«Marcas do
Pontificado de João Paulo II»
Dom Odilo Pedro Scherer
É tarefa bem difícil resumir em poucas linhas o significado
do Pontífice falecido para a própria Igreja. Sua personalidade dinâmica e
determinada, durante um pontificado longo como poucos na história, teve muitas
possibilidades de deixar marcas profundas na vida da Igreja. O futuro, certamente,
o recordará como o Papa missionário, que realizou durante todo o seu ministério
na Sé de São Pedro as palavras programáticas que pronunciou, depois de sua
eleição: “abri as portas a Cristo Redentor. Não tenhais medo!”.
Suas muitas viagens a todos os quadrantes da Terra, o contato
com todos os povos, a tenaz busca do diálogo com as Igrejas cristãs, as religiões
não-cristãs, as culturas dos povos e com o mundo da filosofia e da ciência,
tudo isso foi um constante bater às portas, para entrar em diálogo missionário
e para anunciar o Evangelho a todos.
Foi um Papa evangelizador, que fez um esforço enorme para
não deixar que a Igreja se fechasse sobre si mesma, mas levasse novamente
o barco para o alto-mar, para lançar as redes em águas mais profundas. Ainda
na passagem para o terceiro milênio cristão ele recordou à Igreja que não
era tempo para cansaços ou desânimos, nem para se dar por satisfeita com aquilo
que já conseguira durante dois mil anos: a tarefa evangelizadora apenas está
no seu início!
A Igreja certamente o recordará como o Papa do Catecismo,
da Doutrina Social da Igreja, das muitas encíclicas e escritos,
dos jovens, das vocações, o Papa mariano, dos muitos bem-aventurados
e santos...
Mas as demonstrações de apreço desses dias de luto estão
evidenciando – como já era bem conhecido - o seu significado para toda a comunidade
humana. De fato, as grandes questões, que foram objeto de tantas intervenções
de João Paulo II, nem são propriamente religiosas: foram elas a firme defesa da pessoa humana, de sua dignidade
e de seus direitos, a inviolabilidade da vida humana desde o primeiro instante
de sua existência até seu fim natural; a afirmação, sem rodeios, da importância
do casamento e da família; os esforços pela paz mediante a superação dos conflitos
e das guerras; a preocupação pelos pobres e excluídos do bem comum; a defesa
da justiça em todos os níveis; a chamada profética para a reforma dos organismos
internacionais, para serem mais adequados às circunstâncias atuais; a busca
incansável da aproximação dos povos e das culturas, o diálogo entre as religiões.
Com certeza, o Papa falecido ajudou a humanidade a tomar
consciência que, no fundo, somos todos parte de uma única e grande família
humana; apesar das diferenças raciais, culturais, políticas, econômicas, étnicas,
ideológicas e religiosas, há um laço comum que une todos numa comunidade humana
que tem raízes, sonhos, necessidades e buscas comuns, e uma dignidade igual
presente em cada ser humano. Não apenas as novas tecnologias e a globalização
comercial e econômica aproximam as pessoas; a globalização verdadeira acontece
quando as pessoas têm a certeza da existência de um pai comum, de uma referência
válida para todos, como se fosse a salvaguarda da
identidade necessária e a reserva dos valores bons, indispensáveis à existência.
João Paulo II lutou muito pela globalização da solidariedade.
Não tenho dúvidas que seu pontificado ajudou a aproximar mais a família humana;
e somente a partir deste pressuposto será possível construir sobre bases sólidas
a justiça e a equidade entre as pessoas e os povos; só quando houver consciência
clara que a solidariedade e a fraternidade são dimensões inerentes à condição
humana, das quais decorrem imperativos éticos válidos para todos, é que teremos
a possibilidade de resolver os graves problemas que afligem o mundo.
As manifestações de apreço pelo Papa João Paulo II, durante
esses dias de luto, parecem ser o reconhecimento a alguém que despertou uma
saudade boa escondida no coração dos povos, de suas culturas, raças e religiões:
no fundo, somos todos irmãos e temos muito