos indivíduos e abra as perspectivas do futuro para a humanidade
inteira.
63. Esta preocupação
inspira os recentes debates dos intelectuais e se manifesta nas reações
espontâneas das diversas classes sociais. Citamos, por exemplo, as muitas
manifestações de solidariedade popular que contrastam com o individualismo
moderno; o idealismo da juventude que reencontrou recentemente a capacidade de
se manifestar e de defender publicamente valores morais irrenunciáveis; a
indignação de movimentos contra a malversação da coisa pública; a informação e
a denúncia por parte da imprensa e de outros meios de comunicação, buscando a
almejada transparência da administração pública, dos três poderes constituídos
e da vida política em geral.
64. A recriação da ética
pelos novos movimentos sociais está apontando para novos estilos de vida. Há,
hoje, a emergência de um anseio profundo de liberdade na esfera da realização
da pessoa, a partir do mundo das aspirações e dos desejos; um senso muito
profundo do direito à diferença, à alteridade; um sentido novo das experiências
comunitárias em tensão entre o planetário (procura de universalização) e o
pequeno (emergência e reconhecimento do pluralismo social e cultural); a
redescoberta do sentido do prazer, da gratuidade, da celebração e da fantasia,
que inclusive questiona a ética moderna do trabalho e a relação do homem com a
natureza; a abertura de novos espaços para a experiência do sagrado na vida
humana.
III - CAMINHOS DE UMA NOVA ÉTICA
65. Prevalece freqüentemente,
hoje, a opinião de que a sociedade está tão mudada que, em todos os campos,
inclusive no da ética, as orientações do passado estão superadas. É preciso
procurar novos caminhos.
66. De outro lado, nem a
tradição cultural, nem a própria ciência, com seu saber de tipo cumulativo,
ensinam a desconsiderar o passado. Pelo contrário, desconhecê-lo importa no
risco de repeti-lo, não de superá-lo. Comporta o risco de "inventar
novamente a roda". Os novos caminhos da ética serão proveitosos e nos
permitirão alcançar o avanço de que necessitamos, se forem prosseguimento do
que está vivo na tradição, em seus valores éticos fundamentais.
67. No contexto atual, no campo da ética, teoria e prática esbarram em
duas tendências opostas. Uma tendência é a das éticas que pretendem enfatizar o
aspecto da normatividade. Procuram,
antes de tudo, normas a partir da
natureza, da religião, de uma interpretação da realidade. Outra tendência é a
das éticas de tipo subjetivista.
Elas valorizam unilateralmente a decisão
da pessoa. Não fogem, porém, de concepções acanhadas e reducionistas da
liberdade e da responsabilidade.
Além dessas
alternativas, vislumbra-se um horizonte mais abrangente.
1.
Por uma "ética da solidariedade"
68. O ponto de partida
correto é a análise da própria experiência ética e, sobretudo, do ato ético.
Examinaremos primeiro sua forma ou estrutura, depois seu conteúdo,
acrescentando o ponto de vista especificamente cristão e discutindo a relação
entre ética e religião.
1.1
A estrutura da experiência ética
69. A experiência ética
é uma experiência que toda pessoa humana, que chegue ao desenvolvimento de suas
faculdades, faz e não pode deixar de fazer. Todo ser humano, no momento de agir
(ou seja, não simplesmente de fazer,
de manipular objetos ou de executar rotinas, mas de exercer sua liberdade na
sociedade humana e na relação com os outros e de visar conscientemente a um
fim, imediato ou transcendente) coloca-se a questão: o que é bem e o que é mal?
o que é lícito e o que é ilícito?
70. Repare-se que aqui
"bem" ou "mal" tem um sentido preciso, ético ou moral, não
um sentido qualquer. Muitas coisas podem ser "más"; os motivos,
porém, são diversos. Há um mal físico, conseqüência de eventos naturais:
doença, tremor de terra, enchente... Suscita em nós a reação da dor, da
tristeza, da consternação, dirigidas sobretudo às vítimas. Há um mal moral,
quando está ligado à intencionalidade, à decisão livre (por exemplo, um
homicídio premeditado). Nossa reação é, então, de indignação, raiva,
condenação. Dirige-se ao autor do ato, ao agressor. Em outros termos, o mal
físico pode provocar em nós uma frustração;
o mal moral suscita sentimento de culpa.
Inversamente, o bem físico suscita em nós prazer,
gozo. O bem moral suscita em nós aprovação,
segurança, certeza do agir reto, mesmo quando esse agir pode nos custar
sacrifícios tremendos, dor, fadiga.
71. A consciência moral
introduz na pessoa humana outro nível de avaliação da realidade, um novo
significado para acontecimentos e ações. Este nível se apresenta como
intransponível ou último. Ele julga todo o resto e não pode ser submetido ou
sacrificado a outro ponto de vista da consciência. Neste sentido, a consciência
moral transcende todos os níveis de consciência ou de intencionalidade do ser
humano. É só pela descoberta mais profunda e mais completa da verdade que a
consciência pode ser iluminada e corrigida, sem com isto sofrer violência. A
consciência se apresenta — na linguagem que tenta expressar simbolicamente sua
experiência — como uma "voz" ou uma "luz". As religiões,
inclusive a cristã, dirão: a voz de Deus, a luz de Deus. Porque o imperativo
moral manifesta-se à pessoa como algo que está no ser humano, mas que não é
dele, não se reduz à sua vontade. O ser humano se descobre não como dono do
mundo e dos outros, mas como responsável perante eles (responsável = chamado a
dar resposta à voz ou ao apelo da consciência). O ser humano descobre o que
revela a imensa dignidade de que é portador.
72. Na experiência ética
o ser humano se manifesta propriamente como pessoa, como sujeito livre, capaz de relação com outros seres, num
plano de inter-subjetividade, de reconhecimento mútuo. Esse relacionamento
social e comunitário tem uma dimensão histórica que, sem anular o caráter
último da consciência, condiciona seus atos, seus juízos sobre as situações
concretas. Antes, porém, de analisar os atos concretos da pessoa, em
solidariedade com os seus semelhantes, convém aprofundar brevemente a relação
da consciência moral com a liberdade e a verdade.
73. O termo "liberdade"
é usado freqüentemente com sentidos diversos. Daí, em certa medida, as atitudes
opostas da cultura contemporânea perante a liberdade: da negação (o ser humano
é apenas produto do meio, das estruturas) até a mitização (a liberdade humana é
absoluta; o ser humano se identifica com a sua liberdade).
74. É relevante, para a
questão ética, compreender corretamente as diversas faces da liberdade humana.
A vocação à liberdade é um dado antropológico fundamental, que se exprime
mediante escolhas e atos determinados por
mim e não por outrem. Nem todos os
atos que eu faço são plenamente meus. Podem ser determinados por fatores que eu
não quis e não consigo controlar. Os atos realmente meus são os que manifestam minha liberdade, minha escolha, como
escolha moral, ou seja, consciente e consentida, querida. Logo, eu sou livre
porque sou moralmente responsável. O apelo moral, sempre iluminado pela
percepção da verdade, é fundamento e
norma da liberdade, que é suscitada por ele, e a liberdade é a condição de minha resposta ao apelo
moral. A liberdade humana não
é absoluta: ela dispõe livremente das condições reais em que a pessoa se
encontra. Segundo uma conhecida fórmula, a liberdade é "o que eu faço
daquilo que os outros fizeram de mim". Por isso, a liberdade é tanto um
dado quanto uma tarefa, uma resposta crescente aos apelos éticos que emergem na
História. A pessoa humana não é absolutamente livre, mas é livre de tornar-se
livre ou de renunciar à sua liberdade.
75. Há dois modos
principais de renunciar à liberdade: a submissão e a alienação. Do ponto de
vista ético, há freqüentemente na modernidade um equívoco: o de pensar a
liberdade como simples autonomia da pessoa, que não se sujeitaria a ninguém. Na
realidade, a pessoa humana se torna livre enquanto não está submetida a outro
indivíduo humano, mas principalmente enquanto aceita a voz da consciência, o
apelo a uma vida ética, em que são reconhecidos direitos e deveres de todos
(não apenas os meus). Além disso, se é verdade que a liberdade humana é uma
liberdade a ser realizada, que pode e deve crescer, ela exige o empenho
permanente da libertação, a luta contra a "alienação", contra a
situação de quem está sendo impedido de realizar suas possibilidades. A
liberdade se realiza plenamente no amor oblativo.
76. A questão maior,
hoje, talvez seja não a da liberdade,
mas a da verdade da consciência. É
ela realmente a voz que nos manda fazer o bem, ou é apenas uma ilusão? Apesar
de aceita por muitos, tal opinião não se baseia sobre uma análise rigorosa.
Confunde certos conteúdos
contingentes da consciência com a sua estrutura.
Esta não se apresenta como obrigando em nome de uma autoridade humana, mas como
apelo a buscar e fazer o bem no convívio responsável com os outros. Não há
dúvida, isto exige uma reflexão mais séria e atenta sobre o conteúdo da consciência moral.
1.2 O conteúdo da exigência ética
77. Deve-se distinguir
aqui entre um conteúdo fundamental, que pode ser formulado em termos gerais
como o imperativo "faça o bem!", e os desdobramentos e as aplicações
desse conteúdo numa infinidade de normas e orientações de comportamento.
Partindo dessas últimas, pode-se ter a impressão não apenas de uma imensa
variedade, mas até de relativismo cultural: cada cultura tem suas normas
éticas, que seriam válidas em relação ao respectivo contexto.
78. Partindo, porém, da
busca de um conteúdo universal ou fundamental, chega-se à constatação de que
"fazer o bem" é, antes de tudo, dar prioridade efetiva às exigências
do ser humano. Estas não são apenas as necessidades materiais, relativas à
sobrevivência, mas também as aspirações profundas, voltadas para a realização
da dignidade e do destino transcendente das pessoas. Isto parece constatado
historicamente, na medida em que a extensão dos grupos humanos e de sua organização
política fez crescer também a consciência de que "agir bem" é
procurar o bem de todos os seres humanos em todas as suas dimensões. Certamente esta é a convicção das sociedades
ocidentais, sob a influência da tradição bíblica e cristã. Não somente pela estrutura,
mas também pelo conteúdo, pode-se falar em "ética da solidariedade".
79. Por esta razão o ser
humano só conquista a sua realização onde, em liberdade e responsabilidade, as
pessoas reconhecem mutuamente sua dignidade, constituindo uma comunidade
igualitária: é pela mediação dos outros que cada homem se constitui sujeito
livre e responsável, de tal modo que qualquer forma de dominação do homem sobre
o homem frustra o processo histórico de conquista da humanidade do homem. A
liberdade humana só se efetiva quando não se reduz à interioridade subjetiva,
mas se realiza nas leis, nos costumes e nas instituições, que configuram a vida
concreta das pessoas.
1.3
A ética numa perspectiva bíblica
80. Para nós cristãos, é
claro que só por Jesus Cristo "temos acesso à verdade sobre Deus, sobre o
homem, e a possibilidade da vida verdadeira" (João Paulo II, Discurso
Inaugural, DSD, 6.3) e que esse dom de Jesus Cristo não violenta nossa
liberdade, mas, ao contrário, a completa e plenifica. Para compreender a
realidade de Jesus Cristo, partimos da Bíblia, que nós cristãos aceitamos como
norma de fé e ação. Ela atesta uma experiência religiosa única, em que o povo
de Israel e o novo "Povo de Deus", a Igreja, sentem-se convocados
pela iniciativa de um Deus pessoal que os escolhe gratuitamente. Esta
experiência da bondade de Deus gera exigências éticas.
81. No Antigo Testamento a relação entre Deus
e seu povo gera a "moral da Aliança". "Sede santos, porque eu
sou santo" (Lv 11,45; 19,2
etc.). Expressão fundamental dessa moral é o Decálogo (Ex 20,2-17 e Dt 5,6-21).
Ele é fundado sobre a Aliança entre Deus e o povo, que ele libertou do Egito.
Exprime as exigências incondicionais e, num certo sentido, mínimas para que o
povo permaneça em comunhão com o seu Deus.
Afastar-se do Decálogo
seria cessar de ser Povo de Deus. Seria a maldição, a desgraça, a recusa da
liberdade recebida. Todos os mandamentos, portanto, brotam do primeiro. Porque
pertence a Deus, o povo israelita deve rejeitar a idolatria, repousar no
sábado, honrar os pais, evitar homicídio, adultério, furto, falso depoimento...
82. É significativo que
a fidelidade ao Deus Javé se expresse mais na observância das exigências éticas
do Decálogo do que em atos de culto. É o que, de muitas formas, enfatizam os
profetas de Israel (cf. Is 1,10-20; 58,1-12; Am 5,21-27; Os 6,6; Mq 6,5-8
etc.). Eles revelam que Deus tem para seu povo uma missão, que se manifesta
sempre mais como universal. Por isso, a conduta ética de Israel — mesmo em
assuntos como falsificar os pesos ou deixar de cumprir um rito — assume um
alcance extraordinário. Dela depende a salvação ou a ruína de povos inteiros
(cf. Am 1,3 - 2,16; 8,4-8). Nunca decisões éticas limitadas e circunscritas
foram investidas de tanta responsabilidade. Diante das fraquezas de
Israel, os profetas prevêem uma "nova Aliança", em que Deus escreverá sua
Lei no próprio coração do
povo (Jr 31,31-34; Ez 36,22-32), perdoando todos os pecados dele e
renovando seus dons com mais generosidade ainda.
83. O Novo Testamento descreve a nova Aliança
realizada em Jesus de Nazaré, o Cristo ou Messias, especialmente em sua morte e
ressurreição. Em Jesus, os discípulos reconhecem a encarnação do Filho de Deus
na humanidade e o ápice insuperável da história da salvação. O Novo Testamento
atesta, portanto, em primeiro lugar, um acontecimento, um dom de Deus, a maior
expressão da sua graça. Cristo é o Evangelho vivo do Pai, portanto, a
"boa-nova" da realização da nova Aliança e da nova relação que Deus
estabelece com o seu povo. Ela é designada como "Reino" ou
"governo" de Deus, como exercício amoroso da sua soberania, como
presença fiel e definitiva ao lado do seu povo, na pessoa de Jesus: "Eu
estou convosco todos os dias, até o fim do mundo" (Mt 28,20). É uma promessa feita a todos
os que se dispõem a segui-lo, em primeiro lugar aos pequenos e pobres.
84. O anúncio da
aproximação e inauguração do Reino por parte de Jesus comporta, antes de tudo,
o anúncio profético da conversão de todos os homens a Deus, porque o tempo se
cumpriu. É sobretudo proclamação de felicidade para os pobres e oprimidos:
"Felizes vós, os pobres... os que tendes fome... os que chorais..."
(Lc 6,20-21). Mas este anúncio se transforma em exigência ética na "moral das bem-aventuranças". Feliz é também
aquele que escolhe ser pobre, que torna humilde e confiante em Deus o seu
coração (Mt 5,3). Feliz é aquele que tem fome e sede de justiça (Mt 5,6). Feliz é aquele que não se limita a
chorar, mas tem (como Deus!) um coração misericordioso e pratica as obras de
misericórdia (cf. Mt 5,7; Lc 6,36; Mt 25,31ss). Feliz é aquele que promove a
paz e o bem ( Mt 5,9). Feliz é aquele que imita Jesus (Mt 11,29).
85. No Reino de Deus já
presente, a Lei antiga não é abolida, mas aperfeiçoada (cf. Mt 5,17-20). O Decálogo
é conservado e radicalizado (cf. Mt 5,21-48; 19,16-22; Mc 10,17-22). As
disposições antigas, que faziam concessões à "dureza de coração" são
revogadas (Mt 19,1-9; Mc 10,1-12). Faz parte dessa busca de perfeição a
insistência de Jesus sobre a interiorização da Lei (cf. Mc 7,18-23), retomando
uma exigência dos profetas. Eles colocam o acento sobre as grandes atitudes
éticas mais do que sobre as minúcias de preceitos particulares (cf. Mt 23,23,
que alude aos grandes profetas, ou Mt 9,13, que cita Os 6,6). Daí também a
concentração da Lei nos mandamentos do amor, a Deus e ao próximo, que tendem a
se fundir num só, na busca do núcleo gerador da multiplicidade das prescrições
(613, numa conhecida interpretação dos rabinos). Em Mt 22,37-40, o primeiro
mandamento é tirado de Dt 6,4: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu
coração, com toda a tua alma, com toda a tua mente". Como no Antigo
Testamento, é aqui que toda a "Lei" encontra o seu fundamento. Pois
Deus não exige apenas atos, mas a entrega ou o amor da pessoa enquanto tal (cf.
Mc 12,17: "Dai a Deus o que é de Deus").
Característica de Jesus
é a relevância atribuída ao segundo mandamento, "semelhante" ao
primeiro: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Mt 22,39). Na
formulação de Lucas, a articulação dos dois
mandamentos é ainda
mais clara ( cf.
Lc 10,25-28).
Em João, o mandamento se
torna um só: "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei" (Jo 13,24). O
amor de Deus se manifesta em Jesus, na sua doação até o fim (13,1), que coroa
uma vida toda transcorrida "fazendo o bem" (At 10,38), curando,
perdoando, servindo, manifestando uma inversão radical dos valores e revelando
novo rosto do Pai. Jesus se torna o modelo vivente da existência cristã segundo
a vontade de Deus. Cristo é a nossa Lei (cf. 1Cor 9,21; Rm 10,4; Gl 2,19-20; Fl
1,21).
86. Se o primeiro
mandamento era o fundamento de tudo, o segundo mandamento — o amor ao próximo —
é como a regra prática, que indica, em síntese, o que fazer: "Tudo o que
desejais que os outros vos façam, fazei-o vós mesmos a eles" (cf. a regra
áurea de Mt 7,12). Esta regra já aparecia em Lv 19,18, mas o
"próximo" era tomado em sentido restritivo: o concidadão, o parente,
o amigo. Jesus adota a interpretação radical: todo ser humano pode ser o meu próximo;
eu posso tornar-me próximo de qualquer um, inclusive do meu inimigo (cf. Lc
10,29-37; 6,27-35; Mt 5,43-48). Confirma-se, assim, a universalidade do
mandamento de Jesus e a dimensão ética ineliminável de uma existência
religiosa, onde a fidelidade a Deus passa pelo amor aos irmãos (cf. também 1Jo
4,20; Rm 13,8-10; 1Cor 13).
87. A ética de Jesus
revela assim seu radicalismo, que não é utopia irrealizável, mas capacidade de
descer às raízes do agir
verdadeiramente bom e justo (cf. o Sermão
da Montanha, particularmente Mt 5,20-47). A ética de Jesus tem um caráter
dinâmico. Consegue ser fermento que lentamente faz crescer a massa (cf. Mt
13,33). Tem um caráter libertador, que o apóstolo Paulo ressaltará (cf. Gl
5,1-13; 1Cor 7,22; 2Cor 3,17) e que as primeiras gerações cristãs procurarão
viver com entusiasmo, apesar do contexto muitas vezes adverso. Conduz até o
cristão a se superar, sob o influxo da graça, para optar por uma atitude ainda
mais perfeita diante do que já é eticamente bom (cf. Mt 19,12). Ou a praticar
renúncias em vista de uma realização em Cristo, na dimensão de vitória da Cruz.
88. Viver radicalmente a
moral do Reino nas condições presentes, ainda marcadas pela presença do mal,
que se mistura qual joio ao trigo (cf. Mt 13,30), exige dos discípulos de Jesus
capacidade de discernimento e de opção (cf. Mt 6,24). O próprio Jesus deu
indicações concretas a respeito do tempo atual, em que subsistem instituições
deformadas pela injustiça e o pecado. Nelas o cristão deve estar presente, sem
ceder à tentação da fuga, de um "êxodo" fora deste mundo (cf. Jo
17,15). O cristão busca o que a própria sociedade pagã considera bom (Fl 4,8),
mas recusa o que é incompatível com a vontade de Deus, mesmo que isto lhe custe
a perseguição e a cruz, a exemplo do
Mestre ( cf. Mt 10,16-39; 1Pd 2,20; 3,13-17).
89. Os apóstolos e
discípulos de Jesus desenvolvem o discernimento e a prática de uma ética
cristã, em contacto com o mundo judaico e com o helenismo. Paulo vê, no dom do
Espírito Santo, o dinamismo que conduz os cristãos a viver "em
Cristo" (cf. Rm 6,3-4; 8,5-6). O Espírito é a "Lei" nova, que
substitui a antiga. Ela está inscrita "não em tábuas de pedra, mas em
corações de carne" (2Cor 3,3). Ela liberta para uma liberdade que não é
libertinagem, mas chamado à
solidariedade e ao
serviço ( cf. Gl 5,13). O
próprio apóstolo dá o exemplo: "Livre como era, eu me fiz servo de
todos" (1Cor 9,19). A comunidade apostólica de Jerusalém pratica o amor
fraterno, a predileção pelos pobres, a comunhão de bens, o serviço aos mais necessitados,
no respeito da diversidade das culturas (cf. At 2-6).
90. Sem desprezar as
indicações da ética do seu tempo, Paulo e os outros autores do Novo Testamento
explicitam ulteriormente as orientações da vida cristã na situação histórica
concreta: com relação à comunidade
eclesial (1Cor 12; Fl 2,1-5;
Ef 4,25-32; Cl 3,12-17); com
relação à família e à vida conjugal (1Ts 4,3-4; 1Cor 7,1ss; Ef 5,21-32); com relação aos deveres cívicos
e políticos (Rm 13,1-5; 1Pd 2,13-17). Uma confrontação cuidadosa com textos
aparentemente semelhantes do judaísmo e do helenismo mostra que as orientações
cristãs divergem não apenas na motivação (religiosa e cristológica), mas também
em certos conteúdos. Os cristãos não perdem a consciência da incompatibilidade ética
entre suas convicções e determinados comportamentos, entre o Evangelho e o
mundo, entre as obras do Espírito e as obras da carne (cf. Rm 12,1-2; Gl 5).
Sobretudo, perante as pretensões totalitárias e idolátricas do poder político,
identificado com a Besta,
movido por um
projeto satânico ( Ap 13,1-2), os cristãos se dispõem à
resistência até ao martírio.
91. A moral do Novo
Testamento revela, hoje, sua atualidade sob diversos enfoques. Enquanto voltada
para uma perspectiva que valoriza integralmente a pessoa em sua solidariedade
com o "próximo" e em sua imersão na História, responde às exigências
da ética que hoje se faz necessária. Enquanto concentrada ao redor de um forte
núcleo inspirador, ela pode renovar-se continuamente, questionando as determinações
e aplicações secundárias, geradas ao longo da História, no embate com as
diferentes situações culturais e sociais, ainda resistentes aos valores
evangélicos. Enquanto inspirada não apenas por um ideal utópico, mas sustentada
e motivada pela esperança viva do Reino de Deus, manifestado na presença
histórica de Jesus Cristo, a ética cristã encontra sempre novo dinamismo na
busca de um efetivo reconhecimento da dignidade das pessoas e de sua
solidariedade universal, sem exclusão de ninguém. Enquanto interioriza a lei, a
ética cristã responde à valorização do sujeito humano e ao mesmo tempo
questiona o ser humano e a sociedade acerca das raízes de atitudes e
comportamentos.
1.4
Ética e religião
92. Depois de ter
examinado, em sua estrutura e conteúdo, a experiência ética, invocamos a
perspectiva bíblica e cristã. Queremos, agora, retomar brevemente a questão das
relações entre ética e religião.
93. A análise do ato
ético, do agir humano consciente e responsável, mostra que a exigência ética se
impõe a todo ser humano, independentemente ou antes de uma interpretação
religiosa explícita. A tradição cristã desde cedo reconheceu, retomando uma
afirmação bíblica, que também o pagão podia, pela sua consciência, reconhecer a
lei moral, distinguir o bem ou o mal (cf. Rm 1,24-32). O próprio Jesus, quando
apresenta sua interpretação do amor ao próximo, por meio de parábolas, descreve
o agir do samaritano (Lc 10,25-37) e do pagão (Mt 25,31-46) como um agir que
não é ditado, diretamente, pela fé ou pelo amor a Deus.
94. Estas constatações
nos levam a concluir que a religião e, em particular, a religião cristã não
anula a autonomia da ética.
95. Mas a religião não
deixa de ter com a ética uma relação mais ampla. Salientamos três aspectos.
Em primeiro lugar, nossa
análise do ato ético procurou mostrar que ele sempre constitui uma abertura à
transcendência. O apelo para "agir bem", que se apresenta à
consciência de cada ser humano, surge como a voz de alguém que nos ultrapassa,
não como a simples vontade do nosso eu.
Num segundo passo, surge
a interrogação: de quem é esta voz? que relação existe entre minha experiência
ética e a interpretação religiosa da realidade? De fato, existem religiões que
atribuem extrema importância à ética. É o caso das religiões "universais",
que se desvincularam dos laços de uma tradição cultural particular, para
abrir-se, em princípio, a toda a humanidade. É o caso da religião bíblica, que
interpreta a própria fé como responsabilidade diante de Deus. E, em nome da
Bíblia, surgiram muitas vezes "seitas" e movimentos reivindicando,
com rigor, uma conduta ética que a massa dos fiéis cristãos teria perdido. Mas
há também religiões que dão à ética uma ênfase menor. Hoje ressurgem ou emergem
formas de religiosidade que podem constituir uma fuga, talvez inconsciente, das
responsabilidades éticas.
96. Enfim, o agir
eticamente correto, o comportamento justo, não garante a felicidade. O livro de
Jó e outros textos bíblicos refletem sobre a provação do justo. Na tradição
cristã, o justo por excelência passa pelo martírio da cruz, como tantos outros
mártires de uma causa justa. Só a religião pode responder à pergunta sobre o
futuro; pode nos dizer o que esperar. Só Deus pode suscitar a esperança (cf. Hb
11,1). É a fé religiosa — não apenas católica, mas também moldada pelas
tradições indígenas e africanas — que, de fato, tem sustentado a esperança de
vida do nosso povo e lhe tem dado ânimo para assumir suas responsabilidades
éticas, mesmo em condições extremamente adversas de opressão e sofrimento.
2.
Critérios para a ação
97. Estabelecidos os
fundamentos e os conteúdos primeiros e universais da ética, é preciso ainda
explicitar algumas indicações básicas, que ajudem a pessoa a passar dos
princípios à ação.
2.1 Consciência e normas éticas
98. A análise da
consciência moral revela dois aspectos da sua atuação, que na História foram
indicados com denominações distintas. A consciência, que podemos dizer fundamental, discerne os princípios
éticos e, particularmente, aquele imperativo que existe em toda pessoa:
"faça o bem!" A consciência, porém, encontra, num segundo momento, na
hora de decidir os atos concretos, a exigência de julgar qual é, em
determinadas circunstâncias, o ato reto (correto ou certo).
99. É evidente que, pela
variedade das circunstâncias e a novidade que podem apresentar, a decisão final
acerca de um ato concreto pode ser difícil. A pessoa, retamente intencionada,
que sinceramente procura o bem, deve fazer um esforço proporcional para
discernir e realizar o ato eticamente correto. Sem dúvida, isso lhe será mais
fácil se nela já estiver amadurecida uma atitude (hábito ou virtude) voltada
para o bem e se a prática do discernimento e da reta formação da consciência
for permanente.
100. Nessa perspectiva,
a tradição cristã afirma o valor da consciência a partir de Jesus, que fala do
"coração". Paulo afirma que a consciência deve ser respeitada, seja
no cristão conduzido pelo Espírito (Rm 9,1; 2Cor 1,12), seja no pagão (Rm
2,15), seja quando ela estiver no erro (Rm 14,1-15; 1Cor 8). Santo Agostinho
chega a dizer que na consciência está a única "morada de Deus":
"Aquele que não é contido em lugar nenhum, tem por morada a consciência
dos justos" (Enar. in Ps. 45: PL
36, 520). O recente Catecismo da Igreja Católica (nº 1778) cita um texto de J.
H. Newman:
"A consciência é
uma lei do nosso espírito, mas que o supera, que nos dá ordens, que indica
responsabilidade e dever, temor e esperança... a mensagem daquele que, no mundo
da natureza como no da graça, nos fala verdadeiramente, nos instrui e nos guia.
A consciência é o primeiro de todos os vigários de Cristo" (Carta ao Duque de Norfolk, 5). Também
a Gaudium et Spes (nº 16) fala da
consciência como "o centro mais íntimo e secreto do ser humano, o
santuário onde ele está sozinho com Deus e onde escuta a sua voz".
101. Igualmente forte é,
na tradição cristã, a insistência sobre a formação da consciência e sua
docilidade à "lei" ou vontade de Deus. Na Igreja primitiva, contudo,
houve uma polêmica acerca do valor da lei de Deus, por um conflito entre
cristãos ligados à concepção predominante no judaísmo e a interpretação mais
radical de Paulo (cf. Gl 2,15-21; Rm 7). Na doutrina de Paulo, a lei antiga não
salva, mas revela o pecado. A "lei nova", a de Cristo, é o próprio Espírito
Santo (Rm 8,2), que conduz interiormente o cristão ( cf. Rm 15,13. 19; Gl 5,16. 18; 1Cor
2,10ss.; 3,16; Ef 1,17-18 etc.). Esse "Espírito de
vida" não se impõe externamente, como "letra que mata" (2Cor
3,6).
102. Comenta, porém, São
João Crisóstomo: "Nossa vida deveria ser tão pura que não precisasse de
escrito nenhum: a graça do Espírito Santo deveria substituir os livros. E, como
estes estão escritos com tinta, assim os nossos corações deveriam ser escritos
pelo Espírito Santo. Somente porque perdemos essa graça, devemos utilizar os
escritos. Mas quanto melhor era o primeiro modo! Deus nos mostrou claramente
(...). Aos discípulos, Jesus não deixou nada por escrito, mas prometeu-lhes a
graça do Espírito Santo: "Ele — disse — ensinar-vos-á todas as coisas"
(...). A nossa vida, logo, deveria ser pura, de forma que, sem ter necessidade
dos escritos, os nossos corações ficassem sempre abertos à guia do Espírito
Santo... Pois é o Espírito Santo que desceu do céu quanto foi proclamada a nova
lei, e as tábuas que ele gravou nessa ocasião são muito superiores às
primeiras: porque os apóstolos não desceram do monte trazendo nas mãos, como
Moisés, tábuas de pedra; mas vieram trazendo o Espírito Santo em seus corações;
que se tornaram — mediante a sua graça — uma lei e um livro vivos" (In Matth., Hom 1, n. 1: PG 57,13-15).
103. Em outras palavras,
o cristão que é dócil ao Espírito não precisa de lei "externa". Mas,
em razão da sua fragilidade, para a grande maioria das pessoas, mesmo cristãs,
as leis são um meio pedagógico necessário para formar sua consciência, orientar
sua ação, aprender a discernir concretamente o bem. São um dom de Deus,
oferecido, como gesto de amor, para capacitar a viver plenamente a vocação.
Entre as leis, pode-se distinguir uma hierarquia: a primeira de todas as leis
(fundada no amor a Deus) é a do amor universal, imparcial e concreto para com
todas as pessoas humanas. Os mandamentos do decálogo (não matar, não cometer
adultério, não furtar...) são expressões fundamentais desta mesma lei. A consciência
das pessoas — tanto no Estado como na Igreja — será regulada também por outras
leis, de caráter mais provisório, que devem ser reformadas com a evolução dos
tempos, para que sejam melhor expressos — em novos contextos — os valores
fundamentais (sobre a lei, cf. Catecismo da Igreja Católica, 1950-1986).
104. A confrontação da
lei moral com situações específicas, especialmente com casos novos e inéditos,
e, mais do que isso, a atenção a novos desafios éticos, que esperam de
indivíduos e comunidades uma resposta crítica, exigem por parte de cada qual um
trabalho de discernimento. Na crise ética atual, a necessidade de discernimento
é urgente. A pessoa honesta, o cidadão responsável, o cristão convicto, que
querem agir coerentemente, na busca da solidariedade com a família humana, não
podem simplesmente remeter suas decisões à ciência ou à técnica (que, como
vimos, tendem a prescindir da ética), nem à opinião pública, dominada pela
incerteza, pelo relativismo e pelo subjetivismo.
Ao contrário, a sociedade
precisa, hoje, de indivíduos capazes de ir contra a corrente; que defendam, em
nome da ética, normas e práticas autênticas; que superem o oportunismo, o
utilitarismo e o egocentrismo mesquinho; que estabeleçam relações mais humanas;
que optem pelo interesse de todos.
105. A pessoa comum,
para buscar o agir reto nessas condições, valer-se-á não apenas da reta
intenção, mas de sua própria experiência de vida, na qual procurará discernir
entre positivo e negativo, entre fidelidade ao ideal ético e eventuais
fraquezas. Contará também com sua relação com a comunidade, em seus diversos
níveis, acolhendo criticamente as tradições de sua cultura, as leis da
sociedade, as orientações de sua religião, as decisões das autoridades.
Discernir e avaliar significa, antes de tudo, procurar compreender e articular
a própria experiência com a situação comunitária e os desafios do futuro.
Muitos fatores contribuem para uma avaliação prudente, que pondere os diversos
elementos em jogo, inclusive os apelos à mudança e à ação que estão inscritos
no presente e apontam para um futuro novo.
106.As condições do
nosso tempo exigem novas atitudes também no campo do discernimento ético.
Quanto mais crescem os vínculos de solidariedade entre pessoas e povos, quanto
mais os atos humanos repercutem sobre a convivência e o meio ambiente,
exercendo um peso determinante sobre o futuro do planeta Terra, tanto mais o
discernimento ético supõe uma pesquisa séria das conseqüências sociais e
ecológicas dos próprios atos. Isso pode e deve ser realizado, especialmente, no
âmbito das diversas profissões e nas áreas técnico-científicas. Estas podem
contribuir grandemente para o verdadeiro progresso humano, se não se limitarem
à busca da utilidade instrumental de suas conquistas, sem medir-lhes as
conseqüências éticas em todas as dimensões do humano.
107. A situação
histórica em que cada pessoa se encontra inserida não constitui apenas um
condicionamento, mas um apelo. Os cristãos dizem um "kairós", isto é,
um tempo decisivo, que abre uma oportunidade única de realização. Trata-se de
um apelo não apenas a reconhecer algo que é bom para a pessoa e a sociedade,
mas a agir corajosa e criativamente. Não é apenas luz para a inteligência; é
chamado à decisão, à determinação da liberdade.
108. Concluindo, pode-se afirmar
que a educação cristã da consciência será, antes de tudo, educação para a
docilidade ao Espírito e educação para o amor, alma e síntese de toda a lei
moral. Também pode-se dizer que será educação para as virtudes (cf. Catecismo
da Igreja Católica, 1803-1829), para as "atitudes firmes e estáveis"
na procura do bem, mais do que procura escrupulosa de determinar regras e
preceitos para todo e qualquer caso. Finalmente, será educação para o
discernimento prudente e criativo, que colhe a oportunidade de contribuir para
a realização de uma nova sociedade.
2.2
Comportamento individual e ética social
109. Na perspectiva
cristã, não há separação entre conversão individual e reforma das estruturas
sóciopolíticas, entre moralidade pessoal e ética social (cf. Catecismo da Igreja Católica, 1888; Doc. de Puebla,
nº 1155, 1221). O pensamento cristão julga impossível construir uma sociedade
bem ordenada, que conjugue liberdade e solidariedade, sem que os indivíduos
procurem inspirar seu comportamento em critérios éticos.
110. No mesmo sentido,
faz parte da busca de uma nova ética a crítica da concepção liberal da
democracia, que se baseia apenas na aceitação das "regras do jogo".
Procura-se, ao contrário, encontrar um consenso substancial quanto aos valores
que devem reger a sociedade atual, indispensáveis para o efetivo reconhecimento
da dignidade da pessoa humana.
111. Se, como vimos, ético é o comportamento que tem por
princípio a realização de todos, não haverá comportamento ético no indivíduo
sem uma dimensão política. A relação com o outro necessita da mediação de
canais de informação e participação nas decisões, de instituições e estruturas
adequadas, que reduzam as desigualdades sociais.
112. Inversamente, uma
sociedade dominada por um sistema econômico e político aético desestimula a
moral individual e exige do cidadão consciente uma atitude crítica perspicaz e
uma firmeza corajosa, quando não heróica, para inverter a tendência e
permanecer fiel à honestidade e à justiça.
113. Coloca-se, de qualquer forma,
o problema de um possível
conflito entre a consciência do indivíduo e a vontade do Estado, seja ele
autoritário, seja democrático e respeitoso dos direitos individuais. O conflito
pode ter origem nas convicções religiosas do indivíduo. A Igreja Católica
deseja que a liberdade religiosa seja respeitada pelo Estado, sem outras
restrições que não aquelas absolutamente necessárias, como no caso em que
certas práticas religiosas implicassem conseqüências negativas para outras
pessoas ou estabelecessem formas de discriminação, o que negaria a uns o
direito exigido por outros (cf. Concílio Vaticano II, Dignitatis Humanae, 7).
114. O Estado não pode
forçar alguém a agir contra a sua consciência; só pode impedi-lo de realizar
ações prejudiciais ao bem comum ou à ordem pública. Em geral, o uso da força é
lícito somente em último caso, depois de ter tentado outros recursos, quando
uma pessoa ou grupo se recusam a abandonar um comportamento mau e injusto ou a
praticar ações a que estão moral e legalmente obrigados. Este princípio deve
ser lembrado porque, em nossa sociedade, não apenas a autoridade recorre com
demasiada facilidade ao uso da violência, provocando freqüentemente vítimas
inocentes, mas até grupos privados generalizam o uso da violência, para
encobrir ou impor atividades criminosas, e outros grupos recorrem a outras
formas de agressão e de manipulação cultural.
115. Mais amplamente
ainda, devemos nos perguntar se, ao contrário da propalada convivência pacífica
entre os cidadãos e da solidariedade nos meios populares, cidades e regiões do
nosso país não estão se transformando em terreno de um "bellum omnium
contra omnes", uma espécie de guerra de todos contra todos, não somente
pelo freqüente uso da violência física, mas também por um espírito de
agressividade mútua, de competição e de individualismo exacerbado.
116. Neste momento de
crise da sociedade e de desagregação de muitas das antigas formas de
solidariedade, que deixam lugar à defesa a qualquer preço dos interesses
particulares ou corporativos, somente uma redescoberta de uma ética
verdadeiramente universal poderá contribuir à reconstrução de uma sociedade
reconciliada. Aos cristãos e a todas as pessoas de boa vontade renovamos o
apelo para que sejam "construtores de paz" (cf. Mt 5,9).
2.3
A pessoa entre fracasso e realização
117. A violência e a injustiça são, hoje, o sinal mais evidente do fracasso da nossa sociedade no plano ético. Além de uma leitura sociológica das causas dessa situação, como cristãos fazemos uma leitura teológica. Uma ênfase excessiva sobre o pecado individual, de um lado, mesmo no meio da tradição católica, e a recusa moderna da noção de culpa, por outro lado, têm contribuído para a "perda do sentido do pecado", percebida e denunciada pelo Magistério. Ela manifesta não apenas uma menor sensibilidade religiosa, enquanto o sentido do pecado está intrinsecamente ligado à responsabilidade perante Deus, mas também uma menor sensibilidade moral, que afeta a todos, mesmo aqueles que não queiram