V CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO
LATINO-AMERICANO
Dom Odilo Pedro Scherer
Bispo Auxiliar de São Paulo
Secretário Geral da CNBB
Nota: Por determinação de Sua Santidade o Papa Bento XVI, a V Conferência
Geral do episcopado Latino-americano será realizada em Aparecida do Norte, São Paulo.
As Conferências Gerais
Há 50 anos, em 1955, foi
realizada a primeira Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano (CfG), no Rio de Janeiro. Naquela
mesma ocasião, também era fundado o Conselho do Episcopado Latino-Americano
(CELAM). A segunda CfG
aconteceu em 1968, em Medellín (Colômbia) e a terceira, em Puebla
(México), em
Depois da Assembléia Especial do
Sínodo dos Bispos para a América (Vaticano, 16/11 a 12/12 1997), sugiram
questionamentos sobre a oportunidade de continuar realizando as CfG do Episcopado
Latino-Americano, como vinha acontecendo no passado. Perguntava-se, se não era
mais oportuno fazer uma nova Assembléia do Sínodo dos Bispos para a América,
incluindo as Conferências Episcopais (CfE)
da América do Norte, ou então uma Assembléia Geral do CELAM?
Uma sondagem realizada entre os
cardeais latino-americanos e os presidentes das CfE da AL e do Caribe sobre a vigência das CfG deu um resultado muito positivo, com 75% de pareceres
favoráveis a esse modo de expressão colegial entre os episcopados.
Ainda em fevereiro de 2005, na
reunião inter-americana das CfE, os representantes das CfE
dos Estados Unidos e do Canadá manifestaram seu parecer plenamente favorável à
manutenção das CfG do Episcopado Latino-Americano e
do Caribe, como vinha sendo feito. Ao mesmo tempo, foi assinalado que este tipo
de reunião do episcopado não deveria ser visto como alternativa, ou até
empecilho para a maior integração americana das Igrejas; a progressiva
maturação da identidade latino-americana de nossas Igrejas deveria corresponder
normalmente a uma progressiva comunhão eclesial em nível continental e
universal.
A expressão colegial, que se manifesta
através das CfG, está
fundamentada no Concílio Vaticano II: “O mesmo poder colegial pode ser
exercido, junto com o Papa, pelos Bispos dispersos por toda a terra, contanto
que o Chefe do Colégio os convoque para uma ação colegial, ou ao menos aprove
ou livremente aceite a ação de conjunto
dos Bispos dispersos, de modo que se torne um verdadeiro ato colegial” (ChD 4; cf LG 22).
Em vez disso, o Sínodo foi concebido
pelo Concílio com uma finalidade diversa: É um organismo de conselho, que o
Papa convoca de maneira autônoma. “Os Bispos eleitos nas diversas regiões do
mundo, nos modos e métodos estabelecidos ou a serem estabelecidos pelo Romano
Pontífice, prestam ao Supremo Pastor da Igreja ajuda mais válida no Conselho
que tem por nome Sínodo Episcopal” (ChD
5). O Sínodo é, por sua natureza, um organismo consultivo.
A CfG do Episcopado tem um caráter eminentemente
pastoral. Os Bispos analisam a vida da Igreja em seus territórios, descobrem os
aspectos positivos e negativos, identificam os problemas comuns e deliberam em
comum sobre as soluções e linhas de ação pastoral, salvo sempre o direito do Bispo
em sua diocese, a menos que alguns pontos importantes, a pedido da Conferência,
sejam aprovados pelo Papa como obrigatórias para todos.
A definição da modalidade de reunião
do Episcopado Latino-Americano e Caribenho, na forma de Conferência Geral, como
já foi feito por 4 vezes, foi dada pelo próprio Papa João Paulo II no dia 27 de
maio de 2004, durante a audiência concedida ao Presidente e ao Secretário Geral
do CELAM. Depois de ouvir os relatos sobre a preparação da V CfG, e colocado diante das
interrogações que se levantavam sobre a conveniência de mudar a forma da
reunião, o Papa comunicou sua palavra de aprovação, com estas palavras: “mantenete la vostra
forma” (continuem a fazer como vinham fazendo...).
Tema e método da V Conferência
Desde logo, trabalhou-se com a
hipótese de ter o discipulado como tema da V CfG. As 22 CfE
da AL e do Caribe foram solicitadas a se pronunciarem sobre a formulação do tema.
e os principais eixos do desenvolvimento do tema
sugerido.
A Presidência da CNBB constituiu
em dezembro de 2004 um Grupo de Trabalho para estudar os apontamentos enviados
pelo CELAM e para sugerir as respostas a serem dadas às questões postas. O
Conselho Permanente, reunido em fevereiro passado, examinou as respostas
sugeridas pelo Grupo de Trabalho. Esses mesmos subsídios deveriam ter sido
levados à Assembléia Geral, para que todo o episcopado pudesse dar sua
colaboração e enriquecer as respostas da CNBB. No entanto, a Assembléia teve
que ser adiada e as respostas precisavam ser enviadas
ao CELAM até 15 de abril de 2005. Assim, a contribuição da
CNBB para a definição do tema e os eixos principais do desenvolvimento do tema
ficaram por conta do Conselho Permanente.
Depois que a Comissão Central
recolheu todas as contribuições das Conferências Episcopais, a Presidência do
CELAM apresentou ao Papa as propostas de definição do tema da V CfG., antes de abril de 2005.
Bento XVI, no dia 7 de julho passado, definiu o tema:
DISCÍPULOS E MISSIONÁRIOS DE
JESUS CRISTO
PARA QUE NOSSOS POVOS NELE TENHAM A VIDA
“Eu sou o Caminho, a Verdade e a
Vida” (Jo 14,6).
A motivação para a escolha desse
tema vem da Ecclesia in América e dos recentes
Documentos Pontifícios, que colocam em destaque o tema do discipulado. Mas
também vem da reflexão
sobre a identidade da Igreja e de cada um dos seus membros, enquanto seguidores
de Jesus Cristo, chamados à santidade, à missão e ao serviço nas atuais
circunstâncias da AL e do Caribe. Trata-se também de motivar interiormente, e
com vigor, a Igreja
para que esteja presente com maior coerência de vida e com força na sociedade.
Os núcleos temáticos tendem a ser a perene atualidade
do anúncio da Boa Nova para os povos e culturas desta parte do mundo, a
identidade do cristão católico, a pertença eclesial, a proposta antropológica
cristã diante dos novos desafios e a urgência de uma nova postura missionária
dos católicos latino-americanos e caribenhos neste início de 3° milênio da
existência da Igreja. A Igreja Católica, neste Continente, está sendo convidada
a colocar-se em atitude de escuta, para “ouvir o que o Espírito diz às Igrejas”,
e de discernimento, para “desentranhar a vox
Dei na vox temporis.
Deseja o CELAM que o método de
preparação da V CfG seja
semelhante ao que foi usado na preparação da Conferência de Puebla;
é desejada uma participação envolvente das comunidades e das organizações
eclesiais “na base”. Isso vai depender das CfE e das dioceses, que serão os principais atores na
preparação da Conferência. Os Delegados à V CfG, a serem escolhidos pelas CfE,
serão portadores de propostas já refletidas pelas comunidades diocesanas e
Igrejas locais.
A participação ampla das “bases
eclesiais” é vista como parte do processo de realização da V CfG. Por isso, podemos afirmar que
a V Conferência, de fato, já começou. E não terminará com a realização da
Assembléia dos Delegados e com o Documento final: prevê-se que haverá uma etapa
posterior, que novamente envolverá as “bases eclesiais”. Esta metodologia fica
mais clara na exposição sobre as etapas previstas para a realização da V CfG.
Etapas na preparação e realização
da V Conferência
a) Em fevereiro de 2004, em Puebla (México), ao mesmo tempo que
comemoravam os 25 anos da Conferência de Puebla, os
Presidentes das CfE, juntamente com Cardeais
Latino-Americanos e Caribenhos, trataram da realização da V CfG.
Ao mesmo tempo, era escolhido o “pré-tema” do discipulado e constituída uma
Comissão Central de preparação da V Conferência. Pelo Brasil, o Cardeal Dom
Cláudio Hummes faz parte dessa Comissão Central.
b) Depois disso, o CELAM promoveu
4 reuniões regionais de Presidentes e Secretários Gerais das CfE (Cone Sul, Países Bolivarianos, América Central com o México e Países do
Caribe e Antilhas), para a reflexão sobre os elementos essenciais de um
possível texto preparatório: Desafios atuais da evangelização; principais
núcleos temáticos que deverão orientar as reflexões; metodologia e cronologia da preparação do evento.
c) De posse desses elementos, a
Comissão Central fez um primeiro esboço de Texto Preparatório, que foi
encaminhado em novembro de
d) Nos dias
e) A época provável de realização
da V CfG é fevereiro de
2007; o lugar, até agora, também ainda não está confirmado, mas é certo que se
deseja realizar a Conferência com a participação do Papa. Isto vai condicionar,
certamente, a escolha do local. Segundo informações do CELAM, é provável que a
data e o lugar serão definidos em outubro, durante o
Sínodo, com a presença dos delegados latino-americanos no sínodo.
f) Em julho de
g) O resultado da participação das
“bases eclesiais” será recolhido pelas Conferências Episcopais e encaminhado à
Comissão Central. Em agosto de 2006 deverá ser redigido o DOCUMENTO DE SÍNTESE
(DS) de todas as propostas vindas das CfE.
h) O DS, sobre o qual deverá
trabalhar a V CfG, será enviado aos Bispos escolhidos pelas CfE, como Delegados
à V CfG.
i)O
CELAM também prevê a realização de diversos eventos eclesiais, como parte do
processo de preparação da V CfG:
j) Os Organismos eclesiais
latino-americanos (CLAR, CIEC, OSLAM, CLAT, etc)
serão convidados a participar, quer estimulando os membros de suas instituições a
integrarem-se ativamente nas reflexões do povo de Deus, nas “bases eclesiais”,
quer pedindo a esses Organismos a apresentação de propostas qualificadas e
específicas.
l) Prevê-se que em maio de 2007,
na XXXI Assembléia Geral do CELAM, seja elaborado um novo Plano Global
Quadrienal (2007-2011) para o CELAM; desde já se projeta, como etapa posterior,
mas sendo parte integrante da V CfG, a realização de
uma grande “Missão Continental” em toda a área da AL, Caribe e Antilhas, com a
preparação de equipes missionárias, subsídios e propostas para a realização de
missões nas CfE e dioceses.
A participação das CfE e Igrejas Particulares
Embora os Organismos do CELAM
tenham um papel importante na organização da V CfG, a preparação desta, de fato, dependerá sobretudo
das CfE e das dioceses. A sua participação será
pedida especialmente a partir de agosto de 2005, quando as CfE receberão o DP e o repassarão às dioceses.
Espera-se que as dioceses, de posse desse Documento, possam trabalhá-lo
intensamente e oferecer suas contribuições.
Cada CfE
também poderá realizar encontros (seminários, simpósios, jornadas,
romarias...), em nível nacional ou regional, com a motivação apresentada pelos
diversos temas vinculados à temática central da V CfG.
As próprias CfE estarão encarregadas de definir o método mais
adequado para conseguir a participação ampla e o envolvimento do Povo de Deus
na V CfG.
Cada CfE
também deve constituir uma Comissão Episcopal com a tarefa específica de
motivar, animar e acompanhar a preparação da V CfG.
Os Delegados das CfE junto ao CELAM e os Secretários Gerais
deveriam, normalmente, integrar essa Comissão. Finalmente, as próprias CfE deverão recolher e encaminhar
ao CELAM, antes de agosto de 2006, os frutos de todas essas contribuições.
Participantes da V Conferência
Ainda não há definição exata sobre
este ponto, mas apenas estimativas, com base à praxe adotada nas CfG anteriores. Seriam
aproximadamente 15% dos membros de cada CfE,
somando cerca de 300 bispos. De toda maneira, isso ainda está por ser definido
melhor.
Os Delegados para a V CfG deverão ser eleitos pela CNBB
na Assembléia Geral de 2006.
Financiamento da V Conferência
O CELAM prevê obter o financiamento
para a realização da V CfG
de 6 fontes: do próprio CELAM, da CAL, dos Organismos de ajuda internacional
(ADVENIAT, MISEREOR, Kirche in Not,
Conferência Episcopal EUA, etc), de dioceses e
fundações européias, de publicações do CELAM
relativas à V CfG.
Das próprias CfE é esperada uma pequena ajuda, que poderá ser a
cobertura das passagens dos seus delegados para a V CfG.
Conclusão
A preparação da V Conferência
Geral do Episcopado Latino-Americano e Caribenho já teve início e, a partir de
agora, nos envolve mais diretamente. Certamente será um período muito rico de iniciativas eclesiais, que
poderá deixar marcas profunda na evangelização de nossos povos.
Em vista do envolvimento mais
amplo da Igreja no Brasil neste processo de preparação da Conferência, penso
que a primeira questão a ser resolvida pela CNBB é a formação de uma Comissão
Episcopal para incentivar, orientar e acompanhar todo o processo de preparação, no
Brasil. E seria muito importante se essa Comissão pudesse ser formada já
durante esta Assembléia Geral
Informações sobre a V Conferência
poderão ser obtidas diretamente no CELAM, nos portais: www.celam.org; ou www.celam.info.
Itaici, 15 de agosto de 2005