SÍNODO DOS BISPOS

XI ASSEMBLEIA GERAL ORDINÁRIA

 

A EUCARISTIA:

FONTE E ÁPICE DA VIDA
E DA MISSÃO DA IGREJA

 

LINEAMENTA

 

 

ÍNDICE

APRESENTAÇÃO

INTRODUÇÃO

Capítulo I : O Sacramento da nova e eterna aliança

A Eucaristia na história da salvação
O único sacrifício e sacerdócio de Jesus Cristo
A acção de graças e de louvor ao Pai 
O memorial do Mistério Pascal
A presença permanente do Senhor

Capítulo II : A Eucaristia: um dom à Igreja a descobrir constantemente

Os Padres e Doutores da Igreja
O sacramento da unidade e santidade da Igreja 
A apostolicidade da Eucaristia
A catolicidade da Eucaristia 

Capítulo III : A Eucaristia: mistério de fé proclamado

O Magistério da Igreja Católica
A natureza da Eucaristia 
A Eucaristia e a encarnação do Verbo
Luzes e sombras na compreensão do Dom
A Eucaristia signum unitatis

Capítulo IV : A liturgia da Eucaristia

O centro da liturgia cósmica 
Quando a Eucaristia é validamente celebrada 
O acto penitencial
A Palavra de Deus e o Símbolo da fé
A apresentação dos Dons
A Oração Eucarística
A instituição da Eucaristia 
A epiclese sobre os Dons consagrados 
A Igreja dos Santos na Eucaristia
A preparação para a Comunhão 
A santa Comunhão

CapítuloV : A mistagogia eucarística para a nova evangelização

Os Padres
A hodierna negação do mistério
A mistagogia hoje
Presidir à Eucaristia
O decoro da Celebração Eucarística
A dignidade do canto e da música sagrada
O encontro com o mistério através da arte
A orientação da oração
A área particularmente sagrada do presbitério ou santuário
O altar, mesa do Senhor
O tabernáculo, tenda da Presença

CapítuloVI : A Eucaristia: um dom para ser adorado

O espírito da Liturgia é a adoração
A Comunhão e a adoração são inseparáveis
O sentido do mistério e as atitudes que o exprimem
A Eucaristia sacramentum pietatis

Capítulo VII : A Eucaristia: um dom para a missão

A santificação e divinização do homem
A Eucaristia, vinculum charitatis
O remédio do corpo e do espírito
O significado social da Eucaristia

Conclusão

Questionário


 

 

APRESENTAÇÃO


Os Padres da X Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, na conclusão dos seus trabalhos em Outubro de 2001, foram interpelados sobre o tema da assembleia seguinte e, entre outros, sugeriram o da Eucaristia. Por sua vez, a consulta que se costuma fazer às Conferências Episcopais, às Igrejas Orientais sui iuris, aos Dicastérios da Cúria Romana e à União dos Superiores Gerais, indicou também, e com singular convergência, o tema da Eucaristia como prioritário. No mesmo sentido se pronunciaram os membros do Conselho Ordinário da Secretaria Geral. Foi precisamente esse o tema que o Santo Padre escolheu e mandou que fosse submetido à meditação colegial dos Bispos reunidos na XI Assembleia Geral Ordinária. A fórmula, que evoca a doutrina e linguagem do Concílio Vaticano II, é formulada nos seguintes termos: Eucharistia fons et culmen vitae et missionis Ecclesiæ.

O Conselho da Secretaria Geral dedicou ao tema algumas sessões de trabalho, que, com a ajuda de especialistas, levaram ao presente texto dos Lineamenta.

Como é aliás bem sabido, trata-se do primeiro passo da consulta universal, que dará a possibilidade a todas as Igrejas particulares, espalhadas pelo mundo, de entrar no processo sinodal com a reflexão, a oração e as sugestões mais oportunas, por forma a se poder preparar o Instrumentum laboris, que constituirá a ordem do dia da Assembleia sinodal.

A consulta em vista dessa futura Assembleia sinodal contém uma novidade na história do Sínodo dos Bispos: o tema corresponde, de facto, ao de uma recente Encíclica pontifícia sobre a Eucaristia na sua relação vital com a Igreja, a Ecclesia de Eucharistia. A circunstância merece ser tida em conta pela influência directa que terá na consulta e no trabalho sinodal verdadeiro e próprio.

Não surpreende o facto de um Sínodo ser chamado a debruçar-se sobre uma matéria tratada pelo Magistério pontifício ordinário. O que admira é a proximidade cronológica e a identidade promulgativa: é o mesmo Papa, que, num breve espaço de tempo, escreve sobre a Eucaristia e confia a um Sínodo o mesmo tema. Tudo isto é rico de significado para o Pontífice, para os Bispos e para a Igreja.

É clara a vontade do Pastor, manifestada na Encíclica, de estimular os destinatários, ou seja, a Igreja universal, a se dedicarem com novas energias espirituais e renovado amor ao mistério eucarístico, vital para a mesma Igreja. Com este novo acto do Magistério ordinário, exprime-se assim a solicitude de repetir ao povo de Deus, com acentuações aderentes às condições hodiernas, uma verdade perene e necessária para a sobrevivência da Igreja na história.

A Assembleia sinodal tem finalidades consultivas, e mesmo que desta vez os Bispos não sejam convocados pelo Papa para darem sugestões em vista de intervenções doutrinais, existem, todavia, razões suficientes para reunir os pastores, para que, num tema tão decisivo para a vida e missão da Igreja, manifestem as exigências e implicações pastorais da Eucaristia na celebração, no culto, na pregação, na caridade e nas diversas obras em geral.

O ponto mais relevante, porém, é outro. Considerando a evidente analogia dos títulos, é inevitável perguntar qual a razão que terá levado o Papa a escolher um tema já tratado. A resposta a essa objecção dialéctica encontra-se na observação do que se passa na vida actual da Igreja. Não há dúvida de que, hoje, existe na Igreja uma “urgência eucarística”, não já derivada de uma incerteza de fórmulas, como acontecia no tempo do Vaticano II, mas porque a hodierna praxe eucarística carece de uma nova e amorosa expressão, feita de gestos de fidelidade Àquele que se faz Presente a quantos hoje continuam a procurá-l’O: “Mestre, onde moras?”.

Espera-se, portanto, que estes Lineamenta encorajem as Conferências Episcopais, as Igrejas Orientais sui iuris, os Dicastérios da Cúria Romana e a União dos Superiores Gerais na reflexão e verificação pastoral, convidando, ao mesmo tempo, todos os componentes da Igreja a darem o seu contributo, para que as respostas ao questionário dos Lineamenta sejam completas e significativas, e assim se possa realizar um profícuo trabalho sinodal.

Para um conveniente andamento do processo sinodal, as respostas deverão ser recebidas nesta Secretaria Geral antes do 31 de Dezembro de 2004.

Com estas respostas, prossegue em todas as Igrejas particulares o caminho do Sínodo, em que os Bispos, como Pastores da grei, em colegialidade entre si e com o Papa, se preparam para reflectir sobre um tão grande Sacramento de que vive a Igreja.

25 de Fevereiro de 2004

Jan P. Card. Schotte, C. I. C. M.
Secretário Geral

 


INTRODUÇÃO

 

O porquê de um sínodo sobre a Eucaristia

1. Deus invisível manifestou-se no Verbo feito carne, o Filho Jesus Cristo. Depois da Ascensão, “o que era visível do nosso Redentor passou para os ritos sacramentais”.[1] Por isso “Vemos uma coisa e entendemos outra. Vemos um homem (Jesus), mas acreditamos em Deus”.[2]

A Igreja, sacramento da salvação de Jesus Cristo para o homem, vive do culto centrado no Verbo encarnado, sacramento do Pai. O Cânone Romano e a anáfora de São João Crisóstomo definem a Santa Missa como ‘oblationem rationabilem’ e ‘logikèn latreían’, o tornar-se evento da palavra divina, em que participam o espírito e a razão. Aquele que é a palavra, o Verbo, dirige-se ao homem e espera dele uma resposta compreensível, racional (rationabile obsequium). Assim, a palavra humana torna-se adoração, sacrifício e acção de graças (eucharistía). Este ‘culto espiritual’ (cf. Rom 12, 1) é o coração da ‘participação’ activa e consciente do povo de Deus no mistério eucarístico,[3] que atinge a plenitude na Sagrada Comunhão.[4]

2. O Concilio ecuménico Vaticano II dedicou ao Mistério Eucarístico o capítulo III da Constituição sobre a Sagrada Liturgia. Tudo o que, porém, nesse Documento se diz da Liturgia, como ápice e fonte da acção da Igreja, diz respeito, antes de mais, à celebração da Eucaristia, a ‘Divina Liturgia’, como os Orientais preferem chamá-la. O tema do próximo Sínodo será a Eucaristia, na qual o povo de Deus participa em virtude do Baptismo. Ela é, de facto, o ‘ápice’ da iniciação cristã, como o é da acção apostólica, uma vez que esta última pressupõe a participação na comunhão da Igreja. E é, ao mesmo tempo, ‘fonte’, porque constitui o alimento da sua vida e missão.[5] Eis porque a Encíclica de João Paulo II, Ecclesia de Eucharistia, refazendo-se à Carta apostólica Novo millennio ineunte, que exortava a conhecer, a amar e imitar Cristo, mostra como “um renovado impulso na vida cristã passa pela Eucaristia”.[6]

3. A VI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos abordou o tema da Reconciliação e, no âmbito deste, o do sacramento da Penitência, meio ordinário para voltar à comunhão com Cristo e com a Igreja, que culmina na Eucaristia. A rica reflexão dessa abordagem confluiu na Exortação apostólica pós-sinodal Reconciliatio et Pænitentia. Também a V Assembleia Geral Ordinária, que se ocupou da família, prestou atenção a essa originária comunhão de sangue e de espírito, que encontra a fonte da sua vitalidade precisamente num outro sacramento, o Matrimónio, mistério grande, sinal da união entre Cristo e a Igreja (cf. Ef 5, 32). Os últimos quatro Sínodos ordinários reflectiram sobre as componentes fundamentais da comunhão eclesial – o laicado, o sacerdócio ministerial, os consagrados e os Bispos –, comunhão eclesial que a Eucaristia pressupõe para aperfeiçoá-la.[7] Compreende-se assim o porquê de uma assembleia sinodal sobre o sacramento que manifesta a apostolicidade e a catolicidade da Igreja e faz crescer a sua unidade e santidade.

Assim se conseguirá que:

a. a Eucaristia se mantenha no centro da atenção da Igreja, tanto a nível universal como local, de modo especial nas paróquias e comunidades, já durante a fase preparatória do Sínodo;

b. a fé na Eucaristia receba um necessário aprofundamento;

c. debruçando-se sobre um tema tão relevante, a assembleia sinodal adquira uma importância especial no início do terceiro milénio da Cristandade e contribua para o programa de renovação da vida e da missão cristã das pessoas e das comunidades;

d. e a especial atenção, constantemente dada pelo ensinamento da Igreja à Santíssima Eucaristia, desde os tempos apostólicos aos Santos Padres e aos escritores sagrados da Idade Média; desde os Concílios, em especial os de Trento e do Vaticano II, aos principais Documentos interdicasteriais e pontifícios, citados inclusive pela recente Encíclica de João Paulo II, Ecclesia de Eucharistia, seja de novo e mais profundamente assumida na sua totalidade

4. O tema escolhido por João Paulo II para a XI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos é a Eucharistia fons et culmen vitæ et missionis Ecclesiæ. Entre as questões que deverão ser objecto de aprofundamento, indicam-se sobreudo três:

a. o Filho de Deus, Jesus Cristo, com os gestos da última Ceia e sobretudo com as palavras ‘Fazei isto em memória de Mim’, não entendia uma simples refeição fraterna, mas uma liturgia, verdadeiro culto de adoração ao Pai ‘em espírito e verdade’ (cf. Jo 4, 24);

b. com a reforma litúrgica, não foi destruído o secular património da Igreja Católica. Apenas se procurou promover, na fidelidade à tradição católica, a renovação da Liturgia para favorecer a santificação dos cristãos;

c. a presença real do Senhor no Santíssimo Sacramento foi querida por Ele mesmo para que o Deus Emanuel fosse, hoje e sempre, um Deus próximo do homem, o seu Redentor e Senhor.

5. A preparação da XI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos e os seus trabalhos inserem-se no conjunto do Magistério e da doutrina da Eucaristia, de modo especial no ensinamento do Concílio Vaticano II, que tornou a Igreja ainda mais consciente de que “o nosso Salvador instituiu na última Ceia, na noite em quefoi entregue, o sacrifício eucarístico do seu Corpo e do seu Sangue, para perpetuar no decorrer dos séculos, até Ele voltar, o sacrifício da Cruz”.[8] Como esposa amada, a Igreja sabe que tem de celebrar “o memorial da sua Morte e Ressurreição: sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal, em que se recebe Cristo, a alma se enche de graça e nos é dado o penhor da glória futura”.[9]

A doutrina eucarística, com os seus fundamentos bíblicos, patrísticos e teológicos, e com o seu apelo catequético e mistagógico, permeia todos os Documentos do Concílio Vaticano II e do Magistério pós-conciliar; tem por objectivo levar os fiéis ao mistério da Santíssima Eucaristia e à adoração do mesmo, como profundamente o ilustram as tradições do Oriente e do Ocidente, presentes na única Igreja Católica. Entre os Documentos pós-conciliares que aplicaram a Constituição sobre a Sagrada Liturgia, continuam a ser fundamentais para a compreensão e celebração da Eucaristia a Encíclica Mysterium fìdei de Paulo VI e a Institutio Generalis Missalis Romani, publicada em 1970 e revista em 2000, com as normas a observar na Santa Missa em Rito Romano. Nestes textos, bem como no Catecismo da Igreja Católica,[10] nos Códigos da Igreja Latina[11] e das Igrejas Orientais,[12] na Instrução para a aplicação das normas litúrgicas do Código dos Cânones das Igrejas Orientais, publicada em 1996, encontram-se os aprofundamentos doutrinais e as indicações pastorais, recentemente lembradas na Encíclica de João Paulo II, Ecclesia de Eucharistia.[13]


Capítulo I

O Sacramento da nova e eterna aliança

A Eucaristia na história da salvação

6. A oferta e o sacrifício feitos a Deus em sinal de gratidão, de súplica e reparação pelos pecados, representam no Antigo Testamento o contexto preparatório remoto da última Ceia de Jesus Cristo. A esta já faz alusão a figura do Servo de Javé, que se oferece em sacrifício, derramando o seu sangue para a nova aliança (cf. Is 42, 1-9; 49, 8), em substituição e em benefício da humanidade. As próprias refeições religiosas dos Hebreus, de modo especial o memorial pascal do Êxodo e o banquete sacrificial, serviam para exprimir o agradecimento pelos benefícios recebidos de Deus e para entrar em comunhão com Ele, graças às vítimas sacrificais (cf. 1 Cor 10, 18-21). Também a Eucaristia leva à comunhão com o sacrifício de Jesus Cristo. Além disso, na tradição e culto hebraicos, a bênção (berakà) constituía, por um lado, a comunicação da vida de Deus ao homem e, por outro, o reconhecimento, cheio de maravilha e de adoração, da obra de Deus por parte do homem. Isso fazia-se através do sacrifício no templo e da refeição em casa (cf. Gen 1, 28; 9, 1; 12, 2-3; Lc 1, 69-79). A bênção era, ao mesmo tempo, euloghìa, ou seja, louvor a Deus, e eucharistìa, ou seja, acção de graças. Este último aspecto acabará por identificar, no Cristianismo, a forma e o conteúdo da anáfora ou oração eucarística.

Os Hebreus tinham também uma refeição sagrada ou sacrifício convival (tôdâ) (vejam-se, por exemplo, os Salmos 22 e 51) que se fazia no tempo de Jesus e se caracterizava pelo agradecimento e pelo sacrifício incruento do pão e do vinho. Pode compreender-se assim um outro aspecto da última Ceia, o do sacrifício convival de agradecimento. O rito veterotestamentário do sangue derramado em sacrifício serve de fundo ao tema da aliança que Deus gratuitamente estabelece com o seu povo (cf. Gen 24, 1-11). Preanunciado pelos profetas (cf. Is 55, 1-5; Jer 31, 31-34; Ez 36, 22-28), e absolutamente necessário para compreender a última Ceia e toda a revelação de Cristo, esse rito tem um nome – em hebraico berìt, traduzido em grego por diathéke –, que indicará também o corpo dos escritos do Novo Testamento. De facto, o Senhor sancionou na última Ceia a aliança, o seu testamento, com os discípulos e com toda a Igreja.

Os sinais proféticos e o memorial preanunciados no Antigo Testamento (a Ceia no Egipto, o dom do maná, a celebração anual da Páscoa) realizam-se nos sacramentos ou mistérios da Igreja. Neles, está contida a força divina santificadora, transformadora e divinizante da morte e ressurreição do Senhor, celebrada todos os Domingos, ou melhor, todos os dias, na Páscoa cristã. Diz Santo Ambrósio: “Considera, então, se é mais excelente o pão dos Anjos ou a carne de Cristo, que é verdadeiramente um corpo que dá vida […] Aquele acontecimento era figura, este é verdade”.[14]

O único sacrifício e sacerdócio de Jesus Cristo

7. O facto histórico da última Ceia é narrado nos Evangelhos de São Mateus (26, 26-28), de São Marcos(14, 22-23) e de São Lucas (22, 19-20) e em São Paulo, na primeira Carta aos Coríntios (11, 23-25), passagens que permitem compreender o sentido do acontecimento: Jesus Cristo dá-se (cf. Jo 13, 1) como alimento do homem: dá o seu corpo e derrama o seu sangue por nós. Esta aliança é nova, porque inaugura uma nova condição de comunhão entre o homem e Deus (cf. Heb 9, 12): Além disso, é nova e melhor que a antiga, porque, sobre a cruz, o Filho oferece Si mesmo, dando a quantos O recebem o poder de se tornarem filhos do Pai (cf. Jo 1, 12; Gal 3, 26). O mandamento Fazei isto em memória de Mim indica a fidelidade e a continuidade do gesto, que deve permanecer até à vinda do Senhor (cf. 1 Cor 11, 26).

Realizando este gesto, a Igreja recorda ao mundo que entre Deus e o homem existe uma amizade indestrutível, graças ao amor de Cristo, que, oferecendo-Se, venceu o mal. Nesse sentido, a Eucaristia é força e lugar de unidade do género humano. Mas a novidade e o significado da última Ceia estão imediata e directamente ligados ao acto redentor da cruz e da ressurreição do Senhor, ‘palavra definitiva’ de Deus ao homem e ao mundo. Assim, Cristo, com o desejo ardente de celebrar a Páscoa, de Se oferecer (cf. Lc 22, 14-16), torna-Se a nossa Páscoa (cf. 1 Cor 5, 7): a cruz tem início na Ceia (cf. 1 Cor 11, 26). E é a mesma pessoa, Jesus Cristo, que, na Ceia de modo incruento e sobre a cruz com o seu próprio sangue, é sacerdote e vítima que Se oferece ao Pai: “sacrifício que o Pai aceitou, retribuindo essa doação total de seu Filho, que Se tornou ‘obediente até à morte’ (Fil 2, 8), com a sua doação paterna, ou seja, com o dom da vida nova imortal na ressurreição, porque o Pai é a primeira fonte e o doador da vida desde o princípio”.[15] Por isso, não se pode separar a morte de Cristo da sua ressurreição (cf. Rom 4, 24-25), com a vida nova que daí provém, e na qual somos inseridos com o Baptismo (cf. Rom 6, 4).

8. O Evangelho de São João trata do mistério eucarístico no capítulo sexto. Num esquema parecido com o da última Cena, descreve-se o milagre dos poucos pães distribuídos a uma multidão e, ao mesmo tempo, Jesus fala do pão que dá a vida, ou seja, a sua carne e o seu sangue, que são verdadeiro alimento e verdadeira bebida; quem tem fé em Jesus Cristo come a sua carne e consegue viver eternamente. Não é fácil compreender o sermão da Eucaristia. Só quem procura Jesus, e não a si mesmo, pode compreendê-lo (cf. Jo 6, 14.26). Tal compreensão manifesta-se, depois do Pentecostes, na reunião assídua dos baptizados, fiéis ao ensinamento dos Apóstolos, à comunhão fraterna e à fractio panis (cf. Act 2, 42.46; 20, 7-11) na ‘Ceia do Senhor’ (cf. 1 Cor 11, 20). Aí reside o fundamento da dimensão apostólica da Eucaristia. Os relatos do Novo Testamento relativos à Eucaristia, vivida como acção de graças e memória sacramental, põem em evidência o facto de que, reconhecendo o corpo e o sangue do Senhor na Comunhão do pão e do vinho consagrados, se reconhece a sua presença. Do mesmo modo, considera-se um acto grave, uma verdadeira condenação, confundir a ‘Ceia do Senhor’ com uma refeição qualquer (cf. 1 Cor 11, 29). Além disso, o Apóstolo dá por descontado o facto de a presença do Senhor no seu corpo e sangue não depender das condições de quem O recebe, e de a comunhão dos mesmos fazer de todos um só corpo, uma vez que deles promana a vida de Cristo. Constituir um só coração e uma só alma (cf. Act 2, 46; 4, 32-33), a ponto de tornar possível a comunhão dos bens, era a característica da Igreja apostólica que partilhava as alegrias e os sofrimentos dos seus membros, ou seja, vivia a caridade (cf. 1 Cor 12, 26-27).

Do quadro bíblico emergem os seguintes pontos sólidos da verdade sobre a Eucaristia, que fazem do sacramento do altar uma única realidade sacrificial e sacerdotal: a acção de graças e de louvor ao Pai, o memorial do Mistério Pascal e a presença permanente do Senhor.[16]

A acção de graças e de louvor ao Pai

9. Na memória da Igreja, ao centro da celebração eucarística encontram-se as palavras da presença de Jesus no meio de nós. “Isto é o meu corpo, […] este é cálice do meu sangue”. Jesus oferece-Se como sacrifício verdadeiro e definitivo, onde se realizam todas as figuras do Antigo Testamento. N’Ele se recebe o que fora sempre desejado e nunca conseguido.

Mas Jesus, à luz da profecia (cf. Is 53, 11s.), sofre pela multidão e mostra que n’Ele se realiza o verdadeiro sacrifício e o verdadeiro culto esperados. É Ele mesmo que está diante de Deus; que intercede, não por Si mas por todos. Esta intercessão é o verdadeiro sacrifício, a oração, a celebração agradecida a Deus, em que restituímos nós próprios e o mundo. A Eucaristia é, portanto, sacrifício a Deus em Jesus Cristo, para receber em domo o seu amor.

10. Jesus Cristo é o Vivente e encontra-Se na glória, no santuário do céu, onde entrou graças ao seu sangue (cf. Heb 9, 12). Encontra-se no estado imutável e eterno de sumo sacerdote (cf. Heb 8, 1-2); “tem um sacerdócio que não terá fim” (Heb 7, 24s); oferece-Se ao Pai e, pelos méritos infinitos da sua vida terrena, continua a irradiar a redenção do homem e do cosmo, que n’Ele se transforma e se recapitula (cf. Ef 1, 10). Tudo isto significa que o Filho Jesus Cristo é mediador da nova aliança para os que foram chamados à herança eterna (cf. Heb 9, 15). O seu sacrifício dura eternamente no Espírito Santo, que recorda à Igreja tudo o que o Senhor realizou como sumo e eterno sacerdote (cf. Jo 14, 26; 16, 12-15). São João Crisóstomo observa que o verdadeiro celebrante da divina Liturgia é Cristo: Aquele que celebrou a Eucaristia “naquela ceia, realiza também hoje o mesmo milagre. Nós possuímos a ordem de ministros, mas é Ele que santifica e transforma a oferta”.[17] Portanto, “não se trata de uma imagem ou de uma figura de sacrifício, mas de um sacrifício verdadeiro”.[18]

Deus dignou-Se aceitar a imolação do Filho como vítima pelo pecado, e a Igreja reza para que o sacrifício sirva para salvação do mundo. Existe uma identidade plena entre sacrifício e renovação sacramental instituída na Ceia que Cristo mandou celebrar em sua memória como sacrifício de louvor, de acção de graças, de propiciação e expiação.[19] Daí que, graças ao amor sacrifical do Senhor, “a Missa torna presente o sacrifício da Cruz; não é mais um, nem o multiplica”.[20] Portanto, o acto prioritário é o sacrifício; segue-lhe o banquete, onde tomamos em alimento o Cordeiro imolado sobre a Cruz.

O memorial do Mistério Pascal

11. Fazer memória de Cristo significa recordar toda a sua vida, porque na Missa tornam-se presentes, à sua maneira e ao longo do ano, os mistérios da redenção, mas especialmente, segundo São Paulo, a humilhação (cf. Fil 2), o amor supremo que O tornou obediente até à Cruz. Todas as vezes que comemos o seu corpo e bebemos o seu sangue, anunciamos a sua morte, até que Ele venha (cf. 1 Cor 11, 26), bem como a sua ressurreição (cf. Act 2, 32-36; Rom 10, 9; 1 Cor 12, 3; Fil 2, 9-11). Por isso, Ele é o Cordeiro Pascal imolado (cf. 1 Cor 5, 7-8), que está de pé, porque ressuscitou (cf. Ap 5, 6).

A instituição da Eucaristia teve início na última Ceia: as palavras que nela Jesus pronuncia são uma antecipação da sua morte. Mas também esta ficaria vazia, se o seu amor não fosse mais forte do que a morte, para chegar à ressurreição. Eis porque a morte e a ressurreição são chamadas, na tradição cristã, mysterium paschale. Isto significa que a Eucaristia é muito mais do que uma simples ceia; o seu preço foi uma morte, que foi vencida com a ressurreição. Por isso, o lado aberto de Cristo é o lugar originário donde nasce a Igreja e promanam os sacramentos que a edificam, o Baptismo e a Eucaristia, dom e vínculo de caridade (cf. Jo 19, 34). Assim, na Eucaristia adoramos “Aquele que estava morto e que agora vive para sempre” (Ap 1, 18). O Cânone Romano exprime tudo isto logo a seguir à consagração: “Celebrando agora, Senhor, o memorial da bem-aventurada paixão de Jesus Cristo, vosso Filho, nosso Senhor, da sua ressurreição de entre os mortos e da sua gloriosa ascensão aos Céus, nós, vossos servos, com o vosso povo santo, dos próprios bens que nos destes, oferecemos à vossa divina majestade, o sacrifício perfeito, santo e imaculado, o pão santo da vida eterna e o cálice da eterna salvação”.

Durante a ‘ceia mística’,[21] na pessoa de Jesus Cristo coexistem como passado o Antigo Testamento, como presente o Novo Testamento e como futuro a imolação iminente.[22] Com a Eucaristia, entramos num outro tempo; não já sujeito à nossa medição, mas onde o futuro, iluminando o passado, é-nos oferecido como estavelmente presente; por isso, o mistério de Cristo, alfa e ómega, torna-se contemporâneo a todo o homem em todos os tempos.[23] O tempo tornou-se breve (cf. 1 Cor 7, 29); esperamos a ressurreição dos mortos e já vivemos no céu. “Este mistério faz da terra céu”.[24]

A presença permanente do Senhor

12. Em todos os sacramentos, Jesus Cristo actua através de sinais sensíveis que, sem mudarem de natureza, adquirem uma capacidade transitória de santificação. Na Eucaristia, Ele está presente com o seu corpo e sangue, alma e divindade, dando ao homem toda a sua pessoa e a sua vida. No Antigo Testamento, Deus, através dos seus enviados, indica a sua presença na nuvem (shekhinà), no tabernáculo, no templo. Com o Novo Testamento, na plenitude do tempo, vem habitar entre os homens no Verbo feito carne (cf. Jo 1, 14), tornando-Se realmente Emanuel (cf. Mt 1, 23); fala por meio do Filho, seu herdeiro (cf. Heb 1, 1-2).

São Paulo, para fazer compreender o que acontece na comunhão da Eucaristia, afirma: “Aquele que se une ao Senhor constitui com Ele um só espírito” (1 Cor 6, 17), numa nova vida que promana do Espírito Santo. Santo Agostinho compreendeu-o em profundidade, mas, já antes dele, Santo Inácio de Antioquia e, depois, os monges e muitos místicos e teólogos. A Divina Liturgia é esta presença de Cristo “que reúne (ekklesiázon) todas as criaturas”;[25] convoca-as à volta do santo altar e “providencialmente as une, tanto a Si mesmo como entre si”.[26] Diz São João Crisóstomo: “Quando estás para abeirar-te da sagrada mesa, acredita que nela está presente o Senhor de todos”.[27] Por isso, a adoração é inseparável da Comunhão.

Grande é o mistério da presença real de Jesus Cristo![28] Para o Vaticano II, tem o mesmo sentido da definição de Trento: com a transubstanciação, o Senhor torna-Se presente no seu corpo e sangue.[29] O Padres Orientais falam de metabolismo[30] do pão e do vinho em corpo e sangue. São dois modos significativos de conjugar razão e mistério, porque, como afirmou Paulo VI, a presença eucarística “constitui, no seu género, o maior dos milagres”.[31]

Capítulo II

A Eucaristia: um dom à Igreja a descobrir constantemente

Os Padres e Doutores da Igreja

13. Da última Ceia, a Igreja passou à Eucaristia, nome que preferiu entre os restantes – Ceia do Senhor, Fracção do pão, Santo Sacrifício e oblação, Assembleia eucarística, Santa Missa, Ceia mística, Santa e Divina Liturgia –,[32] para indicar que ela é sobretudo um dar graças (do grego eucharisteín). Isto explica o facto de a Eucaristia começar a ser celebrada na manhã do Domingo para os baptizados, dela excluindo os catecúmenos e os penitentes. O esquema celebrativo já parece vir delineado no Evangelho de São Lucas (cf. 24, 25-31): em Emaús, ao anoitecer do dia de Páscoa, o Senhor ressuscitado aparece aos discípulos, que O escutam cada vez mais profundamente, até reconhecê-l’O na acção de graças e na fracção do pão. Na Traditio Apostolica, a Eucaristia é revelação do Pai no mistério do seu Filho que redime o homem e é, ao mesmo tempo, agradecimento da Igreja por essa redenção salvífica.[33] Neste texto, considerado um dos mais antigos testemunhos depois da Idade Apostólica, repetidamente se faz menção da Igreja, para sublinhar o laço indissolúvel desta com a Eucaristia; e depois da consagração invoca-se a presença do Espírito Santo, que torna a Igreja digna de realizar a oferta.

O empenho de participar na Eucaristia para reforçar a concórdia na fé e superar, assim, as divisões provocadas por Satanás; de vivê-la na unidade, porque uma é a carne e o sangue do Senhor, um o altar e o bispo; de ver nela a carne de Jesus Cristo, que sofreu pelos pecados e ressuscitou, é testemunhado por Santo Inácio de Antioquia.[34] A Eucaristia é alimento espiritual para a vida eterna, sacrifício universal preanunciado pelo profeta Malaquias, fonte da verdadeira paz.[35] É célebre a descrição que São Justino faz da Eucaristia dominical, dia em que se deu a criação do mundo e a ressurreição de Jesus Cristo.[36] Santo Ireneu recorre à Eucaristia para afirmar a realidade da encarnação, contra o gnosticismo; sublinha diversas vezes a presença real de Cristo no corpo e no sangue e a necessidade de dele se alimentar para que o nosso corpo ressuscite.[37] Também São Cipriano insiste na identidade do pão e do vinho com o corpo e o sangue de Cristo e nos dois efeitos da Comunhão: a força dos mártires e a unidade dos cristãos.[38]

14. Com o aval oficial da Igreja, teve início a primeira reflexão teológica que determiná a futura doutrina eucarística da presença de Cristo, do modo como esta se realiza e da dimensão sacrificial, como o testemunham as catequeses dos Padres para o antes, o durante e o depois da iniciação cristã. São Gregório de Nissa, por exemplo, defende que, com a Comunhão eucarística, se adere ao corpo de Cristo, enquanto que com a fé se adere à sua alma[39] e se recebe a imortalidade. Também São Cirilo de Jerusalém, refazendo-se a São Pedro, recorda que, com a Eucaristia, nos tornamos participantes da natureza divina.[40] São João Crisóstomo vê a Eucaristia no contexto da iniciação baptismal, como alimento da vida recebida e sua ajuda na luta contra Satanás. Particularmente eficaz para a tensão escatólogica é esta sua explicação: “Quando vês o Senhor imolado e prostrado, e o sacerdote que preside ao sacrifício e que reza, e todos tingidos de vermelho daquele sangue precioso, julgas encontrares-te ainda entre os homens e estares ainda sobre a terra? Ou não te sentirás imediatamente arrebatado aos céus, contemplando, com o espírito livre de todo o pensamento carnal, com a alma nua e a mente pura, as realidades celestes?”.[41]

O realismo eucarístico, juntamente com a força santificadora da paixão e ressurreição de Jesus Cristo, bem como a epiclese que leva à unidade de todos os que fazem a Comunhão eucarística, caracterizam a reflexão doutrinal e ritual de Teodoro de Mopsuéstia;[42] também para ele, a vida baptismal se alimenta da Eucaristia. Com Santo Ambrósio, a Eucaristia é situada entre a economia do Antigo Testamento e a escatologia;[43] além disso, as palavras de Jesus pronunciadas pelo sacerdote, com as quais Ele oferece e é oferecido ao Pai, comprovam a sua presença real. Em vários Padres já se encontra o início da reflexão sobre a transformação da substância do pão e do vinho. Em Santo Agostinho e relativamente à Eucaristia, prevalecem as reflexões sobre o seu realismo e os seus símbolos,[44] sobre o seu nexo com a Igreja-corpo (Christus Totus)[45] e sobre a qualidade sacrifical do Sacramento.[46]

15. A Eucaristia é o sacramento da presença de Cristo. É isso, diz São Tomás de Aquino, que o distingue dos outros sacramentos.[47] O termo repræsentare, que ele emprega, está a indicar que a Eucaristia não é uma devota recordação, mas a presença efectiva e eficaz do Senhor morto e ressuscitado, que quer atingir todos os homens.[48] O significado do Sacramento é tríplice: “O primeiro diz respeito ao passado, enquanto comemora a paixão do Senhor, que foi um verdadeiro sacrifício [...] Por isso, é chamado sacrifício. O segundo [...] diz respeito ao efeito presente, ou seja, à unidade da Igreja, em que os homens são reunidos por meio deste Sacramento [...] O terceiro significado diz respeito ao futuro: pois este Sacramento é prefigurativo da bem-aventurança divina, que se realizará na pátria”.[49] No Ofício do Corpus Domini, São Tomás deixou-nos a célebre antífona que liricamente repropõe esse significado: “O Sacrum Convivium, in quo Christus sumitur, recolitur memoria passionis eius, mens impletur gratia et futuræ gloriæ nobis pignus datur.

Também São Boaventura contribuíu para a teologia da Eucaristia, insistindo no espírito de piedade necessário para comungar Cristo. Recorda-nos ele que, na Eucaristia, além das palavras da última Cena, realiza-se a promessa do Senhor: “Eu estou convosco todos os dias até ao fim do mundo” (Mt 28, 20).[50] No Sacramento, Ele está real e verdadeiramente presente na Igreja.

O sacramento da unidade e santidade da Igreja

16. A Eucaristia exprime também a natureza da Igreja una, santa, católica e apostólica, tanto a nível local como universal. A recente Encíclica de João Paulo II, Ecclesia de Eucharistia, constitui um acto de Magistério iluminante para a compreensão da relação entre a Eucaristia e a Igreja. A grandeza e beleza da Igreja Católica estão precisamente no facto de esta não ficar parada numa determinada época ou milénio, mas crescer, amadurecer, penetrar mais profundamente no mistério, propô-lo nas verdades que se devem crer e nas liturgias que se devem celebrar. Até nisto se vê que, nela, continua a existir a única Igreja de Cristo.

Santo Agostinho explicava assim a Eucaristia aos neófitos na noite de Páscoa: “Deveis ser esclarecidos sobre o que recebestes. Ouvi portanto brevemente o que diz o Apóstolo ou, melhor, Cristo por meio do Apóstolo, sobre o sacramento do corpo do Senhor: ‘Um só é o pão, e nós formamos um só corpo, embora sejamos muitos’. Está tudo aí; disse-vo-lo brevemente; não conteis porém as palavras, pesai-as!”.[51] Na citada frase do Apóstolo está, segundo o santo bispo de Hipona, a síntese do mistério que os neófitos recebem.

Só que, já desde as origens da Igreja, é possível constatar uma resistência a essa realidade, por parte dos que preferem fechar-se no seu grupo (cf. 1 Cor 11, 17-22). E dizer que a Eucaristia, pelo seu efeito unificador,[52] tem a permanente função de reunir, superar barreiras, levar os homens a uma nova unidade no Senhor. A Eucaristia é o sacramento, com o qual Cristo nos une a Si num só corpo e faz santa a Igreja.

A apostolicidade da Eucaristia

17. O Senhor deixou aos Apóstolos os sacramentos. Assim, a Igreja recebeu-os, e há dois mil anos que os transmite com a mesma fé apostólica. É desde o dia da Ascensão que a Igreja mantém os olhos fixos no Senhor que disse: “Ninguém subiu ao céu senão Aquele que desceu do céu” (Jo 3, 13). Cristo ressuscitado subiu ao céu com o seu corpo de carne e glorioso, mas permanece na terra no seu corpo místico, que é a Igreja, nos seus membros (cf. 1 Cor 12, 5) e nos sacramentos, de modo especial na Eucaristia. Ele mesmo já o havia preanunciado: “Se Eu não for, o Paráclito não virá a vós” (Jo 16, 7); esse Paráclito que tornara possível o Corpus Verum na Encarnação e dá vida ao Corpus Mysticum da Igreja.

A apostolicidade da Eucaristia e da Igreja não é uma referência meramente histórica, mas a manifestação permanente de que Cristo é contemporâneo a cada homem e em cada tempo,[53] e diz respeito ao nosso mistério de comunhão eclesial. A Encíclica Ecclesia de Eucharistia traz a incisiva afirmação de Santo Agostinho: “é o vosso sacramento que recebeis”.[54] Esta presença, consequência da encarnação, é portanto o mistério da fé. Nele, também se revela o mistério da Igreja, que na celebração eucarística se enche de maravilha[55] e é levada à contemplação: Ave, verum Corpus natum de Maria Virgine.

18. O Concílio Vaticano II afirmou que, através da obra da redenção presente no Sacramento do altar, a Igreja cresce.[56] Paulo VI observa que no Missal Romano encontram-se a prova da tradição ininterrupta da Igreja romana e “a teologia do mistério eucarístico”.[57] João Paulo II, após ter acenado ao laço inseparável entre a Eucaristia e a Igreja com a conhecida frase ‘a Eucaristia faz a Igreja e a Igreja faz a Eucaristia’, afirma que deve aplicar-se à Eucaristia o que, no Símbolo niceno-costantinopolitano, se professa sobre a Igreja una, santa, católica e apostolica e, em primeiro lugar, a apostolicidade,[58] não porque não venha de Cristo [...] mas “porque é celebrada de acordo com a fé dos Apóstolos”.[59] Além disso, “para suceder aos Apóstolos na missão pastoral, é necessário o sacramento da Ordem”.[60] Assim vivida, a nota apostólica da Igreja é intrínseca à comunhão profunda do corpo místico e é causa de transformação interior. Assim se compreende melhor o facto de a Eucaristia ser ‘dom e mistério’, “que supera radicalmente o poder da assembleia”;[61] não é a comunidade que o dá a si mesma a partir de dentro, mas a comunidade recebe-o do alto. Põe-no bem em evidência o facto da ordenação do ministro que a Igreja dá a uma comunidade local, para que ele possa celebrar.

Por conseguinte, “não se deve esquecer que, se a Igreja faz a Eucaristia, a Eucaristia faz a Igreja, a ponto de isso se tornar critério de confirmação, até de uma correcta doutrina”.[62] Também por isso, a Eucaristia é um dom que se deve descobrir pessoalmente como comunhão com Cristo, profundidade do mistério e verdade existencial.

A catolicidade da Eucaristia

19. Não menos importante é a catolicidade da Eucaristia, ou seja, a sua relação com a Igreja universal e local. A Comunhão, que “não foi sem razão que [...] se tornou um dos nomes específicos deste Sacramento excelso”,[63] indica também a natureza da Igreja. Se é verdade que a Igreja “vive e cresce continuamente”[64] da Eucaristia e nela se exprime, a sua celebração, todavia, “não pode ser o ponto de partida da comunhão eclesial, cuja existência pressupõe, visando a sua consolidação e perfeição”.[65] O Concílio Vaticano II lembra que a comunhão católica se exprime nos ‘vínculos’ da profissão de fé, da doutrina dos Apóstolos, dos sacramentos e da ordem hierárquica.[66] Exige, portanto “um contexto de integridade dos laços, mesmo externos, de comunhão”,[67] de modo especial o Baptismo e a Ordem. A Eucaristia como sacramento encontra-se entre esses vínculos necessários, mas, para ela ser visivelmente católica, deve ser celebrada una cum Papa et Episcopo, princípios de unidade visível universal e particular. É uma “exigência intrínseca da celebração do sacrifício eucarístico”, que “em virtude do carácter próprio da comunhão eclesial, [...] embora se celebre sempre numa comunidade particular, nunca é uma celebração apenas dessa comunidade, [...] mas é imagem e verdadeira presença da Igreja una, santa, católica e apostólica”.[68]

20. Nos primeiros séculos de difusão do Cristianismo, dava-se a máxima importância ao facto de em cada cidade existir um só bispo e um só altar, como expressão da unidade do único Senhor. Cristo dá-Se na Eucaristia todo inteiro e em todo o lugar e, por isso, em toda a parte onde for celebrada, ela torna presente plenamente o mistério de Cristo e da Igreja. De facto, Cristo, que forma em todo o lugar um único corpo com a Igreja, não pode ser recebido na discórdia. Precisamente porque Cristo é inseparado e inseparável dos seus membros, a Eucaristia só tem sentido, se celebrada com toda a Igreja.

Paulo VI, na Constitução apostólica Missale Romanum de 1969, exprimia o desejo que o Missal, renovado por disposição do Vaticano II, fosse acolhido como meio de testemunhar e afirmar a unidade de todos, e de exprimir, na variedade das línguas, ‘uma única e idêntica oração’. É aí que se encontra o sentido da observância das normas litúrgicas e canónicas relativas à Eucaristia. A Igreja, quando dá normas sobre a Eucaristia, considera dirigida a si própria a ordem que Jesus deu aos Apóstolos de prepararem a Páscoa (cf. Lc 22, 12).

Por conseguinte, “a relação íntima entre os elementos invisíveis e os elementos visíveis da comunhão eclesial é constitutiva da Igreja enquanto sacramento de salvação. Somente neste contexto, têm lugar a celebração legítima da Eucaristia e a autêntica participação nela. Daí que seja uma exigência intrínseca da Eucaristia o ser celebrada na comunhão e, concretamente, na integridade dos seus vínculos”.[69]


Capítulo III

A Eucaristia: mistério de fé proclamado

O Magistério da Igreja Católica

21. A tradição apostólica e patrística do Oriente e do Ocidente é a fonte primária a que recorreu o Magistério conciliar e pontifício da Igreja Católica para determinar a correcta fé na Eucaristia e responder aos desvios doutrinais e pastorais que sucessivamente foram aparecendo.

De modo especial o Concílio de Trento definiu em três decretos a doutrina eucarística depois da Reforma protestante, particularmente preocupado com a presença verdadeira, real e substancial do Senhor Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, sob as espécies do pão e do vinho. Afirmou, do mesmo modo, que o corpo do Senhor está presente não só no pão, mas também no vinho, e que o seu sangue está presente não só no vinho, mas também no pão. Precisou igualmente que, em ambas as espécies, o Senhor Jesus Cristo está presente também com a sua alma e com a sua divindade. Portanto, Cristo, Verbo do Pai, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, está presente todo inteiro sob as duas espécies e em cada parte delas.[70] O mesmo Concílio definiu ainda a transubstanciação,[71] a maneira de receber a Comunhão[72] e a relação entre o sacrifício incruento da Missa e o cruento da cruz.[73] E afirmou ser delituoso e indigno entender de modo figurado, tipológico e metafórico as palavras da instituição e a ordem de fazer dela memória.[74] Afirmou, enfim, que a instituição do sacrifício eucarístico torna presente o sacerdócio de Cristo, e que a força redentora da cruz obtém para os homens o perdão dos pecados, tanto para os vivos como para os defuntos.[75]

A natureza sacrificial da Missa, aprofundada pela Mediator Dei de Pio XII,[76] é reafirmada pelo Vaticano II: Cristo é o único sacerdote; os ministros operam em seu nome, representam o único sacrifício do Novo Testamento que regenera constantemente a Igreja à espera da sua vinda;[77] validamente ordenados,[78] actuam in persona Christi.[79]

A natureza da Eucaristia

22. O Vaticano II, partindo da doutrina tridentina sobre a Eucaristia, esclarece os diversos modos da presença de Cristo, ao mesmo tempo que ilustra, e de modo específico, as diversas características da presença eucarística.[80] Assim, a obra da redenção, realizada uma vez para sempre por Jesus Cristo, continua a aplicar os seus efeitos todas as vezes que, sobre o altar, se faz memória do sacrifício da cruz, no qual Cristo, nossa Páscoa, foi imolado.[81] Quanto aos efeitos sacramentais, a Eucaristia completa a edificação da Igreja, corpo de Cristo, e fá-la crescer;[82] tem portanto efeitos salvíficos sobre os membros da Igreja, conferindo-lhes a graça da unidade e da caridade, uma vez que é alimento espiritual da alma, antídoto para o pecado, início da glória futura e fonte de santidade.

Paulo VI reafirmou na Encíclica Mysterium fidei que a Missa é sempre acção de Cristo e da Igreja, mesmo se excepcionalmente celebrada em privado, ou seja, apenas pelo sacerdote. Cristo não está presente na Eucaristia de modo espiritual ou simbólico, mas está realmente presente nela, que é fonte da unidade da Igreja, seu corpo.[83] Segundo a fé que a Igreja desde sempre professou, a Eucaristia, diferentemente dos outros sacramentos, é “a carne do nosso salvador Jesus Cristo, que padeceu pelos nossos pecados e que o Pai por sua benignidade ressuscitou”.[84] Quanto à transubstanciação das espécies, quer na Encíclica, quer na Profissão de Fé, Paulo VI reafirma o nexo causal da mesma com a presença: Cristo torna-Se presente na Eucaristia por uma mudança de toda a substância das duas espécies.[85]

O ensinamento de Paulo VI enriquece o tema da transubstanciação, ao declarar que, após essa mudança substancial, as duas espécies “adquirem um novo significado e uma nova finalidade, enquanto contêm uma nova realidade, justamente chamada ontológica”.[86]

A Eucaristia e a encarnação do Verbo

23. Jesus é o Filho de Deus corporalmente presente entre os homens. Não foi apenas afirmado por Ele; foi também testemunhado pelo Espírito juntamente com o Pai, sobretudo no Baptismo e na transfiguração. O Senhor garante uma presença quotidiana, “todos os dias até ao fim do mundo” (Mt 28, 20), ao longo das épocas históricas. Essa presença, originada pelo Pai e continuamente a Ele referida, torna-se contemporânea a cada homem e em todos os tempos, graças ao Espírito. A plenitude divina do Verbo da vida encontrava-se na humanidade de Jesus de Nazaré. Depois da sua ascensão (cf. Mc 16, 19-20; Lc 24, 50-53; Act 1, 9-14), fica no mistério da Eucaristia, máximo sacramento da Presença de Deus ao homem. A ascensão, de facto, não significa o desaparecimento de Cristo num céu fechado; a abertura do céu está a significar um modo de voltar: “Precisamente então, [...] o Filho da Homem foi conhecido da maneira mais excelsa e mais santa como Filho de Deus: pois tendo-se retirado para a glória da paterna majestade, passou a estar, de modo inefável, ainda mais presente (præsentior) com a sua divindade, embora mais distante com a sua humanidade [...] Quando subir ao meu Pai, então poderás tocar-me de modo mais perfeito e excelso”.[87] Portanto, com a ascensão, Jesus Cristo não se ausenta do mundo, mas está presente numa nova forma.

Cristo dissera: “Não voltareis a ver-me enquanto não disserdes: Bendito o que vem em nome do Senhor” (Mt 23, 39). O cálice da bênção passou para as mãos dos Apóstolos, depois de o Senhor ter voltado ressuscitado para o meio deles. A partir de então, a Igreja, quando se reúne, aclama-O sempre bendito, e na Liturgia, depois do tríplice Santo, acrescenta Bendito o que vem em nome do Senhor.

24. A fé cristã, por conseguinte, não consiste apenas em acreditar na existência de Deus ou da pessoa histórica de Jesus, mas também no facto de que, n’Este, o Verbo de Deus se fez carne e continua a habitar entre nós: no princípio da sua vida terrena, com um corpo mortal dotado de propriedades ligadas ao espaço e ao tempo; depois, com um corpo ressuscitado, já não vinculado às mesmas. De facto, o Ressuscitado entra com as portas fechadas, supera num instante distâncias relevantes, para Se fazer reconhecer, ouvir, ver e tocar pelos seus. A partir da ressurreição e da ascensão, a sua presença é uma realidade nova.

Este método de Deus, que atravessa a história atingindo todo o homem, parece vir insinuado na primeira Carta de São João: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e as nossas mãos tocaram acerca do Verbo da vida, [...] nós vos anunciamos, para que estejais também em comunhão connosco” (1 Jo 1, 1-3). E Santo Ambrósio comenta: “provemos a verdade do mistério com o próprio mistério da encarnação. Será que foi respeitado o curso normal da natureza, quando o Senhor Jesus nasceu de Maria? [...] Pois bem, o que reapresentamos é o corpo nascido da Virgem [...] É a verdadeira carne de Cristo, que foi crucificada e foi sepultada. É, portanto, verdadeiramente o sacramento da sua carne”.[88]

Por isso, a verdade e realidade da encarnação do Verbo é o fundamento do Corpo eucarístico e do Corpo eclesial,[89] da doutrina eucarística e da teologia sacramentária. Santo Hilário afirmava que “como é verdade que o Verbo se fez carne (cf Jo 1, 14), também é verdade que, com o alimento eucarístico, recebemos o Verbo feito carne”.[90] Assim, como João Paulo II bem o recorda, “a Eucaristia, ao mesmo tempo que evoca a paixão e a ressurreição, coloca-se no prolongamento da encarnação. E Maria, na anunciação, concebeu o Filho divino também na realidade física do corpo e do sangue, em certa medida antecipando n’Ela o que se realiza sacramentalmente em cada crente, quando recebe, no sinal do pão e do vinho, o corpo e o sangue do Senhor”.[91]

Luzes e sombras na compreensão do Dom

25. O Magistério do Papa e dos Bispos, depois do Concílio Vaticano II, interveio pontualmente para encorajar a aplicação da reforma litúrgica e avaliar os seus sucessos. Na Encíclica Ecclesia de Eucharistia, João Paulo II, após ter incluído entre as luzes sobretudo a participação dos fiéis na Liturgia, “com profunda dor” indica também as sombras: nalguns lugares, o descrédito do culto da adoração eucarística e os abusos, “que contribuem para obscurecer a recta fé e a doutrina católica acerca deste admirável Sacramento”.[92] Há que distinguir entre a luz da Eucaristia como sacramento e as sombras, que são invés obra humana. Por exemplo, na catequese e na praxe eucarísticas notam-