CONSTITUIÇÃO
APOSTÓLICA
COM
A QUAL É CONVOCADO
O CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II
joão bispo
servo dos servos de deus
para memória perpétua
Introdução
O divino Redentor Jesus Cristo que, antes de subir ao
céu, dera aos Apóstolos o mandato de pregar o Evangelho a todos os povos, para
sustento e garantia da sua missão, fez-lhes a consoladora promessa: “Eis que
estarei convosco todos os dias até ao fim dos séculos” (Mt 28,20).
Esta divina presença, em todo tempo viva e operante
na Igreja, é sentida sobretudo nos períodos mais graves da humanidade. Então a
esposa de Cristo se mostra em todo o seu esplendor de mestra da verdade e
medianeira de salvação, e exerce também todo o poder da caridade, da oração, do
sacrifício e do sofrimento: meios espirituais invencíveis, usados por seu
divino Fundador que, em hora solene de sua vida, declarou: “Tende confiança: eu
venci o mundo” (Jo 16,33).
Constatações dolorosas
A Igreja assiste, hoje, a uma crise que aflige
gravemente a sociedade humana. Enquanto a humanidade está para entrar num tempo
novo, obrigações de gravidade e amplitude imensas pesam sobre a Igreja, como
nas épocas mais trágicas da sua história. Trata-se, na verdade, de pôr em
contato o mundo moderno com as energias vivificadoras e perenes do Evangelho:
mundo que se exalta em suas conquistas no campo da técnica e da ciência, mas
que carrega também as conseqüências de uma ordem temporal que alguns quiseram
reorganizar prescindindo de Deus. Por isso, a sociedade moderna caracteriza-se
por um grande progresso material ao qual não corresponde igual progresso no
campo moral. Daí, o anseio enfraquecido pelos valores do espírito. Daí o
impulso para a procura quase exclusiva dos gozos terrenos, que o avanço da
técnica põe, com tanta facilidade, ao alcance de todos. E daí também, um fato
inteiramente novo e desconcertante: a existência do ateísmo militante, operando
em plano mundial.
Motivos de confiança
Estas dolorosas constatações chamam a atenção sobre o
dever da vigilância e mantêm desperto o sentido da responsabilidade. Almas sem
confiança vêem apenas trevas acinzentando a face da terra. Nós, porém,
preferimos reafirmar toda a confiança em nosso Salvador, que não se afastou do
mundo, por ele remido. Mais ainda: apropriando-nos da recomendação de Jesus, de
saber distinguir “os sinais dos tempos” (Mt 16,3), parece-nos vislumbrar, no
meio de tantas trevas, não poucos indícios que dão sólida esperança de tempos
melhores à sorte da Igreja e da humanidade. Pois mesmo as guerras sangrentas
que se sucederam em nossos tempos, as ruínas espirituais causadas por tantas
ideologias e os frutos de experiências tão amargas não se deram sem deixar
úteis ensinamentos. O próprio progresso científico, que deu ao homem a
possibilidade de criar instrumentos catastróficos para a sua destruição,
suscitou interrogações angustiosas; obrigou os seres humanos a tornarem-se
ponderados, mais conscientes dos próprios limites, desejosos de paz, atentos à
importância dos valores espirituais; e acelerou o processo de mais estreita
colaboração e de mútua integração entre os indivíduos, classes e nações, para o
qual, embora entre mil incertezas, parece já encaminhada a família humana. Tudo
isto facilita, sem dúvida, o apostolado da Igreja, pois muitos que antes não
perce-biam a importância da sua missão, hoje, ensinados pela experiência, estão
mais dispostos a acolher as suas advertências.
Vitalidade atual da Igreja
Mais, se voltarmos a atenção para a Igreja, vemos que
ela não permaneceu espectadora inerte diante desses acontecimentos, mas seguiu,
passo a passo, a evolução dos povos, o progresso científico, as revoluções
sociais; posicionou-se, decididamente, contra as ideologias materialistas e
negadoras da fé; viu, enfim, brotar e desprender-se de seu seio imensas
energias de apostolado, de oração, de ação em todos os campos, por parte,
primeiramente, de clero sempre mais à altura da sua missão pela doutrina e
virtude e, depois, por parte do laicado, que se tornou sempre mais consciente
das suas responsabilidades no seio da Igreja e, de modo especial, do seu dever
de colaborar com a hierarquia eclesiástica. A isto se acrescentam os imensos
sofrimentos de cristandades inteiras, motivo pelo qual uma multidão admirável
de Pastores, de sacerdotes e de leigos, marcam a coerência da própria fé,
sofrendo perseguições de toda a espécie e revelando heroísmos certamente não
inferiores ao dos períodos mais gloriosos da Igreja. De tal forma que, se o
mundo aparece profundamente mudado, também a comunidade cristã ficou em grande
parte transformada e renovada; isto é, fortaleceu-se socialmente na unidade,
revigorou-se intelectualmente, purificou-se interiormente, tornando-se apta a
enfrentar todos os combates da fé.
O Concílio Ecumênico Vaticano II
Diante deste duplo espetáculo: um mundo que revela um
grave estado de indigência espiritual, e a Igreja de Cristo, tão vibrante de
vitalidade, nós, desde quando subimos ao supremo Pontificado, não obstante a
nossa indignidade e por desígnio da Providência, sentimos logo o urgente dever
de convocar os nossos filhos para dar à Igreja a possibilidade de colaborar
mais eficazmente na solução dos problemas dos nossos tempos. Por este motivo,
acolhendo como vinda do alto uma voz íntima do nosso espírito, julgamos ter
chegado o tempo de oferecer à Igreja católica e ao mundo o dom de um novo
Concílio Ecumê-nico, em acréscimo e continuação à série dos vinte grandes
Concílios, realizados ao longo dos séculos, como uma verdadeira providência
celeste para o incremento da graça e o progresso cristão. A jubilosa
repercussão que teve o seu anúncio, seguida da participação orante de toda a
Igreja e do fervor, verdadeiramente encorajador, nos trabalhos de preparação,
como também o vivo interesse ou, pelo menos, a atenção respeitosa por parte dos
não-católicos e até dos não-cristãos, demonstraram de maneira muito eloqüente,
como não escapou a ninguém a importância histórica do acontecimento.
O próximo Concílio, portanto, reúne-se, felizmente,
no momento em que a Igreja percebe, de modo mais vivo, o desejo de fortificar a
sua fé e de se olhar na própria e maravilhosa unidade; como, também, percebe
melhor o urgente dever de dar maior eficiência à sua forte vitalidade, e de
promover a santificação de seus membros, a difusão da verdade revelada, a consolidação
das suas estruturas. Será esta uma demonstração da Igreja, sempre viva e sempre
jovem, que sente o ritmo do tempo e que, em cada século, se orna de um novo
esplendor, irradia novas luzes, realiza novas conquistas, permanecendo,
contudo, sempre idêntica a si mesma, fiel à imagem divina impressa na sua face
pelo Esposo que a ama e protege, Jesus Cristo.
Num momento, pois, de generosos e crescentes esforços
que de várias partes são feitos com o fim de reconstituir aquela unidade
visível de todos os cristãos que corresponda aos desejos do divino Redentor, é
muito natural que o próximo Concílio estabeleça as premissas de clareza
doutrinal e de caridade recíproca, que tornarão ainda mais vivo nos irmãos
separados o desejo do auspicioso retorno à unidade e lhe aplainarão o caminho.
Ao mundo, enfim, perplexo, confuso, ansioso sob a
contínua ameaça de novos e assustadores conflitos, o próximo Concílio é chamado
a oferecer uma possibilidade para todos os homens de boa vontade, e de propor
pensamentos e propósitos de paz: paz que pode e deve vir sobretudo das
realidades espirituais e sobrenaturais da inteligência e da consciência humana,
iluminadas e guiadas por Deus, Criador e Redentor da humanidade.
Programa de trabalhos do Concílio
Estes frutos do Concílio, por nós tão esperados e
sobre os quais tão freqüentemente temos falado, supõem um vasto programa de
trabalho, que ora se está preparando. Isto diz respeito aos programas
doutrinais e práticos que mais correspondem às exigências da perfeita
conformidade à doutrina cristã, à edificação e ao serviço do Corpo Místico e da
sua missão sobrenatural, isto é, a Sagrada Escritura, a veneranda Tradição, os
sacramentos, a oração, a disciplina eclesiástica, as atividades caritativas e
assistenciais, o apostolado dos leigos e os horizontes missionários.
Esta ordem sobrenatural deve refletir, porém, toda a
sua eficácia também sobre a outra, a temporal, que, infelizmente, vem a ser
tantas vezes a única que ocupa e preocupa o homem. Também neste campo a Igreja
demonstrou querer ser Mater et Magistra, segundo a expressão do nosso
longínquo e glorioso antecessor Inocêncio III, pronunciada por ocasião do IV
Concílio de Latrão. Embora não tenha finalidade diretamente terrestre, ela não
pode desinteressar-se, no seu caminho, dos problemas e inquietações gerados por
eles. Sabe quanto aproveitam ao bem da alma aqueles meios que são aptos a
tornar mais humana a vida de todos os homens, que devem ser salvos. Sabe que,
vivificando a ordem temporal com a luz de Cristo, revela também os homens a si
mesmos, leva-os, isto é, a descobrir em si mesmos o próprio ser, a própria
dignidade e a própria finalidade. Daí a presença viva da Igreja, estendida,
hoje, de direito e de fato, às organizações internacionais, e daí a elaboração
da sua doutrina social referente à família, à escola, ao trabalho, à sociedade
civil, e a todos os problemas conexos, que elevaram a um altíssimo prestígio o
seu magistério, como a voz mais autorizada, intérprete e propugnadora da ordem
moral, reivindicadora dos direitos e dos deveres de todos os seres humanos e de
todas as comunidades políticas.
Por isso, a influência benéfica das deliberações
conciliares, como vivamente esperamos, deverá impor-se a ponto de revestir de
luz cristã e penetrar de fervorosa energia espiritual não só o íntimo das
almas, mas o conjunto das atividades humanas.
Convocação do Concílio
O primeiro anúncio do Concílio, por nós dado no dia
25 de janeiro de 1959, foi como a pequena semente que lançamos com ânimo e mãos
trêmulas. Amparados pela ajuda celestial, lançamo-nos ao complexo e delicado
trabalho de preparação. Já se passaram quase três anos, em que, dia a dia,
vimos desenvolver-se a pequena semente e tornar-se, com a bênção de Deus, uma
grande árvore. Ao rever o longo e cansativo caminho percorrido, eleva-se da
nossa alma um hino de agradecimento ao Senhor, por ele nos ter sido pródigo em
auxílios, de tal modo que tudo se desenrolou convenientemente, e na harmonia
dos espíritos.
Antes de determinar os assuntos a serem estudados,
com vistas ao futuro Concílio, quisemos conhecer o sábio e ilustrado parecer do
Colégio Cardinalício, do Episcopado de todo o mundo, dos Sagrados Dicastérios
da Cúria Romana, dos Superiores das Ordens e das Congregações Religiosas, das
Universidades e das Faculdades Eclesiásticas. No decorrer de um ano,
terminou-se este ingente trabalho de consultas, de cujo exame brotaram claros
os pontos a serem submetidos a um profundo estudo.
Constituímos, então, os diversos organismos
preparatórios, aos quais confiamos a árdua tarefa de elaborar os esquemas
doutrinais e disciplinares, entre os quais escolheremos os que desejamos
submeter à assembléia conciliar.
Temos, finalmente, a alegria de comunicar que este
imenso trabalho de estudo, ao qual deram sua contribuição valiosa cardeais,
bispos, prelados, teólogos, canonistas, e especialistas de todas as partes do
mundo, está finalmente chegando ao fim.
Confiando, pois, no auxílio do divino Redentor,
princípio e fim de todas as coisas, de sua augusta Mãe e de são José, aos
quais, desde o início, entregamos um tão grande acontecimento, parece-nos
chegada a hora de convocar o Concílio Ecumênico Vaticano II.
Portanto, depois de ouvir o parecer de nossos irmãos
os cardeais da Santa Igreja Romana, com a autoridade de nosso Senhor Jesus
Cristo, dos santos apóstolos Pedro e Paulo e a nossa, anunciamos, estabelecemos
e convocamos para o próximo ano de 1962 o Concílio Ecumênico Geral, que se
celebrará na Basílica Vaticana, nos dias que serão fixados segundo a oportunidade
que a boa Providência nos quiser oferecer.
Queremos, em conseqüência, e ordenamos que a este
Concílio Ecumênico, por nós convocado, venham de toda a parte todos os nossos
diletos filhos cardeais, os veneráveis irmãos patriarcas, primazes, arcebispos
e bispos tanto residenciais como titulares e, além disso, todos os que têm
direito e dever de intervir no Concílio.
Convite à oração
E agora pedimos a cada um dos fiéis e a todo o povo
cristão de continuar na participação, e na oração mais viva, que acompanhe,
vivifique e adorne a preparação próxima do grande acontecimento. Seja esta
oração inspirada pela fé ardente e perseverante; seja acompanhada por aquela
penitência cristã, que a torna mais aceita a Deus e mais eficaz; seja
valorizada pelo esforço de vida cristã, qual penhor antecipado da disposição
decidida de cada fiel em aplicar os ensinamentos e as diretrizes práticas que
emanarem do próprio Concílio.
Ao venerável clero, tanto secular como regular,
espalhado por todo o mundo, a todas as categorias de fiéis dirigimos o nosso
apelo. Mas, de modo especial, confiamos o seu êxito às preces das crianças,
sabendo muito bem quanto é poderosa junto de Deus a voz da inocência; e aos
enfermos e sofredores, porque os seus sofrimentos e a sua vida de imolação, em
virtude da cruz de Cristo, transformam-se e elevam-se em oração, em redenção,
em fonte de vida para a Igreja.
A este coro de orações convidamos também os cristãos
separados da Igreja católica, pois também a eles o Concílio trará frutos.
Sabemos que muitos destes filhos estão ansiosos por um retorno à unidade e à
paz, segundo o ensinamento e a prece de Cristo ao Pai. Sabemos, também, que o
anúncio do Concílio não só foi por eles acolhido com alegria, mas não poucos já
prometeram oferecer as suas orações para seu feliz êxito, e esperam enviar
representantes de suas comunidades para seguirem de perto os trabalhos. Tudo
isto é para nós motivo de grande conforto e esperança, e, precisamente para
favorecer estes contatos, instituímos, com este fim, já há tempo, um secretariado
com esta determinada finalidade.
Repita-se, assim, na família cristã o espetáculo dos
apóstolos reunidos em Jerusalém, depois da ascensão de Jesus aos céus, quando a
Igreja nascente se encontrou toda unida em comunhão de pensamento e de oração com
Pedro e ao redor de Pedro, pastor dos cordeiros e das ovelhas. E digne-se o
divino Espírito ouvir da maneira mais consoladora a oração que todos os dias
sobe de todos os recantos da terra: “Renova em nossos dias como que os
prodígios dum novo Pentecostes, e concede que a Igreja santa, reunida em
unânime e mais intensa oração com Maria, Mãe de Jesus, e guiada por Pedro,
difunda o reino do divino Salvador, que é reino de verdade, de justiça, de amor
e de paz. Assim seja” (AAS 51 [1959], p. 832).
Queremos que a presente Constituição conserve toda a
sua eficácia agora e no futuro; de tal forma que o que por ela foi decretado
seja religiosamente observado por todos aos quais diz respeito, e portanto,
conserve a sua força. Nenhuma prescrição contrária, seja de que gênero for,
poderá opor-se à eficácia desta Constituição, visto que com esta derrogamos de
todas as prescrições de tal gênero. Por isso, se alguém, qualquer que seja a
sua autoridade, conscientemente ou por ignorância, agir contra o que
estabelecemos, declaramos tais atos nulos e sem valor. Além disso, que ninguém
tire ou altere algo destes documentos da nossa vontade ou desta Constituição.
Os exemplares e extratos, impressos ou escritos à mão que trazem o selo de uma
pessoa constituída em dignidade eclesiástica, e são assinados por tabelião,
terão a mesma autoridade deste documento. Se alguém desprezar ou recusar, seja
de que forma for, o que foi decretado, fique ciente de que incorre nas penas
estabelecidas pelo direito aos que não obedecem às ordens dos Sumos Pontífices.
Dado em Roma, junto de São Pedro, aos 25 de
dezembro, festa do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, de 1961, quarto ano
do Nosso Pontificado.
Eu, JOÃO, Bispo da Igreja Católica
(Seguem-se as assinaturas dos Cardeais)