MISSÃO E MINISTÉRIOS

DOS CRISTÃOS

LEIGOS E LEIGAS

 

 

 

Versão aprovada

37ª Assembléia Geral da CNBB

Itaici-SP, 22 de Abril de 1999

 

 

 


 APRESENTAÇÃO

 

 

EXTRAORDINÁRIO FLORESCIMENTO

 

A renovação eclesial, após o Concílio Vaticano II, trouxe, no campo do laicato católico, notável florescimento de novas formas de associação e de apostolado. Notava-o o Santo Padre, quando após o Sínodo de 1987 escrevia: “Nestes tempos mais recentes, o fenômeno da agregação dos leigos entre si assumiu formas de particular variedade e vivacidade... Pode-se falar de uma nova era agregativa dos fiéis leigos” (CfL 29).  No meio da variedade ou diversidade, o Santo Padre descobria também uma “profunda convergência” na finalidade das mesmas agregações: “a de participar responsavelmente da missão da Igreja de levar o Evangelho de Cristo, qual fonte de esperança para o homem e de renovação para a sociedade”

 

As novidades, porém, trouxeram algumas dúvidas que se manifestaram no Sínodo de 1987, particularmente acerca de dois aspectos: 1) o reconhecimento de novos movimentos, para os quais o Papa indicava os critérios de eclesialidade (CfL 30) e pedia ao Pontifício Conselho dos Leigos que elaborasse o elenco das associações aprovadas oficialmente pela Santa Sé (CfL 31); 2) uma melhor definição dos ministérios confiados aos leigos e uma possível revisão do “Motu Proprio” Ministeria Quaedam (CfL 23).

 

TEMA VASTO E COMPLEXO

 

Recentemente ainda, na Exortação Ecclesia in America, o Santo Padre afirma que o tema dos ministérios laicais é “vasto e complexo”, que seu estudo prossegue e que os organismos da Santa Sé “vêm aos poucos oferecendo algumas diretrizes” sobre o assunto. Ao mesmo tempo, o Papa deixa claro que esse âmbito “intra-eclesial” do apostolado leigo não deve diminuir o empenho naquele que considera o campo “primeiro e mais condizente com o seu estado laical, o das realidades temporais, que [os leigos] são chamados a ordenar conforme a vontade de Deus” (EA 44). Esse campo é descrito com as palavras da Evangelii Nuntiandi como: “o mundo vasto e complicado da política, da realidade social e da economia, como também o da cultura, das ciências e das artes, da vida internacional, dos “mass media” e, ainda, outras realidades abertas para a evangelização, como sejam, o amor, a família, a educação das crianças e dos adolescentes, o trabalho profissional e o sofrimento” (EN 70, citado por CfL 23).

 

REALIDADE BRASILEIRA

 

Também na realidade brasileira, nos anos recentes, tivemos um extraordinário florescimento de novos ministérios a serviço das comunidades eclesiais, de novos movimentos animados por um ideal de evangelização da sociedade e de renovação da espiritualidade cristã, de novas formas de atuação laical no campo da política, da promoção dos direitos humanos e da solidariedade com pobres, excluídos e sofredores.

 

As novas formas de atuação de leigos e leigas católicos vieram acrescentar-se às mais antigas, muitas das quais ainda vivas e vigorosas, mas geralmente se orientaram no sentido da distinção, e até da separação, entre os dois campos tradicionais do apostolado leigo: as atividades “ad extra” de presença na sociedade, nas “realidades temporais”, e as atividades “ad intra”, de serviço às comunidades eclesiais, numa multiplicidade de ministérios reconhecidos e de prestações espontâneas. A própria organização da CNBB estruturou-se segundo esse dualismo e manteve, até hoje, um Setor Leigos e um Setor Vocações e Ministérios. Pareceu oportuno aos responsáveis por esses setores unir seus esforços com os de seus assessores e, principalmente, dos representantes de organismos pastorais, movimentos eclesiais e comunidades, para aprofundar a reflexão sobre a missão dos leigos, nos seus dois aspectos, procurando promover o melhor entendimento de todos os que estavam envolvidos e uma valorização ainda mais clara da vocação de leigos e leigas cristãos no mundo de hoje.

 

TENDÊNCIAS DIVERSAS

 

Com efeito, um excessivo afastamento entre os dois âmbitos da ação evangelizadora dos leigos tinha levado, às vezes, a criar também distância e incompreensão entre os leigos empenhados exclusivamente num dos dois campos. Além disso, a novidade e variedade das novas formas de apostolado levaram a um grande dinamismo apostólico, mas também – em alguns casos – à tendências menos felizes, que tinham dificuldade de conviver e cooperar na desejável comunhão eclesial. Certos grupos pareciam respeitar pouco a autonomia do compromisso cristão nas realidades temporais. Outros pareciam clericalizar a prática dos ministérios laicais, até confundi-los, às vezes, indevidamente, com os ministérios ordenados. Outros ainda queixavam-se do escasso apoio das comunidades eclesiais aos leigos empenhados no campo social, político e cultural. Outros, ao contrário, queixavam-se do escasso empenho dos leigos católicos na transformação da sociedade. Outros, por fim, pediam mais formação doutrinal e orientação cristã para os leigos empenhados num ambiente secularizado.

 

Diante de tal situação – ao mesmo tempo carregada de promessas e esperanças, mas também de lacunas e dificuldades – parecia conveniente elaborar, de forma clara e sistemática, orientações práticas com uma boa fundamentação teológica.

 

OBJETIVOS DE UM NOVO DOCUMENTO

 

No décimo aniversário da Christifideles Laici,  os bispos D. Marcelo Carvalheira e D. Angélico Bernardino solicitaram que o tema fosse estudado na Assembléia Geral da CNBB para que um documento oficial do episcopado contribuísse para:

1º. um claro reconhecimento da dignidade dos leigos na Igreja, retomando as fortes expressões do capítulo primeiro da Christifideles Laici (cf. especialmente o nº 17) e avivando a consciência, ainda adormecida, dos muitos católicos praticantes ou tradicionais, que interpretam apenas passivamente sua pertença à Igreja, mais como objeto do que como sujeitos da evangelização, não apenas individualmente, mas de forma associada (cf. CfL, 29);

2º. uma explicitação da eclesiologia conciliar, como base segura para entender e harmonizar as diversas formas de apostolado leigo e a relação  entre ministérios confiados aos leigos, em virtude do seu Batismo, e  ministérios conferidos pelo sacramento da Ordem;

3º. um esclarecimento das dúvidas particulares, muitas vezes de ordem prática, que a multiplicidade das experiências, a mudança do contexto sócio-cultural e a própria novidade dos desafios emergentes trouxeram ao laicato católico e aos pastores no Brasil assim como ao conjunto da Igreja e do episcopado (veja o Sínodo de 1987).

 

PROCESSO DE ELABORAÇÃO

 

O primeiro ante-projeto de documento, elaborado pelos responsáveis dos mencionados setores da CNBB, apresentado na Assembléia de 1998, dedicava – na reflexão sobre os ministérios – também um amplo espaço aos ministérios ordenados, o que foi julgado excessivo num documento dirigido prioritariamente aos leigos. A reformulação do ante-projeto, na própria Assembléia, levou a dar mais unidade ao documento, centrando-o mais especificamente ao redor da vocação fundamental do leigo, enquanto membro do povo de Deus e co-responsável pela missão da Igreja. Retomando a eclesiologia do Vaticano II e procurando oferecer uma interpretação rigorosa e coerente dos textos do Concílio, à luz da Constituição Lumen Gentium, o ante-projeto do documento consegue mostrar a conexão e necessária complementaridade da missão de cristãos leigos no mundo – campo próprio de sua atividade evangelizadora –, com os serviços e ministérios que os fiéis leigos e leigas, em virtude do seu Batismo, podem e devem assumir na Igreja.

 

BUSCANDO UMA VISÃO MAIS COMPLETA E HARMONIOSA

DA MISSÃO DOS LEIGOS

 

O documento retoma uma preocupação presente na Christifideles Laici, que deseja, na vida do leigo cristão, unidade e comunicação entre a inserção nas realidades temporais e a vida no Espírito, que brota da comunhão com Cristo fundada no Batismo, a fim de que leigos e leigas possam santificar-se no mundo (cf. CfL 17, que cita AA 4).

 

Essa mesma unidade é desejável também no nível das associações e organizações católicas do laicato. Elas também devem favorecer a articulação e comunicação eficaz entre as atividades dos cristãos que estão voltadas para ordenar o mundo segundo a vontade de Deus e aquelas atividades que estão voltadas para a edificação da comunidade eclesial.

 

Por isso, o documento, nas suas orientações práticas, em lugar de opor – com o risco de separar (!) - empenho dos leigos no mundo e serviço na Igreja (atividades “ad extra” e atividades “ad intra”), traça diretrizes para que os leigos participem, com autêntica inspiração cristã, de toda a missão da Igreja, ou seja, de toda a ação evangelizadora. Esta exige “serviço, diálogo, anúncio e comunhão”, sem jamais descuidar da presença no mundo, no coração dos dramas humanos, e sem nunca deixar de haurir o espírito de Cristo na palavra do Evangelho, na celebração da Liturgia e no encontro com as pessoas humanas, especialmente dos pobres e sofredores.

 

 

D. Eduardo Koaik                                            D. Angélico Sândalo Bernardino

Bispo de Piracicaba                                        Bispo Auxiliar de São Paulo

Responsável pelo Setor Leigos                      Responsável pelo Setor Vocações e Ministérios

 

 

 

Itaici-SP, 22.04.1999

 

 

 

 


INTRODUÇÃO

 

Os homens e as mulheres de hoje se parecem com os caminhantes que iam, na tarde da Páscoa, para Emaús[1]. Decepcionados, conversavam entre si sobre seus desenganos, sobre as esperanças frustradas. É a mesma conversa do povo hoje: espera por um progresso econômico e vê  a situação pessoal piorar; espera por saúde e vê voltarem antigas doenças – dadas como debeladas para sempre; espera por paz e convivência fraterna e é atingido pela violência que não escolhe suas vítimas e torna todos inseguros; espera por  administradores  públicos eficientes e honestos, atentos às necessidades do povo, como lhe foi prometido, e desconfia de que na política prevaleçam os interesses de poucos, dos que querem aumentar ainda mais seu patrimônio, a preço da exclusão de muitos; espera por cristãos mais fiéis ao Evangelho, mais empenhados no serviço aos irmãos, mais abertos ao diálogo, e encontra frieza e pouca fé... Desconfiam, às vezes, até de Deus, como o salmista: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”[2] Como pode Deus permitir a crucifixão de tantos irmãos?

 

Não faltam esperanças ou ao menos expectativas, por exemplo, nos avanços da ciência e da tecnologia. Mas estes avanços também parecem ser de proveito para poucos. E tornam ainda mais absurdo que continue a haver fome, doenças, miséria, desemprego, que uma melhor distribuição dos recursos poderia eliminar – no Brasil e no mundo.

 

O povo itinerante procura muitas vezes esquecer seus dramas na diversão, no entretenimento oferecido pela mídia eletrônica, no jogo, no álcool, nas drogas... Mas também a experiência humana está afetada por perguntas fortes acerca de sua identidade, de sua origem, de seu percurso e de seu destino. Por isso, com maior empenho nos últimos anos, as pessoas procuram resposta e caminho na filosofia, nas religiões, em diversas formas de espiritualidade. Nós, cristãos, redescobrimos, de maneira nova, a Palavra de Deus e a presença viva de Cristo. Percebemos que as muitas ideologias alternativas ao cristianismo, que inspiraram projetos nobres, mas também conduziram às piores tragédias da história em nosso século, deixaram ainda mais claro que Cristo continua sendo para a humanidade o Caminho, a Verdade e a Vida[3].

 

O cristianismo não propõe uma verdade abstrata nem apenas uma doutrina, mas acredita na presença de Alguém que caminha conosco, mesmo que, às vezes, nossos olhos não o reconheçam. Nossos olhos se abrem, quando o reconhecemos no “menor dos irmãos” que nos pede pão, água, roupa, casa, assistência médica, justiça ou, simplesmente, uma atenção, uma visita. É quando os caminhantes de Emaús convidam o desconhecido a sentar-se à mesa com eles, a partilhar a ceia, que seus olhos se abrem. O mesmo acontece hoje,  quando esta ceia é celebrada como Eucaristia, agradecendo ao Pai pela entrega do próprio Cristo Jesus, que se oferece por nós e nos alimenta, na jornada, com o dom do Pão e do Vinho.

 

Quando a humanidade descobre e pratica a solidariedade e a partilha, já está sendo movida pelo Espírito de Jesus. Já reencontrou a esperança. Já está acolhendo o “reino de Deus” e começando a superar as decepções e suas causas.

 

No meio da humanidade, solidários com ela, estão os discípulos e as discípulas de Cristo. São aqueles que, tendo reconhecido o Cristo caminhando ao seu lado, correm para anunciar aos irmãos e irmãs que o Cristo ressuscitado está vivo no meio de nós.

 

Os cristãos, portanto, são no mundo portadores da esperança: de que a morte do Justo não é a última palavra da história, pois o amor do Pai o ressuscitou; de que Deus há de ressuscitar “nossos pobres corpos mortais”; de que o nosso futuro está no reino de Deus, na afirmação do seu governo na história do mundo, enfim purificada de todo o mal. Esperança que o livro do Apocalipse descreve com as imagens da maravilhosa cidade, que não precisa de sol ou lua, porque “é a glória de Deus que a ilumina”[4], e da renovação total, de “novos céus e nova terra”:

 

“Deus habitará com eles;

eles serão o seu povo,

e ele, Deus-com-eles, será o seu Deus.

Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos,

pois nunca mais haverá morte,

nem luto nem clamor nem dor...

Sim! As coisas antigas se foram!”[5].

 

A esperança, porém, não afasta os cristãos dos outros homens e mulheres. Ao contrário, torna-os ainda mais solidários. “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. Não se encontra nada verdadeiramente humano que não lhes ressoe no coração”[6]. “A esperança de uma nova terra, longe de atenuar, antes deve impulsionar a solicitude pelo aperfeiçoamento desta terra. O progresso terreno... é de grande interesse para o Reino de Deus”[7].

 

Por isso, o cristão “levanta a cabeça” [8] e olha para a libertação que se aproxima, mas não deixa de “pôr as mãos no arado”[9] ou na enxada, não pára de trabalhar para alimentar a família humana nem deixa de ser o “administrador fiel”[10] dos bens que Deus lhe confiou, a serviço de irmãos e irmãs. O cristão eleva seu coração a Deus na oração, de onde recebe luz para discernir os caminhos da justiça e da paz no mundo humano.

 

 

I. DESAFIOS  E SINAIS DOS TEMPOS

 

O cristão olha para o mundo com realismo e com esperança. Procura reconhecer nele os sinais da vontade de Deus e os caminhos que apontam para o Reino, assim como distinguir os obstáculos e as forças do mal que impedem a sociedade humana de avançar na direção da justiça, da paz e da fraternidade.

 

Neste momento histórico, estamos diante de uma realidade particularmente complexa e, ao mesmo tempo, contraditória e fragmentada. Torna-se, portanto, difícil - mas não impossível! - compreender os rumos da história atual ou fazer julgamentos corretos. Nasce, em muitos, a sensação de incerteza, muitas vezes de desorientação, da qual procuram fugir, “simplificando” a realidade, considerando apenas alguns aspectos dela, criando esquemas ou imagens simplistas do que está acontecendo. Mesmo assim, é necessário esforço para situar nosso contexto, dentro de um quadro mais amplo, visto que a “globalização” aumenta sempre mais as influências externas sobre a realidade em que vivemos.

 

Cientes dessas dificuldades, queremos aqui apenas salientar, rapidamente, alguns traços da situação atual, que são relevantes para a consciência cristã e constituem verdadeiros desafios para a missão do evangelizador. Cabe a cada cristão – dentro de sua comunidade, organização ou movimento – discernir com mais profundidade esses desafios, percebendo as luzes e as sombras, os sinais da graça e as seqüelas do pecado. Todos temos o dever de nos esforçar, iluminados pela fé, para compreender a realidade e buscar caminhos.

 

1. DESAFIOS ECONÔMICOS, SOCIAIS E POLÍTICOS

 

A economia exerce grande influência sobre a nossa sociedade. As mudanças no mercado são mais rápidas do que no passado, conseqüência dos avanços da tecnologia e de maior interdependência das economias nacionais (fenômeno da “globalização”). Ao lado de alguns aspectos positivos - intercâmbio de informações, produtos, serviços e relacionamentos em escala global - a globalização tem acarretado graves preocupações, porque orientada, de fato, pela ideologia do mercado, que tem diminuído a autonomia dos Estados nacionais e concentrado ulteriormente a renda. Este fenômeno cria novas e imprevistas situações de desespero, aumenta a pobreza e o desemprego, força a migração em busca de trabalho mal remunerado, enfraquece a política social, causa a exclusão de multidões. Isto acontece sobretudo onde tem sido adotada, sem restrições, a política econômica “neoliberal”. Essa política poderá favorecer apenas pequena parcela da humanidade, excluindo, de fato, a maioria da população dos benefícios conseguidos.

 

Na encíclica para “O Centenário da Rerum novarum” (1991), o papa João Paulo II reconhecia que “o livre mercado parece ser o instrumento mais eficaz para dinamizar os recursos e corresponder eficazmente às necessidades”. Mas acrescentava: “Existem numerosas carências humanas sem acesso ao mercado. É estrito dever de justiça e verdade impedir que as necessidades humanas fundamentais permaneçam insatisfeitas e pereçam os homens por elas oprimidos...Abre-se aqui um grande e fecundo campo de empenho e de luta, em nome da justiça... É correto falar de luta contra um sistema econômico, visto como instrumento que assegura a prevalência absoluta do capital, da posse dos meios de produção e da terra”[11].

 

Nesse contexto, tem crescido a dívida externa dos Países em desenvolvimento e a dívida social para com a maioria dos seus próprios cidadãos, cujo trabalho é mal remunerado. Assim se lhes negam as condições básicas de alimentação, moradia, educação e saúde e se enfraquece ou se esvazia a própria democracia, pois as pessoas se sentem desmotivadas a exercer sua cidadania, enquanto os grandes interesses financeiros condicionam unilateralmente o Estado, impedindo-o de cuidar do bem comum dos cidadãos.

 

O Brasil depende hoje, fortemente, do sistema financeiro internacional. Seus problemas são agravados pela desigualdade social muito acentuada, entre as maiores do mundo, que atinge imensa massa de deserdados e sofredores, além do mais, provados pela crescente onda de desemprego[12] e a lentidão da Reforma Agrária[13].

 

17. Nisso tudo se manifesta a tendência geral da sociedade moderna, que nos campos da política e da economia não leva em conta os valores éticos, tais como o respeito dos direitos básicos de toda pessoa humana, a primazia do trabalho, a solidariedade. Como cristãos, devemos avaliar em profundidade as conseqüências dessa inversão de valores, principalmente no que diz respeito ao grave problema da deformação das consciências. Nossa sociedade vai habituando-se a conviver com contravalores e perdendo a capacidade de distinguir o justo do injusto, o verdadeiro do falso. Aquilo que é desprovido de todo e qualquer caráter ético, começa a impor-se como legítimo. A conseqüência é o crescimento descontrolado da corrupção, do abuso do poder, da exploração institucionalizada, favorecidos pela impunidade.

 

18. A camada social que, certamente, sai mais prejudicada por tal deformação  das consciências é a juventude, exigindo um trabalho mais intensivo na formação do senso crítico. A juventude sofre diversas agressões, entre elas o desemprego e a violência. Deixa-se seduzir pelas drogas e torna-se presa fácil da organização criminal do narcotráfico. O futuro torna-se muito incerto e a juventude torna-se a maior vítima da crise das relações sociais e familiares. A nova geração vive o momento presente numa visão imediatista, pois a sociedade a priva do passado e do futuro. A sociedade exalta a juventude e oferece-lhe muitas ilusões de consumo e de realização pessoal. Parece apresentar muitas oportunidades, mas efetivamente oferece poucos empregos e remuneração injusta. Força muitos jovens a se refugiarem numa vida sem maiores perspectivas. Por outro lado, os jovens, mesmo se confiam pouco em partidos, sindicatos, associações, escolas, procuram espaços oferecidos pelas Igrejas cristãs e particularmente pela Pastoral da Juventude, onde encontram oportunidades de oração, de formação, de exercício da cidadania, de serviço voluntário. Constata-se busca da mística e uma crescente preocupação pela espiritualidade.

 

Por outro lado, diante dos efeitos perversos da globalização, surgem sinais nítidos e claros de reação da parte de indivíduos, grupos e povos. Aumentam as dúvidas sobre a viabilidade, a médio e longo prazo, do atual modelo capitalista e temem-se suas desastrosas conseqüências para o meio-ambiente. Em vários Países, adotam-se medidas econômicas e sociais alternativas ao neo-liberalismo, visando à preservação do Estado nacional e dos direitos dos trabalhadores, ameaçados pela “desregulação” da economia. Multiplicam-se também as iniciativas em defesa da própria tradição cultural, étnica ou nacional em face do nivelamento provocado pela globalização. Em nosso País, os que não têm terra, casa, emprego e alimento organizam-se para garantir sua sobrevivência e contestar as leis que favorecem, ainda mais, os poderosos. Mulheres, índios, negros e grupos marginalizados reivindicam seus direitos ao pleno exercício da cidadania e à  expressão das diferenças.

 

A consciência de que o homem destruiu muitos recursos naturais não renováveis e coloca em perigo o futuro da própria humanidade, com a poluição do meio-ambiente, tem crescido. Muitos percebem mais claramente que não é lícito prejudicar o futuro das novas gerações tornando inabitável a Mãe-Terra. Muitos percebem também que, na origem dos excessos humanos, está uma mentalidade “prometéica”, de domínio do homem sobre o mundo, de consumismo desenfreado e desmedido, sobretudo por parte dos mais ricos. Tal mentalidade deve ser superada através da reconciliação da humanidade com a natureza e através de melhor distribuição dos bens.  Para os cristãos, tudo isso significa reconhecimento e respeito para com a obra do Criador.

 

Diante do modelo social, que incentiva o egoísmo e reduz a pessoa a mero consumidor, impõe-se o revigoramento da solidariedade entre todos os cidadãos. Ela deve sustentar iniciativas voluntárias de ajuda aos mais carentes e exigir decisões políticas e medidas legislativas em prol de autêntica justiça social, garantindo a igualdade de oportunidades. A Igreja não pode deixar de exercer uma crítica rigorosa às ideologias que desprezam os valores éticos fundamentais e de apoiar, com todos os meios ao seu alcance, a construção de uma sociedade solidária. Ao mesmo tempo precisa fazer um exame de consciência, “interrogando-se sobre as responsabilidades que lhe cabem nos males do nosso tempo”[14], particularmente diante das graves injustiças e da marginalização social, para discernir o que e pode fazer.

 

2. DESAFIOS CULTURAIS, ÉTICOS E RELIGIOSOS

 

O predomínio da economia na sociedade atual está vinculado a opções éticas e culturais. É impossível compreender o comportamento de pessoas e grupos, sem levar em conta as motivações culturais que o impulsionam. Análises das estruturas econômicas e políticas são necessárias, mas insuficientes para compreender as tendências da sociedade atual, particularmente complexa.

 

Recentemente, em lugar da cultura tradicional, difundiu-se a cultura da modernidade, caracterizada pela crítica do passado e a oferta de diferentes modelos de vida. Em outras palavras, no Brasil como nas sociedades modernas, predomina hoje o pluralismo cultural, que, a partir dos centros urbanos, se alastra por todo o território nacional. O pluralismo é, em si, fator positivo, quando proporciona diálogo e respeito mútuo entre as diversas culturas. Mas, de fato, ele é limitado e ameaçado pela poderosa influência dos meios de comunicação de massa, transmissores da “cultura global”, regida pelas leis do mercado, desprovida de preocupações éticas, manipuladora das consciências. Os meios de comunicação de massa podem contribuir para aumentar enormemente a difusão da informação e do conhecimento, mas de fato o seu uso sofre graves distorções. Eles agem muitas vezes no sentido da “homogeneização” da cultura, difundindo no mundo inteiro os mesmos produtos culturais e os mesmos modelos de comportamento. A essa “cultura de massa” resistem, com dificuldades, a cultura popular, com sólidas raízes no mundo rural, e a cultura erudita e científica.

 

Na sociedade tradicional, era a cultura que determinava, em grande parte, a identidade de cada indivíduo e lhe atribuía um papel específico na sociedade. Na sociedade “moderna”, o indivíduo tende a considerar a cultura como supermercado, onde pode escolher e adquirir elementos para construir a própria visão do mundo e suas relações. Dentro dessa cultura e do seu pluralismo, o indivíduo muda sua atitude perante a questão da sua identidade. Simplificando, pode-se dizer que a questão da identidade (quem sou eu? qual é o meu papel na sociedade?) se tornou uma questão privada, pessoal. Tudo isso contribui para enfraquecer os laços comunitários, que pressupõem uma tradição ou cultura comum, e substituí-los por relações criadas a partir das escolhas pessoais. Esse fato, em si, pode ser positivo. O cristianismo contribuiu para acelerar o processo de valorização da pessoa. Mas, atualmente, em muitos casos, sobretudo no mundo urbano, as antigas relações comunitárias não foram ainda substituídas por novas relações sociais adequadas,  capazes de garantir a liberdade e segurança das pessoas. Resultam daí efeitos negativos, como o aumento da violência e a extremada concepção da liberdade individual.

 

A concepção relativista da verdade e extremamente individualista da liberdade leva à aceitação de práticas – como aborto, eutanásia, uso das drogas, busca desenfreada por bens materiais e a negação da solidariedade  – que desprezam o valor da vida humana. Na encíclica “Evangelium Vitae”, João Paulo II fala de “um combate gigantesco e dramático entre o mal e o bem, a morte e a vida, a “cultura da morte” e a “cultura da vida”. Encontramo-nos não só “diante”, mas necessariamente “no meio” de tal conflito: todos estamos implicados e tomamos parte nele, com a responsabilidade irrenunciável de decidir incondicionalmente a favor da vida”[15].

 

A mudança da identidade individual, decisiva na configuração da modernidade, gera conseqüências explosivas em todos os campos, inclusive no campo religioso. É importante observar que essa situação tem provocado novo interesse pela religião, que foi chamado - de forma pouco apropriada - a “revanche de Deus”. Outros falam de “sedução do sagrado” ou de “retorno do religioso”. Na realidade, não se trata de um retorno, porque muitos são os aspectos novos, que não figuravam na religião tradicional. Em linhas gerais, as novas atitudes religiosas - mais que se voltar para a revelação de Deus - buscam a solução de problemas pessoais. As estruturas pastorais da Igreja Católica, especialmente no meio urbano, ainda não conseguiram adaptar-se adequadamente à nova situação que exige um atendimento mais diversificado e personalizado. A religião é hoje muito procurada, porque consola, cura e ajuda a dar sentido à própria existência.

 

Tendência evidente no Brasil dos anos recentes é reconsiderar a própria escolha religiosa. Conseqüentemente temos assistido à passagem de muitas pessoas de uma religião (ou Igreja) a outra. A falta de uma adesão pessoal e viva a Jesus Cristo e de ligação maior com a comunidade eclesial coloca-se entre as causas que explicam o fato de muitos católicos terem mudado de religião. Outros católicos não conseguem fazer uma experiência religiosa emocionalmente envolvente em sua comunidade de origem e saem em busca de outras experiências. Não se trata, geralmente, de uma “conversão” no sentido forte da palavra, que implique decidida mudança ou ruptura. Predomina a  concepção de que as várias Igrejas ou religiões são igualmente  boas. “Experimenta-se” outra religião, às vezes por breve período, em busca daquela que satisfaça o gosto de cada um. Esses fenômenos se tornam mais freqüentes no Brasil, quer porque aqui elementos das religiões indígenas e africanas se misturaram com elementos da religião católica, quer pela rápida urbanização, que pôs em contato populações de origem rural com um ambiente “pós-moderno”, dinâmico, com referências múltiplas, que é a cidade. Há também casos em que a pessoa justapõe práticas de diversas religiões, e casos de adesão a uma religiosidade de contornos indefinidos, sincretista, como a da “Nova Era”.

 

A religião, como questão de escolha, é fato julgado positivamente pela nossa sociedade. Também o cristianismo assume esta condição como uma oportunidade de liberdade e a julga melhor do que aquelas situações em que a religião era imposta pelo Estado como religião oficial. Essa nova situação, porém, exige que cada pessoa faça sua opção, dentro de um conjunto de possibilidades diversas que lhe são oferecidas.

 

Alguns optam por uma religião individual, interior, tão pessoal que abandona as práticas comunitárias e se torna uma “religião invisível”, feita apenas de algumas crenças. Em casos extremos, chega-se a dizer “minha religião sou eu” ou a conceber a Deus como a realidade que cada um encontra no mais íntimo de si mesmo. Em geral, como já vimos, a religião é concebida como busca de felicidade imediata, próxima do hedonismo, e não mais como consciente adesão à vontade do Senhor e Criador.

 

Outros, ao contrário, recusam o individualismo e o subjetivismo. Preferem, talvez com certa nostalgia, tentar reencontrar a situação tradicional, em que havia uma só religião e todos acreditavam nela. Aderem, por isso, a Igrejas ou Movimentos “fundamentalistas”, que têm a pretensão de apresentar a verdade em seus fundamentos ou origens. Trata-se geralmente de grupos fechados e autoritários, que não admitem discussões sobre sua doutrina e disciplina interna, mas, em troca, oferecem certeza, segurança e apoio a seus membros.

 

Outros ainda se voltam para formas espontâneas de busca e manifestação do sagrado ou para o esoterismo, o ocultismo, a magia, a crença na reencarnação. Rejeitam não somente as formas institucionalizadas das grandes religiões, como também a racionalidade científica. Tal fenômeno não acontece apenas nas populações com pouca ou nenhuma instrução escolar. Atinge até mesmo cientistas e pessoas de formação universitária.

 

Finalmente, a maioria continua ainda aderindo à religião tradicional (no Brasil, ao catolicismo). Esta adesão, porém, não é total, por haver restrições subjetivas (“aceito isso, mas não aceito aquilo”): é o caso das chamadas “adesões parciais”. Pode até assumir traços do fundamentalismo: sou católico, mas segundo uma  interpretação literal da Bíblia e da doutrina.

 

Para o católico, a melhor resposta a esta situação não é simplesmente conservar a religião tradicional, mas renovar sua adesão ao Cristo na Igreja católica, tornando-a mais consciente e responsável, enraizada na profunda experiência de Deus, iluminada por sua Palavra e partilhada na vivência comunitária e sacramental, atenta ao magistério da Igreja. Isto, de fato, já acontece em grande escala em paróquias, comunidades de base e movimentos. Mas é necessário tomar consciência de que - na sociedade atual e sempre mais no futuro - a fé católica será profundamente personalizada, assumida, enraizada na experiência de Deus, ou não... será.

 

3. FORÇA E FRAQUEZAS DOS CRISTÃOS

 

Nos últimos anos, após a publicação da Exortação do Papa João Paulo II sobre “Vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo”[16], que concluiu o Sínodo dos Bispos de 1987, alguns fatos têm marcado a situação dos cristãos entre nós, e especificamente dos católicos. Antes de tudo, constatamos uma intensa busca de espiritualidade, mesmo se algumas de suas expressões pareçam mais reação de desencanto com a sociedade e procura de consolo do que experiências religiosas profundas.  Esta busca manifesta-se tanto no mundo católico como fora dele. É caracterizada, como já notamos, por evidente pluralismo e subjetivismo. O resultado é que o próprio mundo católico se tem diferenciado ainda mais. Multiplicaram-se os novos movimentos e retomaram vigor as  antigas associações e as tradições religiosas populares. Surgiram muitas iniciativas pastorais inéditas, solicitadas pela diferenciação da sociedade brasileira e o aparecimento de múltiplas carências e aspirações. Também aumentou significativamente a busca de formação teológica, até de nível superior, por parte de leigos e leigas.

 

Cresce igualmente um clima favorável ao ecumenismo e ao diálogo entre as religiões, apesar de  resistências de grupos radicais, por um lado, e apesar das tendências de nivelar e confundir toda e qualquer experiência religiosa, por outro lado. Os não católicos representam hoje, no meio urbano, 20%, ou mais, da população, o que significa também que nossos fiéis freqüentemente se encontram e dialogam com pessoas de outros credos, sendo muitas vezes questionados em sua própria fé. O diálogo ecumênico e inter-religioso deixa de ser um assunto de poucos, para tornar-se uma experiência cotidiana e permanente de muitos.

 

A presença dos católicos militantes na sociedade passou também por transformações significativas, sobretudo depois de 1985, com a redemocratização do País, e da Constituição Federal de 1988. Houve opções diferentes. Alguns deixaram comunidades eclesiais e organizações pastorais para ingressar nos partidos, levando no coração a inspiração cristã para a luta política. Outros permaneceram nas CEBs, nas pastorais sociais e nos movimentos populares, procurando promover formas alternativas de organização do povo, em favor de seus direitos, sua saúde, educação e sobrevivência. Outros participam ativamente da construção da cidadania, atuando nos Conselhos Municipais, tutelando crianças e adolescentes e promovendo os direitos humanos. Numa sociedade em que as estruturas econômicas e políticas estão perdendo suas referências éticas, os cristãos empenhados nela estão exigindo apoio e acompanhamento espiritual e solidariedade mais efetiva por parte dos pastores e da comunidade eclesial.

 

Fenômeno importante é o crescimento dos movimentos eclesiais, uns são originários de outros Países, outros são nascidos entre nós. Eles trouxeram muitas pessoas à experiência de Deus, ao encontro pessoal com Cristo, à opção de fé e à volta à Igreja. Conseguem ter uma  grande força convocatória e aglutinadora. E muitas pessoas, a partir dessa experiência de conversão, reencontram o amor à Igreja e o engajamento nas pastorais. O entusiasmo da descoberta faz que muitos vejam a Igreja sob o prisma do movimento e tenham dificuldade de integrar-se  nas comunidades eclesiais. Há casos de tensões e até conflitos. O Papa e os Bispos desejam que os movimentos possam, no diálogo e na caridade, dar testemunho de uma comunhão “sólida e convicta” com a caminhada pastoral da Igreja Particular e crescer na estima recíproca com todas as formas de apostolado[17].    

 

As paróquias, especialmente no meio urbano, viram, nos últimos anos, multiplicar-se suas atividades, para atender ao crescente número de fiéis e, sobretudo, à demanda mais exigente tanto de orientação espiritual como de serviços de obras sociais. Daí resulta a sobrecarga dos párocos, especialmente quando não há por parte deles a disposição de delegar responsabilidades e descentralizar serviços. A multiplicidade de expressões comunitárias e de grupos, associações, movimentos e pastorais expressa a vitalidade de muitas paróquias, mas também provoca certa fragmentação da pastoral e falta de harmonia. Diante desta tendência, procura-se intensificar o planejamento participativo e revalorizar os Conselhos Pastorais. O esforço de descentralizar a paróquia, para torná-la uma “rede de comunidades e movimentos[18]”, está presente em várias dioceses. Em geral, continuam numerosas e ativas as CEBs, que estão procurando com mais empenho compreender e valorizar a religiosidade popular e abrir-se mais intensamente à dimensão missionária e ao diálogo com os Movimentos Eclesiais. 

 

Na ausência de estatística mais completa, é difícil dizer se o número dos agentes de pastoral aumentou na última década. O número das paróquias é superior a 8.000 (oito mil)[19]. Pode-se estimar em 70.000 (setenta mil) o número das comunidades que realizam aos domingos a celebração da Palavra, na ausência do padre, que aí celebra a Eucaristia somente algumas vezes por ano. O número dos e das catequistas se situa entre 300.000 e 350.000. Um contingente ainda maior de leigos e leigas assume outros ministérios, como a animação da comunidade e da liturgia, as pastorais sociais, o ministério extraordinário do Batismo e da distribuição da Comunhão Eucarística, da Palavra, das Exéquias e a função de Assistentes Leigos do Matrimônio. Em média, atualmente, para cada presbítero, as comunidades dispõem de mais de 50 (cinqüenta) leigos, exercendo tarefas ou ministérios pastorais[20].

 

Entre os agentes de pastoral, destaca-se a presença e atuação das mulheres, que constituem o contingente maior. Elas participam em todos os setores da vida e da missão da Igreja e estão esboçando um traço novo no rosto eclesial através da maneira generosa e entusiasmada com que vivem a fé e o amor, buscando transmitir os valores cristãos. As mulheres constituem a grande maioria dos catequistas; assumem responsabilidades nas comunidades, na animação, coordenação e entre-ajuda; coordenam setores pastorais; estão presentes nos conselhos e nos movimentos, participando ativamente das decisões [21]. Nos últimos anos, elas começaram a exercer o aconselhamento espiritual, bem como o ensino da teologia..

 

Quanto ao número de presbíteros, os últimos tempos foram marcados pelo aumento do clero diocesano que teve cerca de 4.500 ordenações nos últimos quinze anos[22]. Atualmente temos um total de cerca de 16.000 padres: um para cada 10.000 habitantes. Esta relação se mantém estável nos anos ‘90. Mas ela é consideravelmente mais grave que a relação padre/habitantes de 1960 (1 padre para 6.284 habitantes). O número dos presbíteros não acompanhou o aumento da população nas décadas de ’60, ’70 e ’80, também em decorrência da diminuição do número de missionários, que em 1960 representavam 42% do clero e hoje, apenas 22%[23]. Assim, em geral, o presbítero se acha, por um lado, solicitado a assumir novas tarefas; por outro, é mais sobrecarregado em seu dia-a-dia e tem menos tempo para dedicar às pessoas. É urgente repensar as prioridades do ministério presbiteral, bem como buscar novos modelos, tendo em vista a corresponsabilidade de todos os cristãos na ação evangelizadora e uma melhor adequação do padre às exigências da comunidade eclesial e da sociedade.

 

Finalmente, alegramo-nos porque o Projeto de Evangelização “Rumo ao Novo Milênio”, com que procuramos responder ao apelo da Carta apostólica de João Paulo II sobre “Tertio Millennio Adveniente” e preparar o Grande Jubileu do Ano 2000 e a celebração dos 500 anos da Evangelização do Brasil, tem encontrado adesão pronta e generosa tanto do clero quanto do laicato, revelando novas possibilidades de ação pastoral e grande criatividade na evangelização.

 

Todas essas situações, ricas de promessas e potencialidades, mas também necessitadas de discernimento melhor e de novas orientações, solicitam-nos recordar alguns fundamentos teológicos, especialmente a partir do Concílio Vaticano II[24], e traçar algumas diretrizes práticas. É o que desejamos oferecer às comunidades eclesiais e aos cristãos e cristãs, para que, em espírito de diálogo com os pastores, continuemos juntos a procurar respostas corajosas, livres e criativas aos apelos de Deus e dos irmãos.

 

 

II – A MISSÃO DO POVO DE DEUS

Fundamentos teológicos

 

1. A MISSÃO

 

A Igreja é chamada por Deus a realizar uma missão no mundo. Tal missão, prosseguimento da prática de Jesus Cristo, que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate de todos”[25], é  o serviço que ela deve prestar. A compreensão da missão da Igreja vai aprofundando-se na medida em que a Igreja presta atenção aos “sinais dos tempos” e às mudanças na história humana. Podemos medir os passos dados pela Igreja na compreensão de si mesma e da sua missão, se considerarmos os avanços do  Magistério e da reflexão eclesial desde o Concílio Vaticano II até hoje.

 

A MISSÃO, OBRA DE DEUS

 

O Concílio Vaticano II proferiu diversas afirmações importantes sobre a missão da Igreja. A constituição Lumen Gentium declara: “a Igreja é, em Cristo, como que sacramento, isto é, sinal e instrumento, da união íntima com Deus e da unidade de todo o gênero humano” [26]. A constituição Gaudium et Spes acrescenta que “a Igreja é ‘o sacramento universal da salvação’, manifestando e atuando simultaneamente o mistério do amor de Deus pelos homens”; ou seja, não é apenas sinal, mas já, de algum modo, realização do Reino de Deus[27].

 

Para explicar a identidade da Igreja, a Lumen Gentium, no capítulo I, mostra a Igreja como fruto da missão do Filho e do Espírito Santo, enviados pelo Pai.[28] Está aí um elemento fundamental da teologia da missão! A missão não é, antes de tudo, obra da Igreja, mas ação de Deus. O Pai é fonte da missão e atua no mundo através do Filho e do Espírito Santo. Neste tempo, que intercorre entre a primeira vinda de Cristo e seu retorno glorioso, o  protagonista da missão é o Espírito Santo[29].

 

A MISSÃO, SERVIÇO DO REINO

 

Em relação à missão, outra afirmação importante do Concílio Vaticano II é que “toda a Igreja é missionária e a obra da evangelização é um dever fundamental do povo de Deus”[30]. Mas o próprio Concílio, sob a influência da teologia que o precedeu, acentuou a concepção da missão como “implantação da Igreja”[31]. Ora, exatamente naqueles anos, a realidade das “missões”, especialmente nos Países do chamado “Terceiro Mundo”, e a reflexão teológica passavam por mudanças rápidas e profundas. Após o Concílio, a teologia cristã insistiu de forma enfática sobre a necessidade de assumir a missão não só como “implantação da Igreja”, mas também como “serviço ao mundo”, ou, mais propriamente, ao Reino de Deus e à “Paz” (shalom) que este traz à humanidade. Tal concepção encontrou ampla receptividade também na América Latina, onde foi destacado o empenho dos cristãos na luta pela justiça e pela libertação humana, o que aliás tinha sido reconhecido pelos Sínodos de 1971 e 1974[32].

 

MISSÃO E DIÁLOGO

 

Outro aspecto que, a partir do Sínodo de 1974, teve ampla repercussão na reflexão sobre a missão foi o diálogo inter-religioso[33]. O Concílio Vaticano II e o Papa Paulo VI[34] já haviam insistido sobre a necessidade do diálogo com a sociedade contemporânea e com as outras Igrejas cristãs[35]. Em particular, no contexto do tema da liberdade religiosa, o Concílio afirma: “A verdade deve ser buscada pelo modo que convém à dignidade da pessoa humana e da sua natureza social, isto é, por meio de uma busca livre, com a ajuda do magistério ou do ensino, da comunicação e do diálogo, com os quais os homens dão a conhecer uns aos outros a verdade que encontraram ou julgam ter encontrado, a fim de se ajudarem mutuamente”[36]. “O diálogo não nasce de táticos interesses, mas é uma atividade que apresenta motivações, exigências, dignidade própria: é exigido pelo profundo respeito por tudo o que o Espírito, que sopra onde quer, operou em cada homem. Por ele, a Igreja pretende descobrir as sementes do Verbo”, os “fulgores daquela realidade que ilumina todos os homens” – sementes e fulgores que se abrigam nas pessoas e nas tradições religiosas da humanidade”[37]

 

MISSÃO É EVANGELIZAÇÃO

 

O progresso da reflexão no Magistério e na consciência da Igreja levou a destacar o tema da evangelização, como o que melhor exprime a própria missão da Igreja, mas ao mesmo tempo a sublinhar como ela é “realidade rica, complexa e dinâmica”[38], que não pode ser definida apenas a partir de um ou outro de seus aspectos, sem correr o risco de a empobrecer e, até mesmo, de a mutilar. A Evangelii Nuntiandi procura exatamente expor os aspectos essenciais da evangelização, em continuidade ao Vaticano II.

 

Após a Evangelii Nuntiandi, a reflexão prosseguiu nas Conferências Episcopais Latino-Americanas de Puebla (1979) e Santo Domingo (1992), na  Encíclica Redemptoris Missio (1990), sobre a validade permanente do mandato missionário, e em outros eventos e documentos. Não deve surpreender que esta reflexão possa e deva prosseguir, descobrindo novos aspectos da missão da Igreja. Pois esta não consiste apenas em anunciar uma mensagem do passado, mas em reconhecer os “sinais dos tempos” e em “interpretá-los à luz do Evangelho; para que assim (a Igreja) possa responder, de modo adaptado a cada geração, às eternas perguntas dos homens acerca do sentido da vida presente e da futura, e da relação entre ambas. É, por isso, necessário conhecer e compreender o mundo em que vivemos, as suas esperanças e aspirações, e o seu caráter tantas vezes dramático”[39]. O que o Vaticano II procurou fazer em seu tempo, a Igreja deve realizá-lo permanentemente, atenta aos novos problemas e anseios da humanidade.

 

A NOVA EVANGELIZAÇÃO

 

Alguns problemas suscitados pela teologia da missão após o Concílio são examinados criticamente pelo Papa João Paulo II na encíclica Redemptoris Missio sobre a validade permanente do Mandato missionário[40]. Desta Encíclica, é particularmente importante para nós destacar o que ela diz sobre a “nova evangelização”[41]. Já Paulo VI considerava necessário retomar a evangelização para superar a ruptura entre o evangelho e a cultura, a fé e a vida[42].  O Papa julga-a necessária nos Países “onde grupos inteiros de batizados perderam o sentido vivo da fé, não se reconhecendo já como membros da Igreja e conduzindo uma vida distante de Cristo e de seu Evangelho”. Em nosso País, como em geral na América Latina, embora haja situações muito diversificadas, não há dúvida de que uma “nova evangelização” é imprescindível. Ela será inspirada pela consciência das exigências da evangelização que a Igreja adquiriu nas últimas décadas, mas deverá também prestar contínua atenção às mudanças que vão acontecendo e aos novos desafios que surgem.

 

A EVANGELIZAÇÃO NAS DIRETRIZES DA IGREJA NO BRASIL

 

Como referência, no Brasil, temos a visão da evangelização amplamente desenvolvida nas “Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora”, fruto da Assembléia da CNBB de 1995. Salientam-se nelas quatro aspectos essenciais para a evangelização inculturada: serviço, diálogo, anúncio e testemunho de comunhão, que têm fundamento no Novo Testamento[43].

 

Esta opção das Diretrizes foi justificada no próprio texto[44] e se fundamenta principalmente em duas razões: o seu caráter prático, que provém da experiência da própria Igreja antiga e se presta a descrever eficazmente as grandes tarefas da Igreja no mundo de hoje; a sua capacidade de expressar, melhor do que outras formulações, a novidade da prática inaugurada por Jesus, confiada a seus discípulos.

 

Outra forma de descrever a missão de Cristo e da Igreja prevaleceu na teologia moderna e foi assumida pelo Vaticano II. Ela nasceu da vontade de ressaltar a continuidade do plano de Deus, relacionando a figura de Cristo com o primeiro - ou “antigo”- Testamento. Naquele contexto, o povo de Deus foi guiado por profetas, sacerdotes e reis. Na nova Aliança, tudo converge para Cristo que é, ao mesmo tempo, profeta, sacerdote e rei. Todo o povo de Deus se torna profético, sacerdotal e real. Daí, os teólogos modernos deduziram uma descrição da ação pastoral da Igreja, que distingue o múnus profético como ministério da Palavra de Deus, o múnus sacerdotal como ministério litúrgico ou do culto, o múnus real (régio) como ministério do governo ou pastoreio do Povo do Deus.

 

Nesta segunda parte do nosso documento, baseada sobre a doutrina do Concílio Vaticano II e voltada para a exposição dos fundamentos teológicos, conservamos a descrição da missão da Igreja como tríplice múnus: profético, sacerdotal e real. Desta maneira se acentua mais a constituição do povo de Deus. Na terceira parte, voltada para as orientações práticas, retomaremos a descrição das exigências da evangelização, conforme as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora, acentuando principalmente a missão confiada à Igreja.

 

Nessa visão, a Igreja é chamada a anunciar a salvação em Cristo e o Reino de Deus, mas só pode fazê-lo demostrando sua solidariedade e sua disposição de serviço para com toda a humanidade, sua atitude de diálogo na busca da verdade e sua capacidade de gerar comunidades  onde já se vive de algum modo aquela comunhão com Deus e com os irmãos, que é realização germinal do Reino de Deus.

 

Urge compreender e frisar como essas diversas exigências se interligam e são expressões necessárias da única missão. Não seria autêntica uma evangelização que se limitasse a promover a libertação humana, sem anunciar o Reino de Deus e a salvação em Cristo. E, vice-versa, não seria legítimo um anúncio do Reino que não mostrasse de algum modo os sinais da libertação do ser humano face aos males que o oprimem.[45]

 

ANÚNCIO DO EVANGELHO E SINAIS DE SOLIDARIEDADE

 

A Igreja deve, como Jesus, anunciar o Reino de Deus e chamar para a conversão[46], mas deve também, como Jesus, realizar aquelas obras ou “sinais”, que revelam o amor de Deus pela humanidade através do poder do Espírito[47]. Outra formulação, muito densa e bela, da missão da Igreja foi-nos oferecida pelo Papa João Paulo II na Encíclica Evangelium Vitae, sobre o valor e a inviolabilidade da vida humana. Dizendo “o Evangelho do amor de Deus pelo homem, o Evangelho da dignidade da pessoa e o Evangelho da vida são um único e indivisível Evangelho”[48], o Papa une o anúncio de Cristo (o amor de Deus pelo homem) com o empenho da Igreja pela vida humana em todas as suas dimensões. Cristo, nossa esperança, é a vida em plenitude: este é o coração da mensagem evangélica e o conteúdo fundamental da missão da Igreja, do serviço que ela presta à humanidade.

 

As mesmas preocupações estão evidentes no tema escolhido pelo Papa e na Exortação pós sinodal do Sínodo dos Bispos para a América, Ecclesia in America[49]. O Sínodo, por um lado, convoca os povos da América para o encontro com Jesus Cristo vivo. Por outro, demonstra a solidariedade dos cristãos com todos os cidadãos, particularmente com os mais sofridos. Condição para realizar esta missão da Igreja é a comunhão eclesial, testemunho de unidade dos cristãos entre si e com o próprio Cristo.

 

Especialmente diante do “mundo” e diante dos que estão distantes de Cristo e do seu Evangelho, a solidariedade da Igreja com todos os seres humanos, sem discriminação, e os serviços que ela presta são os “sinais” hoje indispensáveis. A Igreja confia essas tarefas a todos os seus membros. A presença animadora e esclarecedora dos presbíteros é fundamental para superar a dificuldade de reconhecer a dimensão da fé e da caridade no social, no político e na luta pela justiça. A própria Santa Sé, através dos Conselhos “Justitia et Pax” (Justiça e Paz), “Cor Unum” (Um só coração) e da Fundação Populorum Progressio, busca promover o diálogo entre povos em conflito, a reconciliação entre nações e etnias divididas por antigos rancores, promover o desenvolvimento social, defender os direitos dos mais fracos, socorrer as populações em perigo[50]. O Santo Padre pessoalmente, com suas homilias e suas viagens, tem procurado levar, junto com a palavra do Evangelho, forte apelo à justiça e à paz.

 

A COMPETÊNCIA DOS LEIGOS

 

Não há dúvida de que a tarefa de promover a justiça e a paz, de efetivamente prestar solidariedade e serviço aos irmãos, especialmente aos mais necessitados, é em primeiro lugar responsabilidade dos cristãos que têm competência na economia, na política, nas relações internacionais, no sindicato, nas organizações assistenciais, nos movimentos populares, nas pastorais sociais. O Concílio tinha consciência disso. Na Constituição Lumen Gentium afirma que na tarefa de impregnar o mundo do espírito de Cristo e fazer que “atinja mais eficazmente o seu fim na justiça, na caridade e na paz, [...] compete aos leigos a principal responsabilidade”. E reconhece que “os leigos são chamados de modo especial a tornar presente e operante a Igreja naqueles lugares e circunstâncias, onde ela só por meio deles pode vir a ser sal da terra”[51]. O que significa que os leigos devem agir especialmente lá onde têm competência e preparo específico.

 

Em nosso País, muitas vezes de forma humilde e escondida, outras vezes através de uma atuação pública e destemida, muitos leigos e leigas cristãos lutaram e lutam pela justiça e a paz, dando corajoso testemunho evangélico e contribuindo para o serviço do mundo, cuja responsabilidade última cabe a todo o povo de Deus. Ao mesmo tempo, leigos e leigas contribuem para a edificação da comunidade eclesial, à qual prestam muitos serviços ou ministérios com generosidade e competência. Dessa forma, a missão evangelizadora da Igreja é realizada por todo o povo de Deus, com sua variedade de vocações e ministérios - ministros ordenados, consagrados e consagradas, leigos e leigas - que se harmonizam, sem confundir-se, na realização da tarefa comum.

 

2. O POVO DE DEUS

 

2.1. IGREJA DA TRINDADE SANTA

 

A Igreja tem consciência de ser uma  presença diferente no mundo. Ela sabe que está no mundo, mas não é do mundo[52]. Sua raiz última é o mistério insondável do Pai, que, por Cristo e no Espírito, quer que todos os homens e mulheres participem de sua vida de infinita e eterna comunhão, na liberdade e no amor, vivendo como filhos e filhas, irmãos e irmãs[53]. Por isso, o Concílio nos ensina que a Igreja não é simplesmente uma “sociedade” ao lado de outras, mas um mistério de comunhão: “Este é o sagrado mistério da unidade da Igreja, em Cristo e por meio de Cristo, enquanto o Espírito Santo opera a variedade dos dons. O supremo modelo e princípio deste mistério é a unidade na Trindade das pessoas de um só Deus Pai e Filho no Espírito Santo”[54]. A Igreja toda aparece como “o povo reunido na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo”[55].

 

MISTÉRIO DE COMUNHÃO

 

Nunca é demais, portanto, recordar e insistir que a Igreja é, em primeiro lugar, um mistério de  comunhão,  que reflete, com as limitações de seus membros e os limites do tempo e do espaço, o mistério da comunhão trinitária. A comunhão trinitária torna-se, então, fonte da vida e da missão da Igreja, modelo de suas relações e meta última de sua peregrinação.

 

2.2. POVO DE DEUS

 

Logo após ter apresentado a Igreja como “mistério” (cap. 1º da Lumen gentium), o Vaticano II apresenta a Igreja como “Povo de Deus” (cap. 2º da Lumen gentium). Estas duas noções não estão justapostas nem sobrepostas, mas intimamente relacionadas: se a primeira “fala da Igreja em toda a sua amplitude, desde o início da criação no desígnio de Deus, até à consumação celeste..., a outra trata do mesmo mistério, enquanto, no tempo intermédio entre a Ascensão do Senhor e a sua Parusia gloriosa, caminha para a meta bem-aventurada”[56]. O mistério de comunhão exprime-se no tempo – que está entre o primeiro e o segundo Advento do Filho – na comunhão articulada do Povo de Deus. Esta expressão evoca diferentes aspectos da complexa realidade que é a Igreja.

 

POVO LIVRE E FRATERNO

 

Antes de tudo, a expressão Povo de Deus faz-nos remontar a um momento decisivo das buscas religiosas da humanidade, quando o anseio humano do Absoluto se vê inesperadamente surpreendido e superado pelo advento gratuito da divina revelação: a revelação do nome de Javé a Moisés e a experiência do Êxodo, cujo resultado é, através da celebração da Aliança, a constituição de Israel em povo de Deus. À exigência de uma adesão incondicional e exclusiva a Javé  - “não terás outro deus além de mim”[57] - corresponde o amor ao próximo[58]. A expressão concreta deste preceito central é a solidariedade com o pobre [59]. Com efeito, Javé, como não se cansarão de repetir os profetas, é Deus dos pobres! Justamente por isso, o significado do Êxodo e da Aliança é ao mesmo tempo religioso (revela o rosto de Deus como sumamente próximo e soberanamente transcendente) e social (revela e tutela a dignidade de todo ser humano, sobretudo dos pobres, propondo o estatuto ideal de um povo livre e solidário). A posse da terra - dom de Deus a seus filhos - deve ser o “sacramento” a garantir a liberdade, a dignidade e a segurança conquistadas através do Êxodo. O Êxodo tinha por meta a liberdade e a fraternidade perfeitas entre os israelitas, filhos e filhas de Deus, que é Deus da vida! A nova e perfeita Aliança, porém, só se dará em Cristo: “Foi Cristo quem instituiu a nova Aliança (...) no seu sangue[60], chamando um povo que junto crescesse para a unidade, não segundo a carne, mas no Espírito, e fosse o novo Povo de Deus (...) Este povo messiânico tem por cabeça Cristo (...). Tem por condição a dignidade e a liberdade dos filhos de Deus, em cujos corações habita o Espírito Santo como num templo. Sua lei é o mandamento novo de amar (...). Sua meta é o Reino de Deus”. [61]

 

POVO QUE ABRE CAMINHO PARA O SERVIÇO

 

Em segundo lugar, a expressão Povo de Deus recorda que a Igreja é uma realidade histórica, fruto da livre iniciativa de Deus e da livre resposta dos seres humanos. Por isso, ela não pode furtar-se, em nenhuma circunstância, sobretudo nas grandes crises históricas - aquelas que marcam as viradas de civilização e de cultura, como a que estamos vivendo hoje - ao dever de fazer escolhas e de abrir caminhos.

 

 Situada, na verdade, entre a primeira vinda do Senhor Jesus em nossa carne mortal e sua segunda vinda em sua glória imortal, a Igreja participa, de um lado, da transitoriedade deste mundo, cuja “figura passa”[62], e, de outro lado, da definitividade de Deus, que um dia será “tudo em todos”[63]. Os discípulos, que outrora o acolheram na  carne humilde e pobre de Jesus de Nazaré através da fé, precisam agora acolhê-lo através do amor na carne desprezada e descartada dos famintos, sedentos, migrantes, despojados, doentes e encarcerados,[64]  “esperando contra toda esperança”[65]. O peregrinar da Igreja entre a Ascensão e a Parusia percorre, na força do Espírito, os passos de Jesus, que foi ungido pelo Espírito para “evangelizar os pobres, proclamar a remissão aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor”[66]. A Igreja não pode perder de vista o serviço à vida e à esperança, no amor e na liberdade, que é, neste mundo, seu horizonte maior!

 

MAIS IMPORTANTE É O QUE NOS UNE: A CONDIÇÃO CRISTÃ

 

A expressão Povo de Deus indica, em seguida, a Igreja “em sua totalidade”, ou seja, naquilo que é comum a todos os seus membros. Esta foi, sem dúvida, uma das maiores aquisições do Vaticano II e deve fazer valer todo o seu peso quando se trata de refletir sobre missão da Igreja e ministérios dos cristãos e cristãs leigos. Ao colocar, na Lumen Gentium, antes dos capítulos sobre a hierarquia (cap. III) e o laicato (cap. IV), o capítulo sobre o Povo de Deus (cap. II) – onde se sublinha tudo o que é comum a todos os membros da Igreja - o Vaticano II superou a concepção de Igreja como “sociedade desigual”[67], que favorecia aquela distância entre hierarquia e laicato, que o Novo Testamento não conhecia e que se revelou prejudicial para o testemunho cristão no mundo.

 

 A noção de Povo de Deus, com efeito, exprime a profunda unidade, a comum dignidade e a fundamental  habilitação de todos os membros da Igreja à participação na vida da Igreja e à corresponsabilidade na missão. Antes e além de toda e qualquer diferenciação carismática e ministerial, está a condição cristã, que é comum a todos os membros da Igreja.  O texto conciliar que exprime com maior eficácia esta profunda unidade e comum dignidade de todos os membros do Povo de Deus está situado justamente no capítulo da Lumen gentium dedicado aos leigos: “Um é pois o povo eleito de Deus: ‘um só Senhor, uma só fé, um só batismo’[68]. Comum a dignidade dos membros pela regeneração em Cristo. Comum a graça de filhos. Comum a vocação à perfeição. Uma só a salvação, uma só a esperança e indivisa a caridade. Não há, pois, em Cristo e na Igreja, nenhuma desigualdade em vista de raça ou nação, condição social ou sexo, porquanto ‘não há judeu ou grego, não há servo ou livre, não há varão ou mulher, porque todos vós sois um em Cristo Jesus’”[69].

 

Faz parte desta condição comum – dada pela fé, esperança e caridade e pelos sacramentos do batismo, da crisma e da eucaristia – a participação de todo o Povo de Deus nas funções profética, sacerdotal e real de Cristo.

 

PARTICIPAÇÃO NA FUNÇÃO PROFÉTICA

 

O Povo de Deus participa da função profética de Cristo “pela difusão de seu testemunho vivo, sobretudo através de uma vida de fé e caridade, e pelo oferecimento a Deus do sacrifício de louvor, fruto de lábios que confessam o seu nome”[70]. Além disso, graças à unção do Espírito Santo[71], “o conjunto dos fiéis (...) não pode enganar-se no ato de fé e manifesta esta sua peculiar propriedade mediante o senso sobrenatural da fé de todo o povo quando, “desde os Bispos até os últimos fiéis leigos”, apresenta um consenso universal sobre questões de fé e costumes. Por este senso da fé, suscitado e sustentado pelo Espírito da verdade, o Povo de Deus – sob a direção do sagrado Magistério, a quem fielmente respeita – não já recebe a palavra de homens, mas verdadeiramente a palavra de Deus[72]; apega-se indefectivelmente à fé uma vez para sempre transmitida aos santos[73]; e, com reto juízo, penetra-a mais profundamente e mais plenamente a aplica à vida”[74]. À função profética pertencem as várias modalidades de relação entre a comunidade dos fiéis e a palavra de Deus: sua acolhida na fé, sua vivência no amor, seu testemunho exterior, seu aprofundamento pela catequese e pela reflexão teológica, a denúncia em seu nome, o anúncio pela pregação, sua meditação na oração